4 de outubro de 2016

Capítulo 18

— Droga! Ela não está respirando! — Uma voz masculina familiar soou bem perto dos ouvidos de Kylie e ela queria muito poder responder. Tentou se mexer, mas não conseguiu. Ainda se sentia paralisada.
Me ajudem. Por favor...
— Ela já fez isso antes. — Agora era Della falando, e o pânico era evidente em sua voz. Della nunca tinha mostrado pânico ou medo. Pelo contrário, aquela vampira não sabia o que era medo.
— Kylie, acorde! — ordenou a grave voz masculina, e desta vez Kylie percebeu que ela pertencia a Lucas.
De repente, os pulmões de Kylie se abriram e lutaram para respirar. Ela abriu a boca, engasgou e começou a tossir, como se seus pulmões rejeitassem o oxigênio. Virando o corpo de lado, ela continuou a tossir, com a impressão de que seus pulmões iam explodir. Finalmente, abriu os olhos e percebeu que estava no chão da cozinha de sua cabana.
Depois de alguns segundos, a tosse cessou e ela se concentrou na respiração. Alguém a ergueu do chão, puxou-a para o seu colo e segurou-a nos braços. Uma sensação de calor a cercou. Ele estava quente. Muito quente. E ela estava fria. Muito fria.
Kylie focalizou o rosto da pessoa que a segurava com tanta ternura. Tão próxima a ela. Tão quente. E seus olhos eram azuis. Lucas.
Então o rosto dele desapareceu num borrão e ela viu o rosto de uma mulher estranha se aproximando. A sensação dos braços de Lucas ao seu redor parecia uma lembrança cada vez mais longínqua no tempo.
— Ela parou de respirar de novo! — Lucas gritou, e começou a sacudi-la. — O que eu faço? Alguém me diga o que fazer!
— Holiday disse que ela vai ficar bem. — Kylie reconheceu a voz de Burnett, mas ela parecia estar vindo de outro lugar, de algum lugar distante, muito distante. — Ela acha que Kylie está, provavelmente, tendo uma visão. Que às vezes... — Então a voz diminuiu de volume e se desvaneceu.
A visão puxou-a de volta e agora ela observava com horror um grupo de mulheres levando alguma coisa até o seu rosto. Só que agora não era mais o rosto dela. Kylie estava vivenciando a vida de Jane Doe, mas era tudo tão real que parecia estar acontecendo com ela mesma.
Ela sentiu uma toalha grossa sendo forçada contra sua boca. Ela ofegou, tentou se mexer, mas não conseguiu. Ela, Jane Doe, estava paralisada, e alguém tentava sufocá-la.
Um sentimento de indignação provocou um bolo em sua garganta, enquanto seus pulmões imploravam por ar. Tudo ficou escuro e então ela viu o espírito de pé diante dela. Jane Doe se inclinou, os lábios azuis gelados.
— Eles me mataram. Eles me mataram de verdade — disse ela. — Mas você precisa respirar. Você precisa viver.
Os pulmões de Kylie gritavam por oxigênio, mas ela se sentia incapaz de sorver o ar de que precisava. Então se deu conta de que estava de volta à sua cozinha.
Kylie ouviu Miranda entoando um feitiço à distância. Ouviu Della murmurando que Lucas devia fazer uma respiração boca a boca. E Burnett continuava fazendo perguntas a Holiday pelo telefone.
— Respira, droga! — Lucas gritou.
Ela pressionou a testa contra o peito nu de Lucas e sentiu uma grande lufada de oxigênio em sua garganta. Lágrimas umedeceram seus olhos, e ela chorou pela vida tomada de maneira tão brutal. Chorou pela mulher cujo nome ela nem sabia. Chorou pela mulher que, além de perder a vida, tinha perdido o filho. Como podia haver tamanha injustiça?
— Ela está respirando de novo! — disse Lucas, que a apertava e embalava nos braços. — E está chorando. — Ele baixou a cabeça. — Psiu... — ele sussurrou de modo que só ela ouvisse. E então disse para os outros: — vou levá-la para a cama. Ela está gelada...
Kylie sentiu que estava sendo suspensa nos braços de Lucas. Recordou vagamente que ele a carregara para a cama naquela noite, semanas atrás, quando ela tivera a visão de Daniel, e por alguma razão, sentiu que de fato era ele que devia estar ali naquele momento. Pareceu a coisa certa quando ele a baixou na cama e, em seguida, deitou-se ao lado dela e segurou-a contra o peito, com os braços em torno do seu corpo. Cansada demais, emocionalmente exausta demais para falar qualquer coisa, sentiu-se especialmente bem quando adormeceu com a cabeça em seu peito quente.
Infelizmente, quando ela acordou um pouco mais tarde, ainda nos braços de Lucas, ele, Burnett, Miranda e Della a encaravam em estado de choque e com ar de profunda preocupação. E Kylie se sentiu um pouco como se tivesse sido flagrada beijando um garoto na boca em público. Foi um tanto incômodo.
Ela se afastou do peito dele, tirou o cabelo do rosto e olhou para todos os seus espectadores, que a encaravam como se sua cabeça de repente pudesse começar a girar 360 graus ou coisa assim. Será que eles não percebiam que, aos olhos daqueles que não as têm, suas próprias habilidades e poderes eram tão estranhos quanto essa possibilidade?
As palavras “Você está bem?” e algumas variações da mesma pergunta partiram das quatro pessoas.
Kylie assentiu com a cabeça.
— Estou bem.
— Ela está acordada e diz que está bem — disse Burnett ao celular. — Sim, peço pra ela te ligar assim que puder.
Kylie lembrou-se de que Burnett falava com Holiday.
— Sinto muito — ela disse. Não tinha certeza de por que sentia a necessidade de se desculpar. O que aconteceu não tinha sido culpa dela. No entanto, ainda não sabia exatamente o que tinha acontecido, além da visão da morte de Jane Doe. Mesmo assim, supunha que fosse uma boa ideia se desculpar por dar um susto em todos no meio da noite.
Kylie olhou para Burnett.
— Como você... Por que você...? — O constrangimento causou nela um aperto na boca do estômago. — Eu estava gritando tão alto que acordei todo o acampamento ou algo assim?
— Não. Você quase não gritou — explicou Della. — Acordei com você vagando pela cozinha, resmungando e, bem, gritando um pouco. Quando fui ver se estava bem, você estava, tipo, totalmente fora de si. Quer dizer, as luzes estavam acesas, mas não havia ninguém em casa, se é que me entende. Você não estava aqui.
— É — confirmou Miranda, entrando na conversa. — E eu acordei com Lucas tentando derrubar a porta e dizendo que tinha de ver como você estava. — Miranda olhou para Lucas. — Como você sabia que ela estava tendo outro daqueles sonhos?
Lucas não respondeu e Kylie se lembrou de que ela estava em meio a um sonho lúcido com ele quando a visão começou. Será que ele tinha visto também? Se tinha corrido para a sua cabana, era possível que sim.
— Eu... Hã...
Kylie percebeu que Lucas não tinha contado nada sobre o sonho lúcido porque sabia que ela provavelmente não ia gostar que todo mundo soubesse.
— Não foi um sonho — Kylie respondeu, na esperança de desviar a atenção que dedicavam a Lucas. — Foi uma visão.
— Foi o que Holiday disse — falou Burnett, sentado numa cadeira ao lado da cama. Quando Kylie olhou para ele, o vampiro acrescentou: — eu estava andando pelo acampamento quando ouvi o tumulto e vim correndo.
Kylie acenou com a cabeça e olhou para o relógio na mesinha de cabeceira. Eram quase três da manhã.
— Vocês deviam estar todos na cama, dormindo. É melhor irem.
— Tem certeza de que está bem? — Burnett perguntou.
— Tenho — respondeu Kylie, e era verdade. Pelo menos ela achava que era, mas precisava descobrir o significado da visão sem uma plateia observando-a.
— Holiday quer que você ligue pra ela.
— Vou ligar — disse Kylie. As palavras arranharam sua garganta seca.
Burnett balançou a cabeça e acenou para que Lucas o seguisse. Mas este continuou sentado no canto da cama.
— Eu quero falar com ela só um instante — ele disse.
Burnett olhou para Kylie e, quando ela concordou com a cabeça, avisou:
— Seja breve.
— Você precisa da gente? — Miranda perguntou, com um bocejo.
— Não, vocês duas podem ir pra cama. Eu estou bem. Obrigada. — Kylie acompanhou Miranda e Della com os olhos enquanto saíam do quarto e então olhou para Lucas. Ele estava com o semblante carregado, a testa franzida e os olhos azuis cheios de todo tipo de preocupação.
Ele se inclinou um pouco e falou baixo.
— Você tem certeza de que está bem? Aquilo foi bem estranho.
— Você viu também? — perguntou ela.
— Eu vi você sendo puxada por dois sujeitos. Mas então, de repente, não era você. Era outra mulher. E foi como se você tivesse desaparecido numa nuvem. Eu acordei assustado e corri pra cá para ter certeza de que estava bem. Quando cheguei à varanda, ouvi você andando aqui dentro e acho que perdi a cabeça. — O medo se estampou em seu rosto. — Essas visões de fantasmas acontecem o tempo todo?
Ela se perguntou se ele sabia que a ideia de ele se transformar num lobo também a apavorava.
— Não. Não o tempo todo.
— Você sabe o que são essas visões? Por que acontecem?
Kylie hesitou.
— É a maneira que os espíritos têm de me mostrar o que aconteceu a eles.
— Os espíritos que estão te assombrando? — Ele a fitou mortificado, depois olhou em volta como se pensasse que os fantasmas estavam ali.
— É. Mas, relaxa. Ela não está aqui agora. — Kylie se ajeitou sobre os travesseiros. E então acrescentou: — Não é tão ruim quanto parece. — Se lembrou de como se sentiu impotente durante a visão. Lembrou-se da terrível sensação de estar sendo sufocada até a morte e seu coração se apertou pelo fantasma. Tudo bem, talvez fosse tão ruim quanto parecia, mas se ela pudesse ajudar o espírito a ficar em paz, então teria valido a pena.
O telefone de Kylie tocou. Ela se surpreendeu até se lembrar de que deveria ter ligado para Holiday.
— Eu devia... Provavelmente é Holiday — disse ela.
Lucas se inclinou e deu em Kylie um beijo rápido na bochecha.
— Me ligue se precisar.
Ela observou Lucas sair pela porta e pegou o telefone. Não verificou o identificador de chamadas. Tinha certeza de que era Holiday. Quem mais ligaria para ela às três da manhã? Mas estava enganada.
— Está tudo bem? — A voz de Derek chegou aos seus ouvidos e a imagem dele sem camisa, deitado na cama, com as cobertas abaixo da cintura, dominou sua mente.
Seu rosto enrubesceu.
— Está. Como você... soube?
— Você veio até mim — disse ele. — Num sonho.
— Fui...? — ela gaguejou, mordeu o lábio e olhou para baixo. Será que tinha voltado ao quarto de Derek e não sabia disso?
Kylie viu Socks sair rastejando de debaixo da cama e pular no colchão, para ficar ao lado dela. Sem dúvida, o gambazinho tinha medo de Lucas.
— Você esteve aqui só por um instante e depois foi embora.
Ela se sentiu um pouco mais aliviada.
— Ah, é. Eu percebi o que estava acontecendo. Não tinha a intenção de incomodar você.
— Não teria sido incômodo nenhum — disse ele, parecendo desapontado. — Pensei que talvez você tivesse me procurado porque precisasse de alguma coisa.
— Não. Eu ainda estou aprendendo como funciona essa coisa de sonho lúcido. Eu acordei... aí.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Então você não precisa de nada?
— Não. Estou bem. — Ela fechou os olhos e tentou não deixar que a preocupação na voz dele a levasse a querer coisas que não podia ter. Ele estava com Ellie agora. Ou talvez não. Mas não importava. O que importava era que Derek tinha terminado o relacionamento entre os dois. E não tinha nem sequer tentado resolver o que tornava tão difícil para ele estar com ela.
E Kylie tinha seguido em frente. Estava com Lucas, não namorando firme, mas praticamente. E ele estava ao lado dela. Queria estar ali.
— Ok, eu apenas... queria saber como você estava. Eu me importo com você, Kylie. — Ele baixou a voz, e por um momento pareceu o mesmo Derek de antes. O Derek que se preocupava com ela. O Derek que teria feito qualquer coisa para vê-la bem. — Você sabe disso, não sabe?
Ela engoliu em seco antes de responder.
— Sim — disse com sinceridade. — Eu me importo com você também. — E então se forçou a perguntar: — E como está Ellie?
Derek ficou em silêncio por um segundo, como se soubesse o que Kylie queria dizer com a pergunta. Que agora eles eram apenas amigos.
— Está bem. Se adaptando.
— Bom — respondeu ela. — Eu a conheci há alguns dias. Ela parece simpática. — E muito bonita. Kylie mordeu o lábio.
— Ela é legal — disse ele.
— É. Bem, estou feliz por vocês. — Kylie sabia que aquilo não era bem verdade, mas queria que fosse, e por isso não se sentia tão mentirosa.
— Eu já disse que não estamos juntos — Derek insistiu, parecendo frustrado.
— É — respondeu Kylie, e ao ver que ele não dizia mais nada, decidiu fazer a coisa certa. — Eu preciso desligar. Tenho que ligar pra Holiday.
— Tudo bem — disse ele.
Kylie desligou e tentou afastar a melancolia que o telefonema lhe causou. Realmente precisava ligar para Holiday e depois descobrir o que o fantasma quis dizer a ela com a visão.
Mesmo estando com o sono atrasado, Kylie ligou para a mãe logo cedo na manhã seguinte. Tinha que saber como fora o encontro.
— E então? — Kylie deitou de costas na cama.
— Então, o quê? — A voz sonolenta da mãe denunciava que ela ainda estava na cama.
— Foi um almoço de negócios ou um encontro na hora do almoço?
— Ah, foi... — A pausa revelou mais do que a mãe provavelmente queria contar. — Foi divertido.
— Como assim, divertido? — Kylie procurou não demonstrar suas emoções na voz enquanto apertava os lençóis entre os dedos.
— Só divertido. Eu me diverti, nada demais. Não estou querendo dizer... Não é como se... Olha, querida, foram momentos agradáveis, mas eu não sei muito bem se vai dar em alguma coisa...
— Ele não te convidou pra sair de novo? — Kylie acariciou Socks, que tinha saltado sobre a cama para ganhar atenção.
— Disse que ia ligar. Mas você sabe que os homens sempre dizem isso. E nunca ligam.
Kylie apertou o telefone.
— Se ele ligar, você vai sair com ele?
— Não sei — disse a mãe. — Ah, alguém está tocando a campainha. É melhor eu correr. — A linha ficou muda.
Kylie suspirou. Ela tinha uma leve suspeita de que ninguém havia tocado a campainha. Sua mãe não queria falar sobre o assunto. Mas Kylie não a culpava.
Segundos se passaram e ela permaneceu no mesmo lugar. Apenas ficou ali, estendida na cama, olhando para o teto. Sentimentos conflitantes oprimiam seu peito. Será que isso queria dizer que a mãe e o padrasto nunca mais voltariam a ficar juntos?
Depois de um banho rápido, Kylie saiu do banheiro enrolada numa toalha e encontrou Miranda no corredor, como se esperando por ela.
— O que foi? — Kylie perguntou.
— Eu sou a sua sombra — a bruxinha anunciou, orgulhosa.
— Eu pensei que fosse Della...
— Você acha que não sou capaz de proteger você? — Ela estendeu o dedo mindinho. — Eu tenho poderes, garotinha!
De fato, Kylie tinha suas dúvidas sobre a capacidade de Miranda para protegê-la, mas não ousaria dizer isso.
— Não, só me lembrei de Burnett dizendo que seria Della esta manhã.
— Ela foi à cerimônia do nascer do Sol e eu fui incumbida de levar você até o escritório, onde Della vai nos encontrar em cerca de... cinco minutos. Então vamos indo.
Kylie olhou para a toalha.
— Posso me vestir primeiro?
— Estou vendo que alguém aqui não gosta muito de acordar cedo... — Miranda fez uma cara engraçada, e Kylie correu para o quarto para se vestir.
Poucos minutos depois, elas saíram da cabana. Miranda virou-se para a porta da frente, fez um gesto com os braços e entoou um encantamento. Da última vez que tinha feito isso fora porque pressentira visitantes indesejados que, descobriram mais tarde, eram Mario e o Ruivo rondando o acampamento e espionando Kylie.
— O que está fazendo? — Kylie perguntou. — Está sentindo alguém por aqui de novo?
Miranda fez uma careta.
— Um pouquinho — disse, aproximando o polegar e o indicador para mostrar o quanto.
— Um pouquinho? — perguntou Kylie, com uma ponta de contrariedade. — Como você pode sentir alguém presente “só um pouquinho”? Quer dizer, ou eles estão aqui ou não estão, certo?
— Ei, não pega no meu pé — avisou Miranda. — Só tive uma sensação e achei que não faria mal fazer um feitiço de proteção.
— Você contou a Burnett? — Kylie perguntou.
— Eu ia contar, mas estou com um pouco de medo de falar com ele sozinha depois do que aconteceu... — Ela corou. — Você sabe.
A lembrança de Burnett na pele de um canguru, saltando de um lado para o outro no refeitório e esquivando-se das bolas de fogo de Clark e das baforadas do dragão Perry voltou à memória de Kylie. Essa era parte da razão que levava Kylie a duvidar da capacidade de Miranda para protegê-la.
— Seja como for — Miranda continuou —, você disse que Holiday voltaria hoje. Então, acho que vou esperar que ela chegue pra contar.
Kylie revirou os olhos e pensou em salientar que, se Miranda estivesse certa e de fato houvesse intrusos no acampamento, Burnett precisava saber o mais rápido possível, mas ficou calada. Poucas horas provavelmente não fariam muita diferença. Além disso, Miranda tinha um pouco de razão; Kylie estava de mau humor naquela manhã e não era justo que descontasse na amiga.
Quanto ao motivo do mau humor, bem, ela achava que provavelmente era apenas porque tinha dormido pouco. Ela e Holiday tinham passado quase uma hora ao telefone na noite anterior. Tinham conversado sobre tudo, desde a morte da tia de Holiday até a visão de Kylie e o que ela podia ou não significar. Quando questionada sobre os poderes de cura e aquela questão de “dar uma parte da sua alma”, Holiday sugeriu que Kylie esperasse até quando pudessem conversar pessoalmente.
Ela quase contou a Holiday sobre suas dúvidas com relação a Burnett por causa da questão da biblioteca da UPF, mas decidiu esperar para conversarem pessoalmente também.
Miranda fez mais um arabesco com a mão sobre a porta, trazendo Kylie de volta ao presente.
— Você se importa se eu contar a Burnett? — Kylie perguntou a Miranda.
Miranda fez uma careta, mas depois disse:
— Tudo bem. Mas estou te dizendo, é só uma sensação. Não é tão forte quanto da última vez que senti. Pode não ser nada.
— Ou pode ser alguma coisa — disse Kylie, e visto que aquilo provavelmente tinha a ver com ela, ficou um pouquinho nervosa. E, tinha que admitir, ela tinha motivo suficiente para ficar nervosa.


Kylie estava na frente dos pesados portões enferrujados e de aparência rangente do cemitério de Fallen. Burnett estava à sua direita e Della, à esquerda. Nenhum dos dois vampiros parecia muito feliz de estar ali.
Kylie não podia culpá-los. Ela mesma não estava muito entusiasmada com a aventura. Mas depois de ter a visão com Jane Doe, estava mais ansiosa do que nunca para ajudar aquele espírito a seguir o seu caminho.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — Della perguntou, a voz crivada de medo.
Kylie fez que sim com a cabeça, mas na verdade não tinha certeza de nada. Deu uma olhada ao redor. Se Hollywood precisasse de um cenário para um filme de terror, ali estaria um muito bom. Como se para provar que ela tinha razão, uma rajada de vento passou por eles e fez os portões rangerem. Um som fantasmagórico ecoou pelo ar.
A rajada deveria ter trazido consigo uma atmosfera ensolarada para combinar com a manhã. Acima deles, um céu azul sem nuvens prometia um dia perfeito e cheio de alegria. Um sol vibrante brilhava e fazia cintilar o orvalho da noite. Mesmo assim, nada parecia ensolarado, vibrante ou alegre.
Pelo contrário, tudo parecia frio, tão frio que a pele de Kylie estava arrepiada. Della respirou fundo e vapor saiu de seus lábios.
— Eu costumava andar por cemitérios às vezes — disse Della —, mas nunca me senti assim. — Ela esfregou os braços para se proteger do frio.
— Os mortos não perturbam tanto os seres humanos quanto perturbam os sobrenaturais — explicou Burnett. Mesmo sua voz parecia hesitante. Ele olhou para Kylie. — Se você está com receio de fazer isso, apenas me diga e esperamos até Holiday voltar.
Kylie pensou na hipótese, mas se lembrou da dor, do sofrimento e da confusão que o fantasma tinha sentido. Jane Doe precisava de respostas tanto quanto Kylie.
— Não. Estou bem.
— Você está mentindo — disse Della.
— Eu sei. — Kylie olhou para ela e depois para Burnett. — Vocês dois não precisam entrar comigo.
— Não precisamos? — Havia um fio de esperança na voz de Della.
— É óbvio que precisamos! — retrucou Burnett, dando um passo adiante. — Se está determinada a ir em frente, vamos acabar logo com isso.

Um comentário:

  1. mano eu posso ate ser amiga dela mais eu não entrava nesse cemitério nem fudendo...ainda mais que eu so toda medrosa

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