8 de outubro de 2016

Capítulo 17

Praticamente segurando o fôlego, Kylie sofreu enquanto Burnett a apresentava aos três professores. Primeiro foi Hayden Yates, senhor Yates para os estudantes, que lhe cumprimentou com um aceno de cabeça e um olhar mais do que desconfortável. O novo professor de ciências – metade vampiro, metade fae – lhe deu um aperto de mão um pouco mais longo do que o necessário.
Considerando que sua metade fae era dominante, Kylie ficou surpresa ao reparar que, ao tocá-lo, não sentiu nenhuma alteração no próprio humor. E, embora não parecesse nenhum pervertido, algo com relação a ele fez com que ela estremecesse. Kylie não tinha certeza do que era, mas não gostou da sensação, nem do professor. Estranho, porque ela geralmente não fazia suposições negativas sobre as pessoas – com exceção do namorado da mãe, é claro. Mas aquele era um caso excepcional. O sujeito queria rolar nos lençóis com a mãe dela e isso não estava certo.
Ava Kane, ou senhorita Kane, era a professora de inglês. Ela era metade bruxa e metade metamorfa, sendo a última metade a espécie dominante. Parecia simpática, mas o jeito como ficou franzindo a testa, tentando ver algo diferente no padrão de Kylie, fez com que ela se sentisse pouco à vontade. O que a professora achava que ia encontrar?
Collin Warren, metade fae e metade humano, era o professor de história e um geólogo de pouca conversa. Estranho para alguém que tinha sangue fae, pois os faes normalmente tinham um charme natural, embora talvez alguns meio-faes não herdassem esse talento. Kylie já tinha ouvido falar que, em raras ocasiões, alguns humanos sobrenaturais tendiam a ser mais humanos do que sobrenaturais, e talvez fosse esse o caso do senhor Warren.
Ele sorriu, no entanto, e cumprimentou-a, embora Kylie tivesse a impressão de que ele também não gostava de ser o centro das atenções. Isso a fez se perguntar por que, afinal de contas, ele era professor.
Depois das apresentações, Kylie ficou ali parada, com um sorriso rígido nos lábios, esperando que algo acontecesse e colocasse um fim naquela situação desconfortável. Burnett finalmente interveio:
— Bem, que bom que já se conheceram.
Kylie aproveitou a deixa para se afastar, mas ao dar um passo descobriu que estava cercada por seis ou sete adolescentes que ela não conhecia. Obviamente os novos estudantes. Os olhares diretos e a curiosidade explícita em suas expressões fizeram com que ela ficasse tensa novamente. Uma coisa era ser alvo dos olhares dos campistas de sempre, mas também ser alvo dos recém-chegados... Seu coração acelerou e suas palmas começaram a suar. Só faltavam alguns minutos para o refeitório estar lotado de gente.
Seu sorriso de “quem engoliu um mosquito” já tinha se desvanecido. E o mosquito que ela supostamente engolira parecia estar agora zumbindo no seu estômago. Ela não sabia se iria conseguir aguentar mais pessoas investigando seu padrão e mais apresentações desconfortáveis.
— É verdade que no começo você nem tinha um padrão? — perguntou uma das garotas novas, uma bruxa.
De repente, ela sentiu um braço sobre os seus ombros. Antes que olhasse para verificar quem era, reconheceu o toque reconfortante de Derek.
— Desculpe, mas vocês vão ter que conhecer Kylie depois. Preciso roubá-la por um minuto.
— Cara de sorte! — comentou um dos vampiros.
— É, eu sou — respondeu Derek, com ar possessivo.
Ele a levou para fora do grupinho de novos alunos, andando com confiança e propósito – o propósito de tirá-la do meio de todos aqueles olhares curiosos. Ela estava extremamente grata por Derek tê-la tirado de lá. Ela se aconchegou mais ao ombro dele e soltou um suspiro.
— Segura as pontas — ele sussurrou. — Já vou tirá-la daqui.
Ele olhou por sobre o ombro e ela seguiu seu olhar. Ele olhava para Burnett. O vampiro acenou com a cabeça como se desse permissão para que ele a levasse dali.
Ela só respirou outra vez quando saíram do refeitório.
O braço de Derek a estreitou quando deixavam o edifício, como se ele não quisesse deixá-la ir. Embora ela odiasse ter que admitir, uma pequena parte dela também não queria se afastar. Mas sabendo que não era justo, ela se afastou. E então fitou os suaves olhos verdes do fae.
— Desculpe — ela disse.
— Pelo quê? — ele perguntou.
Por tudo. Por sentir coisas que não devia.
— Por precisar ser resgatada. Eu deveria saber lidar com aquilo. É que as pessoas me olham, como se eu fosse...
— ... especial? — Ele sorriu.
— Não, como se eu fosse uma aberração.
Ele negou com a cabeça.
— Elas não a consideram uma aberração. Elas estão curiosas. E aquele vampiro ali estava quase babando em cima de você! Mas eu sei que ainda é difícil.
— Talvez quando eu souber com certeza o que sou, não seja tão difícil. — Mas ela já sabia, não sabia? Ela era um camaleão. Será que estava começando a duvidar disso, como todo mundo?
Derek arqueou as sobrancelhas.
— Você ainda não acredita que seja uma bruxa?
— Não completamente.
Ele assentiu.
— Bem, isso tudo vai ser esclarecido amanhã, não vai? Quando o seu avô vier visitá-la.
Foi nesse momento que ela se lembrou de que não tinha contado a Derek que seu avô não atendia ao telefone ou que ele e a tia tinham se transformado em neblina. Ela começou a desabafar com ele quando sentiu uma lufada repentina de ar frio.
A mancha de condensação começou a se materializar perto de Derek. A familiar silhueta feminina que tomava forma parecia-se com Hannah. Mas Kylie prendeu o fôlego quando viu que o espírito tinha voltado a assumir sua aparência de zumbi. O vestido bege que ela usava estava em trapos e sujo de lama. Seu cabelo parecia opaco e sem vida ao redor dos ombros. Parte da sua bochecha estava exposta, onde a pele tinha se decomposto e se soltara. E larvas se arrastavam por todo o seu corpo.
Nojento. Instintivamente, Kylie deu um passo para trás.
— De novo, não! — O pânico encheu os olhos sem vida de Hannah.
— O quê? — Kylie se forçou a ficar no lugar. Mas as larvas estavam se espalhando pelo chão cada vez mais rápido.
— O que disse? — Derek perguntou, aproximando-se mais dela. Uma das larvas caiu em seu peito.
Kylie afastou-a com a mão e depois balançou a cabeça.
— Ah! — Os olhos dele se arregalaram em entendimento. Ele deu um pequeno passo para trás, não tanto por medo, mas para dar mais espaço a ela.
Kylie voltou a se concentrar em Hannah. Mas o olhar do espírito estava colado em algum lugar sobre o ombro de Kylie. Ela viu a porta do refeitório se abrindo atrás dela e o som de vozes. Hannah continuou com os olhos fixos no que acontecia atrás de Kylie. Então, de repente sua expressão se encheu de pânico.
— Não! — Hannah murmurou, e suas mãos descarnadas agarraram Kylie pelos ombros. Havia larvas por todo lugar. — De novo, não! De novo, não! — O toque do fantasma enviava ondas sucessivas de tremor gelado pelo corpo de Kylie, que nem se lembrou mais das larvas. Todas as suas terminações nervosas doíam e seu corpo enrijeceu com a sensação de que seu cérebro e depois o corpo todo estavam congelando.
— Está tudo bem? — Derek perguntou, chegando mais perto.
O tremor que agitava todo o corpo de Kylie fez com que ela prendesse o fôlego. Ela queria gritar, mas sentiu como se alguém apertasse a sua garganta. Pontos pretos começaram a surgir diante dos seus olhos. Ela sentiu os joelhos começarem a ficar bambos. Derek tocou-a e, como por encanto, a dor e o torpor se desvaneceram. Piscando, ela viu que Hannah ainda estava ali, ao lado de Derek.
Kylie respirou, depois forçou-se a falar.
— De novo, não, o quê?
Hannah não respondeu. Nem olhou para ela. Derek, sim, e ele parecia preocupado.
— Olha, eu preciso saber o que posso fazer para te ajudar. Por favor, me responda. — disse Kylie. Mas o espírito, com os olhos assustados ainda fixos em algo atrás de Kylie, desvaneceu-se no ar.
Derek passou a mão pelo braço de Kylie.
— Tudo bem?
Kylie assentiu, saboreando o toque quente de Derek. E então ela se voltou para ver quem estava saindo pela porta do refeitório, curiosa para saber o que tinha feito Hannah fugir. Burnett, os novos professores e um casal de novos alunos estavam parados na porta.
— Era Hannah? — Derek sussurrou.
— Sim — disse Kylie, ainda tentando adivinhar o que a irmã de Holiday estava tentando transmitir ao dizer “de novo, não”.
— Você está bem mesmo? — ele voltou a perguntar.
Ela tocou a garganta.
— Estou. Eu só não sei o que ela precisa que eu faça por ela.
— Não sei se ajuda em alguma coisa, mas acho que descobri onde Cara M. trabalhava.
— Onde?
— Quando você me disse que provavelmente era em algum lugar perto daqui, eu pesquisei no Goggle todas as lanchonetes e cafés da região. Descobri algumas fotos e um velho artigo de jornal sobre um lugar chamado Cookie’s Café, em Fallen. Você já esteve lá?
— Não, acho que não... Espere! Estive, sim, minha mãe me levou a esse lugar, que parecia uma casa antiga. Deve ser por isso que eu reconheci o uniforme.
— Isso mesmo. A casa foi construída no século XIX. — Ele sorriu como se estivesse orgulhoso por ter encontrado a resposta para uma parte do enigma.
Kylie quase sorriu também, mas então lhe ocorreu algo. E agora? Mesmo que tudo o que ela precisasse fazer fosse encontrar os corpos, como o fato de saber onde uma das garotas trabalhava poderia ajudá-la? Normalmente, ela conversaria com Holiday a respeito, mas... ela não poderia fazer isso sem antes saber exatamente o que estava acontecendo. Seria muito cruel com Holiday contar que a irmã estava morta, caso houvesse uma chance de Kylie ter se enganado com relação às visões.
Então outra constatação atingiu-a em cheio. Ela provavelmente deveria procurar a polícia. Mas não sabia como poderia explicar como sabia de tudo aquilo. O que significava que só cabia a ela decifrar os assassinatos.
De novo, nãoDe novo, não. As palavras de Hannah ecoavam na sua cabeça. O que ela estava tentando dizer?
Oh, Deus, Kylie não tinha ideia do que fazer em seguida. Ela não era detetive. Nem sequer assistia aos seriados de TV sobre detetives. Ela olhou para Derek.
— O que eu faço agora?
— Eu liguei para a lanchonete, só para perguntar se alguma Cara M. trabalhava lá, mas Fallen é uma cidade turística e o restaurante só abre aos finais de semana.
A mente de Kylie continuou dando voltas e se perguntando o que ela precisava fazer.
— Droga, eu não tenho ideia do que fazer.
— Não se preocupe — disse Derek. — Eu ajudo você. E, além disso, temos até sábado para decidir o que fazer.
Ela olhou para ele agradecida.
— Como eu posso te agradecer?
Ele deu um sorriso que era pura sensualidade, as raias douradas brilhando em seus olhos.
— Posso pensar em algumas maneiras.
Ela fez uma cara séria.
Ele levantou a mão.
— Tudo bem. Só sorria um pouco mais. Basta isso.


Quinta-feira de manhã, Kylie acordou com Socks dando pancadinhas com a pata em seu queixo. Enquanto ela piscava para espantar o sono, acariciou o pelo macio do felino. O sol entrava pela janela e ela observou a claridade do dia e as sombras no teto disputando espaço – como um combate entre a luz e a escuridão.
Enquanto a batalha continuava, ela sentia em seu espírito um embate parecido. Sua vida parecia uma miscelânea de problemas e, ao mesmo tempo, de muitas possibilidades. Ela tinha perdido Derek, mas ganhado Lucas. Tinha perdido a convivência com o padrasto, mas conhecido Daniel. Perdido sua humanidade, mas descoberto que era sobrenatural.
E hoje era o dia em que ela supostamente encontraria o avô e descobriria o sentido de tudo aquilo, embora duvidasse muito que ele aparecesse. Kylie franziu os lábios e o lado mais sombrio do seu estado de espírito aflorou.
Não que ela fosse deixar que ele ganhasse a batalha. Fechou os olhos e tentou ter pensamentos positivos. Mas sua mente flutuou até Hannah e o fato de que não podia mais adiar o momento em que contaria a Holiday que sua irmã estava morta. Só de pensar em como seria essa conversa, Kylie já perdia a disposição.
Então seu coração a lembrou de que Lucas não tinha aparecido na noite anterior, embora tivesse prometido encontrá-la no final da noite. Agora era oficial. Seu lado negro e mal-humorado tinha levado a melhor. Ela voltou a olhar para o teto, sem deixar de perceber que as sombras de fato eram muito maiores do que os retalhos de luz do sol.
Por alguma razão inexplicável, ela se lembrou de Nana lhe dizendo para aproveitar a infância porque logo ela seria adulta. Será que isso era ser adulta? Acordar todo dia sabendo que a vida lhe traria ambos, o que era bom e o que era ruim? Fazer o que tinha que fazer, mesmo desejando não fazer?
Então se lembrou de outro conselho da avó: Não se esqueça, querida, às vezes não podemos mudar o que acontece, mas podemos mudar o modo como essas coisas nos afetam.
— É mais fácil falar do que fazer, Nana. — Kylie respirou fundo, engolindo a frustração, e um doce aroma de rosas despertou os seus sentidos. Virando a cabeça, ela viu uma rosa sobre o criado-mudo. A lembrança de Lucas enchendo o seu quarto com as rosas que roubara do jardim da avó acabou com o seu mau humor. Então, ao avistar o bilhete ao lado da rosa, ela se sentou e pegou a folha de papel.

Kylie,
Desculpe o atraso. Aconteceu algo que me obrigou a visitar meu pai. Você estava dormindo profundamente quando cheguei aí. E, nossa, você é linda enquanto dorme! Se Della não tivesse me ouvido abrindo a sua janela e não tivesse colocado a cabeça na porta e me xingado por acordá-la – ela é de doer! – eu teria me deitado com você na cama só para senti-la perto de mim.
Você não tem ideia de quanto eu gosto disso. Senti-la contra meu corpo. Inteira.
Bons sonhos,
Lucas.

Kylie pegou a rosa e levou-a até o nariz. O doce perfume a fez sorrir. Talvez o mau humor não fosse levar a melhor, afinal.
Kylie reconsiderou a sua atitude positiva quando, algumas horas depois, teve que lutar contra um enxame de insetos ao entrar no bosque com Holiday e Burnett. Mas não eram os insetos que estavam acabando com o seu bom humor. Era um certo lobisomem de cabelos pretos e olhos azuis.
Kylie devia se sentir empolgada por estar a caminho da cachoeira. Ela sempre se sentia bem depois de visitá-la. Mas, no momento, não queria se sentir melhor. Queria se sentir... furiosa!
Espere. Ela não queria se sentir. Ela já se sentia assim.
Furiosa com o lobisomem que lhe deixara uma rosa e lhe escrevera um bilhete.
Ela não estava mais aborrecida por ele não ter aparecido na noite anterior. Tinha tentado deixar de lado o fato de que ele tinha praticamente confessado que guardava segredos dela. Embora a contragosto, tinha aceitado que Fredericka, a ex-namorada de Lucas, estaria sempre ao alcance do seu toque, quando Kylie não podia ter o mesmo privilégio. Ela tinha tentado superar o fato de que a avó e o pai dele, além de toda a alcateia, não queriam vê-los juntos.
Ela havia deixado de lado, superado e aceitado muita coisa. E, depois desta manhã, percebeu que talvez ela tivesse ido longe demais, porque, depois de não aparecer na noite anterior, depois de tê-la visto apenas por alguns minutos, ele mal falou com ela no refeitório aquela manhã.
Outro mosquito passou zumbindo por Kylie e ela o pegou no ar, esmagando-o contra uma árvore. Bzzz... plaf!
Lucas não podia ter se aproximado e tomado café com ela? Ela nem o teria culpado se tivesse levado Clara com ele. Mas, não, tudo o que ele fez foi sorrir, e até mesmo esse sorriso parecia propositalmente breve. Então ele tinha se sentado à mesa dos lobisomens com todos os seus amigos, sua alcateia – gente que evidentemente tinha mais importância que ela e provavelmente sempre teria.
Na noite anterior, ele tinha escalado a janela do quarto dela um pouco depois da meia-noite, enquanto ela dormia. Havia deixado uma rosa e um bilhete carinhoso, e esta manhã tudo o que tinha feito foi lhe lançar um meio sorriso. O que estava acontecendo?
Ela com certeza não fazia ideia. A quem ela queria enganar? Ela sabia, sim, exatamente o que estava acontecendo. Ela não era boa o bastante para ele, porque não era um lobisomem.
Aquilo doía. Doía de verdade. Então, para deixar as coisas ainda piores, quando Derek se sentou ao lado dela, Lucas teve a audácia de lhe mandar uma mensagem pelo celular dizendo que não estava gostando nem um pouco.
Certo. Ele não estava gostando do fato de Derek estar sentado ao lado dela, mas ele mesmo tinha preferido não se sentar com ela. Em vez disso, seu “traseirinho sexy” estava prensado entre Fredericka e uma das novas lobas, que se jogava em cima dele, deixando até Fredericka enciumada.
Sim, Kylie podia ouvir Lucas lhe dizendo que não precisava se preocupar com Fredericka. Dizendo-lhe que não tinha pedido para a nova garota se sentar ao lado dele, e que ele tinha que ser fiel à sua alcateia. E talvez Kylie estivesse errada por dar vazão à sua raiva, ou talvez ela não estivesse com raiva, apenas cansada de ficar sempre em segundo lugar.
Ficar em segundo lugar era um porre.
Outro mosquito foi desta para melhor quando ela o esmagou contra sua bochecha.
— Talvez seja melhor ir mais devagar — disse Burnett, emparelhando com ela depois de dar algumas passadas largas.
Kylie olhou para ele, que a analisou por um segundo, depois desviou o olhar para o terreno em volta, como se esperasse que alguma coisa saltasse na direção deles. Burnett parecia inquieto desde que entraram na floresta, mas Kylie nem tinha prestado muita atenção nisso; seu coração estava ocupado demais remoendo sua frustração por estar em segundo lugar aos olhos de Lucas, para se preocupar com a possibilidade de Burnett ter consumido muita cafeína.
— Sério, é melhor diminuir o ritmo — aconselhou Burnett.
— Por quê? — perguntou Kylie.
Ele olhou de relance sobre o ombro novamente.
— Por mais incríveis que sejam os faes, eles não são muito rápidos.
Kylie suspirou. Ela não tinha percebido que estava andando num ritmo tão acelerado. Um ritmo que não condizia com o das bruxas também. O que significava que ela não era de fato uma bruxa, certo? Olhando para trás, viu Holiday correndo a toda velocidade para alcançá-los.
— Desculpe. — Kylie diminuiu o passo e notou que Burnett continuou a olhar em volta como se esperasse que alguém saltasse das árvores para cima deles. Será que tinha acontecido alguma coisa? E, se de fato tinha, teria algo a ver com ela?
O barulho dos passos de Holiday estava mais próximo agora. Kylie olhou para Burnett e depois para Holiday.
— Obrigada por irem mais devagar — agradeceu Holiday, parecendo sem fôlego. Em menos de um minuto, Burnett tinha ficado mais para trás de propósito, dando às duas privacidade para conversar a sós. Provavelmente por insistência de Holiday. Não havia dúvida de que ela queria conversar com Kylie, e Holiday não queria que ele ouvisse.
O aroma de madeira da floresta enchia as narinas de Kylie. Pela primeira vez desde que tinham entrado no bosque ela se lembrou do avô e da neblina. Imediatamente tentou ouvir com o coração para ver se tinha a mesma sensação de antes, de que estava sendo chamada; não teve. Então imaginou se o episódio da neblina não era o motivo da inquietação de Burnett. Ou, pior, será que eles tinham tentado voltar e desligado os alarmes? Será que Burnett contaria a ela se isso tivesse acontecido?
Provavelmente não.
Ela olhou para trás, em direção ao vampiro. O que ele saberia?
Aproximando-se de Holiday, Kylie perguntou:
— Você pode responder a uma pergunta com muita sinceridade?
Os passos de Holiday na terra molhada produziam um chapinhar, como se a pergunta de Kylie tivesse deixado seus passos mais pesados.
— Eu não minto pra você.
— Por omissão, mente, sim. Não ser franca com relação a algo é pior do que mentir. — E também havia a questão sobre quão fechada era Holiday com relação à sua vida pessoal. Embora Kylie confiasse na amiga, magoava saber que a confiança não era recíproca.
— Eu não escondo as coisas de você de propósito. — A franqueza das palavras de Holiday ficou pairando no ar cheio de umidade. Elas andaram sem se falar por alguns minutos.
— O que você quer saber? — perguntou Holiday.
Kylie tentou deixar de lado a frustração com relação a Holiday, sabendo que a sua raiva de Lucas estava afetando o seu humor.
— O que há com Burnett? Ele parece mais alerta do que de costume. Ele... descobriu alguma coisa que tenha a ver comigo? Tem notícias do meu avô? Hoje era o dia em que ele deveria aparecer e, no entanto... não acho que haja uma chance de que ele venha. E ninguém está dizendo nada a respeito disso, como se nem estivesse acontecendo.
Holiday franziu a testa.
— Como não achamos que ele viria, decidimos não dar muita importância ao fato. Mas eu e Burnett conversamos sobre isso mais cedo e ele me disse que não teve notícia do seu avô. Mas... concordo que ele esteja... digamos, na defensiva. Eu perguntei a respeito. Ele disse que está nervoso. — O tom de voz dela parecia revelar que não estava muito convencida.
Tampouco Kylie estava. Algo estava acontecendo. Mas o quê?
À medida que avançavam pelo caminho de pedra, um frio pouco natural pareceu varrer a floresta com uma brisa. Alguém, que não era deste mundo, estava por perto. Ela deu uma outra olhada em Burnett, sobre o ombro, e lembrou-se da conversa que tinham travado a respeito de fantasmas.
Será que era isso que o incomodava?
Holiday diminuiu o passo e olhou para trás com preocupação. Um leve arquejo escapou dos seus lábios e sua expressão mudou de preocupação para aborrecimento. Não qualquer aborrecimento, mas aquele do tipo provocado pelo sexo oposto.
O humor devia ser algo contagioso, porque os pensamentos de Kylie também se voltaram para os seus problemas com o sexo oposto e ela se perguntou se os homens não teriam sido criados apenas para atormentar as mulheres.
Alguns minutos depois, ao longo da trilha, Holiday falou:
— Agora é a sua vez. O que está acontecendo com você? E não me fale que não é nada, porque você está exalando raiva por todos os poros.
Kylie fechou a cara, zangada demais para negar seus sentimentos.
— Meu problema é com Lucas.
— Problemas com garotos, hein?
— Catástrofes com garotos seria uma expressão mais correta. Eu não tenho certeza se consigo ir adiante.
— Ir adiante? — A voz de Holiday deixava transparecer a sua preocupação.
— Com Lucas — disse Kylie.
Holiday fez uma careta e levantou uma sobrancelha.
— Não estou querendo dizer... transar com ele... — explicou Kylie, percebendo o que tinha dito e achando que era por isso que Holiday tinha feito aquela cara. — Quero dizer, aceitar que sou a última das prioridades dele. Vê-lo me tratar como se eu fosse supérflua na vida dele. Me sentir como se todo mundo que Lucas conhece e de quem ele gosta achasse que não sou boa o suficiente para ele, porque não sou um lobisomem.
Um brilho de compreensão surgiu nos olhos de Holiday.
— Se for um consolo, não acho que Lucas compartilhe as antigas crenças dos lobisomens. A maioria dos jovens não concorda com elas, embora na sociedade deles exista uma pressão dos mais velhos para que essas crenças sejam adotadas.
— Eu sei — disse Kylie. — E sei também que Lucas só tolera essas leis estúpidas porque precisa da aprovação do pai para conseguir mudar algumas coisas no conselho. Mas, quando ele nem sorri para mim por mais de um segundo, isso dói! — ela exclamou, perturbada. — Aposto que me sentir desse jeito faz de mim uma babaca egoísta. — Suas palavras ressoaram no fundo do seu ser e a culpa, como moscas sobre uma fruta podre, começaram a zumbir em torno do seu peito.
— Não — Holiday fixou os olhos verdes em Kylie enquanto faziam uma curva na trilha. — Isso não faz de você uma egoísta. Faz de você uma pessoa normal. Ninguém quer sentir que não é bom o bastante.
— Mas mesmo assim eu me sinto uma babaca egoísta — disse Kylie. — O barulho da cachoeira chegou aos seus ouvidos e, mesmo àquela distância, ela sentiu que já estava acalmando os seus sentidos. — Ou me sinto egoísta quando não estou me sentindo furiosa.
Holiday inclinou-se e roçou o ombro no de Kylie.
— Os seus sentimentos são perfeitamente compreensíveis. Não se sinta culpada. Claro, Lucas está fazendo as suas escolhas por algum motivo. Faz parte do seu objetivo e todos nós precisamos pagar um preço por seguir nosso próprio caminho. Mas... — Ela fez uma pausa para pensar. — Nem sempre é justo pedir a outras pessoas que paguem esse preço junto conosco. — Ela olhou para Burnett outra vez.
Kylie sentiu que as palavras de Burnett tinham um significado pessoal para ela. Nos últimos dias, Kylie suspeitou de que o relacionamento entre os dois tinha retrocedido. E ela não achava que fosse por culpa de Burnett.
— Acho que ele estaria disposto a pagar esse preço — disse Kylie.
Holiday franziu a testa.
— Eu estava falando de você e de Lucas.
— Eu sei — disse Kylie. Mas eu estava pensando em você e Burnett.
Eles percorreram o resto da trilha e entraram num bosque de árvores frondosas, enquanto concluíam a caminhada até a cachoeira. O cheiro de umidade da terra molhada perfumava o ar, o som de água corrente tocava uma sinfonia de tons silvestres e o ambiente sereno era cada vez mais envolvente.
A raiva de Kylie, suas frustrações, tudo parecia mais ameno a cada passo. E quando eles chegaram, foi... surreal! Cada vez que visitava a cachoeira, Kylie parecia se esquecer de quanto era bom estar lá. Eles ficaram de pé às margens do rio e contemplaram, em meio ao ar enevoado, a água que borrifava da cachoeira.
Kylie ouviu a respiração de Holiday ficando mais profunda e tranquila, assim como a dela.
— O que tem este lugar? — perguntou Kylie.
— Magia. Poder. — Holiday se abaixou para tirar os sapatos e Kylie fez o mesmo. — Na década de 1960, um botânico sobrenatural veio até aqui para provar que tudo isso podia ser explicado pelos compostos químicos da vegetação. Como se fosse algum tipo de droga natural.
— Mas como isso seria possível se nem todo mundo sente a mesma coisa? — Kylie perguntou, desamarrando o tênis.
— Ah, mas aqueles que não se sentem bem-vindos aqui geralmente sentem o contrário, um desconforto que os leva a querer se afastar. É por isso que esse cientista acreditava que fosse uma reação química. O que significava que os poucos sobrenaturais que sentiam emoções positivas eram simplesmente geneticamente predispostos a reagir de modo diferente aos compostos das plantas. Como alguns grupos de pessoas reagem de modo diferente às drogas.
— E o que ele concluiu? — Kylie perguntou, intrigada com o assunto, mas sem acreditar que se tratasse de uma espécie de droga mais do que acreditava em Papai Noel.
Holiday tirou os sapatos, colocou-os sobre uma pedra e ficou de pé, olhando para Kylie com um leve sorriso nos lábios.
— Nada. Depois de algumas semanas estudando a região, ele e sua equipe desistiram do patrocínio que viabilizava o projeto. Há boatos de que os anjos da morte os afugentaram.
Kylie desviou o olhar para contemplar a paisagem bela e verdejante. A mistura de névoa e raios de sol filtrados através das árvores expressava o poder e a magia que Holiday mencionara. A atmosfera daquele lugar era reverente demais para ser considerada uma droga, e o esplendor natural era espiritual demais para ser dissecado e estudado num microscópio.
— Eu posso ver por que os Anjos da Morte não gostam que pessoas descrentes fiquem perambulando por aqui. Fico satisfeita que as tenham afugentado.
— Eu também — concordou Holiday.
Levantando-se, Kylie afundou os pés descalços nas margens cobertas de musgo. Mexendo os dedos dos pés, ela se curvou e tirou o jeans.
Nesse exato instante, alguma coisa passou zunindo em frente a ela. Kylie engoliu um grito quando viu que era o pássaro azul. O pássaro que ela havia trazido de volta à vida e que tinha se apegado a ela, fazendo-lhe visitas ocasionais. Pairando em frente a Kylie, ele cantou como se tivesse composto uma balada só para ela.
— Eu não sou a sua mãe — disse Kylie para o pássaro. — Vá embora, siga o seu caminho. Faça o que os pássaros costumam fazer. Deixe o ninho, quero dizer. Encontre uma linda fêmea azul para cortejar.
— Que gracinha! — disse Holiday, rindo.
— Talvez seja uma gracinha, mas é muito estranho também — murmurou Kylie.
Depois de tirar o jeans, ela entrou no riacho. A água fria na altura dos calcanhares estava divinamente refrescante. Seu coração, que até momentos antes estava apertado, agora parecia mais leve. Pelo menos por ora, tudo parecia em paz. Seu mundo parecia algo fácil de lidar; seus problemas, solucionáveis. Ela se deixou envolver totalmente por esse sentimento.
Se tinha aprendido alguma coisa com as visitas a esse lugar especial, era que até a vida mais fácil não era perfeita. Uma visita à cachoeira não mudava nada. Simplesmente oferecia à pessoa mais força para enfrentar as adversidades.
A vida ainda poderia machucar como uma punhalada no coração.
E ela tinha algumas cicatrizes para provar isso. Uma visão de Ellie encheu seu coração. No entanto, enquanto a brisa carregada de névoa gelada acariciava seu rosto, a dor foi diminuindo e se transformando em aceitação. Cada novo dia trazia novas oportunidades. Nem sempre podemos controlar a vida, apenas o modo como nos deixamos afetar por ela.
Parando do outro lado do riacho, ela se virou para olhar para Holiday. A líder do acampamento estava parada, olhando para trás, em direção a Burnett, que estava entre as árvores. A expressão em seu rosto transmitia preocupação, fascínio e alguma outra coisa.
Amor. Burnett e Holiday estavam destinados a ficar juntos. O sentimento veio tão forte e cheio de certeza que parecia trazer uma mensagem com ele – uma mensagem que Kylie não conseguia interpretar. Será que significava que ela deveria ajudar a fazer isso acontecer? Ou ela poderia confiar que, naturalmente, o amor encontraria uma maneira de se concretizar?
E será que ela podia sentir o mesmo com relação a ela e Lucas?
Não que estivesse preparada para chamar seu sentimento por Lucas de amor. Não que ele o tivesse chamado assim.
Mas Derek tinha. Eu estou apaixonado por você, Kylie.
Kylie fechou os olhos e tentou não pensar em nada que não fosse o sentimento calmo que a cachoeira oferecia.

4 comentários:

  1. Eu acho que ela está exagerando em relação ao Lucas, mas se é isso que ela sente, fica com o Derek de uma vez

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  2. Essa_indecisao_ta me_matando_e_esse_livro_muda_de_uma_hora_pra_outra_quando_ta_com_o_Derek_fica_pensando_no_Lucas_quando_ta_com_o_Lucas_o_Derek_é_o_principe_perfeito_é_tanto_problema_que_quando_isso_tudo_acabar_Kylie_vai_ser_uma_Santa_pq_essa_ta_pagando_pecado_kkk

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  3. Eu não aguento mais ver ela com esse Lucas!! Derek sempre do lado dela e ela não percebe 😣😣

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    1. Tipo isso! Vai dar valor na hora que perder... dnv!

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