31 de outubro de 2016

Capítulo 13

Dublin, Irlanda

Eles chegaram em Dublin sob uma chuva forte. Tudo o que viram foi uma cortina cinza. Passaram pela alfândega rapidamente e entraram na sala de estar. Um jovem com um gorro de lã escuro puxado abaixo de suas sobrancelhas se levantou.
— Sarah e Jack Swift? — ele perguntou em um sotaque irlandês forte. Ao acenar de cabeça de Amy, ele acrescentou: — Acho que vocês pousaram, afinal.
Amy e Dan olharam para ele, confusos. O voo havia sido adiantado.
— O pássaro — ele explicou. — Swifts, Andorinhões, em inglês. A lenda é que eles passam a vida toda no ar e nunca pousam. Ah, não importa. Bem-vindos à Irlanda. Eu sou Declan. Sigam-me.
Eles o seguiram até o estacionamento, onde uma caminhonete maltratada os esperava.
— Está chovendo bastante — Dan comentou.
— Chamamos isso de garoa por aqui — Declan subiu atrás do volante. — Vocês podem se sentar na parte de trás, há um cobertor aí – aquecimento não é o melhor nessa lata-velha. É uma longa viagem. Há sanduíches e uma garrafa térmica de chá na cesta para o seu jantar. Nós não faremos paradas.
— Tudo bem — Amy concordou. — Qual é o nome da cidade?
— Meenalappa. Não se animem, não há muita coisa lá.
— Quanto tempo demora a viagem?
— O tempo que precisar, eu diria.
Declan ligou o motor e dirigiu. Logo eles estavam em uma rodovia, e Amy e Dan perderam a noção de onde estavam indo ou por quê enquanto a monotonia entorpecente de uma viagem rodoviária na chuva os dominava.
Amy tinha caído num sono exausto no avião, e agora estava bem acordada. Ela queria poder cair naquele esquecimento sombrio novamente. Porque, pela primeira vez desde que pairou sobre um túmulo aberto apenas 24 horas antes, ela teve tempo para pensar sobre a última vez em que viu Jake.
Ela e Dan e Fiske tinham voado para Roma para o Ano Novo. De alguma forma, longe de Attleboro, longe de todas aquelas lembranças de Evan e do que ela havia perdido, Amy sentiu-se voltar à vida novamente. Ela ainda se lembrava do jantar da véspera de Ano Novo que Jake preparara para todos eles. Atticus havia colocado pequenos pisca-pisca em todo o apartamento escuro e sombrio até que este brilhasse com alegria. Ela lembrou-se de repente da neve que surpreendentemente havia começado a cair enquanto eles comiam a sobremesa, e como Jake segurara a mão dela e dissera:
— Vamos caminhar.
Aquela caminhada à meia-noite através da neve havia lhe dado um vislumbre de uma nova vida, uma nova forma de ser. Uma Amy que não era torturada por memórias e esmagada pela culpa.
Ela olhou para a chuva fria e cinzenta, perguntando-se como uma memória que uma vez lhe dera esperança poderia ferir tanto seu coração.
Ela tinha mandara uma mensagem para Jake enquanto esperava na pista em Nova Jersey.

Tenho que me distanciar por um tempo. Sem internet. Entrarei em contato.

Ela tinha acrescentado um eu te amo e apagado. Como poderia demonstrar isso dessa forma, quando possivelmente ficaria fora por um longo tempo? Como ousaria usar a palavra amor, quando ela nunca sabia, de um dia para o outro, o que seria de sua vida? Ela estava voando pelo ar, como um andorinhão, nunca sendo capaz de pousar.

* * *

A escuridão caiu, e o som da chuva batendo no teto embalou-os em um cochilo. Quando acordaram, já estavam fora da rodovia e dirigiam por uma série de pequenas estradas. Eles podiam sentir o cheiro do mar. Declan dirigia mais rápido do que Amy gostaria, já que ela não podia ver nada além dos faróis. Mas ele parecia conhecer cada curva.
A caminhonete engrenou por uma pequena subida e, em seguida, fez uma virada brusca para o que parecia ser uma fileira de arbustos. A abertura era larga apenas o suficiente para a caminhonete passar.
Através da chuva eles vislumbraram uma casa caiada, comprida e baixa. Declan parou e desligou o motor. Sem dizer uma palavra, ele saiu do banco da frente e começou a andar para longe.
— Nós temos que segui-lo? — Dan perguntou.
— Acho que sim.
Eles saíram na chuva. Declan havia aberto a porta da frente, virou-se e deu as chaves para Amy.
— Minha irmã veio mais cedo para ligar o aquecedor e abastecer a despensa. Tem tudo o que vocês precisam lá dentro. As bicicletas estão na garagem. É uma pedalada de quinze minutos até a aldeia.
Ele voltou em direção ao carro.
— Para que lado? — Amy perguntou para ele.
Ele apontou, mas era difícil de ver através da chuva se ele se referia à esquerda ou à direita. Ele saltou de volta para o carro e foi embora.
— Ah, o lendário charme irlandês de que tanto ouvi falar — observou Dan.
Eles entraram. Declan tinha acendido as luzes, e sala parecia brilhante e acolhedora. Havia uma pequena lareira com dois sofás confortáveis na frente dela. Amy espiou o próximo cômodo, uma cozinha grande com outra lareira. A escada em caracol levava aos quartos, todos com lençóis limpos. Nas pias estavam escovas de dente novas, creme dental e sabonetes.
A chuva açoitava os vidros escuros. Eles não sabiam onde estavam, ou por que estavam ali, ou o que fariam no dia seguinte. Estavam exaustos demais para se importar. Caíram nos lençóis – que tinham cheiro de lavanda e lembravam-lhes de Grace – finalmente sentindo-se seguros o suficiente para dormir.

* * *

Quando Amy acordou, o céu estava azul do lado de fora de sua janela. Ela espiou no quarto de Dan, mas a cama estava vazia. Olhou pela janela dos fundos. Um gramado inclinado atrás da casa levava a uma cais com uma lancha presa a uma estaca. A entrada serpenteava em direção à baía azul enevoada.
Dan estava no gramado, de costas para ela. Vestia roupas casuais, mas tinha os pés descalços, o vento bagunçando seus cabelos.
Ela começou a se virar, mas parou. Havia algo tão...  solitário e triste com aquela cena. Algo sobre sua postura, a maneira como as mãos pendiam ao lado, dizia-lhe que ele estava sofrendo.
Ela enfiou os pés dentro de seu tênis, desceu as escadas e abriu a porta da cozinha. O cheiro do gramado fresco e do mar salgado atingiu suas narinas enquanto ela subia a inclinação para ficar ao lado de Dan.
— Você notou que a casa está em uma cavidade? — Dan perguntou sem se virar para ela. — É invisível da estrada. Temos três pontos de saída – a estrada, o mar e o campo. Esta é a casa segura de Grace.
— Eu não tinha pensado dessa maneira. — E doeu ver que seu irmão mais novo tinha pensado assim. Ele devia estar jogando beisebol, não descobrindo rotas de fuga.
Dan encarava a enseada duramente. Seu queixo tremia. 
— Eu soltei — ele falou. — Na ponte. Eu a segurava, e eu soltei.
— Você me salvou — Amy corrigiu calmamente. — Você me pegou enquanto eu caía. E segurou enquanto um capanga o estrangulava.
— Amy... — Dan se virou para ela. Seu rosto estava angustiado. — Eu senti você escorregando. Eu tinha você, mas não consegui segurar. Eu não consegui segurar! Pensei que você tivesse morrido!
— Você me pegou! — Amy gritou. — Você salvou minha vida! E eu estou aqui, Dan. Estou aqui por sua causa.
— Eu sou a razão por nós termos que fugir — ele devolveu. — Fui tão idiota! Eu arrastei a gente para essa bagunça. Eu sou a razão de Pierce ter o soro. Agora ele está tentando nos matar, e o FBI deve estar procurando a gente, também. Eu baguncei tudo, de verdade. Eu nunca faço nada certo.
— Você faz o certo o tempo todo. Talvez não o tempo todo. Mas ninguém faz. Especialmente não eu.
— Eu seguirei em frente quanto a isso — Dan disse. — Eu preciso; fui eu que comecei. Nós vamos parar o J. Rutherford Pierce juntos. Mas depois disso, estou fora.
— O que você quer dizer com isso? — Amy perguntou, assustada.
Dan respirou fundo.
— Não quero que pense que esta é uma das minha decisões impulsivas. Porque não é. Eu não quero mais ser um Cahill.
— Você não pode apenas... cair fora!
— O Fiske saiu. Ele foi embora. Ele renunciou a família. Ele desapareceu, viajou o mundo inteiro...
— O Fiske era adulto quando fez isso! Você só tem treze anos! — Amy balançou a cabeça. — Olha, Dan. Nós dois quisemos desistir várias vezes – nós já chegamos ao fundo do poço. E nós sempre descobrimos um jeito de continuar.
A boca de Dan estava torcida com o esforço para não chorar.
— Isso é diferente!
— É sempre diferente — Amy respondeu suavemente. — Mas então nós...
— NÃO! — Dan gritou, e a boca de Amy se fechou. — Não. — disse ele, em voz mais baixa, e esse tom a assustava mais do que a explosão anterior. — Eu não tinha percebido ainda. Mas já passei pelo suficiente. Eu fiz o suficiente para saber disso: Eu não quero ser mais um Cahill. Não quero mais viver em Attleboro. Eu não quero nada disso.
Amy sentiu essas palavras como uma facada no coração. 
— Você quer... me deixar?
— Claro que não! — Dan bateu a mão na perna em frustração. —Eu só...  não consigo... viver assim. Talvez eu possa viver com a Nellie em algum lugar... por um tempo. Talvez o Fiske vá embora de novo e eu vá com ele. Não para sempre. Você pode ficar treinando, pode manter a rede Cahill funcionando, e se manter alerta para o próximo vilão que aparecer. Por que sempre haverá mais um. Mas eu não quero. Eu...  não consigo! — As palavras foram arrancadas de sua garganta. Ela viu os ombros dele tremerem. Ele segurou a cabeça com as duas mãos. — Você não sabe como é — ele sussurrou. — Como é ter o soro em sua cabeça.
Amy abriu a boca, mas não saiu nada. É claro que ela não sabia. Não era possível ela saber. O que ela deveria fazer? Gritar com Dan? Argumentar com ele? Dizer-lhe que ele a estava abandonando? Quando, obviamente, esta era decisão mais difícil que ele já tinha tomado?
Não era isso o que ela queria para ele? Segurança? Um pouco de normalidade? Não importasse o quanto custasse. Não importasse o quanto isso a machucasse.
— Tudo bem — ela disse. — Nós faremos dar certo. Eu não o impedirei.
— Você ainda será minha irmã. Isso não vai mudar.
— Eu sei.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, ouvindo o farfalhar da grama. Amy se sentiu virada do avesso pela dor de Dan. Seu irmão parecia tão jovem naquele momento, esticado na grama com os pés descalços, o cabelo bagunçado. Mas seus olhos pareciam mais velhos. Mais velho do que os olhos de um garoto de treze anos devia parecer.
Se ele tivesse que deixá-la para ter uma vida normal, a coisa certa, a coisa corajosa, seria deixá-lo ir. Mas ela poderia fazer isso?
Nuvens cobriram o sol, e a enseada era agora era como ferro cinzento fundido com manchas brancas. Amy estremeceu.
Se ela deixasse que Dan fosse, ela estaria sozinha.

* * *

Depois de um café da manhã apressado, eles tiraram as bicicletas da garagem e se dirigiram para a estrada.
— Esquerda, ou direita? — Amy perguntou.
— Acho que lembro de ter visto os faróis virarem à direita na noite passada.
— E é morro abaixo — Amy disse. — Vamos tentar.
Eles pedalaram por alguns minutos em silêncio. Logo viram outro ciclista vindo na direção deles.
— Com licença, senhor? Qual é o caminho para a vila? — Amy perguntou.
— Não muito longe — ele deu a resposta curta, e rapidamente pedalou para longe.
Eles continuaram a pedalar. Depois de um tempo, viram uma mulher sair de uma casa de campo à beira da estrada e parar para regar um vaso cheio de flores vermelhas brilhantes.
— Com licença, este é o caminho para a vila? — Dan perguntou.
— Claro, se você continuar, vai parar em um lugar ou outro — a mulher respondeu, e se virou de volta para casa rapidamente.
— Pessoal super McAmigável aqui na terra dos leprechaun — Dan observou.
Mas, depois de cerca de dez minutos de bicicleta, a estrada fez algumas curvas e a vila apareceu, um aglomerado de casas e lojas. Eles pularam de suas bicicletas e as apoiaram contra a lateral de uma mercearia com uma porta azul brilhante.
O sino tocou quando eles entraram. Uma jovem mulher estava sentada atrás do balcão, lendo um livro. Ela não olhou para cima.
Pegando uma cesta de vime, eles a encherem com comida. Colocaram a cesta em cima do balcão.
— É uma vila bonita. — Amy comentou. — Você vive aqui há muito tempo?
— Tempo o suficiente — ela passou as compras deles.
— Existe um bom lugar para almoçar nas proximidades? — Dan perguntou.
— O povo diz que o Sean Garvey é bom, mas se vocês pensarão o mesmo não é algo que eu posso prever — a garota disse.
— Podemos deixar nossas compras aqui por um momento? — Amy perguntou.
— Acho que podem.
— Bom te conhecer, também — Dan disse. 
Eles saíram. Do outro lado da rua, eles viram uma placa para o Sean Garvey e abriram a porta. O bar estava lotado com os moradores locais, e todos eles ficaram em silêncio quando Amy e Dan entraram. Um garçonete bonita de cabelo e olhos castanhos avermelhados levou-os a uma mesa perto da janela e colocou dois cardápios na frente deles.
— Estou começando a ter a sensação de que não me querem aqui. — Dan disse.
— Acho que eles não estão acostumados com estranhos — Amy apontou.
Dan estudou o cardápio. 
— Acho que vou pular as vitaminas batidas e as batatas amassadas. Sinto como se eu já tivesse sido batido e amassado o suficiente.
Eles pediram sanduíches e observaram os moradores. Dan continuava a ter uma sensação estranha, como se estivesse em um lugar familiar. Ele nunca estivera nesta parte da Irlanda, ou nesta vila, mas algo sobre ela lhe era familiar.
A garçonete franziu a testa enquanto dobrava os guardanapos, e Dan sentiu um choque.
Ela parece com a Amy.
O que era? A forma como a boca havia abaixado? A forma do seu rosto?
Ele olhou para Amy enquanto ela mordia o seu sanduíche. Agora ela não parecia nada com a garçonete, de verdade. Ele devia estar louco.
Depois do almoço, eles compraram mochilas e peças de roupas em uma pequena loja. Em seguida, caminharam através do cemitério nas proximidades. Pelo menos eles não tinham que se preocupar com as pessoas olhando para eles.
Dan fez uma pausa para descansar, inclinando-se contra uma rocha maciça riscada de musgo.
— Dan, o que você está fazendo? Pode ser uma lápide.
— Não é uma lápide, é só uma rocha. — Dan se afastou e passou as mãos ao longo da pedra. — Vê? Não tem gravuras.
Assim que ele falou isso, seus dedos traçaram uma depressão na pedra. Ele seguiu a linha para cima, desceu um pouco, para cima novamente, traçando uma letra na pedra. Ele raspou no musgo com uma unha, limpando-a.
 — Amy... olha isso.
Ela se inclinou.
— Eu não vejo nada.
Dan continuou a trabalhar na pedra, raspando o musgo. Em seguida, deu um passo para trás e eles prenderam a respiração.
Era o de Madrigal.

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