4 de outubro de 2016

Capítulo 17

Kylie sentiu o rosto começando a pegar fogo.
— Não é o que vocês estão pensando...
Mesmo que ela dissesse as palavras, sabia que estava mentindo.
— Ok — disse ela. — É exatamente o que vocês estão pensando.
Miranda ficou de boca aberta.
— Você quer dizer... que vocês...
— Não! — Kylie levou a mão ao peito. — Meu Deus, não! Como eu disse, a gente só dançou e se beijou. Mas...
— Mas o quê? — Della exigiu.
— Fale — disse Miranda. — Mas o quê?
Kylie respirou fundo.
— Mas... ele disse algo que me fez pensar que talvez tivesse a capacidade de me convencer a... vocês sabem o quê. — Ela corou de novo.
— Fazer o canguru perneta? — Della arriscou. — Dançar o hula? Fazer o treme-treme?
Kylie revirou os olhos.
— Onde você ouve essas coisas?
Della sorriu.
— Por aí...
Miranda deu uma risadinha.
— Bem... — Kylie sentiu as bochechas ficarem ainda mais quentes. — De qualquer maneira, sim, é isso o que eu quero dizer — acrescentou ela antes que a sua amiga vampira boca suja viesse com mais algumas expressões meio vulgares meio hilariantes para sexo.
— Eu só quero saber se os lobisomens têm poderes especiais, ok?
Della se recostou na cadeira.
— Talvez ele só queira dizer que vai seduzi-la beijando você. Temos que admitir, ele é muito gato e você disse que os beijos dele são muito bons. Ei, ele faz até os meus joelhos tremerem, e eu sou uma vampira com uma antipatia natural por lobisomens.
— Ele é bem fofo! — acrescentou Miranda.
Kylie tentou não pensar nas duas colegas de dormitório com os joelhos trêmulos por causa de Lucas.
— Então vocês não acreditam que esse poder realmente exista? — perguntou em vez disso.
— Não, ele existe — disse Miranda, franzindo a testa como se estivesse pensando. — Eu já ouvi algo sobre isso. Nada muito específico, apenas uns boatos.
— O que você ouviu? — Della e Kylie perguntaram, ao mesmo tempo.
Kylie colocou Socks no chão, levantou-se do sofá e se sentou numa cadeira da mesa da cozinha. Por alguma razão, o fantasma tinha decidido ir embora, o que não a deixava nem um pouco aborrecida. Ela precisava mesmo de uma folga.
Especialmente agora.
— Eu não me lembro dos detalhes — disse Miranda. — Só sei que é meio perigoso namorar um lobisomem. Tem algo a ver com os feromônios dos animais. Porque os lobisomens são basicamente animais, e todos os animais têm uma forma natural de atrair o sexo oposto.
— Como eles fazem isso? — Kylie perguntou.
— Bem — disse Miranda —, os lagartos têm uma espécie de balão colorido que eles inflam no pescoço e as fêmeas parecem achar muito sexy.
Kylie balançou a cabeça.
— Lucas não tem um balão no pescoço.
— Ei! — Della exclamou. — Vocês já viram aqueles passarinhos que fazem a dança do acasalamento? Eles ficam pulando num pé só e arrepiam as penas. Parece que as fêmeas ficam com o maior tesão quando veem os machos fazendo isso. Quer dizer, o cara com as penas melhores sempre vence. Ou serão as penas maiores...?
Miranda riu.
— E ouvi dizer que alguns machos de babuínos têm o traseiro muito colorido e ficam se exibindo para as fêmeas, que supostamente ficam todas ouriçadas.
Embora Kylie estivesse falando sério em sua ânsia de encontrar respostas, ela não pôde deixar de rir.
— Eu não acho que Lucas tenha um traseiro colorido, também. Não que eu saiba. — Ela riu mais ainda.
Antes que a conversa acabasse, Della ligou o computador e elas pesquisaram estranhos rituais de acasalamento que incluíam desde testículos explodindo até excrementos sendo atirados com o rabo, e tiveram ataques de riso até bem depois da meia-noite. Quando finalmente Kylie se deitou em sua cama, concluiu que aquela noite tinha sido justamente do que ela precisava.
No entanto, ainda não tinha a resposta para sua pergunta: afinal, que tipo de poder Lucas realmente tinha? E ela podia confiar que ele não abusaria desse poder? Seu instinto dizia que sim. Mas e se os seus instintos estivessem sob o efeito de influências externas?
A sensação de estar flutuando tomou conta de Kylie várias horas depois que ela foi para a cama. Seus alarmes mentais dispararam. Seria um sonho lúcido criado por Ruivo outra vez? Então ela percebeu a diferença: estava de fato flutuando, o que significava que era ela quem estava em movimento.
Ela pensou em tentar parar, mas estava muito cansada, então simplesmente deixou seu corpo deslizar. Flutuou pelo ar, por entre as nuvens do sono.
A sensação de liberdade era eletrizante. Não tinha a menor ideia de para onde estava indo e não se importava. Obviamente, o seu subconsciente tinha um plano. Mas qual?
E então ela o viu. E ele estava tão lindo, deitado na cama, que a respiração de Kylie ficou presa na garganta e ela refreou o impulso de voar. Ele estava sem camisa, também. Os lençóis tinham deslizado para além da linha da cintura e estavam vários centímetros abaixo do umbigo. O olhar dela se moveu para cima e depois para baixo, em seguida, pelo seu peito nu. Havia muita pele descoberta para apreciar...
Então ela examinou seu rosto, tão tranquilo em seu sono. Os longos cílios. O cabelo em desalinho caído na testa, como se ele tivesse passado os dedos pelos fios muitas vezes.
Seu coração acelerou e então ela se sentiu se aproximando do quarto dele, da cama, do seu rosto...
Não! Deteve-se no último instante.
Ela tinha prometido esquecer Derek. Seguir em frente. Infelizmente, seu subconsciente não tinha conseguido captar a mensagem. Então, quando a gravidade, ou talvez sua própria vontade, começou a puxá-la para trás, ela se deixou navegar através das nuvens, de volta ao universo de sono.
Acordou com um sobressalto, como se tivesse caído com um solavanco de volta em seu corpo. Recuperando o fôlego, Kylie estendeu a mão para pegar o travesseiro e abraçou-o firmemente contra o peito. A visão de Derek dormindo tomou conta dela. Não! Não! Não pense em Derek! Pense em Lucas.
Lucas, que tinha dançado com ela ao luar. Lucas, que a beijara docemente. Lucas, cujo sangue corria mais rápido toda vez que ela estava com ele.
Fechando os olhos, Kylie se perdeu novamente no esquecimento do sono. No doce torpor do sono. E no instante seguinte, lá estava ela num espaço cheio de nuvens, de frente para Lucas. A imagem de Ruivo lhe ocorreu, mas então Lucas disse:
— Sou eu. Sinta. Estou quente. — Ele estendeu a mão para pegar a dela. O toque enviou calor através da palma de Kylie até seu coração.
Ela se lembrou de ter dito a si mesma para pensar em Lucas e se perguntou se estava aprendendo a controlar seus sonhos lúcidos. Uma leve emoção a percorreu, quando uma sensação de plenitude encheu seu peito. Com tantas incógnitas e problemas fora de controle, ela se sentiu muito bem ao pensar que conseguia controlar alguma coisa.
Lucas sorriu para ela com seus olhos azuis sonolentos.
— Eu estava começando a pensar que você nunca mais viria me visitar em meus sonhos.
De repente, as nuvens se evaporaram como uma névoa indesejada e eles estavam outra vez ao ar livre, no local onde tinham dançado na véspera.
A Lua e as estrelas lançavam sombras encantadoras em torno deles. Só que desta vez, a noite entoava a música. Os grilos e de vez em quando um pássaro que cruzavam os ares harmonizavam-se com o farfalhar de uma brisa leve que agitava as folhas dos arbustos e dos carvalhos.
— Quer dançar? — Ele estendeu a mão.
Ela ia colocar a mão na mão dele quando percebeu que Lucas estava sem camisa. Em vez de jeans, usava cuecas boxer longas e soltas. Aquelas do tipo que os garotos usam para dormir – quando não dormem nus. O tipo que as estrelas de cinema usam quando tiram fotos sensuais.
Kylie engoliu em seco de puro nervosismo. Ele estava realmente bem. Estava quente e macio. E quase nu. Como se fosse preciso um só movimento para deixá-lo completamente nu.
— Hã... — Ela apontou para ele, fazendo um gesto com a mão para cima e para baixo. — Você não deveria estar vestido?
Ele sorriu e depois riu abertamente – algo que ele não fazia frequentemente.
— O sonho é seu, Kylie. Você me vestiu para a ocasião. É você quem decide o que eu visto. Então, a pergunta é: é assim que você quer que eu esteja vestido?
Ela sentiu o rosto arder e desejou que pudesse negar, mas Holiday tinha explicado isso durante as muitas conversas que tiveram sobre sonhos lúcidos. Kylie controlava tudo, desde a pessoa que ela visitava até o que acontecia durante a visita. Então, por que tinha visitado Derek primeiro?
E por que queria Lucas seminu?
Ok, aquela era uma pergunta idiota.
— Bem... — Ela deixou a voz sumir, sem saber o que mais dizer. Foi então que percebeu o que ela mesma estava usando. O mesmo pijama curto que tinha vestido para dormir e que consistia numa blusa azul-clara colada ao corpo e um short apertado azul-marinho. Uma roupa de banho teria deixado muito mais pele à mostra, mas ainda assim ela se sentia um pouco indecente.
Não sabia muito bem como poderia trocar as roupas deles, mas fechou os olhos e concentrou-se por alguns segundos. Quando os abriu novamente, ela estava usando o vestido preto que usara na festa, muito mais apropriado. Lucas usava jeans e uma camiseta branca, com a estampa de uma grande carinha amarela sorridente estampada no peito.
Ele olhou para a camiseta que vestia e depois voltou a fitá-la com a testa franzida e uma expressão divertida no rosto.
— Sério? Foi isso que você escolheu?
— Ainda não tenho muita experiência nisso — disse ela, defendendo-se. — Mas não está tão mau assim.
— Uma carinha sorridente? — Ele riu de novo. — Só me lembre de nunca deixar você comprar minhas roupas.
Ela riu, e então Lucas estendeu a mão novamente.
— Estamos aqui pra dançar?
Desta vez, ela pegou a mão de Lucas e deixou que ele a puxasse de encontro a si.
Assim que seus braços quentes a enlaçaram e seu peito comprimiu o dela, Kylie teve a mesma sensação que se tem ao deslizar para baixo de um edredom numa noite de inverno. Suspirou ao perceber o quanto se sentia confortável abraçando Lucas. Quando ela descansou a cabeça em seu peito, a mão dele envolveu sua cintura e sua pulsação frenética se fez sentir contra a parte inferior das costas dela. Aquela vibração parecia fluir para dentro de Kylie e fazia o seu sangue correr mais rápido também.
Kylie então se lembrou da pergunta que precisava fazer e ergueu a cabeça, apoiando o queixo no peito dele. Lucas olhou para baixo e fitou-a nos olhos. Seus olhos azuis estavam escurecidos com um sentimento que parecia paixão, e ela se perguntou se seus próprios olhos estariam expressando a mesma emoção.
— Posso fazer uma pergunta?
— É o seu sonho — ele sussurrou. — Podemos fazer qualquer coisa que você quiser.
Ela sentiu uma ênfase nas palavras “qualquer coisa” que lhe causou uma onda de nervosismo.
Qualquer coisa.
Respirando fundo, Kylie parou de dançar e deslizou a mão para cima, pousando-a onde sentiu o coração dele batendo.
— Esta noite, você mencionou que os lobisomens são bons... na arte de persuadir.
Os lábios dele se curvaram num sorriso.
— Sim, eu me lembro disso. — Sua voz tinha um toque de provocação sensual que a fez estremecer e querer chegar mais perto.
— O que... O que você quis dizer com aquilo?
O sorriso dele ficou mais sexy.
— Prefiro te mostrar.
Ela mordeu o lábio inferior, refletindo sobre o convite. Estava tentada – e como estava! E que mal faria se ela dissesse sim, só desta vez? Afinal, era apenas um sonho. Nada que acontecesse ali teria efeito em sua vida real. Certo?
— Relaxa, Kylie — disse ele. — É apenas um sonho. — As palavras de Lucas ecoaram em seus próprios pensamentos. Então os lábios quentes do lobisomem roçaram o rosto dela e a onda de desconforto que Kylie sentia aumentou.
— Talvez seja apenas um sonho — disse ela. — Mas parece real e eu... eu prefiro que você responda à minha pergunta da maneira mais antiquada, só com palavras.
Ele concordou com a cabeça. Por um segundo, pareceu não querer continuar, mas depois disse:
— Não é um truque ou qualquer coisa assim. É parte do que eu sou. É instintivo.
— O que é instintivo?
— Quando um lobisomem está com uma parceira em potencial, seu corpo reage de certas maneiras. — Ele fez uma pausa, como se soubesse que essa explicação não seria suficiente. — Na noite passada, quando sua cabeça estava pousada no meu peito, você ouviu um som... Um rosnado baixo.
— Como um ronronar ou um zumbido — disse ela, lembrando-se de se sentir embalada por aquele som suave.
Ele balançou a cabeça.
— Bem, dizem que essa reverberação é meio hipnótica. Ela estimula a parceira a se aproximar.
Aproximar-se e tirar a roupa, Kylie pensou, mas não disse nada.
— Causa uma vertigem também — disse ela, lembrando-se de como se sentira na noite anterior.
Ele emoldurou o rosto de Kylie com as mãos.
— É, talvez um pouco. — Ele acariciou o rosto dela com o polegar. — Mas não é um truque para levar garotas pra cama. É apenas uma coisa natural que os lobisomens machos fazem... Se é com isso que está preocupada.
— Eu não estou exatamente preocupada — disse ela. E não estava. Porque, por mais perigoso que o ronronar de um lobisomem pudesse ser, Kylie não achava que tinha de se preocupar com a possibilidade de Lucas abusar do seu poder. Na noite anterior, ele tivera a chance de deixar as coisas irem longe demais entre os dois, mas não fez isso. — Como eu disse, confio em você. — E Kylie ainda confiava.
Lucas estudou o rosto dela.
— Mas?
Ok, havia de fato um “mas”. Ela demorou um pouco para encontrar as palavras certas.
— Mas conhecimento é poder. Eu gosto de saber com que estou lidando. E gosto de estar no comando, se entende o que eu quero dizer.
Ele franziu um pouco a testa como se não tivesse gostado da resposta.
— Não é uma armadilha. A fêmea precisa estar perto, bem perto mesmo, para perceber isso.
Kylie sorriu.
— Então eu acho que preciso ter cuidado para não chegar muito perto de você.
— Ou não. — Ele se inclinou e beijou-a suavemente nos lábios. — Eu gosto de você pra valer, Kylie Galen.
— E eu de você, Lucas Parker. — Ela ficou na ponta dos pés para dar um rápido beijo nos lábios dele.
Seus olhos se encontraram e Lucas soltou um profundo suspiro.
— Ok.
— Ok, o quê? — ela perguntou, sentindo que aquilo significava algo.
— Ok, eu vou ser um pouco mais paciente. Ok, estou satisfeito com o que já tenho. Você perto de mim assim. — Ele a levantou e a girou no ar.
Kylie sorriu quando Lucas a colocou de volta no chão.
— Obrigada — disse ela, tocando seus lábios com os dedos.
Ele pegou a mão dela.
— Nós só temos que ter um pouco de cuidado quando não estamos sonhando.
— Cuidado com o quê?
— Como eu disse ontem à noite, quanto mais perto da Lua cheia, mais fortes ficam meus instintos. E às vezes, eles me deixam um pouco impaciente.
Ela não gostou de ouvir isso.
— Você quer dizer que não podemos nos ver na época da sua transformação?
— Eu não disse isso. — Ele franziu a testa. — Nós podemos nos ver. Mas não convém... dançar ao luar por muito tempo. Ou rolar na grama perto do riacho. — Ele sorriu. — Ou nadar sem roupa... — Seu tom de voz pareceu se aprofundar.
— Aquilo foi apenas um sonho. — Ela sentiu seu rosto arder.
— Um sonho e tanto! — Ele sorriu. Então inspirou o ar como se para afugentar os pensamentos. — Mas, basicamente, vamos ficar bem, contanto que a gente não brinque muito com fogo até depois da transformação. — Ele passou a mão pelos cabelos e puxou um punhado deles para a frente. — A menos que mude de ideia. Você sabe que o que acontece nos sonhos não acontece de verdade, certo? Quer dizer, a gente podia...
De repente, ela sentiu algo puxando-a para trás e levando-a para longe de Lucas. Atraindo-a para um lugar que ela não queria ir.
Lucas gritou seu nome. Mas uma nuvem apareceu entre eles. Ela percebeu que dois homens vestidos com aventais brancos a prendiam. Seguravam-na, um a cada braço, com tanta força que ela não conseguia se libertar. O acampamento tinha desaparecido. Agora Kylie estava num prédio desconhecido e os dois homens levavam-na por um corredor escuro e sinistro. Ela gritou e tentou se afastar, mas foi inútil.
Seu coração batia na garganta e Kylie sentiu o medo crescer dentro dela. Nada fazia sentido. Então se lembrou de que tudo era um sonho. Tudo o que ela tinha de fazer era acordar.
Ela fechou os olhos com força. E então com mais força. E mais ainda.
Acorde. Acorde. Acorde.
De repente, uma luz clara ofuscou os seus olhos. Tudo havia mudado novamente. Os homens que a arrastaram para longe tinham ido embora. Ela se sentia desorientada, perdida, sozinha. Vazia. Ela se sentia vazia. O que estava acontecendo com ela?
A luz se deslocou de um olho para o outro, e Kylie viu um homem a centímetros do seu nariz. Percebeu que estava deitada numa cama. Não na sua cama, porém. Não na cama de solteiro do acampamento ou na grande cama da sua casa. A cama era diferente. Ela tentou se mexer, mas sentia-se entorpecida. Não, não estava entorpecida – estava paralisada!
— Ela está bem? — uma voz feminina perguntou. Kylie voltou os olhos para o lado na tentativa de ver seu novo raptor, mas a pessoa estava fora do seu campo de visão, e ela foi incapaz de virar o pescoço. O pânico começou a apertar sua garganta novamente.
— Deveria estar — disse o homem, iluminando seus olhos com a luz.
Kylie piscou e, quando abriu os olhos, viu o padrão cerebral do homem. Ele era um vampiro.
Então o homem virou o queixo dela com suas mãos grandes e correu o dedo pela sua cabeça. Curiosamente, Kylie percebeu que ele tocou seu couro cabeludo nu. Ela sentiu falta do cabelo.
Estava sem cabelo?
Ela piscou novamente e se lembrou do fantasma, Jane Doe. Será que isso tinha acontecido a ela? Seria uma visão enviada pelo fantasma com amnésia, uma daquelas visões malucas em que Kylie se tornava o próprio espírito? O medo cresceu em seu peito. Ela desviou o olhar para o lado e olhou nos olhos do homem até ver neles seu próprio reflexo. E viu o reflexo de Jane Doe.
Isso deveria tê-la acalmado, mas o pânico ficou ainda maior. Queria sair dali. Nunca quisera estar lá, para começar. Kylie já tinha perdido tudo o que importava. Pensamentos, sentimentos e emoções colidiam em seu peito e ela não sabia ao certo quais eram dela e quais pertenciam ao espírito.
— Acorde. Kylie, acorde! — Ela podia ouvir vozes saídas de algum lugar distante. Mas então as vozes desapareceram e ela sentiu as mãos do vampiro sobre a sua cabeça novamente.
— Ela está se recuperando muito bem — disse ele. — Talvez só demore um pouco mais para voltar. Vamos fazer outra ressonância magnética. — O homem se levantou e contraiu as sobrancelhas para ela. — Mesmo assim, podia ser melhor. Seu padrão ainda não surgiu. — Ele franziu a testa. — Eu não entendo isso. Algo não está certo.
— O que eu digo ao marido? Ele acordou algumas horas atrás e está perguntando por ela — disse a voz feminina. Kylie ainda não conseguia ver a quem pertencia a voz.
Socorro!, gritava em sua cabeça, porque não conseguia pronunciar as palavras em voz alta.
— Diga a ele que ela está indo bem. Mas que ainda está em observação. Libere-o se ele estiver em condições.
— Você acha que ela vai sobreviver? — perguntou a mulher novamente.
— Não sei. — Ele enfiou a lanterninha no bolso do avental. — Mas acho que é inevitável perder algumas cobaias. Temos apenas que lembrar que é por uma boa causa.
— Tem razão — disse a voz feminina.
— Traga os resultados do teste. No entanto, se ela não acordar até a noite, vá em frente e extermine-a.
Exterminá-la?
O medo de Kylie aumentou ainda mais.
Nãããããããããão!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!