31 de outubro de 2016

Capítulo 15

Amy passou pela abertura. Endireitou-se e procurou ao longo da parede por um interruptor de luz. O interruptor acendeu uma bonita lanterna de vidro de tom azul, apoiada sobre uma mesa branca.
Dan a seguiu. Eles estavam em um quarto pequeno e quadrado. As tábuas eram pintadas de branco e o teto de azul celeste, talvez para compensar a falta de janelas. A sala estava escondida sob o beiral. Amy imaginou que, por fora, seria impossível dizer que ela existia.
Ao lado da mesa branca estava uma cadeira de madeira com uma almofada roxa sobre o assento. Ela podia enxergar Grace sentada na cadeira com as costas eretas. Havia uma pintura em uma das paredes, e na outra, um espelho de ouro ornamentado.
Ela se aproximou da mesa e se inclinou para estudar a pintura. Os traços infantis representavam bosques coloridos, o céu e um toque de amarelo contra um campo verde. Ela reconheceu imediatamente. Tinha dado a Grace de aniversário, aos nove anos. Ela trabalhou nele com tanto cuidado – era a vista da janela de Grace na biblioteca. O lugar em que elas costumavam se sentar com uma xícara de chocolate quente e um prato de cookies. Ela pintara na primavera, quando o imenso arbusto de forsitía florescia. Grace tinha nomeado o arbusto de “George”, porque ela enterrara seu peixinho dourado favorito ali anos antes. “Oh, vejo que George está pronto para florescer”, ela dizia no início da primavera.
Dan foi até um armário de madeira ao lado da mesa. Ele abriu uma gaveta e folheou os arquivos. Amy ficou de pé, olhando por cima do ombro dele. Os arquivos estavam marcados pela forte caligrafia de Grace.

CONTAS DA CASA
Entrega de lenha
Eletricidade
Coleta de lixo
Telefone
Conta na mercearia

Amy os folheou. 
— Estas são cópias — ela falou. — Os mesmos itens estão lá embaixo, no estúdio.
— Por que a Grace precisaria de cópias desses arquivos? — Dan se perguntou.
— Porque eles são um disfarce — ela falou.
Amy começou a remover os arquivos, empilhando-os cuidadosamente sobre a mesa. Em seguida, estendeu a mão para a gaveta. Com alguns puxões, descobriu que havia um painel na parte inferior. Ela o levantou, em seguida, retirou de lá uma caixa de metal.
— Isto era o que deveríamos achar.
Dan estudou a fechadura.
— Uma fechadura com a combinação do alfabeto. Então, nós precisamos de uma palavra, não de números.
— Algo que só nós iriamos saber — Amy observou. Ela mordeu o lábio. — Sempre que Grace deixa algo que espere que a gente ache, ela nos dá uma pista. Tem que haver alguma pista por aqui.
Dan olhou em volta.
— Não tem muita coisa aqui para começar.
Eles examinaram os arquivos com cuidado, mas não acharam nada. Em seguida, examinaram o cômodo, mas era tão vazio quanto ele parecia.
— Tem que haver algo — Amy falou.
O olhar de Amy pousou na pintura. O arbusto amarelo estava tão mal pintado. Foi bondade da Grace pendurá-lo. Especialmente quando ela tinha feito pinturas muito melhores que essa.
Algo que só nós iriamos saber...
Ela se voltou para caixa. Girou as letras. 
G-E-O-R-G-E
A tampa se abriu.
Amy tirou um caderno, e embaixo disso, havia outra caixa, essa embrulhada em um barbante. Dan pairou sobre seu ombro enquanto ela o desembrulhava. Ela abriu a parte superior da caixa. Dentro estava uma brochura, pouco maior do que um livro de bolso. Tinha capa de couro, e ela podia ver as páginas amarrotadas e amareladas pela lateral.
— Parece antigo — ela murmurou.
— Cheira a antigo — Dan concordou.


Era verdade. Cheirava como papel velho, mofado e seco, mas também outra coisa... algo medicinal. Amy o abriu com cuidado. Devia ter havido plantas ou ervas prensadas nas páginas uma vez – ela podia ver os traços fantasmagóricos que eles deixaram nas páginas amareladas. Havia belas representações à tinta de plantas, folhas e flores. Virando cuidadosamente as páginas, viu uma receita para um cataplasma contra a malária, o melhor método para tirar manchas de cortinas, uma lista de preços ao lado de itens como parafusos de linho, barris de vinho, chá...
— É um livro de contas doméstico — Amy falou. — Definitivamente escrito por uma mulher. E um tipo de diário. Quero dizer, você pode descobrir sua vida lendo o que ela fazia todos os dias. Parece que tem algumas partes em latim... ou italiano? Ambos, eu acho.
— De quem era? — Dan perguntou. — E por que a Grace o escondeu?
Amy voltou para a parte interna da capa.

Olivia Behan Cahill
Livro de cuidados domésticos
Anno Domini 1499

Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Dan soltou uma longa exalação.
— Uau — exclamou ele. — É o livro da nossa tatara-tatara-tatara-etcetera-vó!
Amy olhou para a capa traseira do livro. Em uma caligrafia forte e clara, desaparecendo ao longo do tempo, estava escrito: Retornado para proteção ao cuidado da aldeia de Meenalappa. 1526 M.C.
— Madeleine Cahill — Amy ofegou. — Ela trouxe o livro de volta para Meenalappa em 1526. Depois que sua mãe morreu. E de alguma forma ele sobreviveu, todos esses anos! Incrível. — Ela cuidadosamente folheou as páginas. — Olha, Dan, há uma lacuna aqui. Cinco páginas completamente pintadas de tinta.
— Por que alguém faria isso? Para encobrir alguma coisa?
— Talvez — tinta era escura e preta, borrando linha após linha até encobrir cada parte do papel em branco. Havia algo sombrio e assustador sobre isso. Algo que a fez lembrar dos dias sombrios que passara após os funerais de Evan, Alistair, Natalie... — Ou talvez essas páginas sejam um memorial. — Amy disse devagar. — Lembra da história? Que o Gideon foi morto, e as suas quatros crianças se separaram... Estas cinco páginas são a sua dor. E depois, olha, ela não escreve nada, até 10 de julho de 1508... — Amy contou nos dedos. — Essa pode ser a data do nascimento de Madeleine! Olha, aqui ela desenhou o M de Madrigal.
Ela apontou para o grande, desenhado à mão, no meio de uma página adornada com flores e folhas. Novamente, havia receitas e medicamentos, as listas de ingredientes e quantidades...
— Olha. — Amy disse. — Ela para de escrever aqui. Deixou dez páginas em branco. E copiou um poema. E aqui, ela escreve, I miei viaggi. “Minhas viagens”. — Amy traduziu.  — Depois disso o resto do livro está escrito em código!
— Imagino que a gente tenha que desvendar — Dan falou.
— Talvez Grace já tenha feito isso!
Animada, Amy pegou o caderno de Grace.
Apenas cerca de um terço dele estava preenchido. Havia listas de palavras em latim e traduções do italiano antigo para o italiano moderno. Em seguida, havia notações que não faziam sentindo algum.
— Acho que Grace tentou desvendar o código, mas não conseguiu. — Amy opinou.
Dan gemeu. 
— Por que nunca nada é fácil?
Enquanto ela folheava as páginas, um envelope caiu.
O coração de Amy vibrou.
— É de Grace — ela disse para Dan.
A carta não era longa.


— O segredo foi revelado para o mundo. — Dan disse. — O soro.
Amy tocou na letra G, tão grossa, tão forte.
— Ela temia que esse dia chegasse.
— Em algum lugar aqui — Dan falou, apontando para o livro — está a resposta para o nosso problema. Grace nos deu um jeito de combater J. Rutherford Pierce!

* * *

À noite, eles tiveram que desistir. O livro de Olivia era uma visão fascinante sobre a vida na Irlanda no início do século XVI, mas eles não podiam ver como o que ela escreveu poderia ajudá-los. E eles não conseguiam quebrar o código.
— Tem muito latim e italiano — Dan observou, sonolento, de bruços no chão. — E se eu tiver que ler mais uma receita de cataplasma, vou arrancar meus próprios cabelos. — Ele se ergueu sobre os cotovelos. — Sabe quem a gente deveria chamar? Atticus e Jake conhecem essas línguas mortas. Eles poderiam...
— Não — Amy o interrompeu.
Dan se sentou. 
— Enquanto estamos aqui sentados, Pierce está ganhando força a cada dia com o soro. Nós somos os únicos que podemos impedi-lo. Temos de usar tudo o que pudermos, todos que pudermos. Você pode querer proteger todos — ele continuou. — Eu entendo. Mas se o mundo todo se despedaçar, que bem vai fazer?
Amy se levantou.
— Apenas vamos para a cama.
As palavras de Dan martelavam na cabeça de Amy enquanto ela enfiava o livro debaixo do braço e o seguia pelas escadas de madeira desgastadas até os seus quartos. Ela queria dizer-lhe que ele estava errado. Queria dizer, Você não sabe como é estar no comando. Ela queria acusá-lo. É você quem quer fugir! Você não tem mais o direito de votar! Mas ela estava cansada demais para brigar.
Ela vestiu o suéter que tinham comprado na cidade, escovou os dentes e apagou a luz.
O sono não vinha. Ela se mexeu e remexeu por uma hora. Quando fechava os olhos, sentia-se caindo, o rio oleoso e escuro se aproximando cada vez mais. Ela sentia o aperto de Dan enfraquecendo. Em pânico, estendeu a mão para o interruptor. Apoiou-se em seus travesseiros e pegou o livro de Olivia.
Enquanto lia, suas sobrancelhas franziam. Todos esses anos eles se perguntaram sobre o fascinante Gideon Cahill, o homem que tinha tentado parar uma praga e desenvolveu um soro poderoso. Quem saberia que sua mulher, Olivia, era tão fascinante e brilhante quanto ele? O diário deixava claro que Olivia era quem reunira os ingredientes do soro, Olivia que ajudara Gideon no laboratório, Olivia que manteve a família unida. Amy leu as palavras de Olivia.

O poder que ele procurava pela cura se transformou em uma fera. Uma besta com o poder de uma grande destruição. E por isso, ele deve ser destruído. Para cada um existe o seu oposto. O oposto nega o outro.

Ela olhou novamente para o poema antes do final codificado do livro. Amy o havia lido naquela noite tantas vezes, mas ainda não o tinha entendido. Ela o leu novamente, o seu batimento cardíaco ressoando em seus ouvidos.

Quatro almas, quatro elementos, agora dispersados.
Era como a minha família, amaldiçoado
e sobrecarregado – veja! para atravessar anos
de Contenda, Calúnia, Medos.
No entanto, sob o meu Coração pulsante meu Segredo me trazia alegria e esperança —
um futuro avistado — não aproveitado. Minha Alegria, você tem força suficiente para lidar
e virar a batalha  não com armas, mas com sabedoria adquirida da antiga região
mantida próxima e passada de mão em mão
por mio maestro di vita, a ti, mulher atemporal, homem universal.
Então ele me legou, e a sabedoria ofereceu
e eu, através de seus próprios métodos, escondi.
Usando-a, reuni as partes. E com uma essência emendar o que foi dilacerado. E para o monte de cinzas enviar.
Aproveito e aqui registro o que meu guia tem guardado
sem bordas entrevendo, o esboço sombrio do segredo concedido.
Minha Alegria, minha Canção, o meu dever é seu. Agora pegue o que é teu de direito, conte oito e no sexto, pause.
Pegue esse sexto, combine com o primeiro que os Romanos trouxeram e impeça o ataque sobre as Leis da Natureza.

Quatro almas, quatro elementos. Era claro para Amy o que essa parte queria dizer. Os quatros elementos eram as crianças: Luke, Thomas, Katherine, Jane.
Quatros elementos: quatro partes do soro.
Dispersados: foram dadas às crianças cada parte do soro, e elas se dispersaram, severamente divididos. Olivia não conseguira manter sua família unida. O soro era poderoso demais. Assim como as gerações de Cahills, como Olivia previra. Assassinatos, conspirações, mentiras, vinganças...  estendendo-se durante cinco séculos, colocando Cahill contra Cahill.
Miséria proferida, geração após geração.
No entanto, sob o meu Coração pulsante meu Segredo me trazia alegria e esperança.
Esta era Madeleine, a criança que Olivia carregava quando fugiu da destruição de sua casa.
Em seguida, as referências de juntar... o quê? Para fazer uma essência. Um pouco de soro?
Não, Amy pensou. Olivia odeia o soro. Isso é óbvio.
Minha Alegria, minha Canção, o meu dever é seu.
Ela está dizendo para Madeline fazer algo...
Amy sentou-se na cama. Poderia ser? Fazia sentido. Fazia perfeito sentido.
— Sim!  ela exclamou. Era isso, essa era a resposta. Essa era a chave!
Ela atravessou o corredor até o quarto de Dan. Sacudiu-o.
Ele acordou.
 O que está acontecendo? Cadê as minhas calças?
— Dan, acorda! Fiquei lendo o livro de Olivia — Amy esperou até que o torpor do sono deixasse os olhos de Dan. — Acho que sei no que Olivia estava trabalhando. Ela estava criando o antídoto para o soro. Essa é a chave para impedir o Pierce!

4 comentários:

  1. Você deveria estar respirando

    ResponderExcluir
  2. Ate q enfim eles estao pensando como verdadeiros Cahill.

    ResponderExcluir
  3. eita mulher arretada essa tal de Grace, sempre com um segredo e uma carta na manga.
    -Ariel

    ResponderExcluir
  4. Cade os kabra? Ta faltando muitos personagens.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!