8 de outubro de 2016

Capítulo 1

Kylie Galen estava de pé na varanda do escritório de Shadow Falls, o pânico colocando à prova a sua sanidade. Uma rajada de vento de final de agosto, ainda gelado devido à presença do espírito de seu pai, fez esvoaçar os seus longos cabelos loiros e os espalhou pelo seu rosto. Ela nada fez para afastá-los. Ou para respirar. Só ficou ali, com o ar preso nos pulmões, enquanto olhava através das mechas para as árvores balançando ao sabor da brisa.
Por que a vida tinha que ser tão difícil? A pergunta quicava em sua mente como uma bola de pingue-pongue enlouquecida. Então a resposta surgiu tão rápido quanto a pergunta.
Porque você não é totalmente humana. Nos últimos meses, Kylie tinha se esforçado para identificar o tipo de sangue não humano que corria em suas veias. Agora ela sabia.
De acordo com o seu velho e querido pai, ela era um... camaleão. Um lagarto, como os que ela via tomando sol no seu quintal. Ok, talvez não exatamente como eles, mas bem parecida. Antes ela se preocupava com a possibilidade de ser um vampiro ou um lobisomem, porque seria um pouco difícil se adaptar ao hábito de beber sangue ou se transformar em lobo na lua cheia. Mas isso... isso era... incompreensível! Seu pai tinha de estar errado.
Seu coração batia forte contra o peito, como se quisesse sair pela boca. Ela finalmente respirou. Inspirou o ar, e em seguida expirou. Seus pensamentos se afastaram do problema do lagarto e se desviaram para outras coisas igualmente ruins.
Sério, nos últimos cinco minutos ela tinha sido nocauteada não apenas por uma, ou duas, ou três, mas por quatro revelações absolutamente surpreendentes.
Bem, uma dessas coisas – a confissão de Derek de que ele a amava – não poderia ser considerada totalmente ruim. Mas com certeza também não poderia ser considerada boa. Pelo menos não naquelas circunstâncias. Não quando ela já considerava o relacionamento entre eles coisa do passado. Quando tinha se empenhado durante semanas para se convencer de que eram apenas amigos.
Sua mente fazia malabarismos para pensar nas quatro descobertas ao mesmo tempo. Ela não sabia em qual delas se concentrar primeiro. Ou talvez sua mente, na verdade, soubesse. Eu sou um maldito lagarto!
— Isso é pra valer? — ela perguntou em voz alta. O vento do Texas carregou para longe suas palavras; Kylie esperava que ele as levasse até o seu pai, onde quer que os mortos aguardassem até completar a sua passagem. — Sério, pai? Um lagarto?
Claro que o pai não respondeu. Depois de dois meses falando com espíritos, o dom de ver fantasmas e suas limitações ainda a deixavam exasperada.
— Droga!
Ela deu mais um passo em direção à porta do escritório principal, prestes a descarregar toda a sua frustração em Holiday Brandon, a líder do acampamento, mas então parou. Burnett James, o outro líder do acampamento e um vampiro de toque gelado mas temperamento ardente, estava com Holiday. Como Kylie não conseguia mais ouvi-los discutindo, ela achou que isso significava que poderiam estar fazendo outra coisa. E, sim, por outra coisa, ela queria dizer se pegando, trocando saliva, fazendo a dança da língua. Todas as expressões bizarras que sua amiga Della, uma vampira irreverente e de maus modos, usaria. E citá-las provavelmente significava que Kylie estava de mau humor. Mas ela não tinha direito a um pouco de mau humor depois de tudo o que havia acontecido?
Cerrando os punhos, ela olhou para a porta da frente do escritório. Já tinha interrompido sem querer o primeiro beijo de Burnett e Holiday, e não queria fazer o mesmo com o segundo. Especialmente depois que Burnett ameaçara deixar Shadow Falls. É claro que Holiday poderia fazê-lo mudar de ideia. Ou será que não?
Além disso, talvez ela precisasse se acalmar um pouco. Pensar por um momento antes de correr para Holiday com seus surtos histéricos. Seus pensamentos se desviaram para o seu mais recente fantasma. Como ela poderia ver o fantasma de alguém que ainda estava vivo? Era um truque, certo? Tinha que ser um truque.
Kylie olhou em volta para se certificar de que o fantasma realmente tinha ido embora. O frio havia desaparecido.
Virando-se de costas para a porta, ela desceu correndo os degraus da varanda e contornou a cabana onde ficava o escritório. Começou a correr, querendo experimentar a sensação de liberdade que sentia quando corria realmente rápido, como nenhum ser humano podia correr.
O vento levantava o vestido preto que ela usara no funeral de Ellie e o fazia dançar em torno de suas coxas. Seus pés se moviam com ritmo, sem quase nem sentir falta dos tênis Reebok que ela normalmente usava, mas, quando chegou à borda da floresta, Kylie fez uma parada abrupta – tão abrupta que o salto de seus sapatos deixou sulcos profundos na terra.
Kylie não podia ir para a floresta. Ela não tinha uma sombra, uma companhia obrigatória que a ajudasse a afastar o perverso Mario e seus companheiros, caso estes decidissem atacá-la.
Atacá-la novamente.
Até agora as tentativas do velho para acabar com a vida dela tinham fracassado, mas duas delas tinham resultado na morte de alguém.
A culpa fez latejar o seu peito já apertado. Depois veio o medo. Mario já tinha provado até onde estava disposto a ir para capturá-la, quanto ele era cruel ao tirar a vida do próprio neto bem na frente dela. Como alguém podia ser tão perverso?
Ela olhou para a fileira de árvores e observou enquanto as folhas dançavam com a brisa. Era um cenário completamente normal que devia fazê-la se sentir em paz.
Mas Kylie não sentia paz. O bosque, ou melhor, algo que se escondia dentro dele, a desafiava a encarar o medo e entrar. Provocava-a para que ela avançasse até a espessa fileira de árvores. Confusa com a estranha sensação, Kylie tentou afastá-la, mas o sentimento persistiu, ainda mais intenso.
Ela inspirou o cheiro de mato e, no mesmo instante, soube.
Soube com clareza.
Soube com certeza.
Mario não desistiria. Cedo ou tarde Kylie teria de enfrentar o malfeitor novamente. E não seria um encontro sereno, tranquilo ou pacífico. Apenas um deles sairia vivo.
Você não estará sozinha. As palavras ecoaram dentro dela como se para lhe oferecer um pouco de paz. Mas a paz não veio. As sombras entre as árvores dançavam no chão, convidando-a, chamando-a. Para fazer o que, ela não sabia.
A apreensão oprimiu outra vez o peito de Kylie. Ela cravou os saltos mais profundamente na terra batida. A sola do sapato direito produziu um estalo, um som sinistro que pareceu acentuar o silêncio.
— Merda! — Ela olhou para os próprios pés. O palavrão parecia ter sido arrancado do ar e nada exceto um zumbido sobrenatural permaneceu.
E foi então que ela ouviu.
Alguém com uma respiração áspera. Embora o som fosse apenas um sussurro, ela sabia que havia alguém atrás dela. Bem perto. E como nenhum calafrio de morte a cercava, ela sabia que não se tratava de alguém do mundo dos espíritos.
O barulho voltou. Alguém enchia os pulmões com o ar vivificante. Estranho como ela agora temia os vivos mais do que os mortos.
Seu coração parou abruptamente. Como os sulcos deixados na terra pelos saltos de dez centímetros, seu medo crescente deixou sulcos em sua coragem.
Ela não estava pronta. Se fosse Mario, ela não estava pronta. Independentemente do que precisasse fazer, o plano ou destino que estava fadada a seguir, ela precisava de mais tempo.

6 comentários:

  1. ummm!! ansiosa para ler, espero que ela se se descida logo entre Derek ou Lucas... team Derek!!!!

    ResponderExcluir
  2. Eu gosto dos dois derek e do Team lucas , mais eu to confusa as vezes eu sou team derek e depois team Lucas .

    ResponderExcluir
  3. Não consigo me decidir, amo os dois: Derek e Lucas!
    By: Mayh

    ResponderExcluir
  4. #TeamDerek é só o que eu tenho a dizer!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!