31 de outubro de 2016

Capítulo 19

Quando Amy e Dan pedalaram até a vila na manhã seguinte, Fiona colocou a cabeça para fora da mercearia e fez um gesto frenético para eles.
— Tenho uma mensagem de casa para vocês. Seus telefones não são mais seguros. Você deveriam destruí-los. Se precisarem se comunicar, devem ir a um cibercafé. Há um na próxima vila. E há uma chance muito pequena de que sua localização tenha sido comprometida. O conselho é ficarem quietos por enquanto. Eu deveria dizer-lhes que o Pony vai verificar tudo?
— Tudo bem — disse Amy, assentindo. Ela sentiu seus nervos tensos com a notícia.
— Não se preocupem. Vamos mantê-los seguros. A vila inteira está em alerta. E é por isso... — Fiona foi até a janela e olhou para fora através da sombra. Em seguida, voltou. — Há alguém na cidade pedindo indicações de Bhaile Anois. Ele se instalou tarde da noite na pousada.
Amy e Dan trocaram olhares inquietos.
— Como ele se parece? — perguntou Amy.
Fiona estreitou os olhos.
— Sorrateiro, com certeza — respondeu ela. — E ele é um grande gastador. Bom em nada além de reclamar. Nora, da pousada, disse que ele nunca está satisfeito com a temperatura do chá, e ele pediu mantas de cashmere para seu quarto.
Amy e Dan trocaram outro olhar.
— Ian — disseram juntos, e suspiraram. 
— Vocês conhecem o eejit? — perguntou Fiona.
— O eejit é... nosso primo — explicou Amy.
— Primo distante — Dan acrescentou. — Muito, muito distante.
Eles caminharam até a frente da pousada, onde Ian Kabra discutia com o funcionário da recepção. Seu primo alto e elegante apoiava um dedo em uma bicicleta raquítica, como se fosse se contaminar nela. Nesta aldeia rural, ele estava vestido com calças jeans apertadas, uma jaqueta azul marinha e uma camiseta escura de seda.
Ele tinha apenas dezesseis anos, mas parecia mais velho.
— Você está realmente me dizendo, meu bom homem, que este é o único meio de transporte na vila? Certamente deve haver um serviço de carro. Ou uma garagem, onde se pode alugar um carro? Mesmo neste fim de mundo? 
O jovem de cabelos vermelhos colocou as mãos nos quadris.
— Por que o senhor não procura, me boyo? Faça um voo rápido para a garagem mais próxima por si mesmo? E então você pode...
Dan avançou e pegou o braço de Ian.
— Nós vamos levá-lo a partir daqui. Obrigado.
— Dan! Amy! Graças a Deus vocês estão aqui — disse Ian em seu sotaque britânico emplumado. — Os moradores têm sido extremamente inúteis — Ian estreitou os olhos escuros. — Fiquei perdido por horas nas estradas secundárias na noite passada porque quando perguntei a uma mulher se aqui era Meenalappa, ela respondeu que não. E eu estava bem no meio da aldeia! Se eu vir aquela jovem novamente, eu vou... — os olhos de Ian se arregalaram. Fiona estava atravessando a rua para o pub. — L-lá está ela! — ele gaguejou.
— Oi, Fiona! — cumprimentou Dan, acenando.
— Oi, Danny boy! — ela vibrou volta.
— Está familiarizado com essa criatura?
— Relaxa, Ian — Dan tentou esconder seu sorriso. — Ela estava apenas tentando nos proteger.
— Será que Nellie o chamou? — perguntou Amy. Irritação era visível em sua pergunta.
— É claro que ela chamou. E Hamilton e Jonah, também — Ian disse, nomeando seus outros primos. — Eles estão em estado de alerta. Reagan e Madison viriam, também, mas estão ambas treinando para os Jogos Olímpicos, e Hamilton não iria deixá-las. Eles estão na reserva, apesar de tudo.
Amy rangeu os dentes. 
— Eu disse a Nellie para não alertar ninguém.
— Bobagem — Ian respondeu rapidamente. — Somos Cahill. Estamos nisso juntos. Agora, vamos para a casa de Grace. Tem que ser melhor do que essa pousada de má qualidade.

* * *

Ian encarou a cama de solteiro com a colcha de algodão e lençóis lisos e brancos.
— Falei cedo demais. Por que, oh por que Grace não sabia sobre contagens de fios? — ele gemeu.
— Eu não tenho ideia sobre o que está falando, cara, mas se insultar Grace na minha presença mais uma vez, ganhará um lábio muito inchado — Dan falou alegremente. — Ou dois.
— Eu não estou insultando-a — devolveu Ian. — Só estou indicando a minha preferência. Se apenas Natalie estivesse aqui, ela saberia exatamente o que eu quero dizer.
De repente, o rosto de Ian fechou. Natalie tinha morrido há apenas seis meses, sua irmã caçula. Amy sabia que a ferida ainda deveria estar insuportavelmente fresca. Ian limpou a garganta e rapidamente se afastou. Sua voz saiu mais alta e apertada.
— Uma vez que estou sozinho nessa, não direi mais uma palavra. Lidarei com colchas esfarrapas e lençóis arranhando como um cavalheiro.
Amy poderia dizer pelo jeito que Ian examinava a cama que ele estava à beira das lágrimas. Ninguém estava interessado em afofar seu travesseiro.
— Nós sentimos falta dela, também, Ian — ela falou suavemente.
Ele limpou a garganta.
— Obrigado.
Seria como perder Dan, ela pensou.
Ela teve um vislumbre da grande e inesgotável dor, e se pudesse conseguir uma manta de cashmere para Ian naquele momento, ela teria ficado feliz em fornecê-la.
— Nós realmente precisamos da sua ajuda — acrescentou ela.
O rosto de Ian iluminou, e ela sabia que tinha sido a coisa certa a dizer. Ele queria ser necessário agora.
Ian seguiu-os ao descer as escadas.
— Eu sei que vocês dois vão precisar de alguma estratégia de Lucian — ele sentou-se no sofá estofado. — Portanto, relaxem e me contem como posso resolver todos os seus problemas.
Era quase um flashback do antigo Ian arrogante que tinham conhecido, mas agora ele terminava o comentário com um sorriso que zombava de seu velho egocentrismo. A perda de Natalie o fizera mudar.
Amy sentiu seus olhos embaçarem. Com toda a sua preocupação de coloca-lo em perigo, ela não tinha parado para pensar que Ian podia precisar deles também.

* * *

Eles se sentaram no gramado novamente. Amy tinha aberto um cobertor de linho e trouxera uma bandeja com um bule e xícaras bastante descasadas – Grace sempre tinha colecionado relíquias chinesas – e um prato de biscoitos. O tempo tinha ficado mais quente e brilhante, e a brisa suave balançou as páginas do livro de Olivia.
Ian sabia latim melhor do que Amy, por isso ele foi capaz de traduzir algumas coisas que a tinham confundido.
— Esta referência é intrigante — disse Ian. — Ela continua se referindo a “isso”, mas não sabemos do que se trata. É um lugar, ou dinheiro, ou animais, ou objetos?
— Aparece muitas vezes — Amy concordou. — Mesmo depois de Gideon estar morto.
Amy olhou para ele. Seus rostos estavam muito próximos. Ela se lembrou de quando aqueles expressivos olhos escuros a faziam tremer por dentro, quando estar perto dele a faria corar e gaguejar. Não mais, porém. Uma sombra caiu sobre o cobertor.
— Ora, ora. Se não são os dois aconchegados aí.
Protegendo os olhos, Amy olhou para cima e, com um surto de surpresa desconfortável, viu Jake. Seu coração começou a bater forte. Ele estava de pé contra o sol, e ela não podia ver sua expressão. Era oficial. Ela ia matar Nellie. Sentindo-se culpada, ela ficou de pé. Agora podia ver seu rosto, o nariz forte, olhos castanhos, cabelo escuro bagunçado. Ele parecia cansado. E irritado.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, confusa.
— Nellie nos contatou e disse que você precisava de ajuda.
— Eu disse a ela para não fazer isso!
— Sim, e posso ver porque — o olhar de Jake relanceou para Ian. — Você já estendeu a mão para ajudar, não é? Desculpe interromper a festa do chá.
— Nossa rede caiu — ela explicou. — Nós até tivemos que desistir dos nossos telefones. Eu não podia avisá-lo.
 Ele deu de ombros, tenso.
— Não importa. Você não tem que me explicar. Eu entendo.
Seu olhar pétreo moveu-se para Ian.
— Não, você não entendeu — disse Amy.
Ian levantou-se.
— É bom vê-lo, Jake. Espero que tenha trazido o seu irmão mais novo. Há um pouco de italiano medieval para traduzir...
Só então Atticus subiu com Dan. Atticus era meio-irmão de Jake, mas não eram muito parecidos. Atticus era magro e moreno, e tinha herdado o espesso cabelo encaracolado da sua mãe afroamericana, que ele usava em dreadlocks até os ombros.
— Isso não é fantástico? — perguntou Dan. — Jake e Atticus em pessoa! — Dan socou Atticus no braço. — Professor! Você foi socado assim por aparecer sem avisar!
— Você não tem telefone! — Atticus respondeu com um sorriso — foi um obstáculo intransponível, cara!
Embora Atticus fosse um ano e meio mais novo que Dan, ele falava com um vocabulário que poderia levar um professor universitário a consultar o dicionário.
— Você não deveria estar na faculdade? — perguntou Dan. — Como você conseguiu tempo livre?
— Fazendo estudo independente — explicou Atticus. — Meu pai disse que eu deveria adiar Harvard até estar emocionalmente maduro o suficiente para ir.
— Emocionalmente maduro? — Dan assobiou. — Seu pai vai ter que esperar cerca de um bilhão de anos, cara!
— Eu não vou ter que esperar tanto quanto você, cara! — Atticus ajeitou os óculos enquanto olhava para baixo sobre o cobertor. — Ei, esse é o livro de que Nellie nos contou?
Os olhos de Jake focaram no livro de Olivia.
— Você o trouxe aqui fora no sol? Está louca?
Amy cruzou os braços.
— Nós estamos tendo cuidado.
— Não é sobre cuidado, este é um manuscrito quinhentos anos! Vocês deveriam estar usando luvas – Atticus trouxe alguns pares – e mantê-lo fora da luz solar.
— Não demorou muito tempo para começar a despejar ordens! — exclamou Amy, seu rosto ruborizando. — Mas, então, você sempre sabe mais, não é?
— Alguém tem que ser maduro nesta situação — replicou Jake, seu olhar indo para Ian, que estava agora atentamente tentando escovar migalhas doe biscoito para fora de suas calças.
— Verdade. Nesse caso, preferimos consultar o seu irmão mais novo — disse Ian com um sorriso.  Os manuscritos medievais são o seu campo, estou certo?
— Tecnicamente, é início do Renascimento — corrigiu Jake.
— Obrigado pela correção, meu bom homem. Amy está certa – você sabe mais — Ian passou o braço em torno de Amy. — Ela é tão perspicaz. Uma das muitas coisas que adoro nela.
— Está ficando frio. Por que não vamos para dentro? — Amy sugeriu brilhantemente enquanto tentava sair do círculo do braço de Ian.
Ian aproveitou a oportunidade para esfregar seu ombro.
— Você parece bastante fria — concordou ele. — Vamos sentar perto do fogo. Jake, já que você está tão interessado em manuseio adequado, por que não pega o livro?
Jake pegou o livro e furiosamente saiu pisando duro em direção à casa.
— Você se esqueceu de usar luvas! — Ian gritou para ele.
 Amy o empurrou.
— Sinceramente, Ian.
— Que cara sensível — comentou Ian. — Francamente, eu não sei o que você vê nele — ele fez uma careta quando a porta da cozinha bateu, em seguida, olhou para o rosto vermelho de Amy. — Hmmm. Pode ser um bom momento para fazer uma caminhada.

5 comentários:

  1. Eu tambem! Desde o labirinto dos ossos que eu torço pra eles ficarem juntos e nunca dava certo. Fiz ate uma fanfic do livro como uma continuaçao de CahillxVesper. Me dediquei bastante. Se chama: "uma nova ameaça" e esta no nyah fanfiction. Espero que nao se importe de eu citar minha fic aqui, Karina ;-) tenho muito que te agradecer por esse blog!

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    1. Sem problemas, Iara! E espero que a sua fic seja melhor que Cahill vs Vesper, pq né...

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    2. É verdade que nesse blog também tem fics? Como é que faz pra postar aqui?

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    3. É sim! É sóme mandar por e-mail que eu divulgo aqui. Envie-me o primeiro capítulo e/ou prólogo, sinopse, imagem ilustrativa e link de onde posta para livroson-line@hotmail.com

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