14 de outubro de 2016

Capítulo 15

Ainda sentada, Kylie virou-se para os lados, procurando o fantasma e tentando sentir o frio. Não sentiu nenhum frio na caverna. Nenhum fantasma, tampouco. Nenhum que Kylie pudesse sentir, pelo menos.
Mas a espada, agora avançando na direção de Kylie, tinha que ser do fantasma, certo? Ele não fazia outra coisa senão carregá-la por todos os lugares, na última semana e meia.
— De onde veio isso? — perguntou Holiday, a voz cheia de preocupação.
Kylie não conseguia tirar os olhos da arma, à medida que ela se aproximava lentamente.
— De dentro d’água.
— Eu sei, eu vi, mas...
— Acho que tem algo a ver com o fantasma — disse Kylie.
Holiday franziu a testa.
— Você quer dizer aquele que carrega cabeças degoladas por aí?
Kylie assentiu.
— É isso aí.
— Por que você acha que é esse fantasma? — perguntou Holiday.
— Eu não estou completamente certa, mas acho que se parece com a espada dela. Sem todo aquele sangue, é claro.
— Mas que inferno! — exclamou Holiday. — No que você foi se meter?
— Não sei. Mas não foi por vontade própria. — Kylie mordeu o lábio. Se não fosse o ambiente tranquilo da cachoeira, ela fugiria dali correndo.
Holiday pegou a espada. Virou-a nas mãos.
— Parece de verdade. E é antiga. Você realmente acha que é a mesma espada? — Ela balançou a cabeça com perplexidade. — Fantasmas não podem entregar coisas assim.
— Parece com ela. Quer dizer, não sou nenhuma especialista em espadas. — Kylie pegou a arma e, assim que a tocou, a espada começou a brilhar. Ela atirou-a no chão e deu um pulo para trás. — Por que ela fez isso?
— Eu não sei — Holiday respondeu, olhando para a espada. — Você aprendeu alguma coisa sobre camaleões que fazem armas brilharem?
— Não.
— Tem certeza?
— Acho que eu me lembraria disso.
— Tudo bem — disse ela, ainda pensando. Ela lançou para a espada outro olhar perplexo e, em seguida, olhou para Kylie. — O que acha de irmos embora?
— Tudo bem. — Kylie se levantou e viu Holiday estender o braço para pegar a espada. — Espere. Não podemos deixá-la aqui?
Holiday levantou-se e olhou para Kylie.
— Acho que não. Eu acho que ela foi feita para você.
— Sabe, eu estava com medo que você dissesse isso. Mas como você sabe que não é para você?
— Porque ela não brilhou quando eu a peguei.
Kylie fez uma careta.
— Estou farta de todas essas coisas estranhas acontecendo comigo.
Holiday suspirou.
— Se isso faz você se sentir melhor, eu também não gosto disso.
— Bem, então somos duas. — Kylie mordeu o lábio novamente, preocupada.
Holiday deu um meio sorriso.
— Nós vamos descobrir esse mistério. Quando voltarmos ao escritório vou fazer uma pesquisa e ver se consigo encontrar algo sobre isso. E vamos falar com Hayden, também. — Ela pegou a espada cuidadosamente, mantendo a ponta afiada para baixo. — Vamos encontrar a resposta.
Sim, Kylie pensou, mas tinha a nítida sensação de que, se encontrassem a resposta, ela poderia não gostar dela.


Kylie, Holiday e Burnett, com a espada a tiracolo, encontraram Hayden em sua cabana. Ele não tinha nenhuma explicação para a espada. Nem mesmo um bom palpite.
Burnett pediu que ele pegasse a espada para ver se ela brilharia com ele. Isso não aconteceu.
Então, como Burnett não tinha visto a espada brilhar antes, ele pediu para Kylie pegá-la. Com cuidado.
Como se ela não fosse ter cuidado ao pegar algo que parecia ter sido usado para decapitar centenas de vítimas.
No momento em que ela fechou os dedos em torno do cabo da espada, o ferro ficou quente contra sua palma e, tal como antes, começou a brilhar. Lembrava um daqueles brinquedos fosforescentes que se comprava em parques temáticos.
— Chega? — Kylie perguntou, ansiosa para largar a espada.
— Tudo bem — Burnett respondeu, e pareceu perplexo. Não era uma expressão que se via no rosto do vampiro com muita frequência. Ele pegou a espada e esperou para ver se ela iria brilhar, e até pareceu um pouco desapontado quando isso não aconteceu. Colocando-a de volta na mesa da cozinha de Hayden, ele fitou a testa de Kylie para verificar seu padrão.
No caminho para a cabana, ele tinha imaginado que Kylie provavelmente havia se transformado em bruxa e perdido o controle de seus poderes, assim como no dia em que arremessou um peso de papel nele, machucando-o. Embora Kylie quase desejasse que tudo fosse assim tão simples, ela não se convenceu disso. Ela não andara pensando em conjurar uma espada.
— Eu não sou uma bruxa, sou? — ela perguntou a Burnett.
— Não — ele disse, e encolheu os ombros.
— Eu já disse — falou Holiday. — Verifiquei o padrão dela assim que a espada começou a brilhar. Por mais insano que pareça, não tenho certeza de que é Kylie quem está fazendo isso. Acho que é a espada.
— Você acha que a espada está possuída? — perguntou Hayden.
— O que você disse? — perguntou Kylie. — Espadas podem ser possuídas? Tudo bem... isso parece muito estranho para mim. — Ela começou a tirar a poeira das mãos para se livrar de qualquer germe possuído.
— Não, eu não acho que ela esteja possuída. — Holiday tocou Kylie para acalmá-la. — Eu só acho que, por algum motivo, ela reage a Kylie. Há alguma conexão entre ela e a espada.
— Isso é estranhíssimo! — disse Hayden. — Eu poderia perguntar ao avô de Kylie sobre isso. Talvez ele saiba algo que eu não sei.
Burnett franziu a testa com a menção ao avô de Kylie, mas concordou com a cabeça, e ela o viu se esforçar para não demonstrar o seu descontentamento.
— Eu agradeceria. — Ele até parecia grato. — Será que você poderia me procurar e contar tudo, logo que souber de alguma coisa?
Hayden assentiu.
— É claro.
Quando eles iam sair, Burnett ofereceu a mão a Hayden. O professor não hesitou em apertá-la.
Kylie teve a sensação de que todo o episódio da espada poderia ter ajudado a convencer Burnett de que Hayden precisava ficar. Mesmo que Hayden não tivesse as respostas, ela podia ver que Burnett gostava de ter uma pessoa para ajudá-lo com algo sobre o qual ele não tinha muito conhecimento.
Talvez, Kylie pensou, a espada não fosse uma coisa ruim, afinal de contas. Mas cada vez que olhava para a arma ao lado de Burnett, lembrava-se do espírito, na noite anterior, carregando uma espada sangrenta e a cabeça decepada.
E ela começou a se preocupar mais uma vez com a possibilidade de que aquela história toda pudesse levar a mais derramamento de sangue.
Eles deixaram a espada no escritório de Holiday e, em seguida, todos se dirigiram ao refeitório para o jantar. Quando pisaram na varanda, Kylie foi vista pela primeira vez pelos outros alunos de Shadow Falls e cumprimentada por vários campistas. Perry veio correndo e a abraçou com força, girando-a duas vezes. Quando ele colocou os pés dela de volta no chão, Kylie estava tonta e feliz.
Ele agarrou os braços dela para ampará-la. Kylie ainda não tinha percebido quanto tinha sentido falta do metamorfo até que ele riu e despertou uma agradável sensação de déjà-vu dentro dela.
— Ei, você está agarrando a minha melhor amiga? — A voz de Miranda ecoou atrás de Perry.
Perry soltou Kylie e deu a Miranda um sorriso por cima do ombro.
— Só um pouquinho — disse ele, olhado novamente para Kylie. — Cara, como nós sentimos a sua falta! Miranda estava me deixando louco de tanto reclamar da solidão.
— Eu também senti falta de todo mundo — disse Kylie, com sinceridade.
Logo em seguida, um grupo de lobisomens passou. Kylie primeiro reconheceu Clara, a meia-irmã de Lucas. Ela encontrou o olhar de Kylie e sua postura de repente pareceu expressar contrariedade.
Ok, então nem todo mundo tinha ficado feliz em revê-la. Ela podia dormir com isso. Mas, então, por trás de Clara, outra pessoa entrou em seu campo de visão, e Kylie deu de cara com Fredericka.
Ela não sorriu, mas também não fez cara feia, e então ofereceu a Kylie um ligeiro aceno de cabeça. Um aceno de boas-vindas, talvez até querendo dizer “que bom te ver”. Kylie retribuiu o gesto e até mesmo ofereceu um leve sorriso.
Para Fredericka, aquele ligeiro cumprimento provavelmente era uma expressão de afeto maior do que o abraço efusivo de Perry. Especialmente depois que Clara lançou para Fredericka um olhar descontente com a atitude da loba e Fredericka simplesmente deu de ombros.
Kylie respirou fundo. Era bom saber que, embora pudesse não ter feito mais amigos em Shadow Falls, tinha conseguido perder uma inimiga.
Miranda se inclinou para se aproximar mais da amiga.
— Você acabou de fazer o que eu acho que fez? Você sorriu para aquela bruaca?
— Eu já te disse, a gente já se entendeu — disse Kylie.
— O que é uma coisa boa — Holiday acrescentou. — E acho que existe mais gente precisando se entender aqui.
— E eu acho que Della está certa — Miranda murmurou. — Kylie é simplesmente boazinha demais. — Ignorando a carranca de Holiday, a bruxa olhou para Burnett. — Falando nisso... Della não voltou ainda?
— Ela vai chegar a qualquer momento — Burnett respondeu enquanto se dirigiam ao refeitório.
Quando atravessaram a porta, a conversa que enchia o grande salão se aquietou como se alguém tivesse baixado o volume. Cabeças se viraram. O único som no grande espaço era o dos garfos sendo colocados nos pratos. Então, ao mesmo tempo, pelo menos cinquenta pares de olhos fixaram-se na testa de Kylie para verificar o seu padrão. Kylie deteve o passo assim que entrou no salão, sentindo-se, com contrariedade, o centro das atenções.
Holiday passou a mão nas costas de Kylie.
— Você quer que eu faça alguma coisa? — ela sussurrou.
— Não — Kylie murmurou, determinada a travar suas próprias batalhas. Além disso, ela queria estar ali, estava em sua casa, e Deus do céu!, ela não ia esconder o seu padrão. Mais cedo ou mais tarde, eles iriam se acostumar com ela. Não iriam? Um dia parariam de olhar e a acertariam como um dos seus.
— Bem, eu vou fazer alguma coisa — resmungou Perry, colocando-se na frente. — Vocês querem olhar para alguma coisa? — ele gritou. — Bem, olhem para isto! — Perry ficou de costas, inclinou o tronco para a frente, baixou as calças e mostrou o traseiro para cada um dos cinquenta pares de olhos.
— Perry! — Holiday gritou, com riso na voz. Burnett deixou escapar uma risada, mas depois fechou a boca quando viu as sobrancelhas arqueadas de Holiday diante da sua demonstração aberta de humor.
— Não fique mostrando a bunda, Perry! — repreendeu-o Burnett, a voz profunda como se ainda estivesse tentando não rir. — As pessoas estão tentando comer.
Todos na sala começaram a rir, até mesmo Kylie. Não havia ninguém como Perry para transformar um momento estranho numa completa piada. Kylie olhou para Miranda, que revirou os olhos, mas o orgulho brilhava por trás deles. E ela devia mesmo ficar orgulhosa. Embora mostrar o traseiro pudesse parecer uma atitude extrema, Perry tinha feito aquilo com boas intenções, para pôr fim a um momento de constrangimento e fazer Kylie se sentir melhor. E ele tinha conseguido.
Já com as calças no lugar, Perry virou-se e piscou para Kylie. Quando eles se aproximavam do balcão de comida, Kylie se inclinou para Miranda e disse:
— Perry é um defensor.
Miranda revirou os olhos novamente com humor.
— Eu sei. — Ela sorriu. — E ele tem um bumbum bem bonito, não acha?
Kylie riu novamente.
— Eu não vi o bumbum, é o coração dele que me encanta.
Enquanto Kylie esperava na fila para pegar seu hambúrguer com batatas fritas – que, realmente, tinha um aroma maravilhoso – várias pessoas se aproximaram para dar as boas-vindas: Mandy, uma das amigas bruxas de Miranda; Chris, o vampiro; e Jonathon, que parecia deprimido, obviamente, sem a companhia de Helen.
— Como está Helen? — perguntou Kylie, que de repente sentiu uma pontada de culpa, ao lembrar que provavelmente era por causa dela que Helen tinha sido atacada. — Eu sinto muito pelo que aconteceu.
— Não foi culpa sua — disse ele, empurrando-a de leve com o ombro. — Mas se eu tiver uma chance de colocar as mãos no idiota que a feriu, ele vai se arrepender.
— Ela está bem mesmo? — perguntou Kylie.
— Sim, ela está bem. Os pais dela disseram que Helen pode estar de volta daqui a uma semana.
— Que bom! — exclamou Kylie.
— Bom? É uma eternidade! Uma semana inteira. Sete dias. Vou enlouquecer. Ela é como uma droga para mim. Eu não estou acostumado a ficar sem ela. — Ele então se afastou, com um ar acabrunhado.
Kylie ficou observando-o se afastar. Sua postura era a de um rapaz infeliz e derrotado. Então ela teve um vislumbre de como se sentia quando Lucas se afastava do acampamento. Solitária, vazia. Longe do que dava sustentação à sua vida.
Tentando afastar o pensamento, ela sentiu os pelos da nuca se arrepiarem e fazerem cócegas na sua pele. Tentando ser discreta, mas com receio de saber exatamente quem estava olhando, ela olhou por cima do ombro, na direção da mesa onde estavam os lobisomens. Como ela esperava, ele estava sentado lá, observando-a com seus grandes olhos azuis. Olhos que expressavam um triste pedido de desculpas. O coração de Kylie foi parar na boca do estômago.
Será que a raiva que sentia dele um dia diminuiria o suficiente para perdoá-lo? A pergunta latejava dolorosamente em seu peito a cada batida de seu coração.
Ela desviou o olhar e disparou pelo refeitório, chocando-se de frente com um peito largo – um peito largo e muito familiar. O mesmo no qual ela tinha se aconchegado na noite anterior, durante um sonho lúcido. Quando ela olhou para o rosto de Derek, seu cérebro decidiu que aquele era o momento perfeito para ela se lembrar de tudo o que tinha acontecido. Todas as peças que faltavam no quebra-cabeça da noite anterior pipocaram em sua mente.
O beijo.
Os braços dele em torno dela.
A maneira carinhosa como ele a segurava.
Ah, droga!

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