14 de outubro de 2016

Capítulo 1

Kylie Galen desviou os olhos da sua fatia de pizza de pepperoni sobre o prato de porcelana e tentou ignorar o fantasma que brandia a espada sangrenta bem atrás do seu avô e da sua tia-avó. Os membros recém-descobertos da sua família até que eram... gente boa, mas um pouco certinhos demais. E gente certinha provavelmente não apreciaria um fantasma indesejado manchando de sangue as paredes da sala de jantar.
O espírito, uma mulher de cabelos escuros e soltos, com trinta e poucos anos, conteve o movimento da espada e olhou diretamente para Kylie. Ou você mata ou matam você. É simples assim. As palavras reverberaram na cabeça de Kylie. Elas tinham sido transmitidas telepaticamente e, considerando o tópico discutido, essa provavelmente era a melhor opção.
Não é tão simples assim, Kylie contra-atacou. Estou tentando comer, então você se incomodaria de ir embora?
— Que indelicadeza! — exclamou o fantasma. — Você deveria ajudar os espíritos. Precisa ser fiel às suas próprias regras.
Kylie torceu o guardanapo de pano em seu colo. Será que existe alguma coisa nos manuais que obrigue alguém que se comunica com fantasmas a ser educado com espíritos detestáveis?
Ah, espere aí, ela não tinha uma droga de manual nem instruções a seguir. Estava improvisando.
Improvisando em tudo, na verdade: na comunicação com fantasmas, no fato de ser sobrenatural e de ser a namorada de alguém.
Ex-namorada de alguém!
Ultimamente, ela sentia que estava improvisando toda a sua droga de vida, e fazendo uma confusão danada, também. Como sua decisão de deixar Shadow Falls, o acampamento recentemente transformado em escola para adolescentes paranormais. Na época ela sentiu que era a coisa certa a fazer.
Na época.
Ela estava ali, na morada dos camaleões, havia menos de duas semanas e não tinha mais tanta certeza.
É verdade que tivera uma boa razão para vir – descobrir mais sobre sua herança paranormal. Ter a chance de conhecer o avô, Malcolm Summers, e a tia-avó, Francyne. Meses depois de saber que não era totalmente humana, ela finalmente descobriu que era um camaleão, uma espécie rara que foi obrigada a se esconder depois que uma unidade do governo paranormal, a Unidade de Pesquisa de Fallen, ou UPF, tinha usado alguns dos seus membros como cobaias para tentar explicar suas habilidades. A própria avó de Kylie tinha morrido por causa desses experimentos. E agora o mesmo ramo da UPF queria fazer testes com Kylie. Dava para acreditar que isso estava acontecendo?!
Mas a maior motivação de Kylie para deixar Shadow Falls não tinha nada a ver com a UPF ou com a descoberta da sua herança familiar. Tinha tudo a ver com a sua fuga.
Fuga de Lucas, o lobisomem por quem era apaixonada. O lobisomem que tinha prometido a própria alma a uma garota da própria espécie e esperava que Kylie acreditasse que aquela promessa não significava nada para ele. Como Lucas podia ter feito uma coisa daquelas? Como podia ter beijado Kylie com tanta paixão ao longo de todo o mês anterior e, no entanto, ter-se encontrado com aquela garota toda vez que ia para a casa do pai? Como Kylie podia ficar em Shadow Falls e continuar olhando na cara dele?
O problema era que ela até podia ter conseguido fugir de Lucas, mas não da própria desilusão. E agora não estava sofrendo apenas por causa de um certo lobisomem; estava sofrendo porque... cada célula do seu corpo sentia falta de Shadow Falls. Tudo bem, talvez não tanto de Shadow Falls, mas das pessoas de lá. Os amigos que tinham se tornado sua família: Holiday, a fae líder do acampamento, que era como uma irmã mais velha. Burnett, o vampiro austero, outro líder do acampamento que era ao mesmo tempo um amigo e uma espécie de pai para ela. Suas duas colegas de alojamento, Della e Miranda, que se sentiram abandonadas quando Kylie partiu. E Derek, que tinha declarado seu amor, mesmo sabendo que ela amava Lucas.
Ah, Deus, ela sentia tanta falta de todo mundo! E o mais irônico era que estava só a alguns quilômetros de Shadow Falls, entocada numa região isolada e montanhosa e que poderia muito bem estar do outro lado do mundo.
Claro que ela falava com Holiday todo dia. A princípio o avô tinha recusado esse direito a ela, mas a tia havia insistido para que ele fosse mais razoável. O avô tinha voltado atrás, mas só se ela usasse um certo aparelho telefônico e fosse muito breve, para que os telefonemas não fossem rastreados. E de maneira nenhuma Kylie poderia contar onde estava.
Como o acampamento era filiado à UPF, o avô não confiava em ninguém em Shadow Falls. E essa desconfiança só contribuía para aumentar o seu sentimento de isolamento com relação a todos que amava. Até com relação à mãe, que telefonara para avisar que viajaria para a Inglaterra com John, o seu novo namorado, com quem Kylie não simpatizava nem um pouco. Evidentemente, o avô permitia que ela retornasse a ligação da mãe toda vez que ela ligava. Por isso elas tinham se falado duas vezes. Mas só duas vezes.
As lágrimas provocaram um aperto na garganta de Kylie, mas ela se recusou a chorar. Tinha que ser forte. Já estava bem crescidinha e precisava agir como a adulta que era.
— A pizza está boa? — a tia-avó perguntou.
— Sim, está ótima. — Kylie viu os dois parentes idosos cortarem a pizza de pepperoni como se fosse um bife. Ela sabia que eles tinham servido a pizza apenas por causa dela, pois perguntaram quais eram seus pratos preferidos depois de ver que ela mal tocara em suas refeições nos últimos dias. Sentindo-se obrigada tanto a comer quanto a demonstrar boas maneiras assim como eles, ela se forçou a morder um pedaço de pizza e mastigá-lo.
Ela não era um vampiro agora, portanto devia estar apreciando a comida. Mas não estava.
Nada parecia ter gosto.
Nada parecia certo.
Não parecia certo comer pizza com garfo e faca, num prato de porcelana tão fina que parecia rara e antiga o bastante para estar num museu. Nem se sentar nessa luxuosa mesa de jantar posta com toda a pompa. E, especialmente, não parecia certo ver um espírito se aproximando do avô, segurando uma espada sobre a cabeça dele.
Kylie olhou para o espírito.
Ou você me diz exatamente do que você precisa, sem que isso envolva assassinato, ou é melhor ir embora.
Uma gota de sangue caiu na testa do avô. Não que ele pudesse ver ou sentir. Mas Kylie podia. O espírito fazia aquele showzinho só para chamar a atenção de Kylie.
E estava funcionando.
Pare! Vá embora. Kylie lançou um olhar de advertência para o espírito.
Você está com um péssimo humor, sabia? — disse o fantasma.
Sim, ela estava, Kylie admitiu para si mesma. A desilusão fazia isso com as pessoas. Tirava toda a alegria de viver. Ou talvez o que mais tirasse essa alegria fosse a falta que todo mundo fazia. Não que o tempo passado ali com o avô não tivesse sido proveitoso. Ela descobrira muito sobre si mesma e sobre os camaleões naqueles treze dias.
Os camaleões só tinham aparecido havia algumas centenas de anos. Embora eles se considerassem uma espécie, na verdade eram uma mescla de todos os paranormais – indivíduos dotados do DNA e dos poderes de todas as espécies.
O problema era que aprender a controlar esses poderes era dificílimo. A maioria dos camaleões só conseguia essa proeza com vinte e poucos anos. Não que houvesse muitos jovens camaleões tentando fazer isso. Os camaleões eram raros. Segundo o avô, existia uma centena de comunidades como aquela ao redor do mundo, mas no total havia menos de dez mil membros da sua espécie. E a cada dez casais de camaleões, só um era capaz de gerar uma criança. Por isso a população era tão pequena.
Kylie não podia deixar de perguntar se um dia conseguiria ter filhos. Mas, que droga! Ela só tinha 16 anos, era muito jovem para começar a se preocupar com a possibilidade de não ser fértil.
— Como foram as aulas hoje? — perguntou o avô.
Kylie concentrou a atenção no homem. Aos setenta e poucos anos, seu cabelo ainda era loiro avermelhado, com apenas alguns fios brancos. Seus olhos, de um azul brilhante, eram da mesma cor dos olhos dela e dos do pai.
Outra gota de sangue caiu na bochecha dele. Kylie rosnou para o fantasma risonho, que cortou o ar com a espada, parando a apenas um centímetro da cabeça do ancião.
Eu disse pra parar!,  exclamou Kylie, apertando os olhos.
— Não foi tudo bem? — o avô perguntou, obviamente lendo a expressão facial da neta.
— Não, foi tudo bem, sim. Eu já sou... já fui capaz de mudar meu padrão de lobisomem para fae.
Todos os sobrenaturais tinham padrões que podiam ser vistos pelos outros. Os camaleões tinham o seu próprio padrão, que eles escondiam. E, ao contrário de qualquer outro sobrenatural, podiam assumir o padrão de qualquer espécie e adquirir seus poderes ao se transformar. O problema era que, assim como seus outros poderes, esse não era fácil de controlar. As aulas ali não incluíam inglês, matemática e ciências, mas o treinamento de como controlar seus poderes e esconder seu verdadeiro padrão de todo mundo.
— Isso é ótimo. Então por que a cara feia? — o avô perguntou.
— É que... — Eu estou muito infeliz aqui. Quero voltar para Shadow Falls. As palavras estavam na ponta da língua, mas ela não conseguiu dizê-las. Não diria enquanto não tivesse certeza de que conseguiria voltar. Enquanto não soubesse como conseguiria sobreviver ao olhar para Lucas.
— Eu não estava fazendo cara feia para o senhor. É que...
— Kylie tem companhia — disse Francyne. A tia não podia se comunicar com fantasmas. Ela dizia que não conseguia vê-los ou ouvi-los, mas podia sentir a presença deles sem dificuldade.
O fantasma segurava a espada em riste, apontando-a para o teto como se fosse fazer uma grande declaração.
— Você em breve terá mais companhia.
Kylie não sabia o que aquilo significava, mas agora ela não encarava o fantasma, mas o avô, que a fitava confuso.
— Companhia? — O avô olhou para a tia. — Ah! — Ele ficou tenso. Então arregalou os olhos. — É a minha mulher ou o meu filho, Daniel?
— Não. — Kylie gostaria que fosse Daniel, seu pai, que morrera antes de ela nascer. Ela bem que precisava de um pouco de consolo e seu pai era realmente bom nisso. No entanto, ele já esgotara o seu tempo na Terra.
— Nenhum deles. É... outra pessoa — respondeu Kylie.
Alguém que ainda tinha que explicar o que queria ou precisava. Bem, a não ser pelo fato de que ela já tinha dito que precisava de Kylie para matar alguém. O que o espírito pensava que ela era? Uma assassina de aluguel?
O espírito se curvou para chegar mais perto da orelha do avô de Kylie.
É uma pena que não possa me ver. Você é uma graça. — Ela lambeu o sangue da bochecha dele. Bem devagar. E olhou para Kylie enquanto fazia isso.
Kylie derrubou o garfo.
— Pare de lamber meu avô, agora mesmo!
O espírito voltou a pôr a língua dentro da boca e olhou para Kylie.
Pare de lutar contra o seu destino. Aceite o que tem que fazer. Deixe-me lhe ensinar como deve matá-lo.
— Matar quem? — Kylie deixou escapar, mas em seguida se encolheu ao perceber que estava falando alto.
— Lamber? Matar? O quê? — o avô perguntou.
— Nada — insistiu Kylie. — Eu estava falando...
— Ela estava falando com o espírito, eu presumo — completou a tia, com as sobrancelhas franzidas, demonstrando preocupação.
— Falando sobre matar alguém? — o avô perguntou, olhando diretamente para Kylie.
Quando a neta não respondeu, Malcolm olhou em volta da sala como se estivesse nervoso. Sua expressão de medo lembrava muito a dos outros sobrenaturais de Shadow Falls. Foi nesse momento que um pensamento lhe ocorreu. Kylie tinha vindo por achar que iria se adaptar e, no entanto, mesmo vivendo num complexo de cinquenta acres do Texas com 25 outros camaleões, ainda não conseguira se entrosar. E não era só porque falava com fantasmas, mas porque era muito mais madura do que os outros quatro adolescentes que moravam ali. E eles também não pareciam muito entusiasmados diante de uma novata muito mais precoce do que eles.
Os anciãos do grupo – que incluíam seu avô, sua tia-avó e mais quatro outros – achavam que o desenvolvimento precoce de Kylie devia-se ao fato de ela também ser uma protetora, uma sobrenatural com poderes extraordinários. Embora isso parecesse o máximo, Kylie não concordava com aquela descrição por várias razões.
No topo da lista estava o fato de ela só poder usar esses poderes para proteger os outros, nunca a si mesma, o que para Kylie não fazia o menor sentido. Se ela tinha a incumbência de proteger os outros, não era importante que se mantivesse viva? Quem, afinal, tinha inventado aquela regra?
Kylie soltou um suspiro que, ao escapar dos lábios, denunciou sua tristeza. Será que era sua sina ser uma eterna desgarrada?
O avô se curvou para a frente e apoiou o garfo e a faca de prata sobre o caro prato de porcelana.
— Kylie, eu detesto me intrometer nos seus... assuntos espirituais, mas por que um espírito estaria conversando com você sobre matar alguém?
Kylie mordeu o lábio e tentou encontrar uma maneira de explicar sem assustá-los demais. Especialmente porque aquilo também a deixava apavorada. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi salva por uma campainha. Uma campainha muito alta, mais parecida com uma sirene. As luzes do lustre sobre a mesa começaram a piscar.
O avô, mais carrancudo ainda, tirou o celular do bolso da camisa imaculadamente branca e bem passada, apertou um botão e colocou-o junto à orelha.
— O que é? — Ele fez uma pausa. — Quem? — perguntou com rispidez, desviando os olhos para Kylie. — Já estou indo!
Ele desligou o telefone e se levantou da cadeira, depois olhou para a cunhada.
— Você e Kylie, sumam daqui. Escondam-se no celeiro. Volto logo.
Quando disse “sumam”, Kylie presumiu que ele estivesse se referindo a ficar invisível, outra coisa que os camaleões faziam. Desvanecer-se no ar.
— O que está acontecendo? — Kylie perguntou, lembrando-se de que o fantasma a advertira de que logo ela teria companhia.
— Temos intrusos. — O tom prático e severo do avô se aprofundou ainda mais e ficou mais sério.
— Intrusos? — Kylie perguntou.
Os olhos dele se estreitaram.
— É a UPF! Agora sumam!
A tia contornou a mesa e pegou a mão de Kylie. Então a mulher se desvaneceu no ar e, numa fração de segundo, Kylie olhou para baixo e viu que suas pernas tinham desaparecido.

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