4 de outubro de 2016

Capítulo 15

Lucas não respondeu. Em vez disso, simplesmente puxou mais o braço de Kylie, e ela deixou que ele a levasse de volta para o refeitório. Mas, quanto mais pensava sobre o que ele tinha dito, mais queria respostas. Por um minuto, enquanto o beijava, ela se sentiu quase embriagada de... paixão. Será que os lobisomens, assim como os faes, tinham a capacidade de manipular os sentimentos de uma garota para que ela concordasse em... lhes oferecer qualquer coisa que quisessem?
Kylie olhou para Lucas, que estava segurando sua mão e levando-a para o lugar onde haviam sentado antes. Mentalmente, analisou suas emoções.
Não estava com raiva de Lucas, nem arrependida da dança lenta à luz do luar. Pelo contrário, tinha apreciado cada segundo. Então, qual era o problema?
Uma vozinha interior respondeu à pergunta. O problema era que ela não queria pensar que alguém além dela poderia persuadi-la a fazer algo que não teria feito por vontade própria.
E, no entanto, uma outra vozinha sussurrou: não era disso que se tratava a paixão e a sedução? Todas as revistas falavam que as mulheres queriam ser seduzidas. Então, será que seria uma coisa ruim?
Ok, ela estava confusa. Olhou para a mão entrelaçada com a de Lucas e o seguiu passivamente na direção em que ele a puxava. Ele a conduziu por entre um aglomerado de campistas até chegarem aos seus lugares. Finalmente acomodados em suas cadeiras novamente, ela se perguntou quando tudo aquilo ficaria mais fácil.
— Você quer mais alguma coisa pra beber? — perguntou ele, tendo que levantar a voz para ela poder ouvi-lo sobre a música e o burburinho.
— Não, obrigada.
— Pizza? — ele perguntou.
— Agora não. — Ela quase pediu uma explicação para o que ele tinha dito anteriormente. Então percebeu que o barulho da música e a multidão tornariam impossível uma longa conversa em particular. Ela olhou para Lucas e viu que ele a estudava, olhando profundamente em seus olhos, quase como se estivesse tentando ler seus pensamentos.
Ele se inclinou e descansou a testa contra a dela.
— Você está chateada comigo?
— Não — ela disse com sinceridade. Não era raiva que sentia, apenas incerteza, confusão. Porque, mesmo que Lucas tivesse a capacidade de persuadi-la a fazer certas coisas, ele não tinha feito isso.
Piscando e oferecendo ao lobisomem um sorriso, ela decidiu que aquela noite, pelo menos durante a festa, não era o melhor momento para falarem sobre aquilo. No entanto, antes de concordar com outras danças ao luar ou sessões de beijos às margens do riacho, ela precisava de respostas.
Ela se lembrou das palavras de Holiday, semanas antes, quando estavam falando sobre garotos e sexo: “O que eu estou pedindo é que, quando tomar essa decisão, que seja algo sobre o qual você refletiu e decidiu fazer. Não uma decisão tomada por impulso, da qual possa se arrepender mais tarde”.
Será que as palavras de sabedoria de Holiday tinham um significado mais profundo do que Kylie tinha imaginado?
Uma hora depois, eles estavam comendo tanta pizza e bebendo tanto refrigerante que poderiam afogar um peixe italiano. A quantidade de casais dançando tinha diminuído. Agora, quase todo mundo estava comendo e conversando. Tinham até acendido as luzes. Quando as pessoas começaram a procurá-la para conversar, Kylie achou que Lucas ia sair de fininho, mas ele ficou ali e foi muito simpático, algo que não era característico de um lobisomem. Ele estava fazendo isso por ela, e Kylie apreciava o seu esforço.
Tanto Della quanto Miranda tinham dado uma paradinha para conversar, enquanto consumiam pizza e bebidas. Kylie queria perguntar a elas se o “pacto” estava indo bem, mas não conseguiu encontrar uma maneira de fazer isso sem que ninguém ouvisse, então decidiu esperar até mais tarde para saber das novidades.
Logo que a pizza acabou, alguém diminuiu as luzes novamente e vários casais voltaram para a pista de dança improvisada. Quando a visão de Kylie se adaptou à penumbra, ela viu Della sendo levada para a pista de dança por... Chris.
Kylie imediatamente procurou Steve com os olhos, e teve certeza de que ele era o cara da camiseta preta, de pé num canto, conversando com duas garotas, uma das quais era Fredericka. A outra parecia ser... Ellie.
O olhar de Kylie percorreu o salão por um segundo, procurando por um certo fae. Ela não o encontrou em lugar nenhum e se perguntou se Derek não viera porque sabia que ela estaria ali.
Eu não posso estar pensando em Derek. Kylie fechou os olhos e repetiu essas palavras para si mesma, como se fossem seu novo mantra.
Quando ela procurou Della novamente com os olhos, viu Miranda indo para a pista de dança com Clark. Kylie não sabia muito sobre Clark, exceto que era um bruxo conhecido por ser um tanto encrenqueiro.
O que Miranda e Della estavam fazendo? O que tinha acontecido com o pacto? Por que não tinham ido atrás dos caras certos?
— Algo errado? — Lucas perguntou.
Ao olhar para ele percebeu que ela estava franzindo a testa.
— Não. É só que... — Kylie olhou para a multidão, evitando responder, tentando decidir o quanto podia dizer a ele. Antes que conseguisse encontrar uma resposta adequada, viu Perry, que parecia zangado o suficiente para soltar fogo pelas ventas. Seu olhar encontrou o dela, e então ele começou a andar na direção da porta.
— Só me dê um minuto, por favor — ela disse para Lucas e disparou atrás de Perry.
Quando Kylie saiu do refeitório, Perry parecia não estar em lugar nenhum. Então ela o viu. Bem, tinha que ser ele! Um daqueles grandes pássaros de aparência pré-histórica ciscava em frente ao escritório principal.
— Perry! — ela gritou, e correu para alcançá-lo.
Suas asas, de uma envergadura de quase dois metros, se abriram e ele pareceu pronto para levantar voo.
— Não fuja! — Kylie gritou.
— Não estou fugindo! Estou voando. E por uma razão muito boa. Se eu tiver que ficar lá e vê-la flertar com todos aqueles caras, vou acabar machucando alguém.
Kylie observava o movimento do bico do pássaro para cima e para baixo, enquanto ele falava.
— Primeiro, volte à forma humana antes de falar comigo. Segundo, você não tem que simplesmente ficar ali parado. Convide-a para dançar.
As fagulhas em forma de diamante começaram a se espalhar em torno do pássaro.
De onde Kylie estava, a apenas uns trinta centímetros dele, o ar pareceu rarear. Não sabia exatamente o que acontecia quando Perry se transformava, mas devia causar algumas coisas estranhas ao ozônio da atmosfera.
Uma das fagulhas flutuou no ar; ao descer, roçou em seu braço e estourou como as bolhas de sabão com que ela brincava na infância. Mas em vez da sensação de cócegas, Kylie sentiu um pequeno choque elétrico no braço.
De repente, Perry estava lá, no lugar do pterodátilo. Seus olhos estavam vermelhos de raiva.
— Convidá-la para dançar pra que ela possa me rejeitar na frente de todo mundo? Acha que eu tenho cara de idiota?
— Não, agora você mais parece um covarde com medo de se arriscar para conseguir o que quer.
— Eu não sou covarde! — ele rosnou. — Tenho mais poder no meu dedo mindinho do que dez sobrenaturais juntos.
— Então prove, indo atrás do que quer. — Ele não parecia convencido, por isso Kylie acrescentou: — Tenho um palpite de que ela não vai rejeitá-lo.
Ele apenas olhou para ela, a descrença brilhando em seus olhos enquanto eles passavam do vermelho para o azul habitual.
— Confie em mim — Kylie acrescentou.
Ela podia ver que Perry queria ceder. Mas então ele acenou com a mão em direção à porta.
— Ela já está dançando com outra pessoa.
— Então interrompa.
Kylie franziu a testa quando viu Lucas parado na penumbra. Então se lembrou de que ele era a sua sombra. Ele tinha que segui-la.
— Interromper? — Perry perguntou, como se não conhecesse a palavra.
— Bata no ombro do cara e diga simplesmente que quer dançar com Miranda.
— E ele vai apenas dar um passo para o lado e me deixar dançar com ela? De onde você tirou essa ideia?
— Não é uma ideia. É uma regra de etiqueta na dança. Quando alguém quer dançar com outra pessoa que já está dançando, deve tocar o ombro do parceiro e dizer que você está interrompendo a dança.
Perry fez uma careta.
— E o que acontece se ele disser não?
— Ele não deveria dizer não.
Perry revirou os olhos.
— No mundo humano, talvez, mas...
— Ah, pelo amor de Deus! — Ela ergueu as mãos de frustração. — Será que não dá nem pra tentar?
— Tudo bem! — disse ele. — Mas se o cara me disser qualquer merda, pode acabar machucado. — Seus olhos ficaram vermelhos novamente. Vermelho-sangue.
— Não, você não vai machucar...
Antes que ela pudesse acabar a frase, Perry disparou para dentro. Ela correu atrás dele. Ah, mas que droga! Talvez não tivesse sido uma boa ideia.
Lucas a chamou, mas ela não diminuiu o passo.
Kylie mal tinha entrado no refeitório quando ouviu o tumulto. Ela disparou na direção da pista de dança.
— Eu disse que estou interrompendo! — A voz de Perry levantou-se acima da música e do falatório dos outros campistas.
Kylie tentou abrir caminho a cotoveladas, na esperança de chegar até eles a tempo de impedir que as coisas piorassem, mas as pessoas já começavam a se aglomerar em torno deles e seus cotovelos não deviam ser fortes o suficiente, porque todo mundo só resmungava e a ignorava.
— E eu disse pra você ir pro inferno! — Uma voz, obviamente de Clark, respondeu.
— E o que eu quero não importa? — disse Miranda.
Kylie ficou na ponta dos pés para ter uma visão melhor, mas ainda assim não conseguiu ver nada.
O barulho de briga encheu o recinto. A maior parte das garotas começou a gritar, enquanto os homens incitavam a briga.
— Parem com isso! — Kylie exclamou, e começou a dar pulinhos, esperando ver o que estava acontecendo.
— Cuidado! — alguém gritou e, como uma onda, todos se abaixaram quando uma bola de fogo do tamanho de uma bola de voleibol cruzou o ar.
— Merda! — Kylie gritou e aproveitou a posição de todos para se aproximar. Enquanto passava por cima de duas ou três pessoas, desculpando-se ao sentir mãos ou pés sob os seus sapatos, viu Miranda gritando com Clark.
— Eu disse que queria dançar com ele! — Miranda gritou.
Perry ficou olhando, vendo a reação de Miranda com um grande sorriso no rosto.
Miranda continuou sua bronca e Kylie não conseguiu ouvir muito bem o que estavam dizendo por causa da conversa dos outros campistas, mas ela podia ver o rosto de Clark ficando vermelho de raiva. Miranda espetou o dedo em seu peito. Clark revidou empurrando-a para trás e a xingando.
Miranda nem tinha recuperado o equilíbrio ainda quando fagulhas brilhantes começaram a aparecer como fogos de artifício. Um enorme dragão verde do tamanho de uma jamanta apareceu onde Perry estivera de pé. Fumaça espiralava do focinho longo e esburacado do dragão. A maioria dos campistas começou a correr como baratas num comercial de inseticida. Bem, todo mundo, menos Kylie, Miranda e Clark. Kylie correu e agarrou o braço da amiga, na esperança de afastá-la do perigo. Mas a pequena bruxa se esgueirou da mão de Kylie e ficou ali, olhando para o dragão com ar de admiração.
— Nossa, que lindo! — murmurou Miranda.
Kylie olhou para o gigantesco monstro verde e, embora não pudesse concordar com Miranda, decidiu não expressar em voz alta o que pensava. Especialmente quando Perry varreu o salão com o seu rabo de quase cinco metros, derrubando vários espectadores mais ousados e fazendo outros voarem pelos ares. O prédio todo estremeceu mais uma vez, e então todos que restavam em pé voltaram a se aproximar.
Della avançou para dentro do refeitório e gritou para que as duas recuassem. Miranda ignorou Della também. E, enquanto Kylie não tirasse Miranda do perigo, não sairia também.
— Ele não vai me machucar — Miranda rebateu, e voltou os olhos furiosos para Clark. Foi então que começou a agitar o dedo mindinho e entoar um encantamento.
Infelizmente, logo em seguida Burnett se precipitou para dentro do salão, estacando na frente de Clark. Ele parecia furioso o bastante para matar filhotinhos inocentes.
Burnett abriu a boca, sem dúvida para dar uma enorme bronca, mas, antes que pudesse falar qualquer coisa, um redemoinho das cores do arco-íris começou a girar em torno dele como se fossem fitas. Então o vampiro durão desapareceu em meio ao ar cheio de fumaça e em seu lugar surgiu um canguru furioso.
— Ai, merda! — gemeu Kylie.
— Ai, merda! — gritou Miranda.
Burnett, agora na pele de um canguru muito contrariado, começou a saltar de um lado para o outro como um marsupial com muita pressa. Miranda, tremendo e dando pulinhos ora num pé ora no outro, ergueu o dedo mínimo no ar e murmurou um feitiço tão rapidamente que Kylie não conseguiu entender uma palavra.
Perry, agora um dragão gigantesco e fora de controle, deu um passo na direção de Clark. Este, que parecia prestes a sujar as calças, começou a atirar mais bolas de fogo. Uma errou o alvo e bateu na parede do refeitório. Outra bateu numa lata de lixo contendo caixas de pizza que imediatamente estouraram em chamas. Outra cruzou os ares, avançando bem na direção de... Miranda.
Kylie sentiu seu sangue ferver e correr para o cérebro. Sem pensar nem perceber o que planejava fazer, ela saltou para interceptar a bola de fogo, agarrou-a e arremessou-a para o outro lado do salão.
Perry soltou um som sinistro, metade rugido, metade grito, enquanto fumaça espiralava das suas narinas. Clark atirou outra bola de fogo. Antes que Kylie pudesse detê-la, ela bateu em Perry – na forma de dragão – e chamuscou suas escamas verdes.
O cheiro de dragão queimado, juntamente com caixas de pizza em chamas, pairava no ar. A fumaça subia até o teto.
Perry jogou a cabeça para trás e rugiu tão alto que sacudiu o refeitório inteiro até os alicerces. Não era tanto um berro de dor, mas de advertência e de fúria total e absoluta.
Lucas de repente apareceu ao lado de Kylie, pegou a mão dela e examinou a sua palma. Então, com uma expressão perplexa, agarrou-a pelo cotovelo e começou a levá-la para longe dali. Kylie puxou o braço para se libertar e saltou sobre algumas cadeiras caídas para chegar até onde estava Miranda.
Assim que Clark jogou outra bola de fogo, Della mergulhou para trás e foi atingida no quadril por uma chama cilíndrica que a fez voar uns bons dois metros para trás e aterrissar numa pilha de cadeiras fechadas.
Kylie gritou, Miranda entoou seu encantamento ainda mais alto e Perry expeliu mais fogo pelas ventas. Kylie se levantou de trás das cadeiras para chegar aonde estava Della.
Antes que Kylie conseguisse chegar até ela, Della se levantou, aparentemente ilesa. Mas Kylie nunca a vira tão irritada. Seus olhos flamejavam num tom verde brilhante, seus caninos estavam à mostra sobre o lábio inferior e ela parecia pronta para matar. Clark era seu alvo. Rosnando com uma raiva insana, ela disparou para o outro lado do salão, atrás de Clark. Burnett, em toda a glória marsupial, saltou na frente de Della, bloqueando sua passagem e impedindo o ataque.
Perry soltou uma rajada de fogo que atravessou o salão e deixou marcas negras nas paredes de madeira e no teto.
Miranda, com o mindinho ainda no ar, entoou seu feitiço mais alto. Então outro redemoinho das cores do arco-íris voou através do refeitório e instantaneamente Burnett voltou à sua forma original de vampiro. Não um vampiro feliz, porém.
Com os olhos de uma cor semelhante à luz néon vermelha, ele soltou um grito que se equiparou aos rugidos do dragão Perry.
— Todo mundo pare agora! Agora!
O tumulto chegou ao fim. Até a pequena multidão na frente do refeitório parou de tagarelar. O silêncio reinou.
Burnett olhou primeiro para Clark.
— Lance outra bola de fogo e você não pisa mais em Shadow Falls até o dia em que eu morrer. E eu pretendo viver por muito tempo. — Ele se virou e olhou para Lucas. — Você pode, por favor, colocar o lixo em chamas para fora antes que todo este lugar pegue fogo? — Girando o corpo, encarou Della, que ainda parecia furiosa. — Por mais que eu queira deixar você arrancar a cabeça desse sujeitinho — Burnett indicou Clark —, acho que Holiday não iria aprovar. Então, vá esfriar a cabeça em algum lugar. — Ele apontou para a porta.
Antes que ele baixasse a mão, Della já tinha ido embora, deixando apenas um rastro de cólera no ar.
Respirando fundo, Burnett dirigiu seu olhar zangado para o dragão.
— Transforme-se neste instante!
Perry soltou um rugido de protesto, mas então fagulhas brilhantes começaram a flutuar do teto até o chão. Kylie observou que todos sabiam que deviam evitar as pequenas bolhas de eletricidade. Era engraçado pensar que ninguém se dera ao trabalho de avisá-la sobre essas coisas.
Um segundo depois de parar de chover bolhas diamantinas, o dragão desapareceu e Perry surgiu diante de Burnett. Ele não parecia menos irritado que o vampiro. Então, confirmando a suposição de Kylie, deu um salto no ar, passou por Burnett e aterrissou em cima de Clark. Punhos começaram a golpear o ar.
O vampiro, sem aparentar nenhuma dificuldade, se intrometeu na briga e puxou Perry pelo colarinho da camisa, segurando-o a vários centímetros do chão.
— Chega de briga! — Ele largou Perry no chão.
O metamorfo olhou para Clark e depois para Burnett.
— Ele empurrou Miranda! — protestou Perry, a fúria transparecendo na voz. — Um homem nunca, nunca, deve machucar uma mulher. Você me ensinou isso quando eu tinha 6 anos.
Seis anos? Kylie olhou de Burnett para Perry. Então Burnett conhecia Perry desde essa época?
— Eu sei — disse Burnett. — E vou resolver isso com ele mais tarde. Mas você tem que aprender a lidar com as situações da vida sem se transformar, ou nunca será capaz de conviver com humanos.
— Ele estava atirando bolas de fogo! — reclamou Miranda, intervindo. — É lógico que Perry tinha que se transformar para poder fazer alguma coisa.
Kylie viu Perry desviar o olhar para Miranda. A raiva em seus olhos desapareceu e ele olhou para ela com uma expressão de surpresa. Algo dizia a Kylie que não estava acostumado a ver pessoas saindo em sua defesa. Nesse momento, seu coração se compadeceu do metamorfo abandonado pelos pais.
Burnett soltou um profundo suspiro e seu olhar furioso voltou-se para Clark.
— Vá para a sua cabana. Eu estarei lá em breve para lhe dizer qual é a sua punição.
Clark saiu pisando duro, mas não sem lançar um olhar sarcástico para Miranda. Por um segundo, Kylie pensou que Perry ia atacar novamente. O mesmo pensou Burnett, pois ele estendeu a mão e segurou Perry.
— Não se atreva a se transformar.
Mais uma vez, Kylie observou a familiaridade com que Burnett tratava Perry. Obviamente, a filiação de Perry ao programa de adoção da UPF o pusera em contato com o vampiro. E ela suspeitava que Burnett tinha colocado o órfão metamorfo sob sua proteção.
A apreensão de Kylie com relação a Burnett e à biblioteca da UPF diminuiu um pouco. Não que ela estivesse completamente tranquila com relação a ele, mas todos os seus instintos lhe diziam que Burnett não era o inimigo.
Lucas voltou, trazendo com ele um cheiro de fumaça, e ficou ao lado de Kylie. Ela olhou para a lata de lixo que minutos atrás continha chamas que chegavam até o teto. Elas haviam sido extintas, e agora apenas alguns fios de fumaça flutuavam da borda da lata.
Lucas pegou a mão de Kylie novamente, olhou sua palma e a examinou. Então se inclinou e sussurrou em seu ouvido:
— Você está mesmo bem?
— Estou — ela disse, intrigada com a pergunta.
Ele olhou para a mão dela outra vez e carinhosamente passou o dedo em toda a palma.
— Sua mão deveria estar queimada.
Ela se lembrou de que tinha desviado uma das bolas de fogo que atingiriam Miranda.
— Bem, não queimou. — Então se lembrou de que sentiu como se seu sangue tivesse se transformado em refrigerante e fervilhado em seu cérebro.
O olhar de admiração de Lucas se transformou em uma expressão séria.
— No entanto, da próxima vez que eu tentar tirar você de uma situação de perigo, não lute comigo.
Ela franziu a testa para ele.
— Eu não lutei com você. Só não queria deixar Miranda ou Della para trás.
Ele balançou a cabeça como se a reação dela o exasperasse.
— Você é mesmo uma protetora, hein?
— Talvez eu seja apenas uma boa amiga. — Por alguma razão que ela não conseguia entender, sentiu que ele preferia que ela não fosse uma protetora. Por quê? Será que isso queria dizer que ela tinha menos chance de ser um lobisomem?
Burnett olhou para a multidão de campistas que os observava.
— Vocês, voltem para suas cabanas. A festa acabou.
Assim que saíram, ele fixou o olhar em Miranda.
— Mexa esse dedinho para mim novamente e eu vou...
— Della disse que você vai decepá-lo — disse Miranda com uma risadinha, nem um pouco intimidada com Burnett. Burnett soltou um grunhido, contrariado com a franqueza de Miranda.
— Ela não tinha intenção de transformá-lo — disseram Perry e Kylie ao mesmo tempo.
— Era Clark que ela queria atingir — acrescentou Perry, franzindo a testa para Burnett.
— Não importa — disse Burnett. — Isso nunca mais vai acontecer. Você entendeu? — Ele olhou novamente para Miranda.
Ela assentiu.
— Entendi. Me desculpe.
Kylie teve certeza de que ela teve que se esforçar para parecer arrependida, mas o pedido de desculpas soou sincero. E foi aí que Kylie percebeu que todos os campistas aceitavam Burnett como um dos líderes. Ele podia não ter o mesmo método afável e até carinhoso de Holiday ao lidar com os campistas, mas conseguia o mesmo efeito de outras maneiras.
Burnett cruzou os braços sobre o peito.
— Agora, todos vocês, tratem de voltar para suas cabanas.
Todos eles se viraram para ir embora. Lucas pegou a mão de Kylie, para que ela soubesse que ele iria acompanhá-la.
Mas então Burnett acrescentou:
— Todos, menos Kylie.
Ah, que ótimo... O que era desta vez? Kylie parou e se virou para encarar Burnett.

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