8 de outubro de 2016

Capítulo 16

Kylie foi até a margem da floresta, ignorando Della e Miranda enquanto as duas discutiam sobre quem iria acompanhá-la na caminhada e quem esperaria ali. Mal sabiam elas que nenhuma das duas iria com Kylie.
Ela não poderia pôr as amigas em perigo. Mesmo que não houvesse nenhum perigo, se Burnett descobrisse, mataria as amigas. E Burnett furioso era perigo suficiente. De algum modo, Kylie iria descobrir como se esgueirar para longe das duas e entrar na floresta sozinha.
Além disso, ela nem tinha certeza de que o avô e a tia ainda estavam esperando por ela. Talvez a caminhada pela floresta a levasse a descobrir, mas por ora não sabia. Mesmo assim, fechou os olhos e tentou ouvir com o coração. Ao ver que nem o mais leve anseio para entrar na floresta se agitava dentro dela, Kylie falou mentalmente: Vocês ainda estão aí? Eu estou aqui.
As palavras soaram ao mesmo tempo que ela começou a sentir frio. Sem reconhecer a voz, ela abriu os olhos. Parada em frente a ela estava uma mulher loira, com vinte e poucos anos, usando o uniforme de um restaurante e um crachá onde se lia o nome CARA M. O coração de Kylie começou a bater mais rápido quando ela percebeu que se tratava de uma das garotas da visão em que vira a irmã de Holiday enterrada.
Ao deixar escapar um suspiro, Kylie viu que sua respiração se condensou num vapor frio.
— Droga! — exclamou Della.
— Por que droga? — perguntou Miranda.
— Kylie tem companhia — explicou Della. — Essa merda de névoa branca sempre sai dos lábios dela quando ela está conversando com um morto.
— Oh! — Miranda deu um passo para trás e olhou para Kylie. — Nossa, a aura dela está ficando muito estranha. Isso é uma piração e tanto. Estou feliz por não ser ela.
Tentando fazer com que Della e Miranda ficassem quietas, Kylie concentrou-se em Cara M. Lembrou-se de Derek lhe pedindo para descrever o uniforme, por isso observou os detalhes. Deixou que uma imagem do uniforme se formasse em sua mente – o decote em V, o xadrez na bainha da saia – de modo que pudesse descrevê-lo para ele mais tarde. Mas por que ela simplesmente não perguntava?
— Onde você trabalhava? — Kylie perguntou.
— Trabalhei na loja de vudu da minha tia — Miranda respondeu. — Coisas muito estranhas aconteciam lá.
— Ela não está falando com você! — avisou Della, irritada.
— Desculpe — Miranda sussurrou. — Isso é tão apavorante!
— Você sabe o nome da lanchonete? — Kylie perguntou, sem tirar os olhos do espírito.
— Eu... não sei — Cara M. respondeu. — Mas será que você pode nos tirar de lá?
Kylie franziu a testa.
— Eu gostaria, mas preciso saber onde vocês estão.
— Mas você sabe. A outra garota levou você lá. Não se lembra?
Como ela poderia esquecer?
— Eu vi vocês enterradas embaixo de um lugar com assoalho de madeira, mas não sei onde é. Em que cidade você está? Sabe o endereço? É perto daqui?
— Sim, é perto. Não leva muito tempo para chegar lá.
Kylie pensou no que a garota disse e perguntou:
— Mas como você chegou aqui? Quero dizer, você veio andando... ou veio espiritualmente? — Kylie nunca tinha pensado no modo como os espíritos se locomoviam e percebeu quão pouco sabia sobre essa coisa de se comunicar com fantasmas.
— Eu não sei — respondeu o espírito. — Mas posso levar você lá, se quiser.
— Não — Kylie deixou escapar. A ideia de se ver presa numa cova novamente era demais para ela. Respirou fundo e se lembrou de falar mentalmente. — Você pode avisar Hannah que eu preciso falar com ela?
— Quem é Hannah?
— Uma das garotas que está com você. A de cabelo ruivo. — Kylie pôde sentir Della e Miranda se entreolhando e virou de costas de propósito para não se deixar distrair pelas amigas.
— Então o nome dela é Hannah? Como você sabe? Ela não está usando crachá. — O espírito olhou para baixo, como se apontasse para o crachá preso ao seu uniforme. — Você sabe o meu nome? Eles me chamam de Cara M., mas eu não me lembro de ter esse nome. Minha vida é como um livro de figuras apagadas que eu vi uma vez. Eu posso me lembrar de fragmentos de algumas imagens dessas páginas, mas elas viram rápido demais para que eu consiga reconhecer alguma coisa.
— Isso não é incomum depois da morte — assegurou Kylie ao espírito, lembrando-se de Holiday dizendo que, quanto mais dramática a morte, menos o espírito se lembrava. Ao se lembrar do que essas garotas tinham passado, Kylie sentiu uma pontada de dor. Seu coração se apertou com a necessidade de ajudá-las. Fazer o que fosse preciso para ajudar todas a completarem sua passagem.
— Será que um dia vou voltar a me lembrar? — perguntou Cara M.
A pergunta do espírito veio carregada de tanta tristeza que a emoção provocou um nó na garganta de Kylie.
— Eu não sou uma especialista no assunto, mas, com base no que já vi, posso dizer que os espíritos costumam recuperar a memória. Os espíritos geralmente ficam na Terra por uma razão e, depois que essa questão é resolvida, eles fazem sua transição.
Cara pareceu refletir sobre as palavras de Kylie e depois assentiu.
— Acho que estou aqui porque quero ir para o meu próprio túmulo. Nunca gostei de ter colegas de quarto. Aquela cova é muito apertada.
Infelizmente, Kylie conseguia se lembrar de quanto era apertada. Ela estremeceu, sentindo os ombros pressionados pelos corpos das duas garotas, uma de cada lado. Afastando o pensamento, Kylie concentrou-se na conversa e não no horror do que tinha acontecido.
— Eu estou tentando tirar vocês de lá. — Mas Kylie tinha o pressentimento de que, embora Cara M. só precisasse sair da cova coletiva, Hannah queria muito mais. Felizmente, quando resolvesse o problema de Hannah, Kylie ajudaria todas as três.
Cara M. ficou parada ali, como se estivesse perdida em pensamentos.
— É bonito o lugar para onde vou?
Kylie lutou para descobrir o que dizer, então decidiu pela verdade.
— Eu nunca o vi, mas acho que sim.
O espírito olhou em volta, depois flutuou lentamente alguns metros. Ficou pairando no ar, causando uma grande espiral de fumaça, dando a Kylie a impressão de que estava num filme de terror. Depois de alguns segundos, ela voltou a olhar para Kylie com olhos que pareciam perdidos, magoados.
— Aqui é bonito também. — Depois ela voltou a colocar os pés no chão. — Acho que eu reconheço este lugar. É perto de onde estão os ossos do dinossauro?
Um fio de esperança brotou no peito apertado de Kylie.
— Então você conhece esse lugar? Já morou perto daqui?
— Acho... acho que sim. Eu vejo uma imagem de pessoas nadando num lago. Havia muitas risadas. Devia ser divertido.
— É, há um lago. Consegue ver mais alguma coisa? Onde você trabalhava? Em que cidade?
O espírito franziu o cenho.
— Não me lembro. — Sombras escuras começaram a surgir embaixo dos olhos dela. Sombras que a fizeram parecer mais triste e, de alguma forma, mais morta. — Por favor, tire a gente de lá. — Depois de dizer isso, ela começou a desaparecer.
— Espere. Pode dizer a Hannah que preciso vê-la?
— Posso, mas não sei se ela vai vir. Está chateada.
— Por quê? — Será que a memória de Hannah estava voltando também? O frio começou a diminuir.
O fantasma desvaneceu-se completamente e o calor do Texas substituiu o ar frio, deixando Kylie com mais dúvidas ainda.
— O fantasma se foi? — perguntou Miranda.
— Sim — suspirou Kylie.
— Vamos entrar? — voltou a perguntar Miranda.
— Entrar onde? — Kylie perguntou, confusa.
— Na floresta, onde mais?
— Ah, não.
— Graças a Deus! — murmurou Della. Então todas as três foram para a cabana. Kylie olhou para trás mais uma vez e se perguntou se um dia iria obter todas as respostas de que precisava. Num certo sentido, sua vida era muito mais misteriosa do que um fantasma.
Elas tinham uma hora até o horário de voltar para o refeitório e participar da recepção de boas-vindas. Enquanto ainda estavam a caminho da cabana, Della e Miranda conversavam sobre o que vestiriam para a ocasião. Não havia dúvida de que Della queria caprichar no visual para impressionar Chris e Steve. Miranda queria causar a mesma impressão em Perry.
Kylie tentou entrar no mesmo estado de espírito das duas, mas seu entusiasmo não era o mesmo. Lucas não estaria lá, então a quem ela tentaria impressionar? A visão de Derek pipocou na sua cabeça e ela afugentou-a, sentindo-se culpada só de pensar naquilo.
A tentativa de não pensar em Derek lembrou-a de que ela tinha prometido lhe mandar um e-mail com a descrição do uniforme da garçonete. Quando Kylie se sentou ao computador, sua mente começou a recapitular os detalhes do uniforme que tinha procurado registrar enquanto conversava com Cara M.
Kylie abriu seu correio eletrônico e viu que tinha várias mensagens esperando por ela: algumas de sua mãe, algumas do seu pai, uma de Sara; alguns spams e outras mensagens de remetentes que ela não reconheceu.
Ignorando-as, começou clicando no botão para iniciar uma nova mensagem. Digitou o nome de Derek e então começou a fazer uma descrição do uniforme da garçonete. Ela tentou se lembrar de tudo que tinha descoberto sobre Cara M. e percebeu quanto queria poder conversar sobre o assunto com alguém. Então, ela se deu conta de que havia alguém: a pessoa para quem estava enviando o e-mail: Derek.
As risadas de Miranda e Della ecoavam do quarto da vampira. Por que ouvir a risada das amigas a fazia se sentir mais solitária?
A resposta borbulhou na sua cabeça. Porque elas estão empolgadas com a ideia de romance, de se arrumarem para impressionar os garotos. No momento, a ideia de romance deixou Kylie meio entorpecida. Ela sentiu que Lucas estava parecendo cada vez mais distante e, por algum motivo, Derek parecia mais próximo. E isso não estava certo.
Mas ela ainda se sentia solitária.
Lembrando-se do e-mail de sua mãe, Kylie pegou o celular e discou o número dela. O telefone tocou quatro vezes antes de a mãe atender.
— Oi, mãe — disse Kylie.
— Oi, querida, — O som da voz da mãe fez com que Kylie sentisse mais saudade de casa. — Está tudo bem?
— Está. Por que você sempre acha que tem algo errado comigo quando telefono?
— Eu não acho. Só às vezes. E esta é uma dessas vezes. Eu devo ser médium. Pare de fingir e me conte o que está acontecendo.
Cruzes! Talvez a mãe fosse sobrenatural.
— Nada! — disse Kylie. — Acabei de receber o seu e-mail e pensei em ligar pra você. Você está sempre dizendo que eu telefono pouco.
— É verdade. — A mãe fez uma pausa. — Quais as novidades, querida?
Desistindo de mentir, visto que isso não parecia estar funcionando, Kylie respondeu:
— Só estou passando por um dia ruim.
— Você sabe que, se mudar de ideia sobre ficar aí para o ano letivo e quiser voltar para casa, eu posso matriculá-la na escola daqui e...
— Eu não vou mudar de ideia, mãe. Eu adoro Shadow Falls. — Eu pertenço a este lugar. — Tenho o direito de ter um dia ruim, não tenho?
— Claro, assim como eu tenho direito de me preocupar quando você tem um dia ruim.
— Bem, não se preocupe demais. — Ela ouviu um súbito barulho do outro lado da linha.
— Onde você está? — perguntou Kylie.
— Jantando fora um pouco mais cedo.
— Sozinha? — Kylie perguntou, esperando que a mãe não estivesse com John Bajulador, que queria arrastá-la para a Inglaterra e tê-la nua em seus braços.
Tão logo esse pensamento lhe ocorreu, Kylie tentou afastá-lo.
— Hã, não. — A resposta da mãe veio carregada de culpa. — Não estou sozinha.
— Com John? — Kylie tentou esconder a decepção, mas achou que não tinha dado certo.
O silêncio se prolongou por alguns segundos.
— É uma pergunta simples, mãe. Não é preciso tanto tempo pra responder. — Kylie percebeu que ela tinha soado exatamente como sua mãe. Tinha certeza de que a mãe usava exatamente as mesmas palavras para falar com ela de vez em quando.
— Hã... sim — a mãe respondeu.
Kylie fechou os olhos. Como se o seu cérebro estivesse no piloto automático, a pergunta escapou dos seus lábios.
— Você não anda dormindo com ele, né?
E antes que a última palavra saísse da sua boca, ela já tinha se arrependido. Se arrependimento matasse... O rosto de Kylie ficou vermelho.
A mãe prendeu a respiração e começou a tossir.
— Hã...
Mais tosse.
— Alô, Kylie. — Uma voz masculina entrou na linha. — Acho que a sua mãe engasgou com o vinho.
Vinho? A mãe estava tomando vinho às três da tarde? Será que ele estava planejando embebedá-la para levá-la para a cama?
— Kylie? Você está aí?
— Sim. — Kylie ouviu a mãe mandando John lhe devolver o telefone. Kylie imaginou-a entrando em pânico ao pensar que a filha podia perguntar a John se eles estava fazendo sexo. Não que ela tivesse a intenção de perguntar. O fato de ter perguntado exatamente isso à mãe tinha entrado na sua lista de “momentos mais embaraçosos da sua vida”.
— Kylie? — A mãe parecia ter arrancado o telefone da mão dele. — Nós... temos que conversar mais tarde. — A voz dela estava esganiçada como a de um personagem de desenho animado.
— Tá. Mais tarde. — Kylie desligou e ficou olhando para o telefone.
Tudo bem, mais uma lição aprendida. Se a mãe mal conseguia dizer a palavra “sexo”, também não deveria ser capaz de ouvi-la. Será que isso significava que ela não conseguia fazer sexo também? Cruzes, Kylie esperava que sim. Lição número dois. Falar sobre sexo com a mãe lhe dava náuseas. Será que ela sofria do mesmo mal que sua mãe?
Largando o celular sobre o computador, Kylie tentou afastar da mente os pensamentos da mãe fazendo sexo e se concentrou no computador, tentando não ouvir as risadinhas das amigas enquanto conversavam – provavelmente sobre sexo também. Gemendo, ela baixou a cabeça sobre a mesa, sentindo o sangue pulsar em suas bochechas e esperando que o toque frio da madeira aliviasse o calor.
Seu celular, sobre o computador, começou a bipar, anunciando uma mensagem de texto. Sentando-se ereta, ela pegou o aparelho e verificou a mensagem. Seu coração deu um salto ao ver que era de Derek.

Tudo ok? O que está acontecendo?

Kylie fechou os olhos. Será que agora ele sentia tudo o que ela sentia? Ela tombou a cabeça sobre a mesa novamente com tanta força que machucou a testa. Respirou fundo algumas vezes e começou a responder a mensagem.

Tudo bem. Estou passando um e-mail com a descrição do uniforme da garçonete. Você vai à recepção?

Ela segurou a respiração e esperou a resposta.

Sim. E vc?

Ah, meu Deus, será que ele tinha pensado que a pergunta era uma espécie de convite para um encontro?
Será que era um convite para um encontro?

Sim. Até lá.

A culpa voltou a assombrá-la. Mas pelo menos isso a fizera se esquecer do constrangimento por perguntar à mãe se estava transando com John.
Kylie continuou olhando para o celular. Por que parecia tão errado mandar uma mensagem para Derek? Ela não deveria se sentir assim. Eles eram apenas... amigos. Fredericka ficava com Lucas cinco vezes mais do que ela mesma. Dez vezes mais do que Kylie ficava com Derek. E Fredericka e Lucas tinham sido namorados.
Tentando afastar o sentimento, ela terminou o e-mail e o enviou.
— Kylie? — Miranda chamou da porta do quarto de Della. — E você? Já usou?
Kylie olhou por sobre o ombro e se concentrou na voz alegre de Miranda. Francamente, ela precisava mesmo de alegria. Ultimamente, parecia não fazer nada além de remoer os próprios problemas.
— Já usei o quê? — perguntou sorrindo para Miranda.
— Enchimento num sutiã. Já fez isso?
Kylie mordeu o lábio e riu quando uma imagem lhe ocorreu.
— Sara me convenceu a fazer isso na sexta série, mas eu não tive coragem. Me escondi atrás de uma caçamba e arranquei tudo antes de chegar à escola. Ela ficou possessa quando me viu. Estava com peitos turbinados, e eu não.
Miranda deu risada e Kylie pôde ouvir Della, dentro do quarto, rindo também. Miranda olhou para os próprios seios.
— Confesso que também usei por um tempo antes que os meus crescessem. Mas Della jura que nunca usou, embora eu ache que ela esteja mentindo.
— Não estou! — Della contra-atacou, saindo do quarto. — A verdade é que eu poderia ter feito isso se não tivesse visto Tillie McCoy trombar com um armário quando usava um sutiã tamanho GG e depois sair andando por aí com os peitos achatados, sem perceber que tinha amassado o enchimento. — Della pôs a mão sobre os seios. — Sério, ela ficou com um peito redondo e o outro quadrado. O pior de tudo é que mesmo assim os caras não desgrudavam o olho dela. Eu acho que não ligam que a mulher tenha um peito achatado.
Kylie achou graça, mas o que ela sentiu foi constrangimento pela garota chamada Tillie, que ela não conhecia.
— Que horror!
— Foi mesmo — Della confirmou. — Acho que as vendas de enchimento caíram depois disso. Sério, no dia seguinte, todas as garotas do sétimo ano estavam usando sutiãs dois números menores e os garotos ficaram deprimidos durante um mês inteiro. Nesse dia eu decidi que ser do clube das despeitadas não era tão ruim assim.
Todas riram novamente.
— Sabiam que os garotos também usam enchimento? — Miranda declarou.
— O quê? — Kylie perguntou.
Della apontou para a virilha.
— Sério? — Kylie perguntou.
— Sério! — responderam Della e Miranda ao mesmo tempo.
— Eles usam meias — Della acrescentou.
— Meias? Pra quê? Não é como se as garotas ficassem... calculando o tamanho...
— Mas eles acham que ficamos — explicou Della. — Você sabe, os caras só pensam em sexo. As garotas só pensam em romance.
— Às vezes eu só penso em sexo — Miranda admitiu. — Bem, quer dizer, só penso. Isso faz de mim uma piranha?
Elas riram alto, Miranda inclusive. Então Kylie balançou a cabeça, ainda tentando não imaginar um garoto com meias dentro das calças.
— Todas nós pensamos nisso, mas... essa coisa de enchimento de meia é.... uma piada!
Della franziu a testa para Miranda e pressionou as mãos contra as têmporas, como se de repente sentisse uma enxaqueca.
— Droga! Por que você foi se lembrar dessa coisa das meias? Agora vou ficar tentada a checar as calças de todos os garotos para ver se estão usando enchimento!
— Tem razão — disse Miranda, rindo. — É como um acidente na estrada. Você não quer olhar, mas seus olhos são atraídos. — Ela bateu no queixo com as costas da mão e jogou a cabeça para trás. — Temos que manter o queixo e os olhos acima da cintura o tempo todo. Aconteça o que acontecer, nada de ficar olhando protuberâncias.
As três riram mais ainda.
O melhor de tudo era que a risada aliviou o coração de Kylie e diminuiu a sua sensação de desastre iminente. E por isso ela ficou agradecida.
Rescendia no ar do refeitório um aroma de cupcakes, que Holiday tinha solicitado ao pessoal da cozinha. Um grupo de campistas estava parado perto da mesa de salgados, provavelmente dando as boas-vindas aos novos professores e a alguns novos campistas que tinham se inscrito para o novo ano letivo em Shadow Falls. Kylie havia cruzado com um ou dois nos últimos dias, mas ainda não tinha sido apresentada a nenhum deles. Ela tinha que admitir; não era muito boa em conhecer pessoas novas. Mas, considerando que o primeiro ano de escola em Shadow Falls começaria na semana seguinte, não demoraria muito tempo para que isso acontecesse.
Parada ao lado de Miranda, Kylie percebeu que o lugar não estava tão cheio quanto ela esperava. Provavelmente porque a presença dos campistas na recepção aos professores não era obrigatória. Mesmo assim, mais da metade dos campistas estava lá. Então Kylie notou que nenhum dos lobisomens tinha aparecido. Eles provavelmente estavam fora, reunidos em algum lugar. Outra vez.
Mais uma olhada pelo refeitório e Kylie constatou que Derek não tinha chegado ainda. Ela se perguntou se ele estaria fazendo pesquisas na internet para ver se encontrava a lanchonete em que Cara M. poderia estar trabalhando antes de ser morta. O fato de ele estar ajudando-a com a questão dos fantasmas fazia com que ela se sentisse feliz e assustada ao mesmo tempo. Assustada por não saber definir muito bem por que se sentia feliz. Eles eram só amigos, ela dizia a si mesma. Mas descobriu que era cada vez mais difícil acreditar nisso toda vez que se forçava a acreditar.
Helen acenou para Kylie do outro canto do salão. Ela estava com o braço em torno dos ombros de Jonathon. Kylie admirava o relacionamento entre os dois. Era carinhoso e romântico. Kylie sorriu e acenou de volta. Embora ainda estivesse com tantos problemas, ela se sentia... mais leve, e o sorriso foi sincero.
Era incrível pensar em com uma sessão de risadas com as amigas podia elevar o seu ânimo! Ela de fato tinha que se esforçar para não olhar os garotos abaixo da linha da cintura, na tentativa de identificar os que usavam meias na cueca. E só de pensar nisso tinha vontade de rir. Infelizmente, Miranda percebeu o sorriso reprimido de Kylie e, como se adivinhasse o que o tinha causado, a bruxinha caiu na risada. Então, encontrando o olhar de Kylie, ela ergueu o queixo com a mão e murmurou “queixo pra cima”.
Della, do outro lado do refeitório, também começou a rir.
— O que é tão engraçado? — Burnett perguntou a Miranda, ao se aproximar.
— Nada — respondeu Kylie, com receio de que a amiga dissesse a verdade. Miranda às vezes era a rainha da gafe.
Ao encontrar o olhar de Burnett, Kylie se lembrou de que ele podia detectar mentiras, por isso logo acrescentou:
— Nada que eu possa contar sem...
— ... ficar vermelha? — ele perguntou, olhando para ela e Miranda, cujas bochechas já ardiam e estavam quase da mesma cor que o seu cabelo cor-de-rosa.
Com medo de que Burnett quisesse mais explicações, Kylie acrescentou:
— Conversa de garotas.
Ele levantou uma mão.
— Vocês não têm que explicar. Eu realmente não quero saber de conversas de garotas e toda vez que escuto, eu me arrependo. — Ele quase sorriu e sua expressão se suavizou com algo que parecia preocupação ao fitar Kylie. — Desculpe não ter chegado a tempo para irmos à cachoeira.
— Tudo bem — Kylie respondeu. Então, fosse ou não pura paranoia, ela perguntou: — Isso que você foi fazer na UPF não tem a ver comigo, tem?
— Não — ele garantiu, num tom sincero.
Ela assentiu e então partiu para a segunda pergunta, embora já pressentisse a resposta.
— Nenhuma notícia do meu avô?
Ele balançou a cabeça.
— Não, desculpe. — Burnett suspirou. — Com todas as coisas que têm acontecido ultimamente, fico feliz que ainda mantenha o queixo erguido.
Queixo erguido. As palavras ficaram dando voltas na cabeça de Kylie. Miranda deu outra risadinha e olhou na direção contrária. Kylie teve que morder o interior da bochecha para não rir também. Então ela ouviu a risada de Della do outro lado do salão.
Arqueando as sobrancelhas, Burnett olhou para Della, que imediatamente assumiu sua postura de vampiro e apagou do rosto todos os traços de humor. Burnett balançou a cabeça e concentrou-se em Kylie novamente.
— Se você conseguir parar de rir, posso apresentá-la a professores que estão ansiosos para te conhecer.
— Me conhecer? — O sorriso se desvaneceu do rosto de Kylie. Ela desviou o olhar para o outro lado do salão, onde os professores estavam reunidos. Eles de fato estavam olhando para ela.
— Por que iam querer me conhecer? — A fobia que ela tinha de ficar em evidência a deixou paralisada.
— Eles ouviram falar de você — Burnett explicou, como se fosse óbvio.
Kylie não podia imaginar o que alguns campistas poderiam ter dito a eles. Então ela pensou algo ainda pior:
— Como eles ouviram falar de mim? Quer dizer, ouviram falar de mim aqui em Shadow Falls, certo? Certo?
Burnett pareceu pouco à vontade com as perguntas. Ele olhou em volta, quase como se buscasse uma saída, ou talvez procurando Holiday para responder por ele. Quando não a localizou, olhou de volta para Kylie.
— Eu... bem... as notícias se espalham. As pessoas comentam.
— As pessoas? Você quer dizer as pessoas do acampamento? Ou pessoas fora de Shadow Falls estão falando de mim?
Ele pareceu constrangido, mas assentiu.
— Só as sobrenaturais.
Só as sobrenaturais?
— Então, todo o mundo sobrenatural sabe a meu respeito? — O pensamento fez Kylie ter vontade de enfiar a cabeça num buraco. Já era ruim o bastante saber que os campistas estavam sempre de olho nela, esperando para surpreendê-la em algum padrão estranho, mas pensar que ela era tema de discussão em todos os lugares fazia com que se sentisse extremamente desconfortável.
— Talvez não todo o mundo sobrenatural — ele disse, como se para consolá-la, e então hesitou como se refletisse sobre a sua resposta. — Quer dizer, eu não poderia dizer que é todo mundo...
— Ah, é provavelmente todo mundo — concluiu Miranda. — A minha mãe disse que estavam falando de você no conselho das Bruxas semana passada, na Itália. E eles ainda nem sabiam que você era uma bruxa. Pode imaginar a quantidade de comentários agora.
Kylie não queria imaginar. Ela de repente sentiu um vazio no peito.
— Estavam falando de mim na Itália? Você não me contou isso. — Ela mordeu o lábio. — Eu sou uma aberração tão grande assim...?
— Foi por isso que eu não disse nada — explicou Miranda. — Sabia que você ia ficar assim. Mas você não é nenhuma aberração. É uma protetora. E ser protetora é demais. Tem que virar notícia assim como um desastre natural. Não que você seja um desastre. Quero dizer, você é, tipo, uma boa notícia.
Nada daquilo contribuía para melhorar o seu ânimo. Ela se sentia mais como um desastre. E um desastre nada natural.
— “Protetora” é uma palavra que leva as pessoas a comentarem. Mas Miranda está certa, não é uma coisa ruim. — Burnett olhou para Kylie e, obviamente percebendo as batidas aceleradas do seu coração, fez um gesto apontando os novos professores. — Eles só querem dizer olá. Não interrogar você.
Dizer olá para o desastre natural do acampamento, isto é, a aberração. O coração de Kylie bateu ainda mais rápido.
— Não é nada de mais — tentou convencê-la Burnett.
Certo. Mas para ela era. Especialmente quando olhou para eles e viu que todos os três professores a encaravam embasbacados. Dois estavam até franzindo a testa, verificando o seu padrão – e essa atitude tinha incentivado muitos campistas a fazerem o mesmo. Ela quase podia ouvir os pensamentos deles. Ei, quem quer dar uma boa risada? Deem uma olhada no padrão cerebral de Kylie agora.
Ela ouviu alguém dizer algo sobre ela ainda ser uma bruxa. Kylie supôs que ela devia ficar feliz por pelo menos ter um padrão definido, em vez daquele padrão mutante e exótico que realmente assustava as pessoas. Mas saber disso não ajudava a diminuir a sua ansiedade. Ela detestava ser o centro das atenções.
Burnett, parecendo meio desconcertado com o dilema emocional de Kylie, inclinou-se em direção a ela e sussurrou:
— Se você não quiser ser apresentada agora...
— Não, eu... eu vou. — Seria bobagem não ir. E ela se sentiria uma idiota se deixasse todo mundo perceber as suas inseguranças. Ela não tinha nada contra conhecer pessoas novas, só detestava conhecer pessoas novas que já tinham uma ideia preconcebida sobre ela. E com certeza odiaria conhecer essas pessoas que estavam falando sobre ela na Itália. Provavelmente em italiano, e ela nem entenderia.
Endireitando a coluna, ela simulou um sorriso, esperando parecer menos bizarra do que eles a consideravam. Era o mesmo sorriso, porém, que ela usava quando a mãe a levava a algum lugar em que ela não queria ir – como no dia em que a levara no trabalho para apresentá-la aos colegas ou em um daqueles almoços beneficentes. O que a mãe costumava dizer sobre aquele sorriso? Ah, sim: “Você parece que engoliu um mosquito”.
É, ela ia parecer uma aberração, não tinha jeito.

Um comentário:

  1. Porque ela já fala com o avô atacar dos somos!? Me parece tão mais fácil.....

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