14 de outubro de 2016

Capítulo 19

O dia de Kylie não tinha ficado muito melhor. Nem muito pior, tampouco. Ela descobriu que tinha coisas pelas quais ser grata.
Nana costumava dizer que sempre que a gente começa a sentir que o mundo está cobrando seu quinhão, devemos cobrar de volta, contando nossas bênçãos.
E o item número um da lista de bênção de Kylie era estar de volta a Shadow Falls. Mesmo com todos os problemas, ela pertencia a esse lugar. A cada hora, mais ou menos, ela se lembrava de como se sentira quando estava na casa do avô. E embora sentisse falta dele, e até mesmo da tia-avó, não tinha se esquecido do sentimento incômodo de estar lá, a sensação de estar no lugar errado.
O item número dois na lista era a espada não ter decidido aparecer num passe de mágica novamente. Claro, ela poderia estar esperando na cabana agora mesmo, mas Kylie estava grata por não ter que explicar isso a ninguém no momento. E, por último, mas não menos importante, em sua lista estava o fato de Mario parecer ter voltado para a sua toca imunda e limosa.
Pelo menos Kylie não conseguia senti-lo, e Miranda concordava que não parecia haver nenhum estranho por perto. Parte de Kylie queria acreditar que ele não voltaria mais, mas parte dela ainda queria acreditar em Papai Noel também.
Mario voltaria. A pergunta era: ela estaria pronta? Kylie não tinha ideia de como poderia se preparar para enfrentar alguém tão poderoso e cruel.
Esperando o último sinal tocar e as aulas acabarem para que pudesse deixar a aula de História, ela olhou para Cary Cannon. Ele apontava para o trabalho escrito na lousa. A camisa branca engomada estava esticada sobre o peito largo.
Ela precisava dar razão a Fredericka, pois o professor era um colírio para os olhos. Se ele trocasse a gravata e a calça social por uma camiseta e uma calça jeans, ia parecer um estudante, e não um professor. Alto, moreno, com olhos negros, ele tinha uma ótima aparência. E ensinava melhor ainda. Obviamente, tinha uma paixão pela História, porque isso transparecia em suas aulas. Para um lobisomem, ele era surpreendentemente amigável. Provavelmente algo que ele tinha aprendido na escola.
Kylie tinha visto o professor desviar os olhos para Fredericka pelo menos uma dúzia de vezes. O que demonstrava a Kylie que a paixão não era unilateral. Ela esperava que não, pelo bem de Fredericka, pelo menos.
Três minutos depois, a aula acabou e Kylie saiu da classe. Della, sua sombra oficial, caminhava ao seu lado. Kylie não tinha colocado um pé para fora da porta quando alguém a pegou pelo braço.
Ela quase gritou, mas o calor do toque lhe deu a certeza de que era Holiday antes mesmo de olhar para trás.
— Ei... — Holiday olhou para Della. — Eu preciso de Kylie por um instante.
— Ok. Você vai levá-la até a cabana mais tarde? Ou preciso encontrá-la em algum lugar?
— Vou levá-la até a cabana.
Della pareceu um pouco preocupada ao se ver obrigada a abrir mão dos seus deveres como sombra.
E ela não era a única.
— O que há de errado? — Kylie perguntou quando Della não podia mais ouvir.
— Não há nada (soluço)... errado. Só que — ela apontou para a boca. — Na verdade, eu tenho algumas coisas para discutir com você, mas primeiro o mais importante. — Ela soltou um profundo suspiro, como se para dar uma má notícia. — Eu contei uma mentira a Burnett. E preciso que você me apoie.
— Você quer que eu minta para um vampiro? — perguntou Kylie. — Uau, você não está pedindo muito, não?
— Não, não vou pedir para você mentir. — Holiday colocou todo o seu cabelo para a frente e torceu-o em um nó. — Ele não vai te perguntar nada. Só preciso que você confirme uma coisa.
— Não entendo.
— Ok, vou te contar o que aconteceu. Eu disse a Burnett que precisava dar um pulinho na farmácia e ele me disse que compraria tudo que eu precisasse. Então eu comecei aquela história de que havia dito a você que não era uma prisioneira aqui e que eu achava que você gostaria de sair de vez em quando. Eu disse que você não tinha me dito isso de fato, mas eu tinha a sensação de que você precisava de algo da farmácia, alguns absorventes ou algo assim.
Kylie engasgou.
— Você disse a Burnett que eu precisava de absorventes?
— Não, eu disse a ele que você não tinha dito isso, mas eu tinha a sensação de que podia estar precisando. E, felizmente, não era uma mentira, porque Miranda me disse que, enquanto você estava fora, ela teve que pegar emprestados alguns dos seus.
— Ok... — Kylie disse, ainda sem entender o que estava realmente acontecendo. — Então...
— Então, eu preciso que você venha com Burnett e eu, e quando você for comprar os absorventes, eu preciso que você também... (soluço)... compre um teste de gravidez.
— Ah, entendi. Mas e se ele perguntar... Espere. Ele não vai perguntar o que eu comprei porque acha que eu comprei absorventes, e os homens não querem saber dessa conversa de absorventes.
— Viu? Eu sabia que você ia entender — disse Holiday.
— Muito inteligente da sua parte — disse Kylie.
— É preciso ser inteligente para lidar com um vampiro.
Elas começaram a andar.
— Mas espere aí. — Kylie parou. — Que tipo de teste eu compro?
— Eu não sei, nunca comprei um... (soluço)... mas compre dois deles. De tipos diferentes. Algo que pareça dar o resultado mais exato. Eu vou levar Burnett comigo para me ajudar a escolher algo para os soluços.
Kylie tentou pensar.
— Como vou saber que teste de gravidez dá o resultado mais exato?
— Basta comprar dois, mas não dos mais baratos. — Holiday suspirou enquanto percorriam o caminho de volta para o escritório.
— Aqui. — Holiday entregou a Kylie algumas notas e a garota enfiou-as no bolso junto com sua pequena carteira. — Agora que já cuidamos disso, deixe-me lhe dizer outra coisa.
Ah, sim, as outras coisas.
— O que é? — perguntou Kylie, de repente apreensiva.
— Seu padrasto ligou. Você precisa retornar a ligação.
— Tudo bem — disse Kylie. — Posso usar seu telefone?
— Claro. — Holiday colocou a mão no bolso e entregou a Kylie seu celular. — E mais uma coisa...
— Tem mais? — perguntou Kylie.
— Sim. Amanhã você vai receber visitas. Se quiser.
— Visitas? Quem? — Kylie enfiou o telefone no bolso.
— Os Brightens. Os pais adotivos de seu verdadeiro pai. Eles já voltaram da Irlanda e pegaram todas as mensagens. Estão ansiosos para conhecê-la.
Calafrios percorreram os braços de Kylie.
— Eu já tinha quase desistido de encontrá-los.
— Bem, eles vão estar aqui amanhã, às duas horas, se você concordar.
Kylie engoliu em seco.
— Sim, claro que eu quero conhecê-los. — E de repente, Kylie começou a sentir falta do pai novamente. Mais do que isso, ela podia jurar que tinha sentido um toque frio. Um toque que lembrava o dele.
E, nossa!, ela bem que precisava de uma visita dele agora.
Quando elas chegaram ao escritório, Hayden e Burnett estavam ali, de pé, ao lado da máquina de café – sem conversar. O silêncio constrangedor era um sinal de que eles tinham suspendido a conversa quando ouviram as duas chegando. Ou seja, eles estavam guardando segredos.
Isso decepcionou Kylie, porque, afinal de contas, os segredos deviam ser sobre ela, não é? Ela quase chamou a atenção deles por isso, mas percebeu que uma discussão podia atrasar a ida até a cidade. E Holiday precisava dela. Então Kylie deixou de lado a frustração, prometendo a si mesma que retornaria aquela história depois, ressuscitaria tudo e trataria do assunto com força total.
Holiday desviou o olhar para Kylie como se tivesse percebido o tumulto emocional acontecendo dentro dela. Depois de alguns cumprimentos desconfortáveis, Holiday olhou para Burnett.
— Você está pronto?
Na ida para a cidade, Holiday dirigiu e soluçou durante todo o caminho. Burnett mostrou-se inquieto por causa dos soluços e manteve os dois olhos abertos, como se estivesse preocupado com a possibilidade de Mario aparecer.
— Precisamos ligar para o médico — disse Burnett a Holiday, quando ela soltou outro soluço.
— Eu vou tomar um pouco de antiácido ou algo assim — disse Holiday.
Quando eles entraram na farmácia, Kylie dirigiu-se ao corredor de artigos femininos. Burnett foi atrás dela, mas quando a viu parar na prateleira de absorventes, ele se virou.
Kylie viu Holiday puxá-lo com ela para outro corredor.
Soltando um profundo suspiro, Kylie passou os olhos pelos testes de gravidez. Apressadamente, examinou as diferentes embalagens, mas se sentiu perdida. Havia inúmeros tipos, cada um fazendo uma promessa diferente. Percebendo que não teria tempo para ler todas as embalagens, pegou dois e, em seguida, só para ter certeza de que não erraria, pegou mais um. Certificando-se de que ninguém estava olhando, ela disparou para o caixa da farmácia para pagar pelos testes. Foi só quando ela viu um homem mais velho atrás do balcão que Kylie percebeu quanto aquilo ia ser difícil.
O homem, um senhor com ar de pregador evangélico, ia pensar que os testes eram para ela. Ah, mas que ótimo! Ela engoliu em seco, morta de constrangimento. Então, pensando em Holiday, colocou as três caixas sobre o balcão.
O vendedor olhou para a compra, em seguida, ergueu os olhos. Kylie podia ver o julgamento em seus velhos olhos cinzentos, como uma carranca marcando seu rosto. Que maravilha! Ela estava sendo julgada por estar grávida, embora ainda fosse virgem.
— Você sabe como usá-los? — ele perguntou com um tom de voz muito condescendente.
Kylie sentiu seu rosto corar.
— Eu... vou ler as instruções.
— Você gostaria que a minha assistente, Ângela, falasse com você sobre... alguma coisa?
Como sexo seguro? Kylie apostava que era nisso que ele estava pensando.
— Não — ela deixou escapar. Mas, como o homem não parava de olhá-la, ela acrescentou: — Obrigada.
Ele passou os itens lentamente. O coração de Kylie batia no ritmo do embaraço. Ela abriu a boca para dizer que eram para uma amiga, mas qual era a chance de ele acreditar?
— São quarenta e dois dólares e noventa e seis centavos.
Kylie pegou as notas que Holiday lhe dera.
— Merda — Kylie murmurou, quando viu que não tinha o suficiente.
— Como disse? — o velhinho perguntou, agora não só ofendido por ela estar grávida, mas por causa da sua linguagem.
E ele tinha razão de estar ofendido – pela linguagem dela. Ela sabia que não devia falar palavrões em público. Mas, convenhamos, a opinião do homem sobre ela já era péssima, um palavrãozinho não ia deixá-la muito pior. Mas, ainda assim, ela se desculpou.
— Você vai levar ou não?
Ela assentiu com a cabeça.
— Sim, é que... Eu não acho que precise dos três. Vou levar apenas dois.
Franzindo a testa, ele olhou para as caixas.
— Qual deles quer devolver?
Ela respirou fundo, percebendo que uma hora ela tinha que parar de fazer aquilo. Então, lembrando-se do cartão de crédito da mãe, para usar apenas em caso de emergências, ela tirou o telefone de Holiday do bolso e, em seguida, a pequena carteira.
— Não se preocupe, vou levar todos.
Colocando o cartão no balcão, ela mordeu o lábio. Não tinha certeza se esse era o tipo de emergência a que a mãe se referia, mas se afastar do olhar reprovador daquele homem lhe pareceu mais importante.
Ele analisou o cartão com cuidado.
Maldição! Agora ele estava suspeitando do cartão de crédito.
— É meu! — disse Kylie. — Eu juro.
Ele não parecia convencido.
— Pode me mostrar um documento?
Ela ouviu Burnett e Holiday em algum lugar, nos corredores atrás dela. Mordendo o lábio, ela abriu a carteira e deu ao homem sua carteira de motorista. Ela nunca tinha visto alguém levar tanto tempo para examinar um documento.
O medo de colocar a amiga em maus lençóis fez com que seu estômago se contraísse.
— Estou com um pouco de pressa — disse Kylie.
Finalmente, ele largou a carteira de motorista e terminou a transação. Ela ouviu alguém se mexer atrás dela e seu coração se contraiu. Olhou para baixo para ver os sapatos, rezando para que não fossem os tênis de Burnett.
Não era Burnett. Um par de sapatos, do tipo que os executivos usavam, adornavam os pés do homem que estava atrás dela. Graças a Deus!
O caixa empurrou um recibo para ela.
— Você gostaria de levar alguns panfletos informativos? — ele perguntou.
— Tudo bem. — Kylie assinou o recibo e, em seguida, observou-o colocar alguns panfletos sobre sexo em sua sacola, junto com os testes de gravidez.
Mal sabia ele que os panfletos já eram ultrapassados. Ela tinha lido aqueles havia mais de um ano.
Quando, finalmente, ele entregou a sacola a Kylie, ela se virou para sair, mas estacou quando viu o rosto do homem em pé atrás dela.
— Ah, merda! — exclamou Kylie novamente.

Um comentário:

  1. Kkk_coitada_que_constrangimento_so_falta_o_homem_que_ta_atras_dela_ser_o_pai (padrasto) dela

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