8 de outubro de 2016

Capítulo 15

— Se você quiser conversar, estou aqui — disse Holiday, enquanto contornava a cabana do escritório.
— Eu sei. — Kylie olhou de passagem para a floresta, mas a sensação que a arrebatara mais cedo naquele dia, a sensação de ser chamada, não tinha retornado.
Holiday olhou para ela e fez uma cara de preocupação.
— Você está mesmo bem? Quero dizer, eu respeito a sua privacidade. Mas ultimamente você anda um pouco... fechada. E eu me preocupo. Porque... bem, você geralmente confia em mim. — Holiday pousou a mão no braço de Kylie. Calor e preocupação fluíram do seu toque.
Geralmente, eu não tenho que lidar com um fantasma que é a sua cara e que eu acabei de descobrir que é a sua irmã, e eu não sei nem se você sabe que ela está morta.
— Eu não tive a intenção de me fechar — disse Kylie. — Eu estou só... dividida entre Lucas e Derek, e meu avô trocou o número do telefone e a UPF está tentando fazer testes experimentais comigo e minha mãe está saindo com outro homem e eu me sinto um pouco sobrecarregada.
— E com razão — concordou Holiday.
A preocupação com os encontros da mãe levou Kylie a se lembrar do padrasto.
— Ah, eu quase me esqueci. Você já entrou em contato com o meu padrasto para saber o que ele queria?
— Já, ele ligou há algumas horas. Descobriu que a UPF estava dizendo que você precisava fazer alguns exames médicos e ficou preocupado.
— A UPF ligou para ele também? — Kylie perguntou, prestes a entrar em pânico diante da ideia de que não tinham desistido de fazer dela uma cobaia. Talvez lhe aplicar o mesmo teste que tinha matado a avó.
— Não, e eu perguntei porque isso me assustou também — Holiday respondeu, mostrando a Kylie quanto a amiga conseguia detectar com precisão as suas emoções. — Ele disse que tinha falado com a sua mãe.
— Com a minha mãe? Sério? — Um sorriso inesperado se espalhou pelo rosto de Kylie. — Então eles estão se falando outra vez? Essa é a melhor notícia que eu recebi hoje. Talvez ela dê o fora naquele sujeito que quer levá-la para a Inglaterra e dê ao meu padrasto mais uma chance.
— Talvez... — disse Holiday, como se tivesse receio de dar a Kylie muitas esperanças.
Kylie se lembrou de que Holiday também tinha enfrentado o divórcio dos pais.
— Quanto tempo levou no seu caso?
— Quanto tempo levou para quê? — Holiday perguntou.
— Quanto tempo levou até que você parasse de torcer para que seus pais se reconciliassem? Quanto tempo levou até que você parasse de dizer a eles para não brigarem mais e voltarem a ser um casal como antes?
— Eu não saberia dizer. — Holiday suspirou e ofereceu a Kylie um sorriso solidário. — Ainda estou esperando. Acho que, quando você cresce vendo seus pais casados, simplesmente supõe que ficarão assim para sempre. Mas acho que já cheguei ao ponto de perceber que meus pais provavelmente estão vivendo melhor separados. Mas ainda costumo pensar nos tempos em que éramos uma família e... Eu gostaria que as coisas fossem diferentes agora. A triste verdade é que nós mudamos. Pais. Filhos. E, quando isso acontece, as pessoas se afastam e...
— Mas quem nós amamos não deveria mudar. — Ou será que deveria? A mente de Kylie passou do divórcio dos pais para Derek, e depois para a questão do fantasma. Então, de repente, Kylie percebeu que a conversa com Holiday podia ser o que ela precisava para perguntar sobre a irmã dela. — Você passou por tudo isso sozinha?
— Sozinha? — Holiday pareceu não entender a pergunta.
— Você não tem irmãos ou irmãs? — Kylie perguntou.
Holiday estava olhando para o outro lado, então Kylie não pôde ver sua expressão. No entanto, se um leve encolher de ombros fosse uma indicação, Kylie achava que tinha tocado num ponto sensível da amiga. Por quê? Será que Holiday estaria disposta a falar sobre o assunto? Será que Hannah e Holiday tinham se afastado uma da outra?
Passado um segundo, Kylie hesitou, sem saber o que dizer. Ela deveria tentar obter uma resposta ou simplesmente deixar a oportunidade passar? Afinal de contas, não se tratava apenas de querer que Holiday confiasse nela, mas sim de ajudar Hannah a fazer sua transição. Depois de resolver toda aquela questão do fantasma, talvez ela pudesse se concentrar mais na solução dos seus próprios problemas.
— Infelizmente — disse Holiday, pondo um ponto final ao desconfortável silêncio —, irmãos nem sempre ajudam em situações como essa. — Ela estendeu a mão para pegar seu celular. — Acabei de lembrar que preciso fazer outra ligação. Pode me encontrar no refeitório? Pedi a Miranda e Della para me ajudarem também. Della está assumindo o posto de sombra. Eu tenho que pendurar algumas faixas e encher uns balões. Elas estão nos fundos do refeitório e eu queria armar algumas mesas para colocar os salgados. Devo estar lá em alguns minutos. E espero que, assim que Burnett voltar, possamos dar uma passada rápida na cachoeira antes da cerimônia.
— Claro! — respondeu Kylie, desapontada. Ela percebeu que Holiday estava fugindo para não precisar responder mais perguntas.
Holiday arqueou uma sobrancelha, obviamente percebendo o descontentamento de Kylie, e balançou a cabeça.
— Eu ainda queria muito que você falasse comigo.
E eu queria muito que “você” falasse comigo.
— Eu estou bem — Kylie declarou enquanto Holiday ia para o escritório e, quando se voltou, Della já estava ao lado dela.
— A seu dispor, Senhorita Bruxa. — Della deu uma risadinha e olhou para a testa de Kylie. — No entanto, não posso negar que estou desapontada. Quero dizer... você gostou do sabor de sangue, então pensei que pelo menos fosse meio-vampira.
Kylie revirou os olhos e apontou para a própria testa.
— Eu vivo dizendo a vocês, não acho que isso seja definitivo.
— Parece definitivo pra mim.
Kylie olhou novamente para a floresta e desejou que ainda sentisse que seu avô estava lá. Desejou poder encontrá-lo cara a cara e finalmente conseguir as respostas que tanto procurava. Mas ela não sentiu nada. Não sentiu que alguma coisa lá fora a chamasse para se juntar a ela.
Ela se voltou para Della.
— E como eu estava na semana passada? Com um padrão humano, certo? E por quanto tempo? Algumas semanas?
Della fez uma careta.
— Tudo bem, entendo o que quer dizer. Mas esse é o primeiro padrão sobrenatural verdadeiro que eu vejo em você.
— Sim, e estou apostando que não será o último. Deixe-me dizer, eu acho que eu tenho padrões de um cérebro com transtorno de déficit de atenção. Eles nunca são os mesmos. Os padrões surgem e desaparecem.
— Droga! — exclamou Della. — Miranda está certa. Você realmente não quer ser uma bruxa, não é?
Kylie deixou escapar um suspiro de frustração.
— Não é nada disso. Só estou dizendo...
— ... que você é um camaleão. — Della fez uma cara de quem compreendia. E essa era uma cara que não se via a toda hora. — Olhe, sem querer ofender, acredito mais que você seja uma bruxa do que um camaleão. E, se me permite acrescentar uma coisinha, se você continuar dizendo que não é uma bruxa, vai acabar ferindo os sentimentos de Miranda. Ela já está chateada. E você sabe como ela é quando fica assim.
Kylie fechou os olhos e respirou fundo.
— Eu não tinha intenção de ferir os sentimentos dela. Se eu não tivesse recebido a mensagem de meu pai dizendo que sou um camaleão, estaria eufórica com a ideia de ser uma bruxa. — Se a frustração não comandasse as emoções de Kylie no momento, a surpresa com certeza comandaria. Quando Kylie e Della tinham trocado de papéis? Normalmente, era Kylie quem chamaria a atenção de Della por ofender Miranda. — Olha só — continuou Kylie, tentando se explicar —, bruxa ou fae são as minhas primeiras opções no que diz respeito a espécies, mas...
— Você não queria ser vampira? — Della parecia ofendida.
Ah, droga, agora tinha ofendido Della. Nada estava dando certo naquele dia.
— Pelo amor de Deus! — rogou Kylie, cuja frustração não estava apenas no controle das suas emoções, como também causando um motim entre elas. — Eu não disse isso, só...
— Ter o corpo frio é o que incomoda você, não é? — Della perguntou, parecendo ainda mais magoada, mas não furiosa. E Kylie achou que podia ser grata por isso. Pois encarar Della quando ela estava magoada era difícil, mas encará-la quando ela estava magoada furiosa era impossível.
— Não, não é ter o corpo frio, é...
— Não pode ser o sangue, porque você gostou do sabor.
— Eu gosto do sabor do sangue, mas não necessariamente da ideia de ter que bebê-lo, ou de achar que batata frita tem gosto de sola de sapato, porque é exatamente assim que você as descreve. Mas, se eu for vampira, ficarei feliz. — Ao ver que a expressão de Della não mudou, Kylie acrescentou: — Sinceramente, seria muito legal voar baixo como vocês, vampiros, fazem.
— É muito legal — Della disse, com a expressão se suavizando.
— De qualquer maneira — Kylie continuou —, vou ficar feliz com o que quer que eu seja. Eu não me importo mais. Mas, no momento, acredito no que o meu pai me disse e ele disse que eu sou um camaleão. Isso não faz sentido para ninguém?
— Não — disse Della, sem rodeios. — Desculpe, mas toda essa coisa de “Eu sou um camaleão” parece uma piração. Talvez seja melhor você se apegar ao fato de que vai acabar sendo como uma de nós. Uma sobrenatural normal.
A cabeça de Kylie estava dando voltas. Primeiro, “normal” e “sobrenatural” não cabiam na mesma sentença, mas...
— Quando eu já fui normal? — ela perguntou. — Quando qualquer coisa ligada a mim, aos meus poderes e dons e aos meus padrões eternamente em mutação pareceram normais?
Della abriu a boca, para discutir, disso não havia dúvida, e depois a fechou. A pausa durou um segundo inteiro. O que para Della era muito tempo.
— Tudo bem, o que você disse faz muito sentido, mas...
— Nada de “mas” — interrompeu Kylie. — Ou eu sou uma aberração ou talvez, apenas talvez, eu seja outro tipo de sobrenatural. Algo de que poucas pessoas já ouviram falar.
Della pressionou os lábios, como se estivesse pensando.
— E isso seria muito legal, não acha? Ser algo muito raro. Claro, você já é super-rara porque é uma protetora. Ei, talvez seja por isso que o seu padrão era tão maluco no começo, porque você é uma protetora. E você é a primeira protetora meio-humana que já existiu. O que, como eu disse, é legal.
— Não, eu não sou a primeira. Meu pai era um protetor. — Kylie fez uma pausa. — E não é tão legal quanto você pensa. — Depois de um segundo, Kylie acrescentou: — Holiday sugeriu que o fato de ser uma protetora poderia fazer com que o meu padrão se alterasse, mas...
— ... mas você quer ser um camaleão — completou Della.
Kylie só revirou os olhos e deu uma outra olhada na floresta. Ela não sentiu nada, mas talvez se ficasse de pé entre as árvores e se cercasse de folhagem, conseguisse sentir. Seu avô e sua tia poderiam estar esperando por ela. Suas respostas poderiam estar lá, esperando por ela.
— Podemos fazer uma caminhada aqui por perto?
— Eu pensei que íamos ajudar Miranda e Holiday a arrumar o refeitório.
— Só aqui por perto.
— Para onde? — perguntou Della.
Kylie se aproximou do bosque.
— Ah, nada disso! Burnett foi muito, muito, muito claro a respeito disso. Você não deve entrar na floresta. Ele arrancaria a minha cabeça e serviria numa bandeja. Depois chutaria o meu traseiro.
Kylie olhou ao redor para ver se alguém poderia ouvi-las. Se suas vozes estavam ao alcance de alguém com superaudição. Ela não viu uma alma.
Mesmo assim, baixou a cabeça até a orelha de Della e sussurrou:
— Eu sei quem está na floresta e preciso falar com eles.
— O quê...? Quem está na floresta?
O barulho de uma porta se fechando ecoou no ar quente.
— Vocês duas vão deixar Miranda fazer todo o trabalho sozinha? — A voz de Holiday veio de trás delas.
Kylie se virou e viu Holiday descendo os degraus do escritório.
— Façam o favor de ir para lá agora.
Della se curvou na direção de Kylie.
— Você não vai me deixar curiosa!
— Mais tarde — disse Kylie quando viu Holiday se aproximando.
— Mais tarde o quê? — perguntou Holiday.
A culpa encheu o peito de Kylie, mas ela se forçou a mentir.
— Mais tarde eu conto a ela sobre os meus problemas amorosos. — Ela se forçou a sorrir.
— É, problemas amorosos — completou Della, como se confirmasse a mentira de Kylie. — Dois caras brigando pelo coração dela. — Della olhou de relance para Kylie, e a mensagem nos olhos da amiga indicava que ela pressionaria Kylie a terminar a conversa sobre a floresta o mais rápido possível. — Ora, e que problemão! — exclamou Della dramaticamente. Mas por trás do comentário, Kylie ouviu outra coisa. Um pouquinho de inveja.
Holiday deu risada. Pela expressão dela, também percebera as emoções de Della. E isso fez com que Kylie ficasse preocupada. Até que ponto Holiday também não sabia dos problemas amorosos de Kylie? E até quando Kylie conseguiria esconder as coisas dela? Só por tempo suficiente para saber qual a melhor maneira de abordá-las, jurou Kylie.
Holiday deu de ombros.
— Pelo que eu ouvi, ela não é a única que tem problemas com garotos.
— É verdade — disse Della com malícia. — Você e Burnett também estão poluindo o ar com feromônios. — A vampira falou abanando a mão em frente ao nariz.
Holiday franziu a testa.
— Eu não estava falando de mim — disse, olhando diretamente para Della.
— Estava falando de mim? — Della perguntou, perplexa. — Eu não tenho namorado, então como posso ter problemas amorosos?
— Você poderia ter um, se quisesse — Kylie murmurou, fazendo com que Della lhe desse uma cotovelada nas costelas.
Holiday soltou uma risadinha.
— Correm boatos de que você causou um certo desentendimento no lago.
— Que desentendimento? — perguntou Della.
— Entre Steve e Chris — disse Holiday, arqueando as sobrancelhas.
Holiday sempre sabia o que uma pessoa precisava ouvir.
Exceto no caso de Kylie. Kylie precisava saber sobre a irmã de Holiday, mas fazer com que ela falasse a respeito, sem contar que a irmã estava morta, parecia impossível. Mas se Kylie não soubesse da própria Hannah o que tinha acontecido ou Holiday continuasse se negando a falar, então ela não teria outra opção a não ser contar.
— Não. — Della sacudiu a cabeça, balançando o cabelo preto na altura dos ombros. — Não foi por minha causa. Você ouviu errado.
Holiday deu um meio sorriso e encolheu os ombros.
— Se você está dizendo... — Ela fez uma pausa e sorriu como se soubesse de algo que ninguém mais sabia. — Vamos lá. Vamos aprontar o refeitório para a recepção. — Ela pôs um braço sobre os ombros das duas campistas e começou a andar em direção ao refeitório.
Só tinham dado três passos quando Della parou de repente.
— Sério?! — perguntou a Holiday. — Era por minha causa? Chris e Steve estavam brigando por minha causa?
— Eu disse que Steve gosta de você. — Kylie quase riu ao ver o choque de Della.
Mas Della não estava mais ouvindo Kylie.
— Você não está de gozação comigo? — ela continuou, concentrada em Holiday, a cabeça se inclinando ligeiramente como se para detectar se ela estava mentindo.
— Eu juro — disse Holiday sorrindo. — Meu coração não mente.
— Eles estavam brigando...?
— Eu disse “desentendimento” — corrigiu Holiday.
— Eles estavam se desentendendo por minha causa? — Ela deu risada e depois parou como se estivesse absorvendo a informação. — Não. Não era por minha causa. Deve haver algum engano. — Mas os olhos de Della se iluminaram com uma centelha de autoconfiança.
Kylie sorriu. Mesmo sob o peso de todos os problemas que a oprimiam, ver Della radiante por causa dos garotos era bom... e justo. Kylie tinha percebido que Della se sentia inferior por Kylie e Miranda estarem namorando, mas não sabia quanto da sua autoconfiança ela tinha perdido. E, depois de ficar de coração partido por causa de Lee, Della merecia se sentir orgulhosa por ser o motivo do desentendimento entre dois garotos.
Mas nem todo desentendimento era uma coisa boa. Aquele entre Lucas e Derek com certeza não tinha nada de positivo. Mas por ora Kylie só queria pensar em Della.
Cinco minutos depois, Kylie percebeu que Della estava certa. Miranda estava chateada. A bruxinha mal falou com ela enquanto arrumavam o refeitório. Claro, Miranda deu um gritinho de alegria quando Della contou sobre a “tensão” entre Chris e Steve. Sentindo-se meio deslocada, Kylie finalmente se aproximou de Miranda e se desculpou... Bem, ela não sabia pelo que estava se desculpando, mas disse as palavras mágicas, “sinto muito”, e perguntou se Miranda treinaria alguns feitiços com ela mais tarde.
Os olhos de Miranda se iluminaram.
— Eu adoraria. É só você dizer que feitiço quer treinar. E pode confiar em mim, porque posso te ajudar.
O olhar de contentamento da amiga revelou a Kylie que Miranda estava mais chateada com a sua recusa inicial em aceitar a ajuda dela e com seu orgulho ferido do que com o fato de Kylie não acreditar que era uma bruxa.
Enquanto arrumava as mesas na frente do refeitório, o celular de Kylie começou a bipar, avisando sobre a chegada de uma nova mensagem. Era de Lucas.
Ainda com Clara. Saudade. Vou estar ocupado apresentando Clara para a alcateia mais tarde. Não vou à recepção. Vejo você mais tarde, antes de você dormir. Obrigado por entender.
Kylie ficou olhando para o telefone e percebeu que veria Lucas bem menos, agora que Clara estava no acampamento. Kylie respirou fundo e tentou convencer a si mesma que entendia. Era evidente que ele precisaria de um tempo com a irmã. Mas entre a alcateia e agora Clara, Kylie não sabia direito onde se encaixava.
Ou se ela de fato se encaixava.


Quinze minutos depois, Kylie notou os olhares de Della. Kylie sabia que a vampira não via a hora de ficar sozinha com ela para que pudessem terminar a conversa sobre o que havia na floresta. Mas, francamente, Kylie agora não tinha mais certeza se deveria se abrir. Se contasse a Della, teria que contar a Miranda também. Não que Kylie não confiasse nas duas... Ela simplesmente não queria colocar ninguém em maus lençóis. Então, mais uma vez, considerando que nunca ia a lugar nenhum sem uma sombra, ela teria que confiar em alguém. E não havia ninguém em Shadow Falls em quem ela confiasse mais do que nas duas colegas de alojamento.
Elas estavam quase acabando de arrumar o refeitório quando o celular de Holiday tocou. A fae parou e se afastou um pouco para atender ao chamado.
Della veio correndo tão rápido que trombou com Miranda e quase a jogou no chão.
— Fale e rápido — Della sussurrou para Kylie.
— Falar o quê? — Miranda massageou o ombro e fez uma cara feia para Della.
— Shh! — Della levantou um dedo para calar Miranda, depois olhou para Kylie insistentemente. — Fale!
— Não me mande calar a boca! — exclamou Miranda.
Kylie soltou o ar dos pulmões e estendeu a mão para tocar o braço de Miranda, esperando acalmá-la, depois respondeu à pergunta de Della.
— São meu avô e minha tia. Eles eram a neblina.
— Eles eram... a neblina? — Miranda perguntou, esquecendo a briga com Della.
Quando Kylie assentiu, Miranda continuou.
— Então isso prova que você é uma bruxa, porque eles precisam ter poderes de bruxos para fazer isso.
— Espere aí. Por que eles fariam isso? — perguntou Della.
Kylie franziu a testa e olhou para Holiday, que estava parada do outro lado do refeitório. Kylie notou que a líder do acampamento não parava de olhar para Kylie e então suspeitou que o telefonema fosse sobre ela.
Mais uma vez.
Que ótimo! O que seria dessa vez?
— Terra chamando Kylie! — provocou Miranda.
Kylie voltou a olhar para as duas colegas de alojamento.
— Não sei se isso prova alguma coisa.
— Mas por que eles perseguiriam a irmã de Lucas? — perguntou Della.
— Não sei. — Então, de repente, Kylie percebeu. — Para que eu entrasse no bosque. Eles ficaram me chamando durante alguns dias, mas eu pensei... Pensei que poderia ser Mario e seus amigos e não fui. Mas aposto que o meu avô sabia que, se eu achasse que alguém estava em perigo, eu iria...
— Será que eles sabem que você é uma protetora? — Miranda perguntou.
— Eu não sei. — A mente de Kylie estava acelerada. — Eu sei que Burnett conversou com eles, mas não sei o que falaram.
— Eu não estou muito convencida — disse Della. — Talvez seja Mario fingindo que é seu avô e sua tia. Talvez seja só um truque para pôr as mãos em você.
— Não acho — afirmou Kylie. — E no momento eu tenho que seguir meus instintos. Tanta coisa está acontecendo na minha vida que seria muito bom se eu conseguisse algumas respostas sobre alguma coisa.
— O que está acontecendo na sua vida? — A preocupação de Della deixou sua expressão mais séria.
Kylie hesitou.
— Problemas com fantasmas.
— O que significa que não vamos poder ajudá-la em nada — concluiu Della.
Exatamente o que Kylie havia pensado. Quando se tratava de fantasmas, ela só podia contar com Holiday e com ela mesma. Ela se lembrou, então, de Derek, que estava sempre disposto a ajudá-la, mesmo que provavelmente se sentisse da mesma forma que outros sobrenaturais quando o assunto eram espíritos.
Della começou a falar novamente.
— Mas eu pensei que o seu avô viesse vê-la amanhã. Por que eles estão se transformando em neblina e se esgueirando até aqui para vê-la em segredo, se podem simplesmente aparecer amanhã? E como você sabe que a neblina eram eles?
— Eles ficaram de vir — explicou Kylie —, mas ele não atende ao telefone e não entrou mais em contato com Burnett. E justo quando eu estava indo embora, a neblina tomou a forma humana e... — Kylie não sabia bem como explicar — ... reconheci meu avô e minha tia. Tenho certeza disso.
A expressão de Della endureceu.
— Mas, e se você estiver enganada, e se entrarmos na floresta e alguma merda acontecer?
— Entrarmos na floresta? — espantou-se Miranda. — Ah, droga, não! Burnett disse que ela não pode entrar na floresta. Que não podemos deixar que ela chegue perto do bosque.
— Eu sei — Kylie concordou. — Mas, se eu quiser saber quem sou, vou ter que falar com meu avô e não acho que ele vá entrar no acampamento, não agora com a UPF se metendo em Shadow Falls. E depois do que a UPF fez com a minha avó, eu não posso culpá-lo por não confiar neles. Nem Holiday confia!
Miranda mordeu o lábio inferior.
— Mas se você estiver errada...
— Eu não estou. — E, de repente, Kylie percebeu que ela não poderia colocar suas duas amigas em perigo. A culpa que ela ainda sentia por causa de Ellie oprimia seu peito. — Mas, só por cautela, vou sozinha.
— De jeito nenhum! — Della exclamou.
— Tudo o que eu quero é fazer uma pequena caminhada pela floresta. Vocês podem ficar na margem. Se eu não sentir nada, volto na hora.
— E se você sentir alguma coisa? — Miranda perguntou.
— Então eu vou saber que são eles e vou até onde estiverem.
— Ah, Kylie, não! Você não vai sozinha — declarou Della. — Você é uma protetora. Caso tenha se esquecido, isso significa que você não pode proteger a si mesma.
— Della está certa — disse Miranda. — Se você for, nós vamos junto.
— Eu acho que nenhuma de nós deveria ir! — discordou Della.
Holiday começou a andar na direção delas e, sabendo que a fae era capaz de ler emoções, Kylie olhou para as duas amigas.
— Pensem em coisas boas. Rápido. Antes que Holiday perceba... — Ela deixou as palavras morrerem na boca quando Holiday chegou mais perto.
— O que está rolando aqui? — perguntou Holiday.
— Nada — as três responderam ao mesmo tempo.
Kylie sorriu e tentou pensar em Lucas para conseguir fazer brotar dentro dela uma emoção positiva, mas o que surgiu na sua mente foi a imagem de Derek e da sua lealdade com relação à questão dos fantasmas. E, em vez de ficar feliz, mais angústia acumulou-se em seu peito.
Holiday arqueou uma sobrancelha em descrença, mas não pediu explicações, apenas disse:
— Era Burnett. Ele não vai poder voltar antes da hora do início do evento, e insistiu para que adiemos a ida até a cachoeira para amanhã. Tudo bem pra você?
— Por mim tudo bem — concordou Kylie.
E ela estava falando a verdade. Talvez agora ela pudesse fazer aquela caminhada pela floresta e obter algumas respostas, se eles ainda estivessem lá. Ela só precisava descobrir como fazer isso sem que Della ou Miranda surtassem.

10 comentários:

  1. Estou quase virando Team Derek. Essa palhaçada da alcateia está enchendo o saco. E Derek tem uma ligação com a Kylie, como alguém se desapaixona?

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    1. Pois é, no começo achava que o Derek era picareta devido a história da cobra, mas agora sabe do que não é....kkkkk

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  2. Tomara q ela fique como Derek. Ele é mt mais compreensivo q o egoista do Lucas.

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  3. Pois é....era teamLucas Lucas, mas cansei dele...

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  4. Eu não gosto do que Lucas faz com ela!! Eu aposto que se fosse Derek ele ia defender ela na mesma hora!! E amo ver eles dois juntos😍😍 sempre defendendo e ajudando❤❤

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  5. Kylie deveria ficar o Derek, amo o Lucas mas cara sinceramente se fosse eu largaria mão.
    Ingrid Faria

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  6. eternamente #teamLucas

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  7. Sou team Lucas, mas ta difícil pq tb gosto d+ do Derek e odeio preconceito. Espero q as coisas se resolvam logo!!!
    Ana Julia

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  8. Eu acho que ela devia ficar com o Derek pois e esse relacionamento que vai para frente, e com a alcateia e a vó de Lucas falando que ela não pode ficar com ele esse relacionamento não vai durar.#team Derek

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