14 de outubro de 2016

Capítulo 17

— Como isso chegou aqui? — perguntou Holiday, parada a poucos metros da mesa da cozinha e olhando para a espada com descrença.
— Diga-me você e então nós duas saberemos. — Kylie apertou as mãos com preocupação. — Como... como isso pode acontecer?
— Como?! — Burnett berrou. — É óbvio. Alguém trouxe isto até aqui para fazer uma brincadeira com você, mas eu não estou rindo e ninguém vai rir quando eu pegar quem foi o otário! — A cara feia de Burnett se aprofundou e virou uma carranca. — Tirar algo do escritório de Holiday para trazer aqui só de gozação é querer mexer com fogo. — Ele olhou para Kylie. — A quem mais você contou sobre a espada?
— A ninguém — disse Kylie. — Não contei a ninguém. A ninguém mesmo. Estive tentando nem pensar nisso. Então não pode ser uma brincadeira.
— Ela está dizendo a verdade — murmurou Della. — Ela não nos contou. E ela nos conta tudo. Ou contava. — Della olhou para Kylie de cara feia.
— Ela não nos conta tudo — Miranda acrescentou. — Assim como algumas pessoas com chupões não nos contam tudo.
Della fez uma careta para Miranda e, em seguida, olhou para Kylie.
— Francamente, eu gostaria muito de saber por que estamos fazendo tanta tempestade em copo d’água. É apenas uma espada.
Burnett continuou a olhar para Kylie como se ainda estivesse refletindo.
— Então, como você acha que a espada chegou aqui?
Kylie deu de ombros.
— Eu não sei, mas talvez tenha sido da mesma maneira que chegou à cachoeira. Magia, vodu, ou por quem quer que a tenha deixado lá.
— Você achou esta espada na cachoeira? — perguntou Miranda. — Quem a teria deixado lá? Parece uma antiguidade e isso geralmente significa que vale um bocado de dinheiro.
— Eu também não sei — Kylie disse a Miranda. — Mas o que eu sei é que eu realmente não gosto disso. Então, basta tirar esta coisa daqui. Com delicadeza e segurança. E talvez colocá-la em outro lugar mais seguro neste momento. Como num cofre.
— Uau! — exclamou Miranda.
— Uau o quê?— Burnett perguntou ao mesmo tempo que Kylie falava.
Miranda apontou para a espada.
— Ela tem uma aura!
— A espada tem uma aura? — Holiday se aproximou de Miranda, parecendo intrigada. Kylie deu mais um passo para trás, porque ela não estava nada intrigada.
— Que tipo de aura? — Holiday perguntou à bruxa.
— Talvez Hayden estivesse certo. A espada está possuída — disse Burnett.
— Espere! Objetos inanimados podem mesmo ser possuídos? — Kylie cruzou os braços, não de frio, mas porque estava assustada.
— Não — disse Della.
Miranda revirou os olhos para a vampira.
— Claro que podem.
— Sério? — perguntou Della. — Que legal!
— Não é legal! — Kylie estalou.
Miranda olhou para a espada.
— É preciso uma bruxa ou um demônio poderoso para possuir um objeto. Mas eu não acho que seja isso que está acontecendo.
— Por que não? — perguntou Holiday.
— Você disse que ela tinha uma aura? — Burnett perguntou.
— Sim — respondeu Miranda, parecendo orgulhosa por ser a única de posse daquela informação. — Mas só porque um objeto tem uma aura isso não significa que ele esteja possuído. Algumas coisas, como armas e tal, têm aura porque as emoções são absorvidas pela matéria física durante um ataque.
— Então, essa coisa já matou um monte de gente? — perguntou Kylie, lembrando-se da espada do fantasma e da cabeça que ela tão orgulhosamente mostrara para Kylie.
— Provavelmente, mas eu não acho que ela esteja possuída. Normalmente, quando algo está possuído, é completamente do mal.
— Então, que tipo de aura ela tem? — perguntou Kylie.
— Só um pouco ruim — disse Miranda, contradizendo a si mesma.
— Que adorável! — Della esfregou as mãos.
Kylie gemeu e fixou o olhar em Miranda.
— Mas você acabou de dizer...
— Eu disse que algo que está possuído é completamente do mal. — Miranda tornou a fitar a espada. — Isso é só... Ok, não é de fato do mal. Mas eu posso sentir que tirou vidas. Muitas vidas. Mas a maior parte da aura irradia justiça e... — Ela inclinou a cabeça para o lado e se concentrou na espada, como se estivesse tentando ler o seu padrão sobrenatural. O cabelo, com listras cor-de-rosa, pretas e verde-limão, cobriu como uma cortina a lateral do seu rosto.
— E isso parece loucura, mas é também... coragem.
— Coragem? — Kylie se lembrou da voz que ouvira a caminho da cachoeira. — Como assim, coragem? Pergunte a ela o que isso significa.
Miranda riu.
— Auras não respondem a perguntas. Estou apenas dizendo o que ela parece irradiar.
— Como é que você sabe o que ela irradia? — perguntou Della.
— As cores, a intensidade das cores, e como elas se movem e se misturam. É como interpretar um anel do humor.
— Eu gostaria de ver auras — disse Della a Miranda. — Será que você pode me emprestar o dom de vê-las?
— Não — disse Miranda. — Não mais do que você pode me emprestar a sua capacidade de voar.
Kylie continuava a olhar para a espada, lembrando-se da espada que o fantasma carregava.
— Eu ainda acho que isso tem alguma coisa a ver com o fantasma. Ele poderia tê-la trazido aqui.
— Ah, droga! Por acaso tem um fantasma aqui agora? — perguntou Della.
— Não agora — Holiday respondeu a Della e em seguida olhou para Kylie. — Os fantasmas não podem transportar objetos materiais.
— Não é verdade. Eu tive um que jogou o meu telefone da minha mesa de cabeceira — contou Kylie.
— Sim, eles podem gerar energia suficiente para deslocar algo pequeno, e podem brincar com aparelhos eletrônicos, mas não podem mover fisicamente um objeto de um lugar para outro. Isso exigiria uma enorme quantidade de energia. É impossível.
— Bem, isso me faz sentir um pouco melhor — disse Della.
Holiday se aproximou da mesa.
— Mas não faz sentido.
— Eu sei — disse Kylie. — E esse parece ser o tema musical da minha vida agora. Nada faz sentido.
Burnett levou a espada embora. Ele se recusava a deixar Holiday tocá-la, com receio de que o objeto de repente criasse vida. Justamente quando eles iam embora, Kylie ouviu um leve soluço vindo de Holiday.
fae mordeu o lábio e seus olhos se voltaram para Kylie. Apesar de estar chocada com o fato de ter encontrado a espada em sua mesa, ela lançou a Holiday um sorriso compreensivo. Ela sabia que a amiga estava em pânico com a possibilidade de estar grávida.
Não que Kylie visse isso como uma coisa ruim. Seria legal conhecer uma criança que fosse uma mistura de Burnett e Holiday.
Quando Holiday e Burnett estavam fora da cabana, Della e Miranda se viraram para Kylie. Della falou primeiro.
— Ok... sente-se e explique por que você não nos contou sobre a espada, e depois nos diga o que mais você está escondendo.
Kylie ia começar a lembrar Della de que ela tinha seus próprios segredos, como quem lhe tinha provocado o chupão, por exemplo, mas de repente percebeu que não se incomodava em contar aquilo às amigas. Na verdade, poderia ajudar se ela falasse a respeito. Não que ela tivesse mantido segredo das amigas de propósito. Só não tinha falado nada antes porque não queria pensar no assunto.
Ela foi para a cozinha, olhando em volta para se certificar de que a espada não tinha reaparecido como num passe de mágica. Vendo a mesa vazia, ela se deixou cair numa cadeira, com um suspiro desanimado.
Della foi até a geladeira, pegou três refrigerantes diet e passou-os para as amigas. O estalido das latas sendo abertas ecoou na pequena cozinha. Então Kylie começou a falar. Entre goles do refrigerante gasoso deslizando pela sua garganta, ela lhes contou tudo. Desde o que acontecera na casa do avô, até a maneira como os camaleões adolescentes eram tratados. Contou que tinha fugido no meio da noite porque alguém tinha planos para raptá-la. Então revelou a parte mais difícil: o aparecimento de Mario e o fato de ela quase ter matado Lucas.
— Bem, nada acontece à toa — disse Della. — Lucas meio que merecia isso. Aposto que foi uma sensação boa apertar o pescoço dele...
— Não, não foi — Kylie insistiu.
— Espere! — disse Miranda. — Antes de começarmos a falar sobre a questão do Lucas, você não chegou à parte da espada. — Ela tomou um grande gole de Coca Diet e continuou a olhar Kylie sobre a borda da lata.
Kylie começou a contar sobre a sua visita à cachoeira com Holiday.
— E esse fantasma? — perguntou Della, olhando em volta. — Você vai nos apavorar de novo com esse papo de visão? Quer dizer, como da última vez que você viu um fantasma durante a aula e eu tive que quebrar a porta do armário da sala da senhorita Cane. Aquilo realmente me assustou. Eu juro, agora cada vez que ela me vê, tem que me lembrar... “Sabe, eu tinha a chave daquela porta...” Mas, caramba!, você estava gritando feito louca lá dentro.
— Espero não apavorar você de novo. — Kylie fez uma careta. — E eu peço desculpas antecipadamente se fizer isso outra vez. Mas eu não tenho controle sobre isso. Sério, se qualquer uma de vocês ficasse presa numa cova com três garotas mortas, eu aposto que iria surtar um pouco também.
— Ah, droga, pode apostar, eu ia surtar. Ia ficar chutando a bunda daquelas garotas mortas.
Della colocou o refrigerante na mesa com força demais e a lata amassou um pouco.
— Eu não sei como você aguenta isso. Deve ser um saco.
— É — admitiu Kylie, desenhando círculos nas gotículas condensadas na lata de refrigerante. — Às vezes é meio chato ser eu.
— Falando nisso... — Miranda olhou para Della. — Você quer contar agora sobre o chupão?
Della revirou os olhos.
— Não há nada pra contar. Simplesmente aconteceu.
— Aconteceu o quê? — perguntou Miranda. — Por acaso você...? Você sabe...
— Não! — Della negou. — Eu não fiz... “você sabe”. Nós apenas ficamos juntos. E depois eu comecei a preferir que não tivesse acontecido. E não vai acontecer outra vez.
— Com quem foi que aconteceu? — perguntou Kylie, entrando na conversa e, provavelmente, aborrecendo Della. Mas, se ela estava ficando com Steve, então talvez, apesar do que a vampira tinha dito, aquilo levasse a alguma coisa.
Della franziu a testa.
— Se eu contar, vocês vão jurar pelas suas vidas que não vão dizer nada? Porque, se vocês falarem alguma coisa, eu vou ter que matá-las e depois vou me sentir muito mal. Pelo menos por um tempo.
— Eu juro que não vou contar a ninguém — disse Miranda.
— Eu também. — Kylie se inclinou para a frente, deixando seus próprios problemas de lado para se concentrar nos de Della.
Della reclinou-se em sua cadeira.
— Foi Steve.
— Certo — disse Kylie.
— Eu sabia que você gostava dele! — Miranda esfregou as mãos. — Detalhes, queremos detalhes!
Della colocou as duas mãos sobre a mesa e inclinou-se para a frente, fitando-as com um olhar irritado e mostrando um pouco as suas presas.
— Eu não dou detalhes, lembra?
— Ok, sem detalhes — disse Kylie. — Mas explique por que foi um erro. E por que isso não vai acontecer novamente. Porque, quero dizer, obviamente foi bom.
— Porque... Eu não disse que foi bom!
— Ah, por favor! — disse Miranda. — Você tem um chupão, então vocês devem ter se empolgado para ter chegado tão longe. — Miranda olhou para Kylie, pedindo apoio. — Certo, Kylie?
Kylie apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Como não sou uma especialista em chupões, não sei ao certo, mas parece que sim. — Ela olhou para Della. — Então você não ficou empolgada?
Della soltou um rosnado baixo.
— Ok, eu posso ter me empolgado por alguns segundos.
— É preciso mais do que alguns segundos para conseguir um chupão. — Miranda se remexeu na cadeira, obviamente adorando que Della finalmente estivesse falando.
— Você é tão insistente! — reclamou Della.
— Quanto tempo demora para se conseguir um chupão? — perguntou Kylie.
Miranda pegou o refrigerante diet.
— Um minuto, talvez alguns segundos a mais ou a menos, dependendo da força com que o cara suga.
— Não dói? — perguntou Kylie, tentando imaginar alguém chupando a pele por tanto tempo.
— Não — Miranda e Della responderam ao mesmo tempo.
— É uma sensação boa. — Miranda sorriu para Della. — Não é?
— Acho que sim. — Della revirou os olhos como se odiasse admitir que gostava de alguma coisa, mas, em seguida, a vampira sorriu. — Você quer que eu te apresente ao meu aspirador de pó?
— Ah, que aspirador de pó o quê! — disse Miranda. — Kylie deveria ir atrás de Steve. Quero dizer, ela está chateada tanto com Derek quanto com Lucas, e Steve está disponível porque você não está mais na dele, e ele, obviamente, sabe como dar um chupão.
Della fez uma careta para Miranda.
— Eu não acho.
Miranda remexeu seu bumbum na cadeira novamente.
— Porque você ainda gosta dele. Porque quer que ele te dê outro chupão. Admita. Apenas admita.
— Você é detestável! — disse Della.
— Sim, ela é. — Kylie arqueou uma sobrancelha para Della. — Mas a bruxa tem seus motivos.
— Bem, ela pode guardar seus motivos para si mesma! — Della pegou sua latinha e esmagou-a com a mão. E então os olhos de Della se arregalaram.
— Merda!
— O quê? — perguntou Kylie.
— Ela está de volta... — disse a vampira num tom de voz monótono e assustador.
— O que está de volta? — perguntou Kylie, mas com receio de que soubesse a resposta. Ela se virou e viu a espada sobre o sofá.


Kylie não queria chamar Burnett e Holiday de novo, mas Della se recusou a dormir com uma espada possuída dentro da cabana. Miranda, que disse novamente a Della que a espada não estava possuída, não se importava, de qualquer maneira.
Respeitando os sentimentos de Della, e compreendendo-os perfeitamente, Kylie pegou emprestado o telefone de Della e chamou Burnett e Holiday.
Antes de Holiday e Burnett deixarem a cabana com a espada mais uma vez, o vampiro lhes deu uma ordem:
— Isso fica entre nós. Nenhuma de vocês vai dar um pio sobre isto aqui, entendido?
— Por quê? — perguntou Kylie, sem saber por que ele via aquilo como uma espécie de segredo.
— Eu já estou dando explicações demais para a UPF. E isso só faz com que fiquem mais ansiosos para levá-la para testes. É melhor abafar o caso até descobrirmos alguma coisa.
Se descobrirmos, Kylie pensou, mas não disse nada.
Quando Burnett e Holiday saíram, Kylie seguiu-os até a varanda. Holiday se inclinou e sussurrou:
— Nós estamos levando a espada, mas, se ela já voltou duas vezes, não tenho certeza de que não vá simplesmente voltar outra vez.
— Eu sei — e era justamente esse o motivo de Kylie não querer chamá-los dessa vez. Ela só esperava que, se a espada voltasse, seguisse direto para o seu quarto e não perturbasse Della.
Mesmo sentindo um calafrio percorrer sua espinha ao pensar na possibilidade de dormir no mesmo cômodo que uma espada com uma aura, era melhor do que ver Della surtando e fazer Burnett e Holiday voltarem.
Kylie só esperava que Miranda estivesse certa e a espada não fosse uma arma projetada para fazer o mal.

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