4 de outubro de 2016

Capítulo 19

Tão logo cruzaram o limiar do cemitério de Fallen, uma violenta rajada de vento fez os portões fecharem com força atrás deles.
Kylie estancou, sobressaltada. Della pulou de susto e rosnou, expondo os caninos afiados. Burnett não se moveu, mas seus olhos brilharam num tom amarelo brilhante.
— Não se preocupem — ele murmurou. — Posso derrubar os portões se for preciso.
Della olhou para Kylie.
— Não entendo por que você se sente obrigada a fazer isso.
Kylie mirou os amigos.
— Posso me afastar um pouco? Preciso de espaço para me comunicar com eles.
Ela odiava ter que mentir, mas esperava que assim Della e Burnett não se sentissem forçados a acompanhá-la cemitério adentro. Sabia que não queriam estar ali. Parecia loucura, mas sobrenaturais detestavam tudo que se referia a fantasmas. Pelo menos, talvez dessa forma o ar gelado que ela sempre sentia quando um fantasma estava presente não fosse tão perceptível para eles.
— Ok, vá em frente, mas não tão longe que não possamos vê-la — disse Burnett.
Considerando que Kylie ainda não tinha contado a Burnett sobre o “leve pressentimento” de Miranda, ela não se importava que ele mantivesse contato visual com ela. Mas, no momento, não estava preocupada com Mario e o neto. No momento, eram as vozes sussurradas que Kylie ouvia que lhe causavam preocupação.
Percorrendo as trilhas de cascalho entre as várias fileiras de túmulos, ela deixou que seus olhos vagassem de lápide em lápide, esperando que uma delas lhe chamasse a atenção. Algumas sepulturas tinham pequenos marcadores de concreto ou mármore apenas com nomes e datas inscritas neles. Outras estavam rodeadas de estátuas ornamentais. Algumas pareciam novas; outras, deterioradas pelo tempo. Alguns anjos e santos católicos de concreto tinham trepadeiras agarradas aos seus braços e pernas, como se tentassem chamá-los das profundezas da terra, onde apenas os mortos viviam.
Ela não via nenhum fantasma ainda, mas podia ouvi-los. Eles falavam todos ao mesmo tempo. Tagarelavam. Como dois ou três rádios ligados de uma só vez, mas com toneladas de estática. Se estavam falando uns com os outros ou com ela, não sabia.
Algumas vozes pareciam vir da distância de um quarteirão, outras pareciam vir de espíritos tão próximos a ela que tinha a impressão de que poderia tocá-los se estendesse o braço. Não que quisesse tocá-los. O frio fantasmagórico já a cercava, como mãos estendidas na direção dela, tentando se aquecer no fogo.
Kylie sentia que, num certo sentido, era isso que ela representava para eles. Ela era como o fogo, algo que os atraía. Ela era a vida. Provavelmente a única vida que tinham sido capazes de sentir havia muito tempo. Ou talvez a única vida que pudesse senti-los.
Passos ecoaram e Kylie olhou para trás. Um velho, de bengala na mão, vinha arrastando os pés entre as fileiras de túmulos. Por um instante, ela não soube dizer a que mundo ele pertencia.
Mas então percebeu que Burnett e Della franziram a testa ao olhar para ele. Kylie fez o mesmo e não ficou surpresa ao constatar, pelo seu padrão cerebral, que ele era humano. De repente, uma mulher idosa, mais ou menos da mesma idade do velho, apareceu atrás dele. Seus cabelos longos, finos e grisalhos caíam sem brilho pelos ombros. Ela usava um daqueles vestidos de ficar em casa que a avó de Kylie costumava usar. Aquele era de um tom bem claro de azul. Nos pés, a mulher usava um par de chinelos azul-bebê.
Levou apenas um segundo para Kylie perceber que ela não era deste mundo.
— Você não está tomando seus remédios como deveria, não é? — disse ela ao velho. — Eu sei disso porque os seus tornozelos estão inchados. Você devia tomar os comprimidinhos vermelhos duas vezes ao dia, não os azuis. O que está tentando fazer? Se matar? Você me prometeu que iria se cuidar. Por que nunca me ouve?
Então a mulher desviou o olhar do velho e olhou direito para Kylie. Seus olhos cinzentos e desbotados pela idade se arregalaram e, em seguida, ela desapareceu. Kylie quase perdeu o fôlego quando a mulher se materializou a centímetros dela. Sua pele era de uma tonalidade cinza mortiça que combinava com os olhos. O cabelo, de um tom acinzentado muito parecido com o dos olhos, flutuava ao vento, quase em câmara lenta em volta da cabeça.
— Mãe de Deus! Você pode me ver! — a anciã exclamou.
A proximidade do espírito provocou calafrios em Kylie. Mas a queda na temperatura não era tão perturbadora quanto foi o silêncio repentino.
O burburinho dos espíritos tinha cessado. O único ruído no cemitério era o som dos passos do velho. Seus sapatos se arrastavam pelo cascalho a cada vez que ele dava um passo trôpego, com a bengala batendo de leve no chão de terra, em busca de um lugar estável onde apoiá-la.
Bate, bate. Arrasta. Bate, bate. Arrasta. Bate. Arrasta.
Kylie sentiu mais do que ouviu Burnett e Della recuarem. Ela tinha pedido que se afastassem, mas no momento estava arrependida. Talvez não quisesse ficar sozinha. Mas estava arrependida a ponto de admitir seu medo? Ela sabia que alguém como Burnett admirava a coragem, e Kylie não queria desapontá-lo.
— Responde, menina! Você pode me ver, não pode? — A velha acenava com a mão em frente ao rosto de Kylie.
Ela prendeu a respiração. O silêncio agora parecia ainda maior. A ausência de outras vozes falando significava alguma coisa. Significava que os espíritos estavam ouvindo. Esperando pela resposta dela. Esperando para ver se ela admitia que era capaz de ouvir um deles.
De repente o ar que invadiu seus pulmões pareceu tão frio que ela sentiu a garganta doer. Eles, os espíritos silenciosos, estavam se aproximando. Ela não podia vê-los, nem sequer ouvi-los, mas podia senti-los. O frio ficou dez vezes pior.
O medo provocou um nó em seu estômago. Kylie sentiu uma camada fina de gelo se formar sobre os lábios. Por um segundo, se perguntou se tinha sido uma boa ideia visitar o lugar. Ela conseguiria fingir que não ouvia a mulher? Ou seria tarde demais para ignorar o desespero daquele espírito?
— Diga que ele precisa tomar os dois comprimidinhos vermelhos.
Kylie continuou calada. Cristais de gelo cobriram os seus cílios, atrapalhando sua visão.
Ele vai conhecer o nosso primeiro bisneto. Durante anos ele só falou em viver o bastante para conhecer a terceira geração da nossa família. Mas, se não começar a tomar os comprimidos direito, não vai conseguir.
De repente, os outros espíritos começaram a se materializar em volta de Kylie. Dez, depois vinte. Então mais. E quando começaram a se aproximar lentamente, o coração de Kylie disparou de puro pânico. Ela pensou em correr, mas e se eles conseguissem correr ainda mais rápido?
— Ela pode nos ouvir? — perguntou o espírito de um homem de aparência decrépita.
— Ela pode nos ver? — acrescentou o espírito de uma mulher mais jovem, que se aproximava.
— Vocês são todos uns tolos! — gritou a voz de outro espírito. — Os vivos não podem nos ver.
— Mas ela pode! — argumentou a mulher mais jovem. — Olhe pra ela!
Os espíritos iam chegando mais perto.
— Acham que ela pode nos ajudar? — uma mulher perguntou.
— Talvez — disse outro espírito.
O homem mais velho fitou o rosto de Kylie.
— O que ela é?
Os espíritos começaram a se aglomerar em torno de Kylie. As palavras brotavam aos borbotões dos seus lábios, cada um deles falando mais rápido do que os outros, tornando difícil para ela distinguir suas vozes. O som era tão alto que Kylie teve que se esforçar para reprimir o impulso de cobrir os ouvidos. Ela não conseguia se lembrar do que Holiday tinha dito sobre como se fechar para essas vozes. Seria muito tarde para isso?
— Você está procurando um túmulo em particular? — As palavras penetraram nos ouvidos de Kylie e deram voltas no seu cérebro em pânico. Levou um minuto para que percebesse que aquela voz masculina era diferente das outras. As palavras não vinham dos mortos, mas do mundo dos vivos.
Kylie conseguiu olhar em volta. Viu o velho passando entre duas grandes lápides e vindo na sua direção. Sua bengala fazia buracos na grama verde, deixando visível a terra úmida por baixo dela. Cada vez que ele puxava a ponta da bengala da terra provocava um barulho que parecia alto demais.
Lembrando-se de que não estava totalmente sozinha, Kylie olhou ao redor e viu Burnett de pé no final da fileira de túmulos, vigiando, pronto para se aproximar caso o senhor idoso se revelasse uma ameaça.
Mal sabia Burnett que não era o velho que apavorava Kylie, mas todos os outros seres que o vampiro não conseguia ver. O homem continuava se aproximando dela. Sua presença emanava uma onda de tranquilidade que diminuía o caos que fazia o sangue de Kylie correr mais rápido. Quanto mais perto chegava, mais os espíritos se afastavam.
Kylie tocou o lábio inferior com a ponta da língua para o gelo derreter e piscou para se livrar dos cristais de gelo brilhantes em seus cílios.
— Você parece perdida — disse o velho de novo, parando a alguns metros dela.
Grata pelo fato de a presença do velho lhe trazer algum alívio, Kylie tentou sorrir, mas o sorriso mais pareceu uma careta.
— O gato comeu sua língua, minha filha? — perguntou ele.
— Não — respondeu. Percebendo que não tinha respondido sua pergunta inicial, Kylie buscou uma mentira em que o velho pudesse acreditar. — Estou procurando pelo túmulo... da minha tia.
— Qual é o nome dela? Talvez eu saiba em que direção ele fica. Deus sabe que já andei muito por este cemitério. Eu venho aqui todos os dias, para visitar a minha Ima.
— Eu sou Ima — disse a esposa morta do homem, aproximando-se para fitar o rosto de Kylie.
Kylie hesitou e então olhou para sua direita e leu uma lápide.
— Lolita Cannon. Esse é o nome da minha tia. — Ela ainda não sabia se devia admitir que percebia a presença da esposa falecida do homem ou não. Seu coração batia acelerado com sua indecisão. Mas, se ela não dissesse ao velho sobre o remédio, ele poderia...
— Ora, eu acho que o túmulo da sua tia está por aqui em algum lugar. — Ele se virou e começou a procurar, apontando com a bengala para os marcadores conforme os lia.
— Tem certeza de que ela pode nos ver e nos ouvir? — Outro espírito apareceu.
Kylie olhou para o recém-chegado de relance, tentando não demonstrar que podia ver qualquer um deles. Era o espírito de outra mulher, mais jovem, de vinte e poucos anos, vestindo um vestido estilo dos anos 70.
— Tenho certeza — respondeu Ima, e então se inclinou e chegou tão perto que sua presença gelada queimou o braço de Kylie. — Diga a ele sobre os remédios — ela implorou. — Se não, ele vai morrer sem nunca ter visto a terceira geração da nossa família.
— Aqui, está bem aqui. — O velho apontou com a bengala e acenou para Kylie segui-lo.
— Obrigada — disse Kylie, parando ao seu lado ainda sem saber ao certo o que fazer.
— É uma bela lápide — disse ele, usando a bengala para manter o equilíbrio. — Bem, preciso ir. Aproveite o seu tempo com ela.
Ele começou a dar um passo e então parou.
— Sabe, eu de algum modo sinto que a minha Ima pode me ouvir, então vá em frente e converse com a sua tia, se tem alguma coisa que queira dizer a ela.
A mulher do homem ergueu as mãos como se estivesse frustrada.
Sim, eu posso te ouvir, velho. É você que não ouve uma palavra do que eu digo. Não sei por que isso me surpreende. — A mulher olhou para Kylie novamente. — Esse velho nunca me ouviu quando eu estava viva. E fala mais comigo agora, que estou morta, do que falava antes. Mas eu amo esse velhote. E você tem que me ajudar a ajudá-lo. Por favor, senhorita. Eu não sei o que você é, ou como pode me ver, mas eu imploro.
Kylie viu o velho dar mais alguns passos para longe dela. Se dissesse a ele alguma coisa, sabia que os outros espíritos voltariam a assediá-la, mas se não dissesse... Kylie não seria capaz de viver consigo mesma se algo acontecesse a ele por culpa dela.
— Espere, senhor. Eu...
Ele se virou.
Merda! Como iria dizer a ele?
— Eu... Eu não pude deixar de notar que o senhor parece um pouco trêmulo. Sabe, isso aconteceu com minha tia e era porque ela misturava os remédios. Estava tomando os comprimidos errados duas vezes ao dia. Os azuis em vez dos vermelhos.
A esposa morta do homem soltou um grito de vitória. A mulher mais jovem ao seu lado olhou para Kylie com assombro.
Ela pode nos ouvir! Mamma Mia!, ela pode mesmo. Meu nome é Catherine. Qual é o seu?
O mesmo olhar de assombro que estampava o rosto da mulher mais jovem também se via no rosto do velho.
— Ora, minha filha, eu... poderia jurar que talvez você... Quer dizer, Ima vivia me dizendo para ter cuidado. E eu não tenho me sentido muito bem ultimamente. Acho que vou voltar para casa e verificar a minha receita. — Então ele se virou e seguiu em direção ao portão.
Kylie forçou um sorriso, embora as vozes dos espíritos agora estivessem mais altas do que nunca, visto que todos sabiam a verdade. Sabiam que ela podia ouvi-los. Sabiam que poderia ajudá-los. Mas será que podia mesmo? Até agora todos os espíritos tinham buscado sua ajuda, mas poderia ajudar aqueles que entravam em contato com ela acidentalmente?
Assim que o velho se virou para sair do cemitério, outra onda de frio atingiu-a lateralmente. O fantasma de Jane Doe se materializou. Ela olhou para Kylie como se estivesse confusa.
— O que você está fazendo aqui?
— Não é aqui que você está enterrada? — Kylie perguntou, lutando para ignorar o frio e as vozes.
— Você disse alguma coisa? — O velho se virou outra vez. Suas palavras eram quase inaudíveis em meio à tagarelice dos espíritos, que havia recomeçado.
— Estava falando sozinha — Kylie respondeu, rezando para que ele se virasse antes que ela... Uma onda de tontura quase a derrubou. Lutou para permanecer de pé.
Os espíritos tinham se aproximado novamente, cercando-a, e todos falavam ao mesmo tempo. Queriam que ela fizesse algo por eles. Faziam perguntas.
O olhar de Kylie passava de rosto em rosto. Seu coração estava pesado com a tristeza que sentiam. Isso a fez perceber o quanto ela era insignificante – uma só pessoa e tantas almas precisando de auxílio.
A onda de tontura a assaltou novamente, só que mais forte desta vez. Sua cabeça começou a latejar – a dor explodiu atrás dos olhos. Esfregando as mãos nos braços para se proteger do frio, Kylie se abaixou até a grama verde, abraçou as pernas e pousou a testa nos joelhos.
— Não posso fazer isso — ela murmurou.
— Para trás! — Jane Doe disse. — Vocês estão machucando a menina!
Kylie sentiu que o frio começava a ceder, a dor atrás das pálpebras diminuiu, e ela só pôde presumir que Jane Doe tinha falado com os outros espíritos. O nível de ruído baixou quase a ponto de não incomodá-la mais.
— Você está bem? — A voz grave e preocupada de Burnett chegou aos seus ouvidos.
Ela levantou a cabeça e viu que os únicos espíritos que restavam era Jane Doe, a esposa do velho e a mulher mais jovem.
Kylie olhou para Burnett.
— Sim. Estou bem. Ou melhorando — disse ela.
Burnett assentiu e depois se afastou. Kylie olhou para Jane Doe e esperou mais alguns segundos antes de perguntar:
— Não é aqui que você está enterrada?
Jane franziu a testa do seu jeito confuso.
— Eu... não sei.
— Ah, mas como não sabe?! — Exclamou a jovem mulher que, segundo ela mesma tinha dito, chamava-se Catherine. — Claro que você está enterrada aqui. O seu túmulo e sua lápide estão bem ali. Você foi enterrada pelo sistema penitenciário do Texas. Foi condenada à morte por matar seu próprio bebê.

5 comentários:

  1. acho que tem o dedo da upf ai nessa historia do fantasma

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  2. NAO FOI ELA! NAO FOI ELA NAAAAO!!! 😭😞

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