14 de outubro de 2016

Capítulo 18

— Ok, em primeiro lugar na agenda... — disse Chris, o vampiro líder, na manhã seguinte, ao se preparar para anunciar os parceiros da Hora do Encontro, na qual os campistas eram separados em pares, apenas para promover a harmonia entre as espécies. Chris segurou a sua cartola em frente a ele, como se quisesse acrescentar mais dramaticidade ao momento.
Kylie estava em pé, entre Della e Miranda, e de braço dado com Miranda estava Perry. Mais cedo, Miranda tinha flagrado Nikki, a metamorfa que dava em cima de Perry, acenando para ele, e desde então a bruxinha não saía da cola de Perry.
Kylie também tinha visto o dedo mindinho de Miranda em ação. Se Nikki soubesse o que era bom para ela, desistiria de Perry. Kylie não acreditava que Miranda faria algo realmente terrível, além de causar espinhas, é claro, mas considerando que Socks tinha passado meses no corpo de um gambá, qualquer magia de Miranda podia acabar se tornando acidentalmente uma tragédia.
Kylie olhou ao redor, procurando não uma pessoa, mas uma certa espada. Ela não tinha aparecido na noite passada. O que fora um alívio. Talvez apenas um feliz acaso. Ela realmente não acreditava em acasos, mas queria que fosse.
— Ok — disse Chris —, vamos ver quem vai primeiro — continuou ele.
Parafraseando Chris: Vamos ver quem paga em sangue para passar uma hora com alguém. Um dia, Kylie considerou a coisa toda estranha, mas agora ela entendia que essa era apenas uma maneira de fornecer sangue, a principal nutrição dos vampiros. Eles precisavam de sangue e esta era apenas uma forma de fazer com que as pessoas doassem meio litro.
Ainda era embaraçoso ser uma pessoa por quem alguém pagou sangue para passar uma hora.
E, caramba!, o olhar de Chris colidiu diretamente com Kylie.
Outra vez, não!
Ah, mas que ótimo! Quem tinha sido dessa vez? Ela olhou ao redor para ver se via Derek ou Lucas. Ambos estavam em lados opostos da multidão, um observando o outro com um olhar de acusação. Certo... então, se não tinha sido nenhum dos dois, quem era?
— Eu teria cuidado, Kylie — disse Chris. — Estou começando a pensar que Fredericka sente alguma coisa por você...
Kylie por acaso estava olhando para Lucas quando Chris fez o anúncio. O choque enrijeceu o semblante do lobisomem, seguido por um olhar feroz de proteção. Os olhos dele percorreram a multidão aparentemente procurando Fredericka. Quando seu olhar a localizou do outro lado do círculo, a cara feia de Lucas se aprofundou.
A menina fez uma careta em resposta e começou a caminhar em direção a Kylie. Caminhava com um senso de propósito.
Kylie ouviu o rosnado de Lucas e observou-o caminhar até ela com o mesmo senso de propósito. Que beleza! Agora, ela tinha dois lobisomens furiosos caminhando em sua direção.
— Você quer que eu faça alguma coisa a respeito? — perguntou Della.
— Não — disse Kylie.
— Você quer que eu mostre a bunda outra vez, na frente de todo mundo? — perguntou Perry.
— Não — respondeu Kylie e, apenas para se assegurar, afastou-se vários metros dos amigos para que ninguém se sentisse tentado a começar uma briga ou arriar as calças.
Os dois lobisomens chegaram ao mesmo tempo. Um pela esquerda de Kylie, o outro pela direita.
— Você não tem que fazer isso — Lucas sibilou, obviamente falando com Kylie. — Eu vou pagar pelo sangue dela. Mas você também não tem que ir comigo.
Kylie desviou o olhar de Lucas e fitou Fredericka.
A mágoa brilhava nos olhos da loba.
— Se Kylie não quiser ir, não precisa. E eu ainda vou pagar com o meu sangue. Não preciso que você me pague.
— Tudo bem — Kylie murmurou, sentindo os olhares ávidos de todo o mundo ao redor. Um leve formigamento correu pelas suas pernas e pulsou em seus joelhos. Seu coração deu um salto quando ela reconheceu seu impulso de ficar invisível. Ela se concentrou muito para conseguir refreá-lo. A última coisa que queria era desaparecer diante dos olhos de todos os outros campistas e tornar-se uma aberração ainda maior.
Lucas rosnou para Fredericka:
— Se encostar um dedo nela, você está fora da alcateia. Já cansei de inventar desculpas para você.
As emoções de Kylie oscilavam entre um e outro. Ela sentia pena de Fredericka, por ter que enfrentar a ira de Lucas. Pena dela por ver a lealdade de Lucas por Kylie e não por ela própria – alguém da sua mesma espécie. Ter que enfrentar isso em público era muito duro para a sua alma de lobisomem. Mais difícil ainda porque ela amava Lucas.
Mas a compaixão por Fredericka não era tudo que Kylie sentia. Sentia-se... chocada. Essa era a primeira vez que ele ficava ao lado dela e contra a sua própria espécie. Ah, ele tinha dito milhares de vezes que faria isso, mas nunca suas ações haviam provado. Não até agora. Essa constatação tinha um sabor agridoce. Ela não queria se sentir amada por ele depois de traída. Não queria se sentir culpada por ele estar sofrendo.
Mas ela se sentia.
A culpa, essa emoção tão amarga, aumentou dentro dela e fez seu peito ficar pesado. Mas por quê? Era culpa de alguém quando não se conseguia perdoar uma pessoa por um erro cometido?
Ele olhou-a de novo, a dor visível em seus olhos azul-escuros, e em seguida começou a se afastar, deixando-a em meio a uma nuvem de dor e a consciência de que, mais uma vez, todos os alunos estavam a par da sua vida particular.
Fredericka observou-o se afastar e depois olhou para ela. Kylie viu um véu obscurecer as emoções da moça enquanto ela tentava esconder a própria dor. Ela engoliu em seco, como se estivesse tentando desfazer um nó doloroso, então baixou a cabeça e falou.
— Eu disse a ele que tinha feito as pazes com você, mas ele não acreditou em mim.
Kylie anuiu, e sentiu que Fredericka estava tão desconfortável quanto ela por servir de entretenimento para os outros alunos, então, começou a andar. Fredericka seguiu-a.
Quando os outros já não podiam mais ouvi-las, Fredericka disse:
— Aonde você quer ir?
— Tanto faz — disse Kylie.
Kylie ouviu asas batendo acima delas e lembrou que Perry era sua sombra.
— Nós vamos ter companhia — disse Kylie. — A minha sombra. — Ela apontou para cima.
— É, eu percebi — disse Fredericka. — Você acha que ele pode nos ouvir lá de cima?
— Quem sabe? — disse Kylie. — Eu não sei como é a audição de um pássaro pré-histórico.
— Então vamos fingir que ele não pode ouvir — disse Fredericka.
— Tudo bem. — E a pergunta que não queria calar transbordou em seu peito. — Lucas sabe que foi você quem me contou?
— Sim, ele sabe. — Fredericka hesitou. — Ele acha que eu contei a você para que brigassem.
Kylie se lembrou de Fredericka negando isso uma vez antes, mas...
— E ele está certo?
A mágoa brilhou nos olhos dela.
— Você também não acredita em mim? — Ela deu alguns passos sem falar. — Eu não sou burra. Eu sabia que, se o impedisse de noivar com Monique, ele voltaria para você para sempre.
— Mas você também admitiu que o ama e que já tentou nos separar antes.
— E finalmente me dei conta de quanto estava sendo patética. Ele não me ama. Ele ama você. Sempre foi e sempre será assim. Foi um remédio amargo, mas eu engoli.
Kylie inspirou e percebeu que acreditava na garota.
— Ok, então por que você pagou com sangue para me ver de novo?
— Por duas razões — disse a loba.
— E quais são? — perguntou Kylie.
— Ouvi dizer que você é boa em... dar às pessoas conselhos sobre relacionamentos.
Kylie fitou a garota, boquiaberta.
— Você quer conselhos sobre como ter Lucas de volta?
Fredericka fez uma cara engraçada.
— Não! Eu te disse, eu já saí dessa.
Kylie se lembrou do que Miranda tinha lhe contado.
— Por favor, me diga que não é o novo professor, o senhor Cannon.
Fredericka pareceu chocada.
— Como é que você sabe sobre mim e Cary?
Cary? Então, eles já estão chamando um ao outro pelo primeiro nome?
— Há boatos de que você está a fim dele.
A loba franziu a testa.
— Eu não achava que fosse... tão óbvio.
— Bem, achou errado. E deixe-me dizer uma coisa, não é uma boa ideia. Ele é seu professor.
— Ele tem 20 anos. É um garoto genial que terminou a faculdade com 19 anos. E eu vou fazer 18 no próximo mês. Não temos nem dois anos de diferença.
Kylie podia ouvir as asas de Perry batendo ao sabor da brisa. Ela desviou os olhos e, pelo bem de Fredericka, esperou que ele não estivesse ouvindo.
— Tudo bem, não é por causa da idade. É porque ele é seu professor.
— Eu não vejo qual é a importância disso.
Kylie soltou um suspiro.
— É importante se ele não quer ser feito em pedacinhos. Burnett já ameaçou mandar Hayden Yates embora por muito menos do que isso quando...
— Você e o senhor Yates tinham um caso? — Os olhos de Fredericka se arregalaram. — Eu pensei que você amasse...
— Não! Burnett pensou que estávamos tendo um caso.
— Por que ele achou isso? — Fredericka fez outra cara engraçada.
Kylie percebeu que ela não deveria ter tocado no assunto.
— É uma longa história. A questão é que Burnett ficará muito aborrecido se esse novo professor der em cima de você.
— Por que você não deixa que eu me preocupe com Burnett e Cary e simplesmente me diz como... faço isso dar certo entre nós, do mesmo jeito que já disse para outras pessoas?
Kylie suspirou.
— Por que todo mundo fica dizendo que eu sou uma boa conselheira? Você não vê que os meus próprios relacionamentos são um desastre? Se eu fosse boa nisso, acha que eu estaria nessa confusão em que estou agora?
Fredericka deu de ombros.
— Mas todo mundo que procurou você com problemas diz que você consertou as coisas. Perry e aquela sua amiguinha bruxa. Helen e Jonathon. Burnett e Holiday.
— Como você sabe que eles não teriam consertado as coisas por si mesmos?
Fredericka franziu a testa.
— Todos elogiam você.
Kylie balançou a cabeça.
— Olha, eu não acho que você e o professor seja uma boa ideia.
— Então você não vai me ajudar? — perguntou Fredericka. — Mesmo depois de eu tê-la ajudado com Lucas e o poupado de ter que passar a vida com alguém que ele não amava?
Kylie exalou o ar.
— Ok, aqui vai meu conselho. Vá falar com Holiday, conte a ela sobre seus sentimentos e...
— Ela vai dizer que não! Ela nem gosta de mim.
— Ah, está enganada, ela gosta, sim. Com todos os problemas que você causou, ela teria chutado sua bunda há muito tempo se não gostasse. E se você está preocupada com a possibilidade de ela não concordar, por que não começa dizendo que você gosta de alguém apenas dois anos mais velho e vê o que ela diz, antes de contar quem é. Leve-a a dizer que não é uma coisa tão ruim assim e, em seguida, solte a bomba sobre ele ser um professor.
— Você realmente acha que ela vai me ouvir?
— Vai ouvir, sim. Se ela vai dizer ou não para você não fazer isso, é outra história. Mas ela é a pessoa mais justa que eu conheço.
— Ok. — Fredericka parecia estar pensando. — Agora, o que dizer a Cary? Como posso fazê-lo...?
— Prestar atenção em você?
— Não, prestar atenção ele já prestou. Eu sei que ele está atraído por mim, só que está colocando obstáculos, provavelmente pela mesma razão que você. Ele é professor e eu sou sua aluna.
— Então por que não diz a ele que você entende que isso é difícil, mas realmente gosta dele, e que pelo menos gostaria que fossem amigos até...
— Eu não quero que sejamos apenas amigos.
— Tudo bem, mas vocês começam sendo amigos e, quando você tiver sinal verde de Holiday, então vocês dois podem... correr pela floresta e deixar as coisas ficarem mais quentes... ou fazer o que vocês quiserem. Você não vai ficar na escola por mais de nove meses. Assim, o pior que pode acontecer é vocês travarem uma amizade e depois levá-la ao próximo nível quando você estiver fora da escola.
Ela começou a balançar a cabeça como se concordasse com Kylie.
— Droga, eu esperei dois anos por Lucas, poderia facilmente esperar nove meses pelo Cary, se fosse preciso. — Ela sorriu. — Viu? Você é mesmo boa nisso. Obrigada — disse Fredericka com sinceridade.
— Bom, vamos voltar? Eu acho que Perry está ficando impaciente.
— Não, há outra coisa.
— Que coisa? — perguntou Kylie.
— Você precisa perdoar Lucas.
— Olha, você pediu meu conselho, eu não pedi o seu. — Ela começou a se mover mais rápido até a trilha que levava à sua cabana. Uma corrida rápida e agradável.
Fredericka acompanhou seu ritmo, passo a passo.
— Ele ama você. Você não entendeu por que ele desistiu de ficar noivo? Desistiu de tanta coisa por você! Talvez até da sua própria alcateia.
Kylie deu uma parada abrupta e enfrentou a loba.
— Por que você me contou isso? Por que não o deixou ficar noivo? Que maldição! Ele não deveria ter feito isso! — E logo em seguida, Kylie aceitou que essa era parte da sua angústia com relação a Lucas. Ela não queria admitir isso. Ela nem sequer se permitia realmente olhar isso a fundo. Mas ela estava lá, a verdade, logo abaixo de toda a traição que sentia. Lucas tinha renunciado a tudo por ela. Seus sonhos. Suas buscas. Mesmo que ela o perdoasse, mais cedo ou mais tarde, ele iria odiá-la por isso.
— Por quê? — Fredericka jogou a pergunta de volta para ela. — Porque, sua tonta, se tivesse ido até o fim, ele teria perdido você. E acredite ou não, você é mais importante para ele do que entrar para o Conselho. É você o que mais importa para ele.


Kylie chegou um pouco tarde para a primeira aula, com Perry logo atrás dela. Ela se sentou na cadeira vazia em frente a Della. Colocou seu livro sobre a carteira e abriu-o, fingindo ler.
Ela sentiu os olhos de Lucas sobre ela. E o ignorou. Ou tentou. Seu coração disparou no segundo em que percebeu o olhar de Lucas sobre ela.
Ela tinha muito em que pensar. Mas, caramba!, ainda estava tão confusa! E com muita raiva dele.
Mas ainda tão apaixonada por ele que mal conseguia respirar.
— Senhorita Galen, é muito bom tê-la de volta com a gente — disse a professora.
Senhorita Galen? Kylie ergueu os olhos, mas não falou nada. Só acenou com a cabeça em agradecimento. Ela esperava que a professora se contentasse com isso. Voltou a se concentrar na página do livro de inglês, pois não queria olhar ninguém nos olhos. Nem Derek, que estava sentado a três lugares de distância dela e a estudava com um ar de preocupação, porque podia captar seu estado emocional.
Então, ela sentiu Della inclinar-se atrás dela.
— O que há de errado? — a vampira sussurrou. — Eu preciso morder alguma bunda de loba depois da aula?
— Não.
— Seu rosto está todo manchado. E isso significa que estava chorando. O que está acontecendo?
— Alergia — Kylie murmurou, e desejou não ter vindo à aula. Seria tarde demais? Tarde demais para simplesmente se levantar e sair?
— Você devia saber que não consegue mentir para mim — Della sussurrou.
Kylie apertou o maxilar e sussurrou de volta:
— E você devia saber que é melhor parar de fazer perguntas que me obrigam a mentir!
— Tudo bem — disse Della. — Vamos fazer de conta que essa conversa está fazendo a senhorita Galen ficar muito irritada.

4 comentários:

  1. Sério...eu não queria mais que ela ficasse com o Lucas, mas pelo que estou vendo não tem mais jeito!!!

    ResponderExcluir
  2. Lucas idiota e Kylie odiota. Par perfeito,se merecem.

    ResponderExcluir
  3. Aff! Que ódio! Eu não quero ela com o Lusca... alguém faz ele noivar com a menina lá, por favor... pra ela se tocar que gosta do Derek de vdd?

    ResponderExcluir
  4. Já me conformei desde o começo do livro
    é o Lucas

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!