4 de outubro de 2016

Capítulo 14

Lucas não sorriu. Bem, não com os lábios, pelo menos. Os olhos, no entanto, sorriram, e o calor que havia neles tomou conta de Kylie quando ele começou a andar na direção dela. Ele avançava a passos lentos, como se tivesse todo o tempo do mundo, mas o que importava era que estava vindo. Ao entrar no refeitório, logo que ela viu todos os lobos agrupados em turma, temeu que Lucas talvez não fosse deixá-los. De algum modo, Kylie sentiu que ele agora se aproximava dela justamente para enviar uma mensagem a ela e à alcateia. E de repente ficou feliz que Miranda e Della a tivessem pressionado a ir à festa.
Lucas estava no meio do refeitório quando ela sentiu outro par de olhos sobre ela. Desviando o olhar de Lucas, ela viu Fredericka. Recusando-se a deixar a loba intimidá-la ou acabar com seu bom humor, Kylie a ignorou e voltou a olhar para Lucas. Ele estava bonito. Usava uma calça jeans que lhe caía bem e uma camisa azul-clara. A cor deixava seus olhos ainda mais azuis.
Quando ele parou ao lado dela, o seu perfume natural pairou no ar e Kylie pôde sentir seu pulso acelerando com a proximidade. Ele não disse que ela estava linda nem a tocou. Mas seus olhos fizeram as duas coisas.
— Oi — ele disse.
Ela sorriu.
— Oi.
O olhar dele desviou-se para Della.
— Burnett disse que eu poderia assumir o posto de sombra.
Della concordou com a cabeça.
— Quer algo pra beber? — Lucas perguntou a Kylie, fazendo um sinal na direção dos fundos do refeitório, onde estavam os refrigerantes e algumas pessoas se serviam. Lucas não era muito de multidões. Aquela noite, ela sentia o mesmo.
Ela fez que sim com a cabeça e virou-se para suas duas companheiras de dormitório.
— Vejo vocês depois.
Então ela se inclinou na direção delas.
— Lembrem-se do pacto.
Miranda sorriu e arqueou as sobrancelhas de animação. Della, que Kylie sabia, lutava com aquela questão toda de romance, franziu a testa.
— Tá, tá — concordou Della, relutante. — Mas eu não vou fazer papel de boba.
— Só precisa ser mais acessível — Kylie sussurrou, e então se virou para Lucas. Eles cruzaram o salão juntos e Kylie pôde sentir as pessoas olhando para eles. Ela se forçou a ignorá-las.
Lucas chegou mais perto dela.
— O que está acontecendo com aquelas duas? — perguntou ele, obviamente tendo ouvido a conversa entre Kylie, Della e Miranda.
— Nada, na verdade — Kylie respondeu.
Ele pegou as bebidas, em seguida empurrou duas cadeiras dobráveis de metal contra a parede. Quando ela se sentou, Lucas aproximou sua cadeira da de Kylie e se sentou. Sua perna sob a calça jeans roçava a perna dela. Ela podia sentir o seu calor através do vestido de algodão, o que lhe causava um friozinho na barriga.
Ele se inclinou até que a sua voz pudesse ser ouvida por sobre a música.
— Estou feliz que tenha vindo esta noite.
— Eu também — disse ela.
— Não está mais brava comigo? — As costas da mão dele encostaram no braço dela e Kylie sentiu os dedos de Lucas deslizarem suavemente pelo seu cotovelo.
— Acho que já superei isso. — Ela sorriu.
— Que bom! — Os olhos dele a percorreram. — Você faz meu sangue correr mais rápido — ele disse, tão baixo que ela mal podia ouvi-lo.
Kylie sorriu.
— Sério?
— Veja por si mesma. — Ele pegou a mão dela e colocou-a sobre o próprio pulso. O fluxo – mais uma vibração, na verdade – era tão rápido que parecia quase elétrico. Seu primeiro impulso foi se retrair, mas o olhar firme e terno de Lucas manteve os dedos dela contra a sua pele quente. E depois de um segundo, não parecia mais tão assustador.
— Isso é coisa de lobisomem? — perguntou ela.
Ele se inclinou um pouco mais até que ela sentiu o calor da sua respiração contra sua orelha.
— É.
Ela estremeceu um pouco.
— Então, na verdade, não sou eu que estou provocando isso? — perguntou ela, um pouco decepcionada.
Um sorriso leve apareceu nos lábios dele.
— Ah, é tudo culpa sua, sim. Só acontece quando algo ou alguém... cativa a minha atenção.
Ela devolveu o sorriso.
— Estou contente por ter cativado a sua atenção.
O sorriso em seus olhos de repente sumiu e ela pôde jurar que ouviu um leve rosnado no fundo da garganta dele.
Mas não teve chance de perguntar o que havia de errado porque Perry parou bem na frente deles.
Ele acenou para Lucas como se quisesse demonstrar que ele não o assustava nem um pouco.
— Quer dançar? — Perry perguntou a Kylie.
Ela ficou tão surpresa que se perguntou se não havia entendido mal a pergunta. Então sentiu Lucas enrijecer ao lado dela.
— Hã, agora não — respondeu ela, tentando manter o tom descontraído. — Mas obrigada pelo convite.
Perry desapareceu em meio a um grupo de campistas. Quando ela voltou a olhar para Lucas, ele fez uma careta para o aglomerado de pessoas.
— Será que vou ter que ensinar uma lição a esse metamorfo atrevido?
— Não.
— Eu não posso acreditar que ele estava dando em cima de você quando...
— Ele não estava dando em cima de mim. — Kylie olhou para a multidão e viu Perry de pé, longe dos outros, observando Miranda, cercada por um grupo de rapazes. Por um segundo, Kylie se sentiu mal.
Perry provavelmente queria perguntar algo sobre Miranda e ela tinha recusado o seu convite.
— Não me convenceu — disse Lucas, num tom ríspido.
— Ele só tem olhos pra Miranda — disse ela. — Olha pra ele, está verde de ciúme. — E, literalmente, seus olhos tinham mudado para um tom verde brilhante.
— Cai na real...
— É verdade. Acredite, ele não está a fim de mim.
Lucas baixou a cabeça e chegou mais perto.
— E você não está a fim dele?
Ela sorriu.
— Você está com ciúme?
— Não. — Ele se sentou ereto. — Eu sou apenas... possessivo — disse ele, como se as duas características fossem de algum modo diferentes. — E você não respondeu à minha pergunta.
— Eu não estou afim do Perry — ela assegurou. — Nós somos só amigos.
— Ótimo. Então, de quem você está afim? — ele perguntou, com os olhos azuis fixos nos dela.
— Eu estou meio caída por um lobisomem ciumento no momento.
Ele sorriu e rapidamente roçou o dorso da mão contra o antebraço dela.
— Bem, não me diga o nome dele, porque provavelmente vou arrancar o couro desse cara.
Os dois riram e depois ficaram olhando um para o outro até que o clima ficou estranho. Não porque olhar para ele era estranho, mas porque parecia que um deles tinha que tomar a iniciativa de se inclinar e finalizar o momento com um beijo. Mas nenhum deles parecia querer fazer isso.
Kylie suspeitava que a razão dele era a mesma que a dela. Gente demais. Ela só esperava que não fosse por causa da alcateia.
— Eu queria te perguntar, você conseguiu as respostas de Holiday sobre a coisa toda do pássaro?
Lembrando-se da visitinha do pássaro naquela tarde, ela sentiu a frustração invadir sua mente.
— Não.
Kylie tomou um gole de refrigerante, prestou atenção na música e tentou afastar o pensamento de todas as coisas negativas. Infelizmente, continuou pensando nelas.
— Sabia que a UPF tem uma biblioteca sobre tudo o que é sobrenatural?
— É, eu ouvi falar. Por quê?
— Sabe por que eles não deixam que a gente leia esses livros?
— Eu acho que alguns deles contêm documentos do governo.
— Mas por que eles precisariam esconder alguma coisa? — perguntou ela.
Ele encolheu os ombros.
— Pela mesma razão que leva o governo dos Estados Unidos a esconder coisas. Algumas podem estar além da fronteira da ética, fora que algumas informações nas mãos das pessoas erradas podem ser prejudiciais.
A música tinha ficado mais lenta. Kylie olhou para a frente e viu vários casais indo para o centro do refeitório dançar. Helen e Jonathon, de mãos dadas, estavam entre os primeiros a se dirigir ao espaço vazio. Colocaram os braços ao redor um do outro e começaram a dançar ao ritmo da música. Nem sequer pareciam estar se movendo; estavam apenas abraçados e, ocasionalmente, davam um passinho para o lado. Mas isso não parecia ridículo, parecia fofo.
Mais alguns casais foram para a pista e começaram a dançar. A música falava de amor, de estar perto, de beijos. Alguém desligou as luzes, e como Kylie não viu ninguém se aproximar dos interruptores, ela suspeitou que tinha sido uma das bruxas, usando um toque de magia.
Talvez elas tivessem até espalhado um pouco de poção do amor no ar, porque Kylie a sentiu. De repente, queria muito estar na pista de dança. Queria sentir as mãos de Lucas na sua cintura, enquanto ela descansava o rosto em seu ombro.
Ela olhou para Lucas, inclinou-se e perguntou:
— Você quer dançar?
Ele fez uma cara engraçada como se ela lhe pedisse para plantar bananeira ou algo assim.
— Eu... não. Sinto muito.
— Aposto que isso ia perturbar demais a plateia, hein? — Ela olhou para a alcateia de lobos que os observava.
— Não é isso. — Lucas deu um profundo suspiro. — Vamos. — Ele tirou da mão dela o copo de plástico cheio de refrigerante e colocou-o no chão ao lado das cadeiras. Segurou os dedos dela e puxou-a para cima. Por um segundo, ela pensou que Lucas ia levá-la para a pista de dança, mas em vez disso andou na direção da porta de saída do refeitório.
— Aonde vamos?
— Lá pra fora.
Ele a puxou em meio à multidão tão rápido que Kylie não teve tempo de perguntar por quê. Quando ele parou, estavam ao ar livre, do lado de fora do refeitório.
Sozinhos.
A música, embora fosse apenas um zumbido distante, ainda podia ser ouvida e parecia se misturar com os sons da noite. Grilos e pássaros cantavam junto com a melodia.
— Não está melhor aqui? — Ele pegou as mãos dela e colocou-as em torno do pescoço dele. Em seguida, pôs as mãos na cintura de Kylie como se se preparasse para dançar.
— Assim a alcateia não pode nos ver? — perguntou ela, insegura.
— Não é isso — insistiu ele. — Você viu algum lobisomem na pista de dança?
Ela teve que pensar, mas então balançou a cabeça.
— Não.
— A gente não gosta de chamar atenção em público.
O ar estava quente, mas não tão quente quanto a mão de Lucas contra a cintura dela. Kylie olhou para cima e viu a meia-lua oferecendo à noite um mínimo de luz. Não que a escuridão fosse total; as estrelas pareciam fazer um servicinho extra. Nenhuma nuvem pairava no céu, de modo que ele parecia pontilhado de estrelas. Kylie mal podia ver um retalho de céu onde não houvesse um minúsculo diamante cintilando e acrescentando um brilho prateado à noite. Lentamente, ele começou a se mover ao ritmo da música distante.
— Mas, só nós dois, é outra história. — Ele não apenas balançava o corpo, mas dançava. E sabia dançar, porque seus passos incentivavam os dela a seguirem no mesmo compasso.
Como o aroma de pizza e de sangue já não perfumava o ar, o cheiro do próprio Lucas se destacou e se misturou com o aroma amadeirado da noite.
Kylie olhou para ele novamente.
— Quem te ensinou a dançar?
— A minha avó. Ela me dizia que era o caminho para o coração de uma mulher — Lucas disse, sua voz um sussurro leve na orelha dela. Ele baixou a cabeça e seus lábios roçaram na bochecha de Kylie. — Eu, pessoalmente, acredito que quando duas pessoas estão tão perto assim, devem estar num lugar mais reservado.
Suas palavras a fizeram perceber o quanto eles estavam próximos um do outro. Ela olhou novamente nos olhos de Lucas e sua boca encontrou a dele. Eles dançaram e se beijaram pelo que pareceu uma eternidade. Não que ela estivesse reclamando. Sentiu como se estivesse flutuando, perdida no tempo. O beijo dele não a pressionou a dar mais do que ela estava pronta para dar. Era apenas um toque macio nos lábios, com um ocasional deslizar da língua pelo seu lábio inferior.
E finalmente o beijo terminou. Kylie colocou a mão sobre seu peito quente, bem sobre o local onde ela tinha descansado a cabeça, e ouviu o seu batimento cardíaco acelerado.
— O seu sangue ainda está correndo rápido? — Ela levantou a cabeça, apoiou o queixo em seu peito e sorriu para ele.
— Mais do que antes. — Seu tom soou mais profundo. Ele ajustou as mãos na cintura dela e Kylie pôde sentir seu pulso acelerado onde suas costelas tocavam o peito dele.
— Sentiu? — perguntou ele.
— Sim. — Inclinando a cabeça sobre o peito dele, ela reconheceu que poderia ficar ali para sempre, com o hálito de Lucas agitando seu cabelo. Fechou os olhos e aproveitou a proximidade dele, a sensação de ser abraçada, acolhida.
Com seu ouvido mais uma vez pressionado contra o peito dele, ela ouviu um zumbido suave, quase um ronronar. O som preencheu a sua cabeça e ela sentiu como se pulsasse dentro dela. Percebeu que ele a puxava mais para perto e sua proximidade aqueceu-a por dentro e por fora, fazendo a sensação de flutuar voltar ainda mais forte. Inclinando-se para mais perto, ela desejou se aconchegar um pouco mais.
Os dedos dele pressionaram a sua cintura, desenhando pequenos círculos. O leve toque fazia cócegas e causava uma sensação esquisita em seu estômago. Então as mãos dele deslizaram para os lados, quase até os seios. Uma leve advertência sussurrou na cabeça de Kylie, mas ela a deixou de lado. Aquilo era tão bom...
Lucas respirou fundo, bruscamente, e ela pensou tê-lo ouvido soltar um palavrão, então ele recolheu as mãos e se afastou.
Sem seu apoio, Kylie quase sentiu uma vertigem. Olhou para ele confusa.
— O que foi?
— É melhor... É melhor irmos lá pra dentro.
Quando ela fitou os olhos dele, viu que estavam brilhando.
— Algo errado? — perguntou ela.
— Não. É... É só mais seguro lá dentro.
— Seguro de quê? — Ela olhou ao redor, pensando que ele tinha visto alguma coisa. Será que a águia ou o cervo tinham voltado? Poderia até ser o pássaro azul.
— De mim — disse ele, enfiando as mãos nos bolsos. — Eu estou com pouca força esta noite, Kylie. Cerca de uma semana e meia antes da transformação, tendo a agir mais por instinto do que pela lógica. E agora, meu instinto me diz para levá-la para a floresta, achar um pedaço de grama e me deitar com você.
Ela se aproximou e colocou a mão em seu peito.
— Conheço você o suficiente para saber que nunca me forçaria a fazer nada que eu não quisesse fazer.
Ele tirou a mão dela do peito e segurou-a suavemente nas suas.
— Eu nunca iria forçá-la, Kylie. Nunca. Mas isso não me impede de tentar te persuadir. E... — Com a outra mão ele ergueu o queixo dela como que para ter certeza de que ela sabia que Kylie estava falando sério. — Os lobisomens têm um talento especial para persuadir as pessoas. E não é assim que eu quero que isso aconteça.
Ela piscou e tentou entender o que ele estava dizendo. Ainda se sentia flutuando por dentro e sentiu falta do calor dele contra ela. Tentou se aproximar e recuperar o que tinha perdido, mas Lucas deu outro passo para trás.
Ele levou a mão dela até seus lábios, e depois de dar um beijo rápido nos nós dos dedos, apertou-a ainda mais e puxou-a na direção do refeitório.
Kylie deu alguns passos. Então, ainda tentando entender o que ele tinha dito, ela parou.
— O que você quer dizer com “um talento especial para persuadir”?

3 comentários:

  1. Lucas não sorriu. Bem, não com os lábios, pelo menos. Os olhos, no entanto, sorriram, e o calor que havia neles tomou conta de Kylie quando ele começou a andar na direção dela. Ele avançava a passos lentos, como se tivesse todo o tempo do mundo, mas o que importava era que estava vindo.<3

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  2. Ah não sei não...o personagem mudou bastante...Lucas está diferente dos outros livros...eu era teamLucas, agora não sei mais...🤔

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    1. Também acho...
      Ante ele era estilo bad boy 'não me apego' e agora tá assim... mas quando autor faz isso, é pra dar uma volta 180º na estória, quer ver?!

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