8 de outubro de 2016

Capítulo 13

Kylie correu como o vento.
Nada a faria diminuir o ritmo. Nada poderia detê-la.
Nem a mata fechada.
Nem a dor nas pernas e nos braços.
Nem mesmo a cerca de arame farpado de mais de dois metros que delimitava o terreno de Shadow Falls. Não ouse sair do acampamento. Ela ouviu o aviso de Burnett na sua cabeça, mas ignorou-o. Seguiu os gritos.
Kylie ignorou até o medo de que estivesse avançando a toda velocidade para uma armadilha preparada por Mario e seus amigos. Não importava. Ela era uma protetora. Tinha que dar proteção.
Depois de vários minutos correndo à base de adrenalina pura, arquejante, ela sentiu que o grito e a pessoa que havia gritado estavam ficando mais próximos. Então ela viu.
Não quem havia gritado.
Viu a neblina – uma nuvem espessa e baixa que se movia sob os arbustos, como se quisesse engolir o chão. Ela se movia de um jeito que não parecia um fenômeno da Mãe Natureza, mas de outra força. Um poder sobrenatural.
Um poder que se deslocava a uma velocidade incrível.
A lógica lhe dizia para correr dali, mas os gritos estavam cada vez mais altos e seus instintos faziam seus pés continuarem a correr na direção da neblina. Um movimento à sua esquerda atraiu seu olhar. Uma garota corria para escapar da neblina espessa. Seus longos cabelos pretos esvoaçavam atrás dela, lembrando Kylie da imagem da Medusa que ela vira num livro de mitologia grega.
Ainda a uma certa distância, o olhar da garota encontrou o de Kylie. O alívio brilhou em seus olhos. A dúvida cintilou nos de Kylie.
Aquilo era real? A garota era real? Ou seria outra visão? A garota estava de fato correndo para salvar a própria vida ou estava fugindo da morte que já a reivindicava?
As perguntas se sucediam na mente de Kylie, enquanto seus pés golpeavam a terra. Mais rápido!, ela disse a si mesma quando viu a neblina quase nos calcanhares da garota.
— Corra mais rápido! — Kylie gritou.
Estivesse a estranha viva ou morta, ajudá-la era essencial para Kylie. O som dos passos rápidos da garota ecoou através das árvores, enquanto ela aumentava o ritmo da corrida para escapar da neblina.
Então, como se acontecesse em câmera lenta, a garota tropeçou, perdeu o ritmo e estatelou-se no chão. Com tudo.
O baque seco da sua queda ricocheteou nas árvores.
Kylie assistiu horrorizada quando a neblina se aproximou. Ela correu mais rápido, sentindo que precisava chegar antes da estranha neblina até onde a garota estava. O sangue borbulhando lhe deu mais força.
Parando abruptamente diante do corpo inerte, Kylie pegou a garota nos braços. Ela não pesava quase nada. Quando Kylie olhou para cima, a neblina estava quase aos seus pés. Movida pelo instinto ou talvez pelo pânico, Kylie correu.
Seus pés golpeavam a vegetação rasteira. Ela não tinha se afastado nem três metros quando teve novamente a sensação de ser atraída. Venha até nós. Venha até nós. O vento, as árvores, tudo sussurrava a mesma mensagem.
Kylie parou de correr. Ofegante, ela olhou em volta.
— O que vocês querem? Quem são vocês?
O coração martelava sob as costelas. Aninhando a garota no colo, Kylie olhou para a neblina.
A espessa nuvem acinzentada estava a uns seis metros de distância, pulsando como um coração. O ar ao redor dela rodopiava como se estivesse respirando.
Foi nesse momento que Kylie pareceu não conseguir mais respirar, porque... porque, pelo amor de Deus, nunca tinha visto uma neblina que respirasse! A neblina supostamente não era algo que tivesse vida.
Antes que Kylie pudesse reagir, a nuvem mudou de forma e se separou em duas partes. Embora Kylie não sentisse nenhuma presença maligna, ela não podia mais negar o medo que lhe corroía os ossos nem a falta de ar que lhe afligia. Parte de seus instintos gritava para que ela corresse, outra parte gritava para ela ficar.
A neblina recuou alguns metros como se sentisse o terror de Kylie.
Então ela esperou.
Observou.
Ouviu.
Ouviu seu nome sendo chamado.
Kylie. Kylie.
Ouviu as palavras que vinham com o vento – sussurradas suavemente como a brisa que agitava as folhas. Não queremos lhe fazer nenhum mal.
— Quem são vocês? — Kylie gritou.
A garota em seus braços se mexeu. O corpo que parecia sem vida agora recobrava os sentidos. Ao olhar para baixo, ela viu que sangue escorria da testa da garota. A necessidade de ajudá-la pulsava nas veias de Kylie. Ela olhou para cima, na direção da neblina. As duas massas cinzentas tinham assumido a forma humana.
Não vá.
O impulso que Kylie sentia de colocar a garota em segurança aumentou dentro dela. Enfrentar o desconhecido sozinha era uma coisa. Fazer isso com uma garota sangrando em seus braços era outra bem diferente.
— Eu preciso — Kylie respondeu, virando-se para partir. Ela deu apenas alguns passos.
Fique.
Havia algo naquela voz, uma voz masculina. Ela olhou por sobre o ombro; o ar preso na garganta.
Seria seu avô? Era ele, não era? Então Kylie viu uma mulher e reconheceu a irmã de sua avó. Lágrimas umedeceram os olhos de Kylie.
Ela começou a voltar, mas a garota em seus braços gritou. Kylie olhou para ela. Seus olhos estavam abertos. As íris azul-escuras fitaram Kylie, perplexas, e um lampejo de reconhecimento brilhou dentro dela.
Mas Kylie não tinha tempo para refletir. O sangramento no rosto da garota tinha aumentado. O impulso de Kylie para levá-la a um lugar seguro fazia seu sangue borbulhar. Qual seria a gravidade daquele ferimento?
— Me solta! — ordenou a garota num grunhido baixo, tentando se libertar dos braços de Kylie. — Me solta! — ela gritou novamente, lutando agora para se libertar. A força dela indicava que não era humana. Sem os poderes de proteção de Kylie, a garota facilmente se desvencilharia, mas não agora.
— Só um minuto.
Kylie disparou pela floresta – abraçada à estranha de olhos azuis que se contorcia em seus braços. Desculpe. Kylie proferiu a palavra mentalmente e rezou para que ela fosse ouvida por aqueles que ela deixara. Ela não tinha outra escolha senão ir embora. Sua necessidade de proteger era mais forte do que a sua própria busca.
Agarrada à estranha que gritava, Kylie pulou a cerca de arame farpado. Quando entrou na propriedade de Shadow Falls, o silêncio no bosque parecia mais alto do que os protestos da garota. De repente, Kylie sentiu uma, duas e então três lufadas de ar passando por ela.
Então Burnett, Della e um grande pássaro – Perry – apareceram ao seu lado, todos os três acompanhando o ritmo de seus passos.
Kylie parou de correr. Eles fizeram o mesmo. Fagulhas minúsculas apareceram ao lado de Perry quando ele se metamorfoseou novamente em ser humano.
Os três olharam para Kylie, ou melhor, para a garota que gritava em seus braços.
— Quem é ela? — perguntou Burnett.
— Não sei. — A respiração de Kylie estava ofegante, seus pensamentos ainda no avô e na tia-avó. — Ela estava correndo de...
— Ela é um lobisomem — disse Della, interrompendo-a. — Eu senti o cheiro assim que chegamos.
A garota parou de lutar para se libertar de Kylie. Sua voz se aprofundou quando encontrou os olhos dela.
— Me solte agora! Ou vai se arrepender até seu último suspiro! — Ela levantou a cabeça e fitou Della e Burnett. — Todos vocês vão se arrepender!
Burnett falou diretamente com a menina nos braços de Kylie.
— Me dê a sua palavra de que não vai correr.
Ela o encarou.
— Se fugir, eu pego você e vou ficar realmente irritado.
— Só se você for muito rápido — a garota revidou.
— Ah, mas ele é! — respondeu Perry, se intrometendo na conversa. — Quando tinha 15 anos, perseguiu um metamorfo na forma de antílope e conseguiu chutar o traseiro dele. O que sobrou do antílope não deu nem para fazer um tapete.
— Tudo bem — refletiu a estranha. — Não vou correr.
Della se aproximou e olhou para Perry.
— Você conhecia Burnett quando ele tinha 15 anos e perseguia antílopes?
Soltando a garota, o olhar de Kylie cruzou com o do tal “chutador de traseiros de antílopes”. A expressão dele a preparava para o que viria em seguida.
— Eu pensei que tinha deixado claro que não era para você entrar no bosque.
Kylie assentiu, mas ela se recusava a ser repreendida por ter feito o que, para ela, era tão natural quanto respirar.
— Alguém estava em perigo.
— Você se colocou em perigo. — O olhar dele se voltou para a garota. — Do que você estava correndo?
— Da neblina. — A garota limpou com a mão o sangue que escorria de sua testa. — Ela estava me perseguindo.
— A neblina estava te perseguindo? — Della indagou. — Você fumou alguma coisa?
— Ela está dizendo a verdade. — Kylie quase contou a eles sobre o avô, mas algo lhe disse que era melhor pensar primeiro... e falar depois.
— Quem é você? — Burnett perguntou à garota.
— Eu é que pergunto. Quem é você? — a garota retrucou.
— Com esses modos, ela é definitivamente um lobisomem — murmurou Della.
Perry riu, depois acenou na direção da garota.
— Você está sangrando. É perigoso sangrar na frente de vampiros.
— Não se preocupe — comentou Della. — Sangue de lobisomem tem um gosto horrível.
A garota lançou a Della um olhar gelado. Kylie teve aquele pressentimento novamente, de que algo com relação à estranha lhe parecia familiar.
Burnett falou em seguida.
— Eu sou Burnett James, líder do acampamento Shadow Falls, e você invadiu a nossa propriedade.
— Você é... Burnett? — A garota mostrou pela primeira vez um pouco de insegurança.
— Ela não invadiu — Kylie esclareceu. — Fui eu que pulei a cerca de Shadow Falls com ela nos braços.
A loba fitou Kylie com um olhar de surpresa.
— Não preciso que você me defenda.
— Eu não a defendi. Não mesmo!
A postura corporal de Burnett enrijeceu, mas seu olhar de reprovação era para Kylie.
— Você saiu dos limites de Shadow Falls?
— Eu ouvi esta garota gritando. — A estranha que sangrava franziu a testa, tentando ler o padrão de Kylie. Será que ela ainda era uma bruxa? Ou seu padrão estaria passando por outra mutação estranha?
— Você... — A garota balançou a cabeça. — Você é uma bruxa. Como pôde...
Bem, isso respondeu à minha pergunta, pensou Kylie.
A garota voltou os olhos azuis para Burnett. E nesse instante, Kylie descobriu quem ela era. A cor dos olhos, o jeito como inclinava a cabeça, até sua linguagem corporal era parecida.
— Eu sou...
— ... a irmã de Lucas — completou Kylie.
— Isso mesmo. — A garota fitou Kylie novamente. — Sou Clara Parker. Quem é você?
— Kylie Galen.
A surpresa fez com que a garota arregalasse os olhos.
— Mas você é uma bruxa? Eu pensei... — Ela fez uma pausa. — E você corre e tem a força de um lobisomem... ou de um vampiro. — A última palavra soou como um insulto.
Della grunhiu. Burnett franziu a testa.
A frustração com relação a toda a história de ser bruxa irrompeu dentro de Kylie novamente.
— Eu sou simplesmente uma obra não concluída. Me chame apenas de aberração de Shadow Falls.
— Você não é uma aberração — murmurou Perry. — Eu sou a aberração da casa — ele disse com orgulho.
Clara continuou a olhar para Kylie, e então disse.
— Por que aquela neblina estava me perseguindo? Você fez aquilo com magia?
— Não, não fiz.
Burnett concentrou-se em Clara.
— A sua família está preocupada com você.
Clara revirou os olhos.
— Eles se preocupam demais. Eu disse a eles que estava vindo para cá.
— Mas você já devia ter chegado há dois dias — repreendeu-a Burnett. — E, se pretende mesmo ficar em Shadow Falls, saiba que não gostamos de mudanças nos planos sem que passe pelos canais apropriados.
Clara ergueu o queixo como se fosse dar a Burnett uma resposta malcriada. Lembrando-se de que se tratava da irmã de Lucas, Kylie interveio.
— Tenho certeza de que ela vai corrigir isso. Lucas vai preencher os formulários.
— Onde está o meu irmão? — Clara perguntou.
— Foi convocado pelo conselho — respondeu Burnett.
Kylie olhou para Burnett, imaginando se Lucas havia contado isso a ele. Se havia, por que não contara a ela?
— Algum problema entre ele e o conselho? — Clara perguntou a Burnett.
Kylie lembrou-se do comportamento estranho de Will quando Kylie lhe fez a mesma pergunta.
— Não que eu saiba. — Burnett ficou em silêncio por alguns segundos e depois perguntou a Clara: — Você se machucou muito?
— Foi só um arranhão — ela respondeu.
— Ela desmaiou — Kylie revelou.
— Não desmaiei! — discordou Clara, como se isso lhe fizesse parecer mais fraca.
Kylie começou a voltar para a clareira. Todos a seguiram. Os sons da floresta voltaram ao normal, mas Kylie mal tinha notado. Sua mente remoía o que ela vira, quando olhou para trás pela última vez, e refletia se deveria contar alguma coisa a Burnett.
Relanceando os olhos por sobre o ombro, ela tentou ouvir com o coração para ver se ainda sentia o avô e a tia chamando. Será que ainda estariam lá? Ou tinham ido embora?
A sensação não era tão forte como antes, mas ela ainda a sentia.
— Perry — falou Burnett —, você e Della vão na frente e levem Clara ao escritório para falar com Holiday. — A voz autoritária de Burnett ecoou nas árvores e causou outra onda de silêncio. — Kylie, quero um minuto com você. — Seu tom de voz não deixou nenhuma dúvida de que o minuto não seria nem um pouco agradável.
Kylie parou de andar. Perry lhe lançou um olhar de pura solidariedade.
— Ela só estava tentando ajudar — defendeu-a Perry.
Della acrescentou:
— E não aconteceu nada. Tudo está bem quando termina bem, não é mesmo? Você não pode ficar furioso se...
— Estão dispensados — ordenou Burnett.
Della grunhiu e Perry enviou a Kylie outro olhar de solidariedade. Ela adorava ambos por tentarem intervir, mas podia lidar com aquela situação. Pelo menos esperava que pudesse.
— Vejo vocês daqui a pouco — despediu-se Kylie, quando Perry pareceu disposto a argumentar.
Quando os três já estavam se afastando, Kylie encheu os pulmões com o ar perfumado da floresta. Burnett andava ao lado dela. Eles observaram os três seguindo para o acampamento. Clara olhou para trás, seu olhar expressando mais curiosidade do que preocupação.
— Ela está encrencada? — a garota perguntou, a voz ficando mais baixa à medida que a distância entre eles aumentava.
— Digamos que eu não gostaria de estar na pele dela agora — respondeu Perry.
— E o seu traseiro lupino é a razão de ela estar encrencada — Della atacou.
— Eu não pedi para ela me ajudar — Clara rebateu.
Kylie esperou até começar a falar com Burnett.
— Eu não deveria se repreendida por fazer algo que é da minha natureza.
— Você poderia ter se matado. Tudo poderia ser uma armadilha para atraí-la para longe de Shadow Falls.
— Mas não era. Clara pensou que estava em perigo. Eu senti o medo dela e reagi.
— Ela achou que estava em perigo? — ele perguntou, reparando no deslize de Kylie. — Você está dizendo que ela não estava em perigo?
Quando Kylie fez uma pausa, Burnett continuou:
— Exatamente do que vocês duas estavam correndo?
A necessidade de dizer a verdade cresceu dentro de Kylie, mas outra necessidade – a de obter respostas – manteve-a em silêncio.
— Eu já disse. Foi a neblina — Kylie respondeu, confiante de que ele não detectaria uma mentira em sua resposta. Suas palavras eram verdadeiras.
Só não continham toda a verdade.
— Você sentiu que ela era maligna?
— Eu fiquei assustada — ela admitiu novamente, sentindo um calafrio percorrer a espinha. Não de medo, mas do frio que vinha dos mortos que estavam por perto. Ela olhou ao redor, tentando não deixar Burnett perceber que eles tinham companhia. O fantasma com a aparência de Holiday os espiava por detrás de uma árvore.
— Mas...? — Burnett insistiu, sentindo que ela não tinha terminado de responder.
— Eu não senti nada ruim. — Um fio de culpa se esgueirou pela mente de Kylie, mas, se ela contasse a Burnett que seu avô e sua tia estavam tentando vê-la sem a permissão dele, o que o vampiro diria?
— Estou tentando proteger você, mas isso fica impossível se não seguir as minhas regras.
— Eu normalmente não desobedeço às suas regras. — O frio aumentou e ela desviou o olhar para o lugar onde vira o fantasma. Ele tinha desaparecido. Num segundo, a sósia de Holiday apareceu atrás de Burnett, olhando para ele como se o reconhecesse. Esse pensamento fez o medo crescer dentro dela.
— Desobedeça a uma só das minhas regras e pode ser muito tarde para salvá-la.
Kylie mordeu o lábio, lutando contra a sensação de frio.
— Sinto muito. — Por aborrecer você, não por ter ajudado Clara. — Eu ouvi o grito e concluí que alguém precisava de ajuda.
— Da próxima vez, antes de oferecer ajuda, me chame.
— Vou tentar. — Ela estremeceu, apesar do esforço para disfarçar a sensação de frio.
— Acho que você podia fazer um pouco mais do que simplesmente tentar — repreendeu-a Burnett, antes de olhar para cima, como se consultasse um poder superior. — Alguém quer me explicar por que eu quis fazer parte de Shadow Falls?...
— Isso eu sei — Kylie respondeu, sentindo-se mal por deixá-lo tão nervoso. — Porque por baixo dessa couraça, você se importa conosco. E você ama outra pessoa que dirige este acampamento. — Kylie relanceou os olhos para o fantasma, perguntando-se se ela demonstraria alguma reação a essas palavras.
Os olhos do fantasma se arregalaram.
— Você está querendo dizer que...?
Burnett franziu a testa, mas não tentou negar a afirmação da garota.
Kylie teria ficado feliz ao ver que ele tinha chegado a um acordo com os seus sentimentos por Holiday se ela não tivesse um fantasma encarando-o como se... como se a confissão desse amor também a afetasse.
O espírito olhou para Kylie.
— Ele está apaixonado pela líder do acampamento?
O pânico embargava a sua voz. Será que o espírito sabia que se tratava de Holiday?
Qual o seu nome?, Kylie perguntou mentalmente.
— Eu já disse — o fantasma respondeu.
— Nunca vou me acostumar com isso — Burnett recomeçou a andar.
— Se acostumar com o quê? — perguntou Kylie, com a atenção mais voltada para o espírito que andava ao lado dele e o fitava com surpresa.
— Com os fantasmas — Burnett deixou escapar, como se lhe custasse dizer isso.
Kylie parou e segurou-o pelo cotovelo.
— Você pode senti-los? — ela perguntou. Geralmente, só quando o fantasma estava num pequeno cômodo, alguém que não tivesse o dom de se comunicar com eles podia senti-los.
— Não — ele disse.
Kylie ficou olhando para ele.
— Tudo bem. Talvez eu possa sentir um pouco. Provavelmente, percebo mais o olhar que você e Holiday fazem quando eles estão por perto — ele confessou. Depois olhou em volta e disse: — Ela já se foi?
— Como você sabe que era uma mulher? — Kylie perguntou, percebendo que o fantasma não estava mais presente.
Ele cerrou os dentes.
— Posso farejá-la — ele disse, como se estivesse confessando uma espécie de pecado.
— É mesmo? Eu pensei que... Quer dizer, eu não achava que vampiros tivessem o dom de se comunicar com fantasmas.
— Eu também não. — E ele não parecia nem um pouco feliz ao dizer isso. Começou a andar novamente, agora mais rápido, como se seus passos refletissem o seu estado de espírito.
Kylie o acompanhou, mas não sem esforço.
— Holiday sabe disso?
— Sabe o quê? — Ele nem mesmo olhou para Kylie ao falar.
— Sobre essa sua capacidade de detectar fantasmas. Ela estava curiosa para descobrir por que você consegue entrar na cachoeira e...
— Não, ela não sabe — ele respondeu. — E não diga nada. Eu conto mais tarde. — A preocupação deixava sua expressão mais severa.
Eles caminharam em silêncio por alguns minutos.
— Eu não queria causar nenhuma confusão indo atrás de Clara. Só reagi aos meus instintos.
— Às vezes nossos instintos podem estar distorcidos — ele acrescentou.
Ela se perguntou se ele estaria se referindo não só aos instintos de proteção dela, mas também à sua própria capacidade de farejar e sentir fantasmas.
— Vou tentar agir melhor da próxima vez.
— Obrigado — ele disse, como se aceitasse o que ela oferecia.
Ele continuou avançando. O vento agitava as árvores.
— Pode me contar mais? — ele pediu.
— Sobre os fantasmas?
— Não. Sobre a neblina. Eu gostaria que você esquecesse os fantasmas.
Kylie se lembrou da primeira vez em que percebeu que podia detectar a presença de fantasmas. Ela podia entender os sentimentos de Burnett. Às vezes ela ainda se esquecia de que tinha essa capacidade.
— Você acha que tinha algo a ver com Mario? — ele perguntou.
— Não. — Sem querer entrar em mais detalhes, Kylie tomou cuidado para não deixar escapar nada. Ela não tinha dúvida de que ele interrogaria Clara mais tarde. Mas Kylie estava quase certa de que Clara não tinha visto nada que pudesse revelar o seu segredo.
— Tem que ser Mario e sua corja novamente. — Burnett fechou os punhos enquanto caminhava.
Kylie hesitou antes de dizer alguma coisa, sabendo que, se ela cometesse algum deslize e mentisse, ele saberia. Mas ela também não queria que Burnett se preocupasse demais.
— Lembre-se de que eu disse que não senti nada maligno.
— Tem que ser eles. — Ele a fitou nos olhos, mantendo o olhar firme. — Você não vai mais entrar na floresta, estando ou não com uma sombra. Entendeu?
Ela assentiu. Ela tinha entendido, mas não disse que concordava.
— Deve haver uma bruxa ou feiticeiro por trás disso. — Ele franziu as sobrancelhas. — Você não acha que essa neblina apareceu por acaso, acha?
— Acho — Kylie respondeu.
— Tem certeza? Lembre-se do outro incidente...
— Foi diferente. — As bochechas dela arderam, quando ela se lembrou do incidente.
Ambos diminuíram o ritmo. As árvores e a vegetação rasteira pareciam absorver o barulho dos passos. A mente de Kylie voltou a Clara e depois se desviou para o irmão da garota.
— Posso perguntar uma coisa? — disse Kylie.
— Se eu disser não, isso vai impedi-la de perguntar?
— Provavelmente, não. — Ela debateu interiormente para decidir como formularia a pergunta.
— Se tem algo a ver com Holiday e eu, vou me recusar a dizer qualquer coisa.
Ela sorriu.
— Não se preocupe, a camiseta do avesso de Holiday, outro dia, revelou o que eu queria saber sobre você e ela.
O vampiro de olhar austero deu um meio sorriso, que logo esmoreceu.
— Não é sobre fantasmas também, é?
— Não... É... Quando um conselho convoca alguém para uma reunião, isso significa encrenca?
— Está falando de Lucas?
Ela assentiu com a cabeça.
Ele afastou um galho do caminho e o segurou, para ele não se chocar com Kylie.
— Pode ser, mas não sempre.
— Você sabe o que eles queriam com Lucas? — Ela também afastou um galho.
— Não, não sei. — As palavras dele pareciam sinceras.
— Está preocupado? — perguntou Kylie.
Ele hesitou.
— Estou.
— Por quê?
— Eu respeito a necessidade de Lucas de fazer parte do conselho para que possa sugerir soluções para os problemas entre os lobisomens e a UPF, mas não gostaria que o conselho exercesse tanta influência sobre ele.
— Você não confia em Lucas?
— Se eu não confiasse nele, ele não estaria em Shadow Falls. Meus problemas estão relacionados ao fato de que o conselho dos lobisomens e a UPF têm as suas diferenças. Em geral, a comunidade dos lobisomens não se mostra muito disposta a seguir as regras da UPF. Isso tem a ver com a mentalidade de alcateia.
— Mas não é porque a UPF considera os lobos cidadãos de uma classe inferior?
— Isso mudou — garantiu Burnett. — Mas eu tenho certeza de que ainda influencia muito o comportamento deles e posso assegurar que a UPF trata de maneira imparcial tudo o que está relacionado aos lobisomens. No entanto, existem preconceitos de ambos os lados. Uma das razões que faz com que os lobisomens sejam vistos como párias é o fato de eles verem as outras espécies da mesma forma.
— Então é a velha questão: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? — perguntou Kylie.
— Acho que isso não importa.
Quando eles chegaram à clareira, Burnett olhou para ela.
— Vou levar você até a cabana. Se Della ou Miranda não estiverem lá, envio outra sombra para ficar com você. Holiday e eu logo iremos buscá-la para irmos à cachoeira. Mas até que eu investigue essa coisa toda, você não poderá deixar a cabana sem que eu saiba onde você está e com quem.
Ela se encolheu um pouco com o tom de voz dele e com as novas ordens. Ele com certeza estava exagerando.
— Você se importa se eu voltar para o escritório com você? Eu queria ver como Clara está.
Ele hesitou, mas acabou concordando, e eles pegaram a trilha do escritório. Kylie deu uma última olhada na floresta e não sentiu nada. Será que eles tinham ido embora?
Seus instintos diziam que sim. A pergunta era: será que voltariam? E se voltassem, será que ela encontraria um jeito de falar com eles?
Antes que Kylie pusesse o pé na varanda, ouviu a voz de Lucas dentro da cabana.
— Você não pode continuar fazendo isso! — ele exclamou. Kylie não tinha certeza se a sua audição estava mais sensível ou se ele estava falando muito alto. Considerando quão discretos eram os lobisomens, ela suspeitou de que se tratava da primeira opção.
— O que eu fiz? — Clara perguntou. — Eu disse a eles que estava vindo pra cá.
— Para onde mais você foi? Foi ver Jacob? — O tom de voz de Lucas ficou mais severo.
— De todos que eu conheço, eu supus que você fosse o mais capaz de entender a minha necessidade de ver quem eu quero.
— Por mais estranho que pareça, acho que papai tem razão com respeito a isso.
— Sério? Então quer dizer que você vai deixar que ele escolha a sua parceira? Não era sobre isso que vocês dois estavam discutindo quando você foi vê-lo? Sua afeição por Kylie?
Kylie prendeu a respiração. Lucas tinha brigado com o pai por causa dela?
— Estamos falando sobre você — Lucas respondeu.
— Eu estou aqui, não é isso o que importa? — Clara perguntou. — Não é isso o que você quer?
— O que eu quero é que você pare de fazer joguinhos, Clara. Estou tentando ajudar você.
— Joguinhos? Ah, pelo amor de Deus, você é o que mais faz joguinhos aqui. Você faz joguinhos com o conselho, com papai, com a sua mãe e com a sua avó. Você faz joguinhos até com Fredericka. E aposto que está até fazendo joguinhos com essa sua bruxa também.
— Eu não estou fazendo joguinhos e não tenho nenhuma bruxa.
Kylie hesitou enquanto se aproximava da cabana e, pelo olhar que Burnett lhe lançou, ela supôs que ele também estava ouvindo a conversa.
— Eu ainda posso levá-la para a cabana — ele ofereceu e, pelo seu tom de voz, Kylie percebeu que ele entendia quanto aquilo estava sendo difícil para ela. A preocupação dele era comovente, mas Kylie não gostou de saber que todo mundo conhecia os seus problemas. Ela preferia que sua vida particular não fosse de conhecimento geral.
— Mais cedo ou mais tarde, eu tenho que enfrentá-lo — ela disse, desviando o olhar.
Mas até mesmo ela tinha que admitir que preferia deixar aquilo para mais tarde. Mesmo assim, ela levantou os ombros e continuou andando, o estômago contraído ao pensar na resposta de Lucas quanto a ela ser uma bruxa.

2 comentários:

  1. Oi,nesse final do livro ela não está escutando a conversa do Lucas e da irmã de longe ? Como pode ver ela virando os olhos ou levantando os ombros ? Vlw,primeira vez que comento!

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    1. Oi Victor! Sim, é de longe.. Em que momento ela fala isso?

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