8 de outubro de 2016

Capítulo 14

Quando Kylie e Burnett subiram os degraus do escritório, ela de fato desejou não ter vindo.
Atrás da porta, Clara continuava discutindo com o irmão.
— Acho que pode ter sido ela que enviou a neblina atrás de mim. Fingiu que ia me resgatar, mas talvez a bruxa seja simplesmente...
Quem você acha que mandou a neblina atrás de você? — Lucas perguntou, com uma voz autoritária.
— Kylie! — Clara respondeu, irritada.
Kylie perdeu o fôlego.
— Kylie não é uma bruxa — afirmou Lucas.
Burnett abriu a porta do escritório. Clara e Lucas, de pé diante da entrada, viraram-se ao mesmo tempo. Kylie se preparou para a reação de Lucas.
— Por ora, é o que sou. — Kylie decidiu colocar tudo em pratos limpos e se preocupar mais tarde com as consequências que isso acarretaria.
— O que você é por ora? — Lucas perguntou, sem saber que Kylie tinha ouvido a conversa.
— Uma bruxa — ela disse.
Lucas olhou para a testa dela. Choque, confusão e desapontamento cintilaram em seus olhos.
— O que... Bruxas não correm tão rápido. Elas não podem correr... como você corre.
— Isso me confundiu também — disse Clara. — Foi quando eu percebi que ela poderia ter lançado um feitiço e, se lançou esse, poderia ter lançado outros.
— Eu não provoquei a neblina — defendeu-se Kylie. Será que Clara estava mesmo se voltando contra ela?
— Então como você sabia onde me encontrar? E não minta novamente, dizendo que me ouviu gritar. Eu estava longe demais para que ouvisse meus gritos.
A acusação irritou-a, mas ela tentou não levar a mal. Clara tinha suas razões para suspeitar dela. As bruxas não costumavam correr como um raio ou ter uma superaudição. O que só provava que Kylie não era uma bruxa.
Mas se o avô e a tia podiam se transformar em neblina, isso significava que eles pertenciam à espécie wiccana? Pelo que sabia, os metamorfos não podiam se transformar em neblina, podiam? As dúvidas se sucediam na sua cabeça.
— Kylie não é uma bruxa normal — disse Burnett, em sua defesa.
Lucas olhou para Clara, para Burnett e depois para Kylie. Um pedido de desculpa substituiu a descrença em seus olhos.
Ele continuou a olhar para ela, mas falou com a meia-irmã.
— Se Kylie está dizendo que não foi ela, então não foi.
— Você acredita nela e não em mim? Agora eu vejo por que papai está tão preocupado. — O tom de Clara era acusatório. — Como você quer ser um líder do nosso povo se defende uma bruxa em vez de ficar do lado de quem é do seu próprio sangue, da sua própria espécie?
A expressão de Lucas endureceu.
— Eu não acredito nela, simplesmente. Eu conheço os fatos. Kylie tem uma audição mais aguçada. Ela podia ter ouvido seus gritos há quilômetros de distância.
— As bruxas não têm...
— Como Burnett frisou, eu não sou uma bruxa normal. — Kylie olhou para Lucas. Por que ele não tinha dito simplesmente que acreditava nela? Será que a lealdade dos lobisomens à sua alcateia era tão grande que o fato de ele acreditar nela lhe tirava a credibilidade?
Sentindo o olhar de Clara, Kylie continuou.
— Aparentemente, o meu cérebro tem o péssimo hábito de assumir padrões diferentes.
— Então tem algo muito errado com o seu cérebro. — O tom de Clara fazia com que suas palavras parecessem ainda mais agressivas.
Kylie esperou que Lucas repreendesse Clara. Quando o olhar do lobisomem encontrou o dela, ela pôde jurar que viu um pedido de desculpas em seus olhos, mas ele permaneceu em silêncio.
E no mesmo instante ela soube por quê. Porque, se ele a defendesse, estaria colocando-a à frente de Clara. Como Kylie não era um lobisomem, ela não devia ser importante para Lucas. Ou pelo menos não tanto quanto seria se fosse da espécie dele. A constatação causou-lhe uma onda de dor que oprimiu o seu peito. Ela disse a si mesma que não precisava que ele a defendesse, que ela sabia se cuidar, então o que importava se ele ficasse em silêncio?
— Não há nada de errado com o meu cérebro. — Kylie olhou Clara nos olhos e então relanceou o olhar para Lucas. Ela tinha falado a verdade. Sua mente estava bem. Era com o seu coração que ela se preocupava agora. Porque, embora não devesse se importar com a atitude de Lucas, na verdade ela se importava.
Muito.
— Por que você não ficou assustada com o que viu? — Clara perguntou.
Sem saber o que Clara queria dizer com aquilo, Kylie fez uma pausa. Será que a garota tinha visto mais do que Kylie supunha?
— Quem disse que eu não fiquei assustada?
— Kylie é uma protetora — interveio Burnett.
Os olhos de Clara se arregalaram.
— Sério?!
Pouco à vontade com o olhar de Clara sobre ela, Kylie de repente queria estar longe dali.
— Eu tenho que ir. — Ela se virou para sair da sala.
Burnett pegou-a gentilmente pelo braço e, por mais estranho que parecesse, ela se sentiu confortada com o seu toque frio. Ele se inclinou na direção dela e sussurrou:
— Não até que tenha uma sombra.
— Eu estou aqui. — Holiday surgiu no vão da porta. — Fui dar uma volta para dar alguns minutinhos de privacidade a Lucas e à irmã. — Seus olhos verdes voltaram-se para Kylie como se ela tivesse percebido o crescente tumulto emocional dentro da garota. Holiday fez um gesto para que Kylie a seguisse.
Burnett olhou para Holiday.
— Fiquem por perto. Pode haver algum perigo por aí.
— Exatamente o que aconteceu? — A preocupação encheu os olhos verdes de Holiday.
— Nós nos falamos mais tarde — disse Burnett. — Eu preciso conversar com Clara enquanto tudo está fresco na memória dela.
Kylie saiu do escritório, o coração partido com o comportamento de Lucas e um nó no estômago ao pensar no que Clara se lembraria. Uma olhada para Holiday foi suficiente para que ela se lembrasse da visão e de que podia significar que Holiday morreria. Talvez Clara estivesse certa. Talvez houvesse algo errado com o cérebro dela. Talvez o estresse tivesse finalmente deixado-a com um parafuso solto.
Será que se transformar em bruxa era o primeiro sinal de insanidade? Ou era só uma consequência do fato de ela ser um camaleão?
Kylie seguiu Holiday até o refeitório para comer um sanduíche. A hora do almoço já havia terminado e por isso elas tinham o lugar só para elas. Mal trocaram uma palavra e esse constrangimento entre elas não era natural. Quando saíram do refeitório, Kylie contemplou a floresta para ver se a sensação tinha desaparecido ou se ela ainda sentia o avô e a tia-avó chamando por ela. No entanto, não sentiu nada.
Holiday colocou o braço sobre os ombros de Kylie.
— Converse comigo.
Kylie absorveu a tranquilidade que o toque de Holiday lhe proporcionava e olhou para a amiga.
— Eu detesto preconceitos! — desabafou Kylie, sabendo que só um dos seus problemas no momento, Lucas, ela poderia discutir com Holiday. Se contasse a ela quem vira no bosque mais cedo, a amiga diria a Burnett. E os dois a proibiriam de encontrá-los caso eles voltassem. Mas ela tinha que encontrá-los, não tinha?
— Eu detesto também — concordou Holiday, como se soubesse exatamente a que preconceitos Kylie estava se referindo. — Se existe uma coisa que eu gostaria de mudar no mundo, pode apostar que é isso.
Fechando a mão em punho, Kylie se lembrou da decepção que sentiu diante da postura de Lucas com relação a Clara.
— Depois de ser alvo de preconceito, é de se pensar que a comunidade de lobisomens saberia quanto isso é injusto.
— Eu acho...
— Posso falar um minuto com Kylie? — A voz de Lucas veio de trás delas. Só o fato de ouvir sua voz grave causou outra onda de dor em Kylie. Ela não conseguia pensar em nada nem ninguém que pudesse impedi-la de defendê-lo se a situação fosse inversa. No entanto, ele...
Kylie e Holiday se viraram para trás. A líder do acampamento olhou para Kylie, como se perguntasse se ela queria falar com Lucas. Kylie assentiu.
— Bem, fiquem por perto.
Holiday voltou para a varanda e se sentou numa das cadeiras de balanço.
Lucas pegou a mão de Kylie e levou-a para trás da cabana do escritório. Ele não falou nada, nem ela. Ele parou ao lado de uma árvore, onde já tinham estado antes, e se virou para ela. Nem uma palavra saiu de seus lábios; ele só a fitou.
O que ela não daria para ler os pensamentos dele? O que será que passava pela sua mente? Ele estava aborrecido porque ela era uma bruxa ou lamentava não tê-la defendido? Será que estava constatando que a relação entre eles não tinha nenhum futuro?
— Obrigado por resgatar a minha irmã — ele disse. — Eu lamento que ela seja tão pouco agradecida.
Kylie assentiu.
Ele se inclinou e pressionou a testa contra a dela. Tudo o que ela queria era fitar os olhos dele, tão azuis, e os longos cílios escuros que os sombreavam.
— Eu magoei você. — A voz dele estava mais profunda do que antes.
Ela não negou.
Continuou olhando para o namorado e ele não piscou. A dor refletida em suas íris azuis fez com que ela segurasse a respiração.
Ele fechou os olhos e respirou fundo antes de falar.
— Já aconteceu de você saber qual é a coisa certa a fazer, mas não conseguir fazê-la?
Ela recuou alguns centímetros.
— Depende. Qual é a coisa certa a fazer?
Ela fez a pergunta mesmo com medo de ouvir a resposta. Pois, lá no fundo, já a pressentia. Ela a pressentia desde que a avó de Lucas conversara com ela. Kylie e Lucas tinham que enfrentar muitos empecilhos para que o relacionamento entre eles desse certo.
— Eu deveria deixá-la... — ele disse. — Devia colocar um ponto final neste... no que existe entre nós. Porque até que as coisas mudem, todos estarão contra nós. E, no entanto... — ele inclinou ligeiramente a cabeça e seus lábios encontraram os dela.
Um torvelinho de emoções acompanhou o breve beijo. E, embora ela achasse que não havia mais espaço em seu peito para tantas emoções, sentiu que isso não era verdade. A dor que ele sentia era a mesma que oprimia o peito de Kylie. O medo que ele tinha era o mesmo que ela sentia. Ela fechou os olhos, lutando contra a dor que irradiava do seu coração e tentando apenas saborear o toque de Lucas.
Ele se afastou e passou o polegar pelos lábios dela.
— E, no entanto, como posso deixá-la ir se você é o que me faz seguir em frente? Se a principal razão que me leva a querer mudar as coisas é você?
O dedo de Lucas acariciou o queixo dela, um toque suave que quase trouxe lágrimas aos olhos de Kylie.
— Estou te implorando. Por favor, tenha paciência comigo. Confie em mim quando digo que você tem um lugar especial aqui. — Ele pegou a mão dela e pousou-a sobre o seu peito. — Eu tenho que me comportar de uma certa maneira, do contrário isso acabará nos ouvidos do meu pai e do conselho, mas não é dessa maneira que eu me sinto. — Ele parou de falar por um momento. — Por favor, não desista de mim, Kylie Galen.
Ela podia sentir o coração dele batendo. Podia senti-lo se partindo também, assim como o dela.
— Eu não desisto tão fácil.
Era verdade. Se desistisse, não estaria mais em Shadow Falls.
Ele a envolveu em seus braços, apoiando-se na árvore, e encostou a bochecha na dela. Ficaram assim durante muito tempo. Sem se falarem. Sem fazer promessas. E Kylie se perguntou se seria porque ambos sabiam instintivamente que não poderiam cumprir essas promessas.
Ele finalmente se afastou.
— Eu preciso ir ajudar Clara a se instalar.
Kylie afrouxou o abraço em volta da cintura dele. Embora não quisesse. Ela não queria devolvê-lo a Clara ou a Fredericka ou ao seu pai. Por mais egoísta que fosse, ela o queria só para ela. Ou talvez não fosse egoísmo. Talvez ela só não quisesse dividi-lo com pessoas que queriam separá-los.
— Quer vir comigo? — ele perguntou.
Clara ia adorar, pensou Kylie. Não.
— Vou deixar vocês dois sozinhos por um tempo.
— Obrigado — ele disse, como se de fato esperasse que ela recusasse o convite. Ele sorriu, mas sob aquele sorriso havia um toque de decepção. — Então você é uma bruxa. Eu nunca poderia adivinhar.
— Eu sou uma bruxa neste momento — ela o corrigiu.
Ele pareceu confuso.
— Você acha que isso pode mudar?
— Sim. Pode. — Ela acreditava mesmo nisso? — Eu mudei daquele padrão estranho para o humano.
— É verdade. — Ele observou o padrão dela. — Mas este é de fato um padrão sobrenatural. — A atenção de Lucas se voltou para algo atrás dele e ele soltou um grunhido baixo. Derek contornava a cabana do escritório.
O olhar do fae encontrou o de Kylie. Não havia nele nenhum pedido de desculpa por interrompê-los. Até sua postura parecia indicar que ele se achava no direito de estar ali.
— Preciso falar com você, Kylie. É importante.
— Sobre o quê? — perguntou Lucas.
Derek nem sequer olhou para o lobisomem. O olhar do fae não deixou o de Kylie, mesmo enquanto respondia à pergunta, diretamente para ela.
— É sobre o fantasma.
— Desde quando você é um especialista em fantasmas? — perguntou Lucas.
Derek olhou para Lucas pela primeira vez.
— Desde que eu descobri que Kylie precisava de alguém que a ajudasse com eles. — As implicações do que ele dissera ficaram suspensas no ar. Ou seja, ele apoiara Kylie quando Lucas se recusara a fazer o mesmo.
Lucas entendeu muito bem. Seus olhos se estreitaram e adquiriram um tom alaranjado.
Antes que começassem uma briga, Kylie colocou a mão nas costas do lobisomem.
— Vá ajudar Clara.
Ele não pareceu nada satisfeito, mas sua expressão lhe dizia que não pretendia começar uma discussão.
O seu gesto seguinte surpreendeu-a, no entanto. Ele se curvou e pousou os lábios afetuosamente nos dela, num beijo que era mais para deixar bem claro para Derek que ela era a namorada dele, do que por prazer propriamente. Porém, ela não podia culpá-lo.
Já houvera uma ocasião ou duas em que Kylie teria adorado beijá-lo assim na frente de Fredericka.
— O que foi? — ela perguntou a Derek tão logo Lucas desapareceu e não podia mais ouvi-los.
Derek olhou para a direção em que Lucas seguira e depois para Kylie.
— Você está decepcionada. Por quê? — ele perguntou, lendo as emoções dela com precisão.
— Por nada. — Ela não queria falar com Derek sobre isso.
— É com Lucas? — ele perguntou.
— Esquece — ela insistiu. — Eu estou com Lucas agora.
Mas por quanto tempo?, ela se perguntou mentalmente.
Ele comprimiu os lábios.
— Eu sei. Estraguei tudo e só percebi que te amava depois que já era tarde demais.
Ela ergueu a cabeça.
— Não diga nada...
Ele estendeu o braço e entrelaçou os dedos nos dela. A pressão da sua palma contra a dela irradiou um calor suave, uma sensação de calma e afeto. Ela percebeu quanto estava tentada a simplesmente abraçá-lo, mas, ciente de que suas emoções estavam muito tumultuadas no momento, afastou a mão da dele. Ele era seu amigo. Só um amigo.
— Tudo bem. — Ele enfiou a mão no bolso. — Eu sei que foi culpa minha. E você não tem que me dizer que me ama também. — Seu olhar encontrou o dela. — Mas eu posso captar suas emoções, Kylie, e sei que você não quer admitir que também sente algo por mim.
— Pare — ela ordenou. — Eu gosto de você como um amigo.
— Não. — Ele continuou a fitá-la. — É mais do que isso. Mas não se preocupe. Eu sei que você gosta de Lucas também. E eu tenho que aceitar isso, porque fui eu que a joguei nos braços dele. E se você estiver feliz, tudo bem. Mas se não estiver...
— Por favor, pare. — Kylie queria simplesmente tampar os ouvidos e ficar cantarolando para não ouvir o que ele dizia. E se não fosse tão infantil, teria feito exatamente isso. Mas, em vez disso, ela o lembrou do assunto que o trouxera ali. — Você não disse que tinha informações sobre o fantasma?
Ele enfiou as duas mãos no bolso.
— É. Pelo menos são boas notícias, eu acho. Mas algumas delas não são tão boas assim.
— Conte. — Ela esperava que fossem melhores do que as que tivera até o momento. Kylie estava mesmo precisando de boas notícias.
— Eu não acho que o seu fantasma seja Holiday.
— Mas... como... por que você pensa assim?
— Eu fiz algumas pesquisas na internet. O básico. — Ele hesitou. — Descobri que Holiday tem uma irmã gêmea idêntica. O nome dela é Hannah.
Eu acho que meu nome é Hannah ou Holly, ou algo parecido. As palavras do espírito ecoaram na cabeça de Kylie.
— Uma irmã gêmea? Por que ela nunca disse nada?
Derek deu de ombros.
— É meio esquisito, não acha? Quer dizer, o natural era que dissesse alguma coisa sobre uma irmã gêmea.
— É verdade. — Kylie não podia negar que a magoava saber que Holiday não achava que podia confiar nela, embora Kylie contasse tudo sobre a sua vida a Holiday.
— Você ainda acha que esse fantasma vem do futuro? — Derek perguntou.
Kylie pensou um pouco.
— Não. Ela está morta. — Assim como as outras pessoas na cova que apareceu na visão. E de repente, a mágoa por Holiday não confiar nela se desvaneceu e foi substituída por compaixão. Kylie não podia imaginar como seria perder uma irmã, ainda mais gêmea. Seria por isso que Holiday não a mencionara? A dor pela morte da irmã gêmea estaria impedindo Holiday de falar sobre ela?
Derek respirou fundo.
— Tudo bem, mas há outra coisa ainda mais estranha. Eu não encontrei nenhum registro sobre a morte dela. Nenhum. É por isso que eu disse que poderiam ser más notícias também.
— O que está dizendo? — Kylie perguntou.
Derek franziu a testa.
— Holiday pode não saber que a irmã está morta.
Um nó se formou na garganta de Kylie.
— Então eu tenho que dizer a ela.
— Se quiser, eu mesmo falo — Derek se ofereceu. — Ou poderíamos falar juntos.
Uma preocupação sincera encheu os olhos dele. Ela agradecia à sua oferta, mais do que poderia expressar em palavras, mas não poderia deixar aquele peso nas mãos dele. Por mais que ela detestasse ser a portadora de notícias tão ruins, Hannah tinha procurado Kylie e cabia a ela contar a Holiday.
Então Kylie se lembrou de outra coisa que Hannah tinha lhe dito. Eu acho que eu vim até você para ajudar alguém.
O que exatamente Hannah precisava que Kylie fizesse? Será que bastaria contar a Holiday sobre a morte dela ou ela precisava de mais do que isso?
Derek deslizou a mão pelo braço de Kylie.
— Você já fez uma lista de todos os restaurantes a que foi ultimamente?
— Restaurantes? — Kylie perguntou, sem saber direito do que ele estava falando. Sem saber direito por que um simples toque podia parecer tão errado.
— Você disse que uma das garotas da visão estava usando o uniforme de um restaurante que você tinha a impressão de conhecer.
— É, eu me lembro, mas, não, não tive tempo de fazer a lista. — Ela respirou fundo. — Vou fazer assim que voltar para a cabana. Posso mandá-la pra você mais tarde por e-mail.
— Mande também a descrição do uniforme e das garotas.
— Olá! — O som da voz de Holiday fez o nó na garganta de Kylie dobrar de tamanho. Ela se virou para a líder do acampamento e um fluxo de compaixão e dor inundou seu coração. Mesmo assim, Kylie não pôde deixar de se sentir aliviada por saber que a garota morta não era Holiday.
Os olhos verdes da amiga se suavizaram.
— Está acontecendo alguma coisa?
Kylie não sabia o que dizer a ela.
— Não — mentiu, mas por uma boa razão. A última coisa que Kylie queria era dar a notícia à amiga de um jeito abrupto. Então lhe ocorreu que talvez ela devesse falar com Hannah primeiro. Talvez precisasse saber exatamente o que Hannah precisava que ela fizesse, antes de dar o próximo passo.
Holiday assentiu, mas a descrença brilhou em seus olhos.
— Burnett foi chamado no escritório da UPF e insistiu que esperássemos até ele voltar para irmos à cachoeira. Eu espero que você possa me ajudar a arrumar o refeitório. Temos uma recepção de boas-vindas para os novos professores que chegam esta tarde.
— Claro! — disse Kylie, encontrando os olhos de Derek brevemente.
— Boa sorte! — ele murmurou, sem emitir nenhum som, e depois estendeu a mão e a tocou, enviando para ela uma corrente muito necessária de tranquilidade.
— Obrigada — ela sussurrou para Derek, antes de se virar e se juntar a Holiday. Elas deram alguns passos e Holiday olhou para Kylie com um olhar desconfiado.
— Problemas com garotos? — Holiday perguntou em voz baixa.
— É — confirmou Kylie, e não era mentira. Embora seu coração estivesse oprimido por Holiday, as palavras de Derek ecoavam em sua mente e a deixavam com um sentimento de incerteza. Eu posso captar suas emoções, Kylie, e sei que você não quer admitir que também sente algo por mim.
E a pior parte era que... ele estava certo.

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