8 de outubro de 2016

Capítulo 19

— A irmã dela está morta? — O tom de voz de Burnett deixou transparecer a sua surpresa. — Como? O que aconteceu?
Kylie se sentiu tocada ao ver que ele tinha pensado primeiro em Holiday, antes de querer entender exatamente o que estava acontecendo. Não que ela não esperasse que ele percebesse o óbvio dali a um minuto.
Ou talvez em menos de um minuto. Os olhos dele se arregalaram de pânico e sua boca se abriu.
— Não! Ela não pode ser... porque eu não posso... — Ele balançou a cabeça. — Não...
— Isso não é muito diferente de farejar um fantasma. E você já sabia que era capaz disso — disse Kylie, esperando diminuir o choque de Burnett.
— Uma ova que não é! É totalmente diferente! — ele esbravejou, passando a mão pelo cabelo. — Como eu poderia... Eu sou um vampiro e nós, vampiros, não... Não vemos espíritos!
— Eu sei. Eu me lembro de Holiday dizendo isso. — Kylie fez uma pausa. — O mais estranho é que você viu, e normalmente só a pessoa que tem alguma ligação com o espírito o vê. Eu não vejo os espíritos que se manifestam para Holiday e ela não vê os meus. Então por que você viu Hannah?
— Eu não deveria vê-los! — ele insistiu. — Sou um vampiro. Muito, mas muito poucos vampiros têm esse poder secundário.
Kylie franziu as sobrancelhas para confirmar o padrão de Burnett.
— Talvez você não seja cem por cento vampiro. Seu tataravô poderia ser um híbrido, e só agora esse dom que herdou dele veio à tona.
Ele passou a mão na própria testa.
— O meu padrão não é totalmente o de um vampiro?
Kylie deu de ombros.
— É — Ela o fitou, solidária. — Mas, considerando tudo o que eu tenho passado, aprendi a não tomar um padrão pelo que ele é no momento.
Burnett olhou para Kylie como se ela tivesse se metamorfoseado em algo ruim.
— Mas isso só acontece com você.
— É, às vezes é o que parece... — Ela achou o comentário um tanto engraçado. Encolheu os ombros de novo, contendo um sorriso, porque não achava que Burnett ia apreciar piadinhas naquele momento. — No entanto — Kylie continuou —, não podemos negar que algo está acontecendo. O seu padrão mostra que você é um vampiro, e vampiros puro-sangue geralmente não se comunicam com fantasmas.
— Talvez seja um castigo por eu ter entrado na cachoeira.
O primeiro impulso de Kylie, sendo ela mesma alguém que se comunicava com fantasmas, foi se sentir um pouco insultada ao ver que seu dom era visto como um castigo; o segundo impulso foi lembrar que, no início, era exatamente assim que ela se sentia. Como se estivesse sento punida.
— O que foi? — ele perguntou, como se percebesse que ela tinha algo a dizer.
Sem saber como escapar da saia-justa, ela disse exatamente o que se passava em sua cabeça.
— Como Holiday sempre diz, isso é um dom, não um castigo.
— É um castigo para mim. Diabos! — ele murmurou.
Kylie ainda não conseguia entender como aquilo tinha acontecido. Afinal, até Holiday tinha explicado que era muito raro um vampiro ser capaz de se comunicar com os mortos.
— Sério, os seus pais são de fato vampiros de sangue puro?
Ele olhou para ela como se a pergunta exigisse alguma reflexão. Depois, desviando os olhos, ele fitou o céu. Depois de vários segundos, voltou a olhar para ela.
— Certo... vamos esquecer a minha dificuldade para aceitar tudo isso. — Ele passou a mão no rosto outra vez como se tentasse dissipar sua confusão. — Por que você não quer que Holiday saiba que a irmã dela está aqui?
Kylie mordeu o lábio inferior, então soltou-o ao sentir dor.
— Eu não acho que Holiday saiba. Primeiro eu quero descobrir exatamente...
— Espere. Você não sabe se Holiday sabe o quê? — ele perguntou, impaciente.
— Que a irmã está morta.
Ele a olhou com assombro.
— Ela não sabe? Ah, merda... — Ele soltou um suspiro. — Como a irmã dela morreu? Há quanto tempo?
Mesmo antes de responder, Kylie suspeitava de qual seria a reação do vampiro. Ele não ia gostar disso.
— Ela foi assassinada. Ela e outras duas garotas.
O descontentamento transpareceu nos olhos de Burnett e sua postura enrijeceu. Ela acertou ao adivinhar a reação dele. E tentou não se deixar intimidar com a sua fúria.
— Assassinada?! — esbravejou. — Há quanto tempo você sabe disso e por que, pelo amor de Deus, você só está me contando agora?
— Eu... eu estou tentando descobrir. Hannah só agora está conseguindo me contar as coisas. E eu ainda estou tentando encaixar as peças. — Uma pequena parte dela estava se perguntando se ele talvez não estivesse certo e ela errada por tentar desvendar o mistério sozinha. Mas na verdade ela não estava tentando fazer tudo sozinha. Ela tinha Derek. Então pensou que talvez devesse ter contado tudo a Burnett, não a Derek.
Suas dúvidas começaram a vir à tona e depois se atenuaram. A calma que irradiara da cachoeira cresceu em seu peito e de algum modo ela soube que tinha acertado ao seguir seus instintos. Não era isso que Holiday sempre lhe dizia para fazer?
— Caramba, Kylie. Você devia ter me procurado para que eu pudesse ajudá-la a descobrir o que aconteceu.
Kylie sustentou o olhar do vampiro.
— Como se você fosse muito receptivo aos meus problemas com fantasmas. Além disso, eu estava fazendo o que a minha intuição dizia que era o melhor.
A postura de Burnett relaxou, como se ele compreendesse os motivos dela.
— Mas se é a respeito de Holiday, eu sempre sou receptivo.
Kylie viu nos olhos dele outra vez a lealdade por Holiday. Porque ele a amava, Kylie percebeu. Essa constatação levou-a a pensar em Derek e na disposição dele em ajudá-la com os fantasmas, quando ninguém mais se dispunha.
O pensamento em Derek levou seu coração de volta a Lucas. O passeio à cachoeira tinha diminuído a animosidade que sentia com relação a ele, mas não completamente. Mais cedo ou mais tarde, os dois teriam que conversar. Ela só não sabia como essa conversa iria terminar. Ou como iria começar. Ela estaria certa de ficar com raiva dele por manter distância se ela sabia a razão que o levava a se comportar assim – evitar conflitos com o pai dele, de modo que ele pudesse receber mais votos para entrar no conselho dos lobisomens? Será que ela não deveria ser mais compreensiva e solidária?
Burnett deu um passo para trás e mexeu o pescoço de um lado para o outro, como se estivesse tentando aliviar a tensão.
— Holiday tem que saber.
Kylie bateu a ponta do tênis na terra e tentou se concentrar no problema que tinha à mão e não nos seus dilemas com relação a Lucas.
— Eu sei. Mas achei que, quando soubesse exatamente o que Hannah quer, seria mais fácil.
— Você acha que ela quer alguma coisa?
Kylie assentiu.
— Eles sempre querem alguma coisa. É por isso que não deixam este mundo. É por isso que nos procuram.
— Procuram você — ele a corrigiu e depois acrescentou: — Você tem alguma ideia do que ela precisa?
Kylie preparou-se para a reação dele novamente.
— Eu não tenho certeza absoluta. A princípio, pensei que fosse apenas ajuda para que ela e as outras fossem retiradas da cova coletiva em que estão. Talvez encontrar quem fez isso com ela. Mas agora... agora eu acho que ela sente que tem que proteger Holiday de alguma coisa... ou de alguém.
A expressão de Burnett ficou mais sombria, mas desta vez sua angústia não era dirigida a Kylie. Seus olhos brilharam com a necessidade instintiva de proteger Holiday.
— Antes que você pergunte, eu não sei quem ou exatamente o que representa perigo para Holiday. — Kylie suspeitava que tinha algo a ver com o homem chamado Blake, mas não tinha certeza se deveria dizer isso a Burnett. Da última vez em que ela deu ao vampiro uma informação pessoal sobre Holiday, a amiga tinha ficado furiosa. Se Kylie descobrisse que Blake era uma ameaça, então contaria tudo a Burnett. Mas ela precisava de mais informações. Informações que nem Holiday nem Hannah pareciam dispostas a dar.
Ele fez um gesto com as mãos, expressando frustração.
— Então vá atrás de Hannah e diga que você precisa de respostas.
— Não é assim que funciona. Não somos nós que procuramos os espíritos. São eles que veem até nós.
Ele franziu o cenho.
— Não gosto nada disso. Nem um pouco.
Nesse ponto, Kylie poderia concordar com ele.
Ele ficou de pé ali, olhando para as árvores como se as respostas estivessem entre os galhos. Ela tinha o palpite de que ele não estava acostumado a não receber informações quando exigia. Se ele realmente se comunicasse com fantasmas, teria que aprender a ter paciência. Ela tinha dó do pobre fantasma que lhe aparecesse primeiro.
Burnett finalmente olhou para ela.
— Tudo bem, me diga tudo o que você sabe. Tudo mesmo. Vamos desvendar esse mistério.
Mesmo antes de Kylie começar a falar, ela já pressentia que Burnett mudaria o jogo; só não sabia se isso era bom... ou ruim.


Naquela tarde, Kylie estava de pé diante da geladeira aberta, olhando ali para dentro. Estava ouvindo o zumbido do eletrodoméstico e apreciando o ar frio que sentia em seu rosto, enquanto Miranda e Della conversavam sentadas à mesa atrás dela.
Era incrível como um friozinho caía bem quando não era sinal da presença dos mortos. Não que ela não quisesse que Hannah aparecesse para uma visitinha agora. Ela realmente precisava de respostas. Mas, se tinha aprendido uma coisa, era que não podia apressar os fantasmas.
Kylie tinha conseguido, não sabia como, convencer Burnett a dar um pouco mais de tempo a Hannah, antes de partir o coração de Holiday, dizendo-lhe que a irmã estava morta. Por alguma razão desconhecida, Kylie sentia que era importante saber exatamente do que Hannah precisava. Não que Kylie não se preocupasse com a possibilidade de que seu próprio desejo de adiar o máximo possível a má notícia a tivesse levado a tomar essa decisão.
Burnett também concordara que ir à lanchonete para verificar se eles tinham informações sobre Cara M. poderia ser uma boa ideia. Ele estava planejando para que fossem no sábado pela manhã, com Derek. Burnett queria que Derek fosse porque, quando Kylie contou o que o fae tinha descoberto até o momento, ele ficara impressionado com a sagacidade do garoto para investigar os fatos.
Ela não estava nem um pouco preocupada com a possibilidade de Lucas não gostar quando descobrisse que Burnett tinha pedido a Derek para acompanhá-los. Mas quem sabe ele nem ficasse sabendo. Ela passava tão pouco tempo com Lucas ultimamente que talvez o lobisomem nem viesse a saber. Ou nem se importasse.
Ela fechou os olhos. Ele se importava. Só que, no momento, havia outras coisas com as quais se importava mais.
Beliscando o lábio, ela se lembrou de que ainda não tinha respondido à mensagem que Lucas lhe mandara aquele dia. Ela não sabia o que responder, pois não sabia mais como se sentia a respeito dele. Num minuto estava furiosa, no seguinte se perguntava se era justo ficar com raiva.
— Qual o problema? — Miranda perguntou.
Kylie abriu os olhos, concentrando-se no que havia diante dela e não no que estava sentindo.
— Não temos mais refrigerante.
— Por que você não conjura alguns?
Kylie olhou para Miranda.
— Conjurar alguns...?
— Conjurar — repetiu ela, levantando o dedo mindinho.
— Ah, por que você não conjura alguns para nós, então? — Kylie perguntou, vendo os olhos de Della se arregalarem.
— Porque você precisa aprender — disse Miranda, com praticidade. — Você precisa assumir seu lado bruxa.
Kylie tinha evitado conjurar qualquer coisa depois do acidente com o peso de papel e Burnett. E ela gostaria de continuar evitando, mas, pelo olhar de Miranda, não daria mais para adiar. Bem, pelo menos não sem ferir os sentimentos da bruxinha.
E Kylie detestava ferir os sentimentos de alguém. Especialmente os de Miranda.
— Tudo bem... como eu faço isso? — Ela fechou a porta da geladeira e respirou fundo. — Sem pôr em perigo a vida de ninguém?
Miranda deu um gritinho de alegria e se ajeitou melhor na cadeira, cheia de empolgação.
Della lançou para Kylie um olhar de aprovação, como se dissesse que ela estava fazendo a coisa certa.
— Gostei da parte sobre não pôr em perigo a vida de ninguém. — a vampira acrescentou com um sorriso.
— Respire fundo várias vezes — ensinou Miranda. — Relaxe. Concentre-se. Então visualize uma embalagem com seis refrigerantes bem gelados e mexa o mindinho.
Uma embalagem com seis refrigerantes bem gelados. Kylie levantou o dedinho e nesse mesmo instante Della entrou na conversa.
— Estamos falando de uma embalagem de refrigerante, né? Não de um six-pack, como se costuma chamar um cara sarado com barriga de tanquinho...
Ouviu-se um chiado no ar. E de repente apareceu em frente à geladeira um rapaz sem camisa, com barriga de tanquinho, tremendo de frio. Seu cabelo castanho caía sobre a testa e seus olhos azuis estudavam as três com uma expressão perplexa.
— Que diabos é isso? — ele murmurou.
Kylie ofegou.
Miranda deu uma risadinha.
Della reprimiu uma risada.
— Desapareça! — Kylie gritou, o rosto vermelho enquanto agitava o dedinho na direção do rapaz. Ele sumiu tão rápido quanto apareceu. Kylie olhou para trás, na direção das duas amigas, que agora gargalhavam. Ela pôs a mão sobre o coração, que batia acelerado.
— Nem pense em me convencer a tentar outra vez — ela guinchou.
— Quem era... ah, qual o nome dele? Zac alguma coisa? — Della perguntou. — O ator, quero dizer.
— Ah, meu Deus, era ele! — disse Miranda.
— Eu sempre achei que ele se parece um pouco com Steve, não acham? — perguntou Della.
— Ah, droga! — Kylie cobriu o rosto com as mãos. — Eu não machuquei o garoto, machuquei? Ele não vai ter, sei lá, um câncer ou algo assim?
— Não — respondeu Miranda, ainda achando graça.
— Ótimo! — disse Della, esfregando as mãos. — Então traga o carinha de volta. Eu quero ver se ele realmente se parece com Steve.
— Está maluca? — Kylie perguntou a Della. Então ela se concentrou em Miranda. — Ele vai se lembrar disso? Vai achar que enlouqueceu?
— Aconteceu muito rápido, ele provavelmente vai achar que imaginou tudo. Além disso, não foi culpa sua. — Miranda deu outra risada. — Foi dela. — Miranda apontou para a acusada.
— Ah, certo. Culpe a vampira! — gritou Della.
Miranda revirou os olhos.
— Della colocou uma imagem nos seus pensamentos e por alguma razão você visualizou Zac Efron. — Miranda sorriu outra vez. — Você obviamente se sente atraída por ele.
Kylie começou a negar, mas não pôde.
— Eu ainda não estou assumindo a responsabilidade por isso — disse Della.
Miranda olhou para Della.
— Acho que deveria ter dito para você ficar quieta. Desculpe. — Ela cobriu a boca para esconder uma risadinha. Então se sentou ereta na cadeira. — Mas... uau! Tenho que dizer que estou chocada. Só as bruxas mais poderosas conseguem transportar seres humanos. Nem minha mãe consegue.
— Vocês não acham que ele se parece com Steve? — Della perguntou novamente.
Kylie desabou na cadeira.
— Eu não estou nem aí para quem ele parece. Não vou fazer de novo. Não tenho controle nem conhecimento. Tenho certeza de que vou fazer alguma besteira.
— É por isso que precisa praticar. Além disso, nada ruim aconteceu — disse Miranda.
— Sério? Eu trouxe um ator de cinema seminu para a nossa cabana!
— E por que isso é ruim? — Della perguntou. — Quero dizer... eu detesto dizer isso, mas, pela primeira vez, estou vendo que talvez seja legal ser bruxa.
— Obrigada! — disse Miranda, endireitando-se na cadeira.
— Quero dizer, você pode conjurar qualquer coisa que quiser? Um cara gostoso? Um copo de sangue O negativo? Um jeans novo? — Della perguntou.
— Ah, pelo amor de Deus, não se pode fazer nada disso — explicou Miranda. — É totalmente contra as regras.
— Mas... — Kylie olhou para Miranda. — Você acabou de me mandar fazer isso.
— Sim, mas você é novata. Não conta. — Miranda olhou para Della. — Isso não quer dizer que eu não faça. Se for por um bem maior, tudo bem. Se for em benefício de alguém, bem, tem de haver uma razão. Se me derem um sanduíche de atum e eu quiser um de peru, não é grande coisa. É trocar uma carne por outra. Mas, se eu fizer isso com muita frequência, sou convocada.
— Por quem? — perguntou Della. — Pelos deuses da carne?
Miranda franziu a testa como se dissesse que estava falando sério e Kylie concordava.
— Pela sociedade wiccana.
— Espere aí — disse Kylie. — Você quer dizer que eles sabem o que eu faço?
Della limpou a garganta como se para avisá-la, mas Kylie não entendeu o aviso. Ela estava preocupada demais com a possibilidade de a sociedade wiccana saber dos seus erros idiotas para prestar atenção.
— Sim — disse Miranda. — Eles são como Papai Noel com sua bola de cristal mágica. Sabem se você se comportou mal ou não.
— Que ótimo! Então alguém está olhando numa bola de cristal neste exato momento e vendo que eu conjurei um ator gostosão seminu? — Kylie perguntou.
— Você fez o quê? — A voz grave masculina soou atrás de Kylie.
Kylie congelou, preocupada que Zac tivesse voltado. O fato de que ela não estava nem um pouco feliz com isso revelava muito sobre a sua disposição também. Então ela recapitulou a voz na sua cabeça e reconheceu o timbre de tenor.
Droga. Agora ela estava de fato encrencada.

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