14 de outubro de 2016

Capítulo 16

Kylie tinha tentado impedir o beijo, mas não foi rápida o suficiente. E então ela descansou a cabeça em seu peito e chorou, porque estava se sentindo completamente confusa.
Ele a estreitou em seus braços e deixou-a chorar. Tinha sido catártico e calmante.
E errado.
Errado por causa do que ela viu refletido nos olhos dele. Otimismo. Esperança de que eles pudessem voltar a ficar juntos como antes, quando a tristeza dela com relação a Lucas tivesse passado.
Esse pensamento trouxe uma epifania, uma dessas constatações surpreendentes que geralmente causam uma reviravolta na vida de uma pessoa. E, sim, ela sentiu essa reviravolta, mas também sentiu... uma onda de perguntas e uma necessidade de compreender.
Derek também a enganara, tinha realmente dormido com Ellie, ao contrário do que Lucas tinha feito ou o que ela achava que ele tinha feito. E, embora ela tivesse sido magoada por Derek e se sentido traída, a tristeza que a atitude de Lucas lhe causava parecia muito maior. Por quê? Será que isso revelava quanto ela gostava de Derek, que perdoá-lo era muito mais fácil? Ou será que tinha mais a ver com a profundidade de seus sentimentos por Lucas? Com o fato de os seus sentimentos por Lucas serem mais verdadeiros?
— Você está bem? — Derek perguntou, olhando para ela.
Ela assentiu.
— Só estou com fome — ela mentiu, e foi andando na frente dele, para que não tivesse que encará-lo ou encarar a mentira que tinha acabado de contar.
Ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido.
— Você não está com raiva de mim, está?
Ela considerou a pergunta, e a resposta veio. Eu não estou com raiva de você, é de mim mesma que estou com raiva.
Ela tinha sido fraca. Deveria ter colocado um fim naquele sonho lúcido antes que ele tivesse começado. E ela poderia ter feito isso. Então, por que não fez?
— Não, eu não estou com raiva de você — ela sussurrou de volta. — Eu estou apenas... — Percebendo que eles estavam cercados de ouvidos vampirescos, que podiam ouvir todos os tipos de segredos, ela disse: — Vamos conversar mais tarde.
— Tudo bem — disse ele. — Sou sua sombra esta noite, portanto, vamos ter tempo de sobra.
Kylie franziu a testa. Talvez ela precisasse adicionar Derek à lista de Burnett de quem não devia lhe servir de sombra... Pelo menos até que ela resolvesse seus sentimentos.
Com uma bandeja de comida na mão, Kylie dirigiu-se para a mesa onde Miranda e Perry estavam. Ela se sentou e olhou para Perry, novamente com um sentimento de gratidão.
— Obrigada — disse ela.
— Sempre que precisar de mim para mostrar a bunda, pode chamar — disse ele, sorrindo.
Kylie ouviu alguém se sentando ao lado dela e preocupou-se novamente com a possibilidade de encorajar Derek. Pegando uma batata frita, ela olhou para a frente, tentando ignorar o fae tanto quanto possível. Seu olhar se deslocou pelo salão, detendo-se na mesa dos lobisomens e nas carrancas que viu no rosto dos quatro sentados lá. Carrancas de todos, menos de...
Lucas.
Um certo aroma amadeirado da pessoa sentada ao seu lado de repente encheu seus sentidos. A batata escorregou de seus dedos. Lentamente, ela virou a cabeça para confirmar seu erro.
Erro confirmado. Sua respiração ficou suspensa.
Não era Derek sentado ao lado dela. Era Lucas.
Voltando o olhar para o prato de comida, ela fitou o hambúrguer, que de repente não tinha mais o mesmo cheiro apetitoso.
— Você não devia estar com a sua matilha? — ela sussurrou, sem olhar para ele.
— Na verdade — disse ele, inclinando-se mais para perto. Tão perto que seu ombro roçou no dela. A dor emocional provocada por esse leve toque foi direito ao seu coração. — Eu estou exatamente onde deveria estar — Lucas sussurrou.
Ela se afastou alguns centímetros, ao mesmo tempo que uma bandeja bateu na mesa à sua frente.
Uma batida um pouco alta demais. Suspeitava que o dono da bandeja pudesse ser um fae contrariado.
Um olhar confirmou isso. Derek se deixou cair no banco, encarando Lucas como se o lobisomem estivesse invadindo o seu espaço.
Ah, e essa agora?, pensou Kylie. Ela considerou a coisa certa a fazer, fugir dali, sabendo que as pessoas estavam provavelmente observando para ver o que ela faria. Ficar e esperar que nenhum drama surgisse entre o lobisomem e o fae, e tentar minimizar todas as fofocas.
Sentindo-se forçada a fingir que estava tudo bem, ela pegou o hambúrguer e cravou os dentes no pão branco macio. Embora ela não estivesse pensando no gosto que ele tinha, seu estômago deve ter aprovado, porque roncou de prazer no momento em que o primeiro bocado percorreu seu trajeto até o órgão vazio. Ela nem deu tempo ao seu estômago de pedir uma segunda mordida. Dessa vez, o sabor do pão levemente adocicado, misturado com o queijo e a carne lambuzada de ketchup picante, foi aprovado pelo seu paladar. Ela realmente não tinha comido direito desde que deixara Shadow Falls.
Derek, provavelmente captando seu desejo de evitar o caos, pegou seu hambúrguer e começou a comer. Lucas fez o mesmo. A tensão se dissipou, mas não por muito tempo.
— Quem está a fim de um jogo de basquete depois do jantar? — perguntou Perry.
Algumas vozes concordaram com um sim. Kylie achava que tanto Derek quanto Lucas iam entrar na conversa, mas não sabia ao certo. Ela fez o possível para se concentrar na comida e evitar contato visual com qualquer um dos dois.
Então Derek acrescentou:
— Mas vai ter que ser um jogo curto. Eu sou sombra de Kylie esta noite.
Foi mais pelo jeito como ele disse, do que pelo que disse, que ficou claro que seu objetivo era contrariar Lucas. E funcionou. Lucas deu um rápido empurrão na sua bandeja e ela voou sobre a mesa e se chocou contra a de Derek, fazendo as batatas fritas se espalharem pelo seu colo.
— Pode desistir — disse Lucas. — A gente vai voltar em muito pouco tempo.
— Tem certeza disso? — perguntou Derek.
— Parem! — exigiu Kylie.
— Tenho — rosnou Lucas, como se não a tivesse ouvido. — Olha só, eu não dormi com ninguém enquanto estava com ela, como alguém aqui.
— Tá, mas eu não fiquei noivo pelas costas dela — contra-atacou Derek.
— Nem eu — respondeu Lucas. — O noivado nunca chegou a acontecer porque eu não assinei os papéis após a cerimônia.
O quê? Kylie olhou para ele, chocada. Ela supusera...
— E como vai entrar para o Conselho? — ela perguntou.
— Você é mais importante — falou ele. — Eu já te disse isso.
Não, ele não tinha lhe dito isso. Não de verdade. E ele tampouco tinha dito a ela que desistira do noivado.
— Eu disse que foi um erro. Que... — Ele hesitou apenas um segundo. — Que eu te amo.
Ela não deixou de notar quanto tinha sido difícil para ele falar sobre seus sentimentos publicamente, e com certeza todos os ouvidos do salão estavam se esforçando para ouvir, mas Lucas tinha feito isso. Ele lhe dissera que a amava na frente de todos.
E isso a deixou muito irritada. Ela tinha apreciado muito mais a exposição do traseiro de Perry.
— E você não podia ter descoberto isso antes?!
Ela deixou cair o hambúrguer, empurrou a própria bandeja e saiu do refeitório. Enquanto fazia isso, ouviu seus próprios passos ecoando no chão de ladrilhos. O que significava que todos no salão, todo o acampamento, estavam a par da sua revolta pessoal. Mas que ótimo! Ótimo mesmo!


Kylie já estava do lado de fora quando ouviu alguém a seguindo. Pensando que era Derek, e preparada para mandá-lo embora, ela se virou subitamente e Miranda chocou-se contra ela.
— Desculpe! — disse Miranda.
Kylie piscou para conter o que parecia ser um início de choro.
— Está tudo bem. Você não precisava vir atrás de mim. Fique lá com Perry e termine o seu jantar.
— Eu precisava, sim — contestou Miranda.
— Não, você não precisava.
— Sim, precisava. — Miranda assentiu. — Primeiro, porque você é uma das minhas melhores amigas e, segundo, porque... Burnett me disse pra vir. Mas eu teria vindo de qualquer maneira por causa da primeira coisa. — Ela abraçou Kylie. — Você quer que eu peça a Perry para mostrar a bunda novamente?
Kylie se afastou do abraço, riu, e secou as lágrimas.
— Eu não acho que eles iam aguentar ver aquilo duas vezes.
Miranda deu uma risadinha.
— Está brincando?! É uma bundinha linda!
Elas caminharam de volta para a cabana e Miranda falou sobre Perry. Falou um bocado sobre Perry. Como se não fosse mais parar. Não que Kylie se importasse; ela preferia ouvir Miranda falando de Perry sem parar ao silêncio que experimentara o tempo todo enquanto estava na casa do avô. E daí que Miranda falava um pouco demais? Kylie ainda a amava e adorava ficar com ela.
Eles chegaram à cabana, entraram, e ambas voltaram o olhar para a porta de Della. A porta estava fechada. E isso só podia significar uma coisa. Della estava em casa.
Gritando, ambas dispararam para o quarto da vampira.
Della estava de pé, completamente nua, no meio do quarto, com o sutiã nas mãos.
— Suas malucas! Vocês não sabem o que significa uma porta fechada? Agora, virem-se enquanto eu me visto.
— Nós não estamos nem aí se você está nua. Estamos tão felizes em vê-la! — disse Miranda.
— É verdade! — disse Kylie.
— Sim, mas vocês não deviam me ver pelada. Vão ficar gozando da minha cara por causa dos meus peitos pequenos. Agora se virem!
— Eles não são tão pequenos — disse Miranda, dando uma boa olhada em Della.
— Virem-se! — Della rosnou, usando uma mão e o braço para cobrir os seios e a outra para esconder os pelos pubianos.
— Não tão rápido — disse Miranda, apontando o dedo para ela. — Primeiro você tem algumas explicações para dar, mocinha!
Mocinha? Eu não sou nenhuma mocinha. E explicar o quê? — ela perguntou, mas estava sorrindo, obviamente, tão feliz em vê-las quanto as amigas.
— Não são os seus peitos pequenos que você devia esconder. É esse chupão abaixo do ombro.
Della deslocou a mão para cima dos seios e escondeu a marca abaixo do pescoço.
— Não é um chupão. — Virando-se, ela pegou o roupão da cama e enfiou os braços.
— Sério? — perguntou Miranda.
— Parecia um chupão. — Kylie deu uma risadinha, superfeliz que as três estivessem juntas novamente. Ela nem sequer se importava se iam começar a brigar ou ameaçar arrancar os membros umas das outras. Só estar ali com aquelas duas... era o suficiente para dar um gostinho de lar à cabana.
— Quando algo se parece com um chupão e cheira como um chupão, é um chupão — Miranda concluiu.
— Chupões não têm cheiro — Della contra-atacou.
— Você sabe o que quero dizer. Além disso, eu sei reconhecer um chupão quando vejo um. — Ela puxou a camiseta para expor uma marca cor-de-rosa acima do seio direito.
Kylie riu e então suspirou.
— Sério, vocês duas são péssimos exemplos para mim. Não sei se posso ficar na mesma cabana que vocês. Podem acabar com a minha reputação.
— Ah, por favor! — disse Della. — Você já colocou bastante ação na sua vida desde que chegou aqui.
— Não é verdade — disse Kylie.
— Você já ficou com três caras diferentes desde que chegou a Shadow Falls!
— Três? Eu não!
— Está se esquecendo de que Trey veio até aqui.
— Ah, qual é? Trey não conta. Além disso, eu nunca fiquei com um chupão.
— Ah, coitadinha — disse Della. — Sabia que você pode produzir um com um aspirador de pó? Eu provoquei o meu primeiro chupão na sexta série e disse a todos que quem tinha causado aquilo era um aluno do oitavo ano. Foi demais!
Kylie revirou os olhos.
— Não posso acreditar que você deu uns amassos com um aspirador de pó!
— Fiz isso e foi melhor do que com o meu primeiro namorado. Ele era péssimo em produzir chupões.
Kylie e Miranda começaram a rir. Então Della ficou sombria.
— Nossa, é tão bom estar de volta! — Ela pulou em sua cama e saltou duas vezes. Em seguida, Miranda e Kylie pularam também em cima da cama com ela.
— Então, você não vai explicar o chupão? — perguntou Miranda, pegando um dos travesseiros de Della e abraçando-o.
— Não — disse Della. — Nada de falar em chupões.
— Pelo menos vai nos dizer quem provocou este? — Miranda insistiu.
— Tudo bem. Eu vou dizer. — Ela parou de sorrir e limpou a garganta. — Eu recorri ao meu velho e bom aspirador de pó. E fizemos uma viagem ao passado. Foi tão romântico... — disse ela, sorrindo.
Aquele sorriso não enganou Kylie. Ela viu algo nos olhos de Della. Um lampejo de dor. Della realmente não queria falar a respeito.
— Foi o aspirador de pó chamado Steve? — perguntou Miranda.
Della franziu a testa.
— Esqueça o chupão.
— Mas isso não é justo, nós contamos tudo uma para a outra — disse Miranda.
— Não faz mal — disse Kylie, apreciando a brincadeira fácil e não querendo perder o clima leve. — Que tal falarmos de mim vendo a bunda de Perry?
— Você disse que não tinha visto! — disse Miranda.
— Espere aí. O que você disse? — perguntou Della, e olhou para Kylie. — Você viu a bunda de Perry?
— Só um vislumbre rápido — disse Kylie. — Mas eu acho que todo mundo teve tempo para dar uma boa olhada.
— Na bunda de Perry? — perguntou Della.
Miranda assentiu com a cabeça e, em seguida, contou a história sobre como o heroico Perry fora ao socorro de Kylie baixando as calças.
Della sorriu de orelha a orelha.
— Eu sabia que gostava daquele metamorfo.
— Ele é um amor, não é? — Miranda suspirou com um olhar sonhador.
— E como vão as coisas com você? — Della perguntou a Kylie. — Já chutou o traseiro de Lucas e decidiu perdoá-lo? Ele está parecendo um filhote de cachorro que perdeu seu único brinquedo de mastigar.
Kylie fez uma careta.
— Não vamos falar sobre isso.
Miranda deu um pinote na cama.
— Você devia estar no refeitório para ver. Derek e Lucas se sentaram com ela. Eu juro, pensei que eles iam se atracar. E, depois, Lucas disse a Kylie que a amava, bem na frente de todo mundo. Foi tããão romântico...
O peito de Kylie ficou pesado.
— Não foi romântico. Foi... triste.
— Triste descreve muito bem como ele ficou quando você saiu do refeitório — disse Miranda. — Foi como se alguém tivesse arrancado a alegria dele.
— Não quero falar sobre isso — disse Kylie.
— Então você ainda está brava com ele? — perguntou Della. — Não culpo você.
Kylie lançou a Della um olhar severo.
— Ei... Eu respeitei sua vontade de não falar sobre o chupão. Agora você tem que respeitar a minha.
Miranda reclinou-se para a frente e resmungou.
— Isso não é justo! Eu conto tudo a vocês. Não escondo nada.
— Acredite em mim, eu sei — disse Della. — Eu sei mais sobre o seu relacionamento com Perry do que a lei permite.
— Não comece com isso. — Miranda fez uma careta.
— Por que não vamos pegar uma Coca Diet? — Kylie ofereceu antes que as duas começassem a brigar com força total.
As três saltaram da cama e foram para a cozinha. No momento Kylie queria esquecer todos os seus problemas. Só queria se sentar à mesa da cozinha e rir um pouco mais. Rir com as amigas, contar algumas histórias engraçadas e se lembrar de que, não importava os desafios que a vida lhes reservava, estaria tudo bem, desde que tivessem umas às outras.
Della chegou à cozinha primeiro.
— Que diabos é isso? — ela murmurou.
No momento em que Kylie viu o que repousava sobre a mesa da cozinha, percebeu que esquecer seus problemas não ia ser tão fácil.
— Merda!... — Kylie murmurou. — Alguém pode, por favor, ligar para Burnett e Holiday e dizer para virem aqui o mais rápido possível?

4 comentários:

  1. Engraçado é que antes o Lucas a ignorava por que a alcatéia não ia gostar

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  2. E quando a Kylie estava implorando pra o Lucas admitir os seus sentimentos ele preferiu colocar outras coisas na frente.
    E outra coisa por que todo mundo acha que o que o Lucas fez merece perdão tal fácil.
    Se ele está triste a culpa é dele

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