31 de outubro de 2016

Capítulo 17

Localização desconhecida

April May ganhou o seu primeiro celular quando tinha quatro anos. Claro que era um antigo de sua mãe e ela não conseguia nem fazer ligações, mas era o seu brinquedo favorito. Ela o desmontou, o que fez seus pais rirem. Mas quando, aos dez anos, ela abriu a placa-mãe de seu pai, eles não levaram tão bem.
April sempre teve uma queda por segredos. Enquanto outras crianças tinham melhores amigos imaginários, ela construía suas próprias identidades múltiplas. Ela poderia ser qualquer pessoa que quisesse na Internet. Isso era liberdade, algo que faltava em sua casa. Sua mãe queria saber tudo o que ela estava pensando e seu pai queria saber tudo o que ela estava fazendo.
Não havia privacidade em sua casa. A única vez em que ela tentou manter um diário, seu pai o havia lido, em seguida devolvendo-o com suas próprias correções em caneta vermelha. Sua mãe fez cópias dele e as enviou para o terapeuta para que ela pudesse discutir os problemas de April “no contexto de minha própria personalidade.”
April logo aprendeu a fabricar uma fachada falsa, um lugar que seus pais poderiam acessar, enquanto seu verdadeiro eu vagava livre em outro local: na sua imaginação, no seus sonhos... e na Internet. Foi quando ela percebeu pela primeira vez que lá as pessoas podiam ser o que quisessem. Elas poderiam visitar sites, escrever e-mails, participar de comunidades que não tinham nada a ver com seu verdadeiro eu.
Ela nunca se importou com brincadeiras no pátio da escola. Ela preferia se esgueirar de volta para a sala de aula e invadir o celular de seu professor, em seguida, ler todos os seus e-mails.
Segredos eram poder.
Seus pais logo aprenderam a alterar suas senhas com frequência. Não ajudava muito. Ela ainda hackeava o e-mail de seu pai quando tinha doze anos. Não gostou do que encontrou lá, mas usou isso a seu favor. A próxima coisa que ela sabia, era que estava em um internato. Foi quando começou a hackear pra valer.
Na escola, enquanto suas habilidades aumentavam, ela descobriu que havia um mundo de sombras inteiro lá fora, cheio de pessoas como ela. As pessoas que viam que firewalls digitais eram apenas um desafio a ser superado. April se importava cada vez menos com estudos sociais e hóquei de campo ou música e matemática, todas essas preocupações do ensino médio que, de repente, pareciam idiotas se comparado com este emocionante mundo secreto. Por que se preocupar em estudar para um teste de matemática quando se podia dizer a seu professor que você sabia sobre as suas viagens secretas de fim de semana para um cassino em Atlantic City – viagens que a esposa dele não tinha conhecimento? Por que se preocupar em fazer amizade com seu colega de quarto se você sabia que ele mandava enviando sms sobre quão estranho você é? Mais fácil viver em um mundo de sombras.
Mas mesmo April tinha escrúpulos. Expor a hipocrisia era o seu jogo. Ela não hackeava para destruir, apenas para revelar. Claro, ela poderia invadir a CIA, mas queria isso? Ainda não, de qualquer forma.
Nos últimos um ou dois anos, tinha encontrado outra excitação: fazer dinheiro. Monte deles. Para alguns clientes selecionados, o dinheiro não era objeto. Ela era exigente com seus clientes. Só invadia as contas de pessoas ou de organizações que ela não aprovava. Atores, políticos, celebridades bobas, bilionários que só ficavam ricos por terem mentido, enganado e roubado.
Ela chamava a sua empresa de WALDO. Chegara a contratar alguns hackers, mas apenas alguns. Ninguém nunca a tinha visto. Não havia fotografias de April May na Internet, e ela tinha a intenção de continuar assim.
Ela agora tinha alguns confortáveis milhões de dólares residindo em uma conta muito segura nas Ilhas Cayman.
Seu mais recente cliente, J. Rutherford Pierce, era possivelmente o seu maior. Ela não gostava muito dele, mas ele tinha testado suas habilidades, e isso era uma coisa boa. Graças a ele, ela invadira vários sites de busca e manipulado os resultados. Ele estava de olho em uma carreira política, e April May tinha descoberto cedo neste negócio que quase todo mundo tinha algo a esconder.
Ele estava atingindo locais, também. Através dele, ela poderia invadir a mídia e, possivelmente, a política, e em seguida, o céu seria o limite.
E ela não gostava de dois pirralhos intitulados ricos que apesar de tudo precisavam causar problemas onde quer que fossem, também. Se negociar informação em troca de dinheiro significava humilhar pessoas em um punhado de tabloides, talvez mexer seriamente com suas vidas... ei, era a vida.
Eles haviam contratado algum especialista em segurança, isso era certo. Paredes atrás das paredes. April estava quase começando a gostar do jogo.
As crianças não estavam em Moçambique. Ela tinha certeza. O hacker podia enviar uma corrente falsa, mas ela não ia cair nessa.
Ela clicou em outra linha de código. April inclinou-se para frente. Esta era uma boa notícia que ela podia dar ao seu último cliente. A conta dos Cahill estava esquentando.

Um comentário:

  1. Órion (Halloween diz, vc precisa de uma conta cabeça de constelação)1 de novembro de 2016 12:35

    ei, era a vida.


    Vida? Nem me fale nessa tal vida

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