8 de outubro de 2016

Capítulo 18

O tempo pareceu parar enquanto Kylie e Holiday estavam sentadas lado a lado na gruta sob a queda-d’água. A parede de água tornava a luz do dia difusa, filtrando os raios de sol. E, quando fazia isso, a luz era capturada nas gotículas de névoa e dançavam no ar. A água precipitava-se com um rugido baixo e pequenas moléculas de umidade molhavam o rosto delas.
Ocorreu a Kylie que talvez aquela fosse uma boa hora para contar a Holiday sobre sua irmã. Se alguma coisa podia ajudar a conter o choque da notícia, era a magia daquele lugar. Contudo, mesmo com a tranquilidade envolvendo-a, a ideia de dar à amiga essa notícia fez o coração de Kylie se contrair de dor.
Então um frio familiar cortou o ar úmido. Hannah se materializou, em pé sobre uma poça d’água. Seus olhos verdes, brilhantes de lágrimas e cheios de tristeza, fixaram-se em Holiday.
Alheia à presença da irmã, Holiday olhava para a parede de água que caía. Ela esfregou os braços como se estivesse com frio, e, em seguida, virou a cabeça e encontrou os olhos de Kylie.
— Um visitante?
Kylie balançou a cabeça, a garganta ficando mais apertada de emoção, quando ela relanceou os olhos para as lágrimas de Hannah.
Holiday encolheu os ombros.
— Estranho. Eles normalmente não entram aqui.
Ela se deitou sobre a pedra e olhou para o teto da caverna, como se dando espaço a Kylie para conversar com o espírito.
— Ela me odeia — disse Hannah. — E eu não a culpo. O que eu fiz foi imperdoável. — A vergonha inundou os olhos de Hannah de lágrimas.
Kylie quase perguntou a Hannah o que ela tinha feito, mas decidiu deixar o espírito iniciar a conversa. Kylie ficou ali sentada em silêncio, sentindo o frio da morte, que de certo modo se mesclava com a calma da cachoeira.
Ela estudou a expressão carregada de emoção no rosto de Hannah e soube que o espírito tinha conseguido superar a desorientação que a morte provocava, a ponto de se comunicar.
Seu estado parecia ter evoluído o suficiente para ela se lembrar. Será que ela se lembrara do que tinha acontecido um pouco antes de morrer? O nome do assassino, talvez? Mas tudo o que Kylie via no semblante de Hannah era arrependimento.
Observar Hannah levou Kylie de volta à sua própria experiência de quase morte, quando Mario e seus amigos a encurralaram na beira do penhasco. Ela pensou que ia morrer. E teria de fato morrido se Ruivo, o neto de Mario, não tivesse sacrificado a própria vida para salvá-la.
Ela se lembrou do arrependimento que a consumiu quando pensou que era o fim. Provavelmente a mesma emoção que Hannah sentia agora. Mas será que todo mundo não sentia a mesma coisa? Viver, supunha Kylie, significava cometer erros, acumular karma.
Embora Kylie nunca tivesse de fato definido seu trabalho ou dom como comunicação com os mortos, ela presumia que ele incluía recordar os espíritos do bem que tinham feito em vida, além de ajudá-los a se perdoar pelos erros cometidos. Parecia que, durante a vida, passávamos a maior parte do tempo perdoando os outros. Depois da morte, era a nós mesmos que mais precisávamos perdoar.
— Aposto que vocês duas eram próximas — disse Kylie. — Imagino que tenham se divertido muito como irmãs.
Hannah olhou para Kylie.
— De fato. Eu só queria...
Ao ver que Hannah não ia continuar a frase, Kylie perguntou:
— O que eu posso fazer por você? Só quer que eu conte a ela sobre a sua morte? Quer que você e as outras sejam retiradas daquela cova?
— Não mais. — Ela fez uma pausa, como se tentasse se lembrar de algo. — Não vai acontecer de novo. — O sussurro de Hannah ecoou nas paredes de rocha da caverna e o frio de sua presença aumentou.
Kylie abraçou os joelhos.
— O que não vai acontecer de novo?
Hannah se aproximou um pouco mais, parecendo perdida em pensamentos.
— Eu não consigo olhar para ela sem sentir... que eu estava tão errada! Com tanta inveja! Eu tive o que mereci. Eu merecia morrer, mas as outras não. É preciso detê-lo! — Mais lágrimas afloraram em seus olhos. O som de água corrente pontuava a quietude do ar enevoado, acrescentando uma atmosfera fantasmagórica ao lugar. — Ele a quer. — Hannah deu outro passo para a frente. O desespero enchia os seus olhos. — E você tem que impedi-lo.
O olhar de Kylie desviou-se do rosto do espírito e se fixou na água parada da poça, que nem sequer se agitou quando Hannah avançou através dela. O espírito entristecido parou quando ficou bem diante de Holiday, olhando para ela com uma mistura de amor e arrependimento.
Percebendo o que Hannah tinha dito, Kylie perguntou:
— Quem? Impedir quem de fazer o quê?
O telefone de Holiday começou a tocar e Kylie olhou para ela. A líder do acampamento se sentou, com as sobrancelhas franzidas.
— Ok, isso é estranho também. Os celulares não costumam funcionar aqui dentro. — Tirando o telefone do bolso, ela olhou o número na tela.
Kylie viu Holiday prender a respiração ao mesmo tempo que Hannah. O espírito soltou uma exclamação de desespero e disparou para fora da caverna. Seus passos, embora rápidos, eram silenciosos no chão de pedra.
Um pouco antes de o espírito de Hannah atravessar a parede de água, ela olhou para trás, em direção a Holiday, que fitava chocada o número na tela. Então desapareceu, levando com ela todo o frio.
— Quem é? — Kylie perguntou.
Holiday balançou a cabeça.
— É... Blake.
— Quem é Blake? — Kylie perguntou, pressentindo que era uma pista para tudo o que estava acontecendo. Será que era ele que Kylie tinha de impedir que fizesse mal a Holiday?
A vida de Holiday estaria em perigo?
O barulho da cachoeira foi interrompido pelo barulho de alguém se aproximando correndo, através da água. Kylie e Holiday olharam na direção do barulho.
Burnett, que estava de guarda do lado de fora da gruta, entrou através das quedas, com a face crispada de pavor. Suas roupas estavam molhadas e seu cabelo preto, grudado na testa e pingando água no rosto.
— Para onde ela foi? — Ele piscou e então seu olhar se deteve em Holiday. Seus olhos se arregalaram. Ele balançou a cabeça, confuso.
— Você acabou de... sair daqui correndo. Como pode estar aqui?
— O quê? — Holiday perguntou.
Burnett ficou simplesmente parado ali, sua pele ainda mais pálida do que a cor azeitonada normal, olhando para Holiday como se estivesse vendo um fantasma.
Kylie de repente percebeu que era exatamente o que tinha acontecido. Burnett tinha visto Hannah.
Ah, merda, pensou Kylie. Burnett não só podia farejar fantasmas, como também podia vê-los.
— Como eu posso ter saído daqui correndo? — perguntou Holiday novamente, devolvendo o celular ao bolso do jeans. — Você não está dizendo coisa com coisa.
Kylie não sabia o que a levava a agir dessa maneira, mas ela olhou para Burnett e balançou a cabeça, como se dissesse que ele não deveria contar a Holiday o que tinha visto.
Ele abriu a boca e então fechou-a novamente e fitou Kylie. Ela fez que não com a cabeça novamente e percebeu que ele tinha entendido.
Então ele fixou os olhos em Holiday. Ainda parecendo perplexo, ele respondeu:
— Acho que me enganei. Pensei ter ouvido você me chamar.
— Não — respondeu Holiday. — Não chamei.
— Muito bem — ele disse, e num piscar de olhos atravessou a parede de água, saindo da gruta.
Holiday ficou olhando para o ponto onde ele estava um segundo antes.
— Eu sei que você me disse que Burnett voltaria e não é que eu não acreditasse em você, mas ver isso com os meus próprios olhos me deixou pasma. Eu não... eu nunca vi ninguém ser capaz de vir aqui atrás, na gruta, sem ser abençoado.
A mente de Kylie dava voltas, pensando no que dizer, mas então ela se lembrou do telefonema e da angústia no rosto de Hannah quando disparou para fora da caverna. Então teve o pressentimento de quem quer que tivesse ligado para Holiday tinha algo a ver com Hannah e poderia ser a pessoa com quem ela estava preocupada.
— Quem é Blake? — perguntou Kylie novamente.


— Você não tem uma reunião com um dos novos professores? — Burnett perguntou a Holiday quinze minutos depois, quando chegaram à clareira, na volta da cachoeira. — Por que não vai para o escritório enquanto eu levo Kylie até a cabana?
Kylie olhou para Burnett e percebeu suas intenções. Ele queria ficar sozinho com ela para que pudesse perguntar sobre o que tinha acontecido na cachoeira. Ela podia dizer, pelo silêncio dele e pela cor dos seus olhos, que o interrogatório não seria fácil.
— Eu ainda tenho meia hora, caso você tenha outra coisa para fazer. — Holiday estudou Burnett com uma curiosidade explícita, provavelmente confusa com a mudança do tom dos seus olhos. No caminho de volta, ela tinha perguntado sobre a capacidade dele de entrar na cachoeira. Ele tinha dado de ombros e dito que nunca pensara muito naquilo.
Que tremenda mentira! Ele obviamente tinha pensado muito naquilo. E tinha percorrido todo o caminho de volta pensando naquilo também, pois não tinha pronunciado uma palavra durante todo o percurso. Com todos em silêncio enquanto atravessavam o bosque, Kylie teve tempo para pensar e se preocupar. Tentando desvendar o mistério de Blake a cada passo, ela remoeu tanto o que acontecera que mordeu o lábio inferior até machucá-lo.
Quando perguntou sobre o telefonema que recebera na gruta, Holiday se esquivou de dizer a verdade, sendo vaga:
— Alguém que eu conheci.
A resposta não esclareceu nada a Kylie. Ela se sentiu tentada a despejar sobre Holiday uma lista de perguntas.
Blake também conheceu a sua irmã gêmea, de cuja existência eu supostamente não deveria saber? Você acha que Blake pode ter feito algo para a sua irmã, tipo matá-la? Eu preciso contar a Burnett sobre Blake, só para o caso de ele ser a pessoa que eu preciso impedir de fazer mal a você?
Oh, sim, Kylie tinha muito com que se preocupar, incluindo o interrogatório que Burnett pretendia fazer.
— Não, tudo bem — respondeu Burnett a Holiday. — Eu levo Kylie até a cabana. Você vai relaxar.
Holiday fez uma cara preocupada, como se não estivesse nem um pouco disposta a relaxar, e olhou para Kylie como se a garota soubesse por que o vampiro estava agindo de modo tão estranho. Kylie deu de ombros.
— Ok — conformou-se Holiday, pegando a trilha do escritório.
Kylie começou a percorrer o caminho até a sua cabana e apostou consigo mesma quanto tempo demoraria ainda para Burnett começar a crivá-la de perguntas. Um minuto? Dois?
— Comece a falar! — Burnett não demorou mais do que vinte segundos.
Ok, talvez ela tivesse superestimado a paciência dele.
Ele parou de andar e olhou para ela, no rosto uma carranca.
— Quem era aquela, na cachoeira, que se parecia com Holiday? Você usou seus poderes de bruxa para fazer aquilo?
Kylie hesitou, insegura quanto ao que responder. Ela se lembrou de como se sentira quando constatou que passaria o resto da vida falando com pessoas mortas.
— Eu não fiz nada.
— Então quem era? — ele perguntou, autoritário. — E por que você preferiu esconder isso de Holiday? — Ao ver que ela demorava a responder, ele acrescentou. — Agora, Kylie! Eu quero respostas. E não esqueça que eu sei quando está mentindo.
Ela deu um suspiro. Entendia a frustração dele, mas...
— É a irmã gêmea de Holiday.
Ele arqueou as sobrancelhas, numa expressão perplexa.
— Holiday tem uma irmã gêmea?
Kylie confirmou com a cabeça.
Burnett desviou o olhar por um segundo, então voltou a encará-la.
— Por que ela nunca mencionou isso? — Ele correu a palma da mão pelo rosto, expressando frustração e desapontamento. Então chegou à sua própria conclusão. — Porque ela não tem confiança nenhuma em mim.
Seu olhar voltou a fitar Kylie.
— Mas, espere aí. Como a irmã dela pode ter entrado no acampamento sem disparar os alarmes? Eu chequei meu telefone quando saí da gruta. Os alarmes não tinham disparado e não havia neblina para encobrir alguém que quisesse burlar o sistema.
— Ela não burlou o sistema. Ela... — Não havia um jeito fácil de dizer aquilo, mas ela fez uma pausa, tentando encontrar as palavras certas.
— É a única alternativa — Burnett continuou. — O que mais poderia...
— Ela está morta — disse Kylie, sentindo, no semblante carregado do vampiro, a pressão para que respondesse. — A irmã de Holiday é um fantasma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!