31 de outubro de 2016

Capítulo 1

Attleboro, Massachusetts

Era um dia lindo e ensolarado. Um dia que fazia você se sentir grato por estar vivo.
Pena que Amy Cahill estivesse cercada pelos mortos.
Amy abaixou a cabeça e fechou os olhos com força. Ela tinha apenas dezesseis anos, mas já comparecera a funerais demais. Dissera adeus vezes demais.
Seis meses atrás, ela tinha enterrado sua prima e seu tio, e hoje, uma lápide seria colocada para William James McIntyre, o advogado da família e amigo profundamente amado.
Seu celular tocou em seu bolso. Ela o tirou e leu a mensagem. Era de seu namorado, Jake Rosenbloom. Eram seis horas mais tarde em Roma, onde ele morava. Estava quase anoitecendo lá, e ele estaria guardando seus livros e começando a pensar no jantar.

Sei que o funeral é esta manhã. Eu queria poder estar aí com você. Você está bem?

O dedo de Amy pairava sobre o teclado. Seu olhar vagou pela colina gramada até onde uma lápide cinza polida brilhava ao lado de lápides antigas e tortas, as muitas gerações da família Tolliver que tinham vivido em Attleboro desde antes da Guerra da Independência. Estava muito longe para ela poder ler o nome, mas não precisava vê-lo.
EVAN JOSEPH TOLLIVER
Ela guardou seu celular de volta no bolso. Lágrimas encheram seus olhos. Ela havia colocado um vestido preto e ido ao velório de Evan seis meses atrás. A mãe dele tinha fechado a porta na cara dela. Amy entendera. Afinal, ela se culpava pela morte de Evan tanto quanto a mãe dele a culpava. Se não fosse por Amy, Evan ainda estaria vivo. Ele ainda seria voluntário no abrigo local, ainda seria presidente do clube de informática, ainda implicaria com sua irmã mais nova, ainda estaria na fila para comprar café com creme de avelã e chantilly. Ele estaria vivo sobre a terra, sentindo o vento, apreciando o céu, tendo todos os sentidos alertas para este dia no início da primavera. Em vez disso, ele estava debaixo da terra. Ele fora seu namorado e morrera por ela. E ele nunca soube que ela planejava dispensá-lo por Jake.
Ela nunca estivera em um encontro antes de ter uma queda por Evan. Era simplesmente Amy Cahill, a estudante de jeans e tênis que só tirava A. Nada impressionante, nunca notada. Ela não era o tipo de garota que os meninos percebiam. Então ela notou Evan, e ele a notou.
Ela achou que estava apaixonada. Até que conheceu o intenso e carismático Jake Rosenbloom, e percebeu que ela não tinha ideia do que se apaixonar era realmente.
Se ela apenas pudesse se lembrar da alegria que sentiu quando, pela primeira vez, percebeu que Jake a amava de volta. Agora havia tanta tristeza e culpa em seu coração que ela sentia como se estivesse cercada por neblina.
Ela se levantou de manhã, escovou os dentes, e fez seu plano de aulas. Ela e seu irmão, Dan, agora eram educados em casa por sua antiga au pair, Nellie Gomez, e vários outros tutores. Tinha sido um outono chuvoso e um inverno frio. Os dias se dissolveram em cinzas. Os livros que costumavam confortá-la tinham se desfocado diante de seus olhos. Aulas de italiano, aulas de história, problemas de matemática, ensaios, projetos.
Nos últimos seis meses ela mal saiu de casa, apenas saindo para fazer cross country por longos e duros quilômetros. Durante a noite ela vagava pela casa, repensando todas as decisões que tomou durante a batalha contra a organização criminosa Vesper. Onde errara? Ela deveria ter se recusado a deixar Evan ajudá-los? Deveria ter mandado o Sr. McIntyre voltar para os EUA? Muitas pessoas que ela amava morreram. Ela tinha poder para forçá-los a sair do perigo, mas não o fez.
Por que ela não tinha usado esse poder?
Aos dezesseis anos de idade, Amy era a líder dos Cahill, a família mais poderosa do mundo. Seu ancestral, Gideon Cahill, formulara um soro extraordinário no início do século XVI. Desde aquela época, os cinco clãs da família tinham lutado, espionado, mentido, roubado, traído – tudo por um único propósito. Cada um dos clãs tinha uma parte do soro. Se o soro completo fosse fabricado, tornaria quem o tivesse tomado a pessoa mais poderosa do mundo.
Depois de centenas de anos, Amy e Dan foram os primeiros a descobrir a fórmula do soro. Mas eles e os outros membros mais jovens da família Cahill tinham percebido, finalmente, que o soro era perigoso demais para sequer pensar em produzi-lo. Agora, a fórmula – uma lista de trinta e nove ingredientes, a calibração complicada e as quantidades precisas – estava guardada em segurança.
No cérebro brilhante de seu irmão de treze anos.
O olhar de Amy se desviou para o seu irmão de cabelo louro. Era difícil acreditar que o garoto franzino que deslizava secretamente um verme para dentro da bolsa da tia Beatrice poderia ser o garoto mais poderoso do mundo.
Protegê-lo – proteger todos os Cahill – era seu trabalho como líder da família.
Acho que eu não fiz um bom trabalho com você, Mac, Amy murmurou para a urna de mármore, seus olhos se enchendo de lágrimas. Assassinado em um quarto de hotel em Roma.
Ela secou os olhos. Tinha esperado seis meses para enterrar as cinzas do Sr. McIntyre. Ele era sua última amarra à segurança.
McIntyre tinha sido mais do que seu advogado; fora seu melhor e mais confiável conselheiro, e talvez seu melhor amigo.
Agora, aqui estavam eles, as únicas pessoas de luto, exceto pela tia Beatrice, que tinha começado a manhã reclamando que sua rinite estava atacando e que era melhor o agente funerário “começar logo com aquilo”.
A elegante caixa de mármore repousava sobre uma pequena mesa. Ela continha o que restava do Sr. McIntyre. Apenas cinzas. Sua bondade, sua astúcia, a sua inteligência – tudo havia desaparecido do mundo. Agora havia apenas uma caixa.
O agente funerário, a qual Dan ficava chamando pelas costas como “Sr. Morte”, chegara tarde. Nervoso, ele limpou o suor da testa com um lenço. Quando colocou a caixa de mármore sobre a mesa, ele quase a deixou cair.
— É o primeiro funeral dele? — Dan sussurrou.
O padre, alto e musculoso, parecia mais um treinador de futebol. Ele trouxe um buquê de rosas vermelhas murchas. Nem um pouco o estilo do Sr. McIntyre. Amy não sabia se ria ou se chorava. A coisa toda parecia surreal. Ela quase esperava que o Sr. McIntyre saísse de uma comprida limusine preta e dissesse “Primeiro de Abril”.
— Isso é uma desgraça. — Tia Beatrice murmurou. — Apenas três pessoas no enterro!
— Henry Smood está no hospital com apendicite. — Amy disse, referindo-se ao sócio do Sr. McIntyre e seu novo advogado. — Ele ficou muito chateado por não poder vir. E o hospital não quis liberar Fiske.
Tia Beatrice fungou. 
  — Eu estava falando da família — ela disse. — Quando alguém que trabalhava para a família era sepultado, os Cahill apareciam. Mesmo que nos detestássemos, costumávamos saber quão importante eram as aparências.
— Tia Beatrice enterrou o empregado dela? — Dan sussurrou para Amy. — Eu apenas joguei o meu no vaso sanitário e dei descarga.
Amy pisou no pé dele. Seu irmão fazia piadas quando estava nervoso ou com medo. Ela estava acostumada com isso, mas a tia Beatrice não.
— O Sr. McIntyre era família. — Amy respondeu.
— Querida, — Tia Beatrice respondeu, — apenas família é família.
Amy sacudiu a cabeça. Tia Beatrice estava tornando o funeral de difícil em insuportável.
— Os Cahill Templeton sempre usaram os serviços de McIntyre e Smood — Tia Beatrice continuou. — E os Cahill Duhram. E certamente os Starling deviam ter aparecido! Denise Starling usou McIntyre por anos até que decidiu que ele era próximo demais de Grace e lhe enviou aquela carta escrita com tinta venenosa. Mesmo que fosse veneno de verdade, ela deveria ter deixado o passado no passado. E Debra usou-o para o seu acordo pré-nupcial com aquele homem desagradável com o nome estranho. Ela nunca deveria ter se casado com ele em primeiro lugar...
Tia Beatrice continuou, nomeando Cahill atrás de Cahill de quem Amy e Dan nunca tinham ouvido falar.
— Eles não vieram porque eu não os convidei, tia Beatrice — Amy interrompeu.
— Mas o Sr. McIntyre era o advogado da família! — Tia Beatrice cuspiu. Ela estreitou os olhos redondos para Amy. — Você sequer contou a alguém o que estava fazendo?
— Não. — Amy disse. — Eu não estou interessada na opinião deles. Eu tomei uma decisão. — Tia Beatrice abriu a boca, mas Amy levantou a mão. — E ponto final.
A boca de tia Beatrice fechou e abriu como a de um peixe.
— Mandou bem — Dan murmurou.
Amy deu um pequeno sorriso. Às vezes era difícil de ser a líder da família, mas quando era com a tia Beatrice, ela não tinha problema algum.
— Prontos para começar? — o agente funerário sussurrou. Amy o viu espiar o relógio antes de olhar para baixo respeitosamente. Ela quase podia imaginá-lo dizendo: “Cara, vamos botar pra quebrar”.
O padre leu um versículo da Bíblia em uma voz desajeitada. Então fechou o livro e assentiu para Amy.
— Adeus, Sr. McIntyre — Amy falou. — Você era nosso protetor e nosso amigo. O melhor dos melhores. Descanse em paz.
— Adeus, Mac. — Dan disse. — Desculpe pela vez em que coloquei um sapo na sua calça. Obrigado por cuidar da gente.
Tia Beatrice espirrou.
O padre apontou para a pilha de terra da cova aberta. 
— Vocês gostariam de jogar um punhado de terra na sepultura? — ele perguntou.
— Oh, pelo amor de Deus. Eu tenho jardineiros para esse tipo de coisa — Tia Beatrice respondeu. — E tenho hora marcada com o alergista.
Amy se abaixou e jogou terra na sepultura. Dan fez o mesmo. O clérigo lhe entregou as rosas e ela as jogou lá também. Desculpe, Mac, ela disse a ele silenciosamente. Eu sei que você prefere tulipas. Uma memória repentina veio a ela, do Sr. McIntyre no jardim de Grace, em uma camiseta sem mangas, num belo dia de maio, observando um canteiro de tulipas amarelas, dizendo: Agora sim uma flor alegre!
Lágrimas encheram seus olhos. Ela quase pediu a tia Beatrice um lenço de papel, mas ela já tinha se afastado. Seu motorista corria para abrir a porta do carro.
Sr. Morte tinha ido, também – ele estava quase correndo enquanto fazia o seu caminho através das lápides até o seu carro.
Isso é estranho, Amy pensou. Por que o agente funerário foi embora tão rápido? Ele nem se despediu.
O padre se inclinou para pegar a pá. Amy achou que não suportaria ver o túmulo cheio.
Quando ela se virou, algo duro atingiu a parte de trás de sua cabeça. Dor a cegou, e ela se sentiu ser empurrada para a sepultura aberta.

9 comentários:

  1. Já começou a pancadaria hauhauha
    Quero amyan

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    1. Só fazendo macumba, colega

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  2. Putz"Começaram bem hein" 😐

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  3. Creduuu! Mal começou e já tão enterrando gente viva O.o

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  4. Eita eita eitaaa! Eu tambem quero Amyan!!!!!!!!

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  5. Mdss, todo mundo morre, parece game of thrones kkkkkk

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  6. ó, altos -A aí hein?Enterrando gente viva... CeCe Drake, é vc? Ian, cadê tu? Tu não disse que a Amy era adorável? Venha salvar sua princesa adoravel.

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  7. De certa forma o autor trouxe a nossa Amy de volta

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