4 de outubro de 2016

Capítulo 13

— Qual o problema? — Burnett gritou de dentro do escritório de Holiday alguns minutos depois de Kylie entrar no escritório principal do acampamento.
Holiday tinha providenciado um escritório para Burnett nos fundos da cabana, mas aparentemente ele preferia usar a sala dela em sua ausência. Não que Kylie o culpasse.
O escritório de Holiday era pequeno, mas agradável. Havia um sofá encostado numa parede, o que só deixava espaço para uma mesa e alguns armários. Mas Holiday tinha adicionado o seu toque pessoal ao espaço minúsculo. Plantas, tipos diferentes de samambaias, e mesmo algumas ervas medicinais enfeitavam todos os cantos. Mesmo o cheiro do lugar era o de Holiday, um leve aroma floral. E em cima do grande arquivo de metal havia vários cristais de cores diferentes. A luz que vinha da janela da frente invadia o cômodo e incidia sobre os cristais, refletindo as cores do arco-íris nas paredes.
Burnett fechou rapidamente algumas pastas que estavam sobre a mesa e, em seguida, recostou-se na cadeira de Holiday. Kylie não conseguia deixar de imaginar se Burnett não estaria usando o escritório simplesmente porque a presença dela era quase palpável ali.
— O que há de errado? — ele perguntou de novo.
Ela simplesmente despejou:
— Você sabe alguma coisa sobre poder de cura? — Ela desabou na cadeira em frente à escrivaninha.
— Não muito, mas alguma coisa.
— Se eu trouxer algo de volta à vida, posso perder uma parte da minha alma?
Ele franziu um pouco mais a testa.
— O que aconteceu? Alguém se machucou? Você teve que...?
— Não uma pessoa — Kylie respondeu. — Um pássaro.
— Ah... Holiday me falou sobre isso — respondeu Burnett. Ele se inclinou para a frente. — No entanto, ela disse que não tinha certeza se o pássaro estava morto.
— Parecia morto — disse Kylie. — E eu só quero saber: eu perdi uma parte da minha alma quando eu o trouxe de volta à vida? E o que isso quer dizer?
Burnett cruzou os braços sobre a mesa.
— Eu não sei tanto sobre isso quanto tenho certeza de que Holiday sabe, mas ela não estava preocupada. Então eu não acho que você tenha que se preocupar.
Não satisfeita com a resposta, Kylie se lembrou da segunda questão que queria discutir.
— Eu quero um cartão da biblioteca.
— Quer o quê? — perguntou ele.
— Quero poder ler os livros que a UPF tem em sua biblioteca.
Ele franziu a testa.
— Não é uma biblioteca, ou pelo menos não uma biblioteca comum. Antes que você possa pegar um livro emprestado, ele tem que passar por uma inspeção.
— Por quê?
— Porque muitos itens do acervo são documentos da UPF.
— E o que a UPF está escondendo?
Ele parecia quase irritado com a pergunta.
— Não estamos escondendo nada. Mas não podemos deixar que pessoas normais ponham as mãos nos livros.
Ela apontou a própria testa.
— Eu pareço normal pra você?
— Ainda assim temos que ter cuidado.
— Então você está me dizendo que eu não posso consultar os livros.
O semblante de Burnett ficou ainda mais carregado.
— Eu vou ver se você pode consultar alguns livros sobre cura — acrescentou, como que querendo consolá-la.
— Que outro tipo de livros vocês têm? — perguntou ela.
— Não é uma biblioteca, Kylie — disse ele com firmeza, e depois se recostou na cadeira e não falou mais. Por fim, o silêncio constrangedor levou Kylie a outra pergunta.
— Alguma notícia sobre os idosos que fingiram ser meus avós?
Sua expressão reservada desapareceu.
— Acabei de receber uma ligação. As digitais pertencem aos proprietários do carro. Receio que isso não possa nos ajudar. Sinto muito. Mas eu posso te devolver isso. — Ele lhe entregou o envelope pardo que continha as fotos do pai dela. — Você realmente se parece com o seu pai.
A preocupação genuína em seus olhos e seu tom de voz deveriam tê-la feito se sentir melhor, mas apenas confirmaram as suspeitas de que ele não tinha sido completamente sincero sobre a UPF e a biblioteca. O que a UPF estava escondendo?
Kylie pegou o envelope.
— Obrigada — disse ela. Embora não fosse começar a desconfiar de Burnett, iria proceder com cautela quando lidasse com ele.
Kylie começou a sair quando Burnett olhou para a porta e disse:
— Entre.
Lucas entrou. Ele olhou diretamente para Burnett.
— Eu gostaria de ter permissão para levar Kylie à clareira atrás da cabana dela.
— Isso é com ela — disse Burnett.
— Sem a sombra — completou Lucas.
Kylie podia ver o quanto custava para Lucas pedir a permissão de Burnett. Ela se lembrou de algo que Della tinha dito sobre lobisomens odiarem ser submissos. E pedir permissão era um gesto de submissão.
No entanto, pelo olhar no rosto de Burnett, o pedido de Lucas tinha lhe rendido algum respeito e, com um pouco de sorte, alguns minutos para ficar com Kylie. Burnett olhou para Kylie como se para se certificar de que ela concordava, e ela balançou a cabeça.
— Depois voltem para a cabana. E fiquem na trilha. — Burnett olhou na direção da janela. — Della assume novamente quando chegarem à cabana. Você ouviu, Della?
— Sim — veio a resposta, e Kylie revirou os olhos um pouco, se perguntando se Della sempre estava com os ouvidos atentos.


Della e Miranda tinham ido embora quando Kylie e Lucas saíram do escritório. O ar da tarde estava quente, mas tolerável. Os poucos campistas por ali estavam na frente do refeitório. Kylie viu Will, outro lobisomem, um pouco mais afastado, observando-os. Ela também viu Lucas franzir a testa para ele.
— Vamos. — Lucas começou a caminhar em direção à trilha.
Só depois que fizeram a primeira curva e saíram do ângulo de visão dos outros campistas, Lucas pegou a mão dela. Só então Kylie suspeitou que Fredericka não estava inventando quando falou da desaprovação da alcateia com relação a ela.
Kylie começou a perguntar, mas Lucas falou primeiro.
— Você está bem? — Ele parou e se virou para encará-la. Seus olhos azuis analisaram-na com intensidade. — Por um segundo, ficou com medo de mim esta manhã, e depois simplesmente fugiu como se estivesse furiosa, com Perry em seu encalço.
Ela hesitou em lhe contar, mas queria que Lucas fosse sincero com ela, então precisava ser sincera com ele.
— Não era de você que eu estava com medo. Ontem à noite fui atraída para um sonho lúcido. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas você estava lá.
— Não, não era eu — disse ele.
— Agora eu sei que não era você. Era Ruivo, o neto de Mario. Ele apareceu como se fosse você a princípio.
Lucas ficou ali parado como se refletisse.
— Ele é um vampiro. Não tem sonhos lúcidos.
— Bem, ele teve. Não sei como, mas teve.
— Talvez tenha sido um sonho normal.
Ela balançou a cabeça.
— Eu sei a diferença agora.
— Você contou a Burnett?
— Não — ela admitiu. — Eu... vou resolver sozinha. Sei como impedi-lo de fazer isso de novo. Se acontecer novamente, eu conto. Ou conto a Holiday.
Ele franziu a testa.
— O que aquele pirado fez no sonho? Ele não...
Ela entendeu o que ele estava insinuando.
— Só colocou as mãos na minha cintura. Então percebi que não era quente como você. — Pela primeira vez ela se perguntou por que Ruivo não tinha tentado ir além disso. Ela deveria estar feliz por ele não ter tentado. Só de imaginar ter de beijá-lo já ficava enjoada.
Lucas puxou-a contra ele.
— Eu realmente quero pegar esse vampiro nojento. — Ele passou os braços em torno dela. Ela ficou ali por alguns segundos, o rosto pressionado contra o peito dele, absorvendo o seu abraço. Por fim, levantou o rosto e olhou para ele.
Ele pressionou os lábios contra os dela. Não foi um beijo muito ardente, mas foi bom. Bom o suficiente para que ela se esquecesse da sensação de que ele era sempre seguido por Fredericka.
— Então você não está brava comigo? — perguntou ele.
— Só um pouco — admitiu ela.
Ele parecia perplexo.
— Por quê?
Ela não tinha ideia de como dizer, mas então resolveu simplesmente extravasar sem pensar muito a respeito.
— Toda vez que vejo você, Fredericka está ao seu lado.
Ele pressionou a testa contra a dela.
— Eu já lhe disse que não está acontecendo nada.
— Eu sei, e acredito em você, mas ela é tão... presunçosa!
Ele deu um meio sorriso.
— Ela é um lobisomem. A presunção é uma coisa instintiva.
— Tanto faz. Eu não gosto.
Seu meio sorriso desapareceu.
— Ela faz parte da minha alcateia. Não posso expulsá-la sem uma boa razão e sem que isso acarrete grandes consequências para ela.
O fato é que ele se preocupava com Fredericka e isso a incomodava, mas depois percebeu que ela também não queria que nada de ruim acontecesse a Derek. Mas não era só Fredericka que causava problemas.
— A alcateia não quer você comigo, não é?
Ele pareceu um pouco chocado. Ela quase repetiu o que Fredericka tinha lhe dito, mas não quis bancar a namorada ciumenta.
— É pura estupidez — disse ele. — Não importa o que eles querem.
— Não mesmo?
— Não, não importa — disse ele, categórico. — Eu me recuso a deixar alguém me dizer de quem eu tenho que gostar ou com quem posso andar. Além disso, você pode acabar descobrindo que é uma de nós.
— E se eu não for?
— Ainda assim não importa — disse ele, mas a convicção em sua voz tinha diminuído.
— O que vai acontecer? — perguntou ela.
— Nada. Porque eu não vou deixar nada acontecer. — Ele tocou o rosto dela. — Isso é problema meu. Deixe que eu cuido dele.
Trinta minutos depois, Kylie entrou em seu quarto gelado – isso mesmo, ela tinha um visitante fantasmagórico, mas estava determinada a ignorá-lo. Precisava refletir sobre sua conversa e suspeitas com relação a Burnett e sobre o que Lucas dissera. A atitude da alcateia era problema dele, mas a afetava. Ela também queria passar algum tempo contemplando o rosto do pai. Podia parecer estranho, mas Kylie esperava que, olhando as fotos, de algum modo o sentisse mais perto dela.
Alguém vive e alguém morre.
Kylie franziu a testa. Ok, ignorar o espírito provavelmente seria mais difícil do que ela pensava, especialmente porque a mensagem que o fantasma lhe transmitia era supostamente dos anjos da morte.
O mesmo tinha dito a tia de Holiday, no dia anterior.
— Quem vive e quem morre? — Kylie se virou para ver o fantasma da mulher flutuando atrás dela. Desta vez ela tinha cabelos, castanhos e longos, até os ombros.
Eles não dizem. Mas disseram que não é culpa sua.
— O que não é culpa minha? — Kylie perguntou.
O espírito encolheu os ombros.
Eles nunca explicam nada. Apenas me dizem para transmitir a mensagem. — Ela mordeu o lábio inferior. — Eles me assustam.
Kylie caiu sobre a cama, e foi então que percebeu outra coisa sobre o fantasma. Ela estava grávida. A camisola rosa da maternidade moldava-se à sua barriga arredondada.
Reprimindo a frustração, Kylie fez um gesto com a mão, apontando para o ventre da mulher.
— Você está grávida.
A mulher olhou para baixo e pousou as mãos na barriga.
Como isso aconteceu?
Kylie balançou a cabeça.
— Se eu estivesse em casa, poderia lhe dar um panfleto explicando tudo passo a passo. O espermatozoide encontrando o óvulo e coisa e tal. Minha mãe me dá um desses quase todo mês. Mas, basicamente, significa que você fez sexo com alguém.
O espírito pareceu mais perplexo ainda.
Sexo?
— Por favor, me diga que você sabe o que é, porque eu sou muito jovem para ter com você toda aquela conversa sobre sexo que os pais costumam ter com os filhos. Eu nem sequer a tive ainda. Simplesmente li os panfletos.
— Eu sei o que é sexo. Estou apenas... Com quem eu fiz sexo? — Ela perguntou. — Eu não me lembro.
— Eu não saberia dizer.
O espírito se aproximou e o frio aumentou. Ela se sentou na cama ao lado de Kylie, as palmas das mãos ainda sobre a barriga. Fechando os olhos, ficou sentada ali em silêncio. Kylie percebeu que ela estava buscando lembranças em sua mente, tentando se lembrar.
Kylie cruzou os braços para espantar o frio. Depois de vários minutos em silêncio, o fantasma abriu os olhos, mas continuou a olhar para a barriga arredondada. Suas mãos começaram a se mover ternamente sobre a criança que carregava dentro dela, como se quisesse demonstrar sua afeição.
Kylie nunca tinha visto alguém expressar tanto amor com um simples toque. Por um segundo, ela se perguntou qual seria a sensação de carregar uma criança dentro da própria barriga.
Quando o espírito olhou para cima, tinha lágrimas nos olhos.
— Eu acho que o meu bebê morreu.
A tristeza no rosto da mulher e em sua voz provocou um nó na garganta de Kylie.
— Sinto muito.
Então o espírito tirou as mãos da barriga e viu que suas palmas estavam sangrando. Kylie quase perdeu o fôlego quando viu que o ventre arredondado tinha desaparecido e a frente da camisola dela estava encharcada de sangue.
— Não! — A mulher soltou um soluço profundo e doloroso que ressoou pelo pequeno cômodo e pareceu ecoar nas paredes.
Kylie abriu a boca para dizer alguma coisa, perguntar se o espírito conseguia se lembrar do que tinha acontecido, dizer novamente que sentia muito e oferecer mais palavras de compreensão. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a mulher desapareceu.
O frio fantasmagórico também desapareceu, deixando no ambiente uma onda gelada de tristeza e dor tão intensa que deixaram o peito de Kylie apertado. E não era uma dor qualquer. Era a tristeza de uma mãe que perdeu o filho.
Kylie estendeu o braço para pegar o travesseiro e o abraçou.
Depois de alguns minutos, Kylie tirou do envelope as fotografias e analisou cada uma delas lentamente. Quando chegou à de sua mãe com Daniel, em meio a um grupo de pessoas, pegou o telefone.
— Oi, querida. — A voz da mãe trouxe de volta o sentimento de solidariedade que Kylie sentia pelo espírito.
— Oi, mãe.
Estranho como, pouco tempo antes, Kylie tinha certeza de que sua mãe não a amava e nem mesmo a queria por perto. Agora, não tinha dúvida da devoção que a mãe tinha por ela. No fundo, Kylie se perguntava se aquilo faria parte do crescimento. A parte em que os adolescentes deixavam de ver os pais como instrumentos para destruir sua vida e começavam a vê-los como pessoas.
O relacionamento delas não era perfeito, é claro. Kylie sabia que a mãe ainda tinha falhas – e muitas – mas nenhuma delas envolvia o seu amor pela filha. E nenhuma delas impedia Kylie de amá-la.
— Estou feliz por você ter ligado — disse a mãe. — Eu estava com saudade da sua voz.
— Eu também — Kylie conseguiu dizer com a voz embargada, desejando que a mãe estivesse ali para abraçá-la. Ela queria poder contar a ela sobre as fotos, mas depois teria que explicar sobre os Brightens, e não achava que toda aquela confusão fosse fácil de esclarecer. Pelo menos não ainda.
— Eu ia ligar hoje à noite, se você não tivesse ligado — a mãe disse.
— Sinto muito, tenho corrido um pouco desde que voltei.
— Imaginei. Sara ligou e disse que tentou falar com você, mas você não retornou a ligação. Ela parecia tão bem! Disse que foi como um milagre; o câncer desapareceu.
— Tenho certeza de que foi um dos tratamentos que ela fez — Kylie disse, mordendo o lábio inferior e querendo saber como ia lidar com toda a questão da cura de Sara. Não havia retornado a ligação da amiga porque queria falar com Holiday sobre isso primeiro. Pobre Holiday... Quando ela voltasse, Kylie teria uma lista de coisas para tratar com ela.
— Eu também acho — disse a mãe. — Mas eu gostaria de acreditar em milagres.
— Então você deve acreditar — disse Kylie, agora sem saber o que dizer à mãe sobre o assunto. Porque mais do que nunca, Kylie sabia que milagres existiam. O fato de ela ser capaz de realizá-los ainda a intrigava.
— Você está bem? — a mãe perguntou, como se adivinhasse o estado de espírito de Kylie.
— Estou bem.
— Não, você não está — disse a mãe. — Eu sinto isso em sua voz. Qual o problema, querida?
— Só problemas com... garotos — disse ela.
— Que tipo de problema? — a mãe perguntou, a tensão em sua voz indicando que ela se preocupava que o problema de Kylie envolvesse sexo.
— Não é nada de importante. — Tentando mudar de assunto, Kylie perguntou: — Como foi o trabalho hoje?
— Foi estranho — disse a mãe. — Tenho um cliente novo.
— Por que isso é estranho? — Kylie perguntou. Sua mãe trabalhava no ramo da publicidade e vivia atendendo a novos clientes.
Ele é estranho.
— Estranho em que sentido? — Kylie perguntou, satisfeita ao ver que a conversa tinha tomado outro rumo.
— Ele parecia mais interessado em mim do que... na campanha. — A mãe riu.
Kylie franziu a testa.
— Defina “interessado”.
— Ah, não sei. Foi apenas a maneira como agiu — disse a mãe, como se estivesse tentando não dar muita importância ao caso. — Nós devemos almoçar amanhã e discutir suas ideias para a promoção da sua nova linha de vitaminas.
— É um almoço de trabalho ou um... encontro na hora do almoço?
— Não seja boba — disse a mãe. — É trabalho.
— Tem certeza? — Kylie perguntou. — Quer dizer, se ele parecia interessado...
— Eu acho que é trabalho — disse ela, sem muita convicção. — Mas... se fosse um encontro, como você se sentiria?
Kylie respirou fundo. Uma imagem de seu padrasto apareceu na sua cabeça. Ela se lembrou dele, sentado na beira da cama apenas algumas semanas atrás, chorando ao dizer a Kylie que ele tinha cometido um erro terrível. Ela sabia que ele queria se reconciliar com a ex-mulher e, embora Kylie não tivesse certeza se ele merecia uma segunda chance depois de enganar a mãe, não podia negar que queria que pelo menos uma coisa em seu mundo voltasse a ser como antes.
— Você não está respondendo — insistiu a mãe.
Kylie engoliu em seco, indecisa, e olhou para a foto em suas mãos. Seria justo da parte dela querer que a mãe perdoasse o padrasto apenas para trazer de volta à vida de Kylie uma sensação de normalidade? Especialmente sabendo que o homem que a mãe realmente amara estava morto? A questão deu voltas em sua cabeça e Kylie decidiu ser sincera.
— É porque eu não sei o que dizer. Acho que parte de mim estava achando que você e papai iam resolver as coisas. Você não o ama mais? Ou o amou algum dia?
Agora foi a vez de a mãe ficar em silêncio.
— Eu o amava. E provavelmente ainda o amo — confessou ela, finalmente. — Mas não tenho certeza se posso perdoá-lo. Ou confiar nele. E cada vez que falamos de Daniel, eu simplesmente... Não tenho certeza se me casar com Tom não foi um erro. E, se foi, então voltar a ficar com ele também seria um erro. Mas eu não deveria estar falando com você sobre essas coisas, Kylie.
— Por que não?
— Porque, minha querida, você não deve se preocupar com isso.
— Você é minha mãe. Eu tenho o direito de me preocupar. — Kylie percebeu que se preocupava com o fato de a mãe viver sozinha e se sentir solitária. Mas isso significava que ela queria que a mãe começasse a namorar? E excluir totalmente a possibilidade de voltar com o homem que Kylie tinha amado e considerado seu verdadeiro pai por toda a vida?
— Não — disse a mãe. — Você tem que esquecer essa conversa. As mães têm direito de se preocupar com os filhos, não o contrário.
— Então vamos ter que concordar em discordar — concluiu Kylie.
— Você é bem teimosa, sabia disso?
— E eu me pergunto de quem puxei essa teimosia toda — Kylie respondeu com uma risada. O telefone da mãe de Kylie começou a emitir um bipe, avisando que havia outra ligação aguardando para ser atendida. — Eu vou desligar para você poder atender — disse Kylie. — Mas mãe...
— Sim?
— Aproveite o almoço. Só tenha cuidado. E não vá se apaixonar ou coisa assim. Ah, e nada de beijo no primeiro encontro. Essa regra é sua, lembra?
A mãe deu uma risadinha.
— Eu tenho certeza de que é apenas um almoço de negócios. Falo com você amanhã.
Quando Kylie desligou, ela ouviu uma batidinha na janela. Olhou, esperando ver Lucas, mas se deparou com o pássaro azul empoleirado no parapeito.
Ele bateu as asas, pairando bem em frente à vidraça de Kylie por um segundo e, em seguida voou para longe.
Que ótimo! Agora ela estava sendo perseguida pelo pássaro azul que trouxe de volta à vida. O que isso significava?


A melancolia do fantasma e os sentimentos conflitantes com relação à mãe, bem como o receio pela possibilidade de ter dado uma parte da sua alma para o pássaro azul, não tinham desaparecido completamente uma hora mais tarde, quando Miranda e Della invadiram seu quarto.
— Já está pronta? — disse Della.
— Pronta pra quê? — Kylie perguntou, deitada na cama, ainda abraçando o travesseiro e fitando buracos no teto.
— Burnett concordou em nos deixar dar uma festa hoje à noite — disse Miranda. — É a nossa chance de cumprir o nosso pacto. Steve vai estar lá, assim como Lucas e Perry. Vamos pedir pizza e ouvir música. Talvez até dançar. Acho que vou vestir a calça jeans nova que comprei na semana passada.
— Você não disse que tinha ido fazer compras... — protestou Della.
— Fui, e também comprei uma saia jeans. — Miranda olhou para Della. — Ficaria fabulosa em você. Quer emprestada?
— Sério? — Della perguntou. — Você me empresta a sua saia nova?
— Claro! Eu gosto de você a maior parte do tempo — disse Miranda, cutucando-a com o cotovelo.
Kylie estava pronta para dizer “Vocês duas vão sem mim”, mas viu um toque de emoção nos olhos de Della. Kylie se lembrou de que a vampira tinha sido incumbida de ser a sua sombra, então, se ela não fosse, Della não poderia ir.
Então, Kylie se levantou e foi até o seu armário.
— Vamos nos arrumar e impressionar aqueles caras!
Meia hora depois, as três, produzidas da cabeça aos pés, puseram-se a caminho do refeitório. Miranda tinha emprestado a Della sua saia jeans nova e a peça tinha caído muito bem na amiga, especialmente com uma blusa de alcinha com uma estampa art déco em preto e vermelho, com tiras de tecido penduradas na frente. Miranda vestia seu jeans novo com uma regata decotada cor-de-rosa que valorizava seus seios. Quando Kylie tinha feito a mala para voltar ao acampamento, tinha acrescentado algumas roupas. Seu vestido de malha preto não era muito chique, mas lhe caía bem, especialmente com o seu recente surto de crescimento. A bainha do vestido agora tinha subido um pouco e o decote estava mais justo. Embora de início tivesse de fingir estar feliz por ir à festa, de algum modo, depois de se vestir começou a se entusiasmar de verdade com a noite que tinha pela frente.
A música já estava tocando e várias caixas de pizza estavam empilhadas sobre uma das mesas que tinham sido empurradas contra as paredes, abrindo espaço para uma pista de dança. A maioria dos campistas já estava lá, confraternizando e conversando. O aroma de pepperoni e molho de tomate picante pairava no ar. Então Chris saiu da cozinha carregando uma jarra grande e uma pilha de copos.
— Cara, que cheiro bom! — Della levantou o rosto, como se farejasse o ar, e Kylie sentiu o peculiar cheiro de sangue, semelhante a frutos silvestres. Embora ela não quisesse admitir, aquele cheiro lhe dava mais água na boca do que o aroma da pizza.
Mas isso não significava que ela se permitiria a tomar sangue ou já tivesse feito isso depois do dia em que o provara pela primeira vez, na cerimônia dos vampiros. Se Kylie descobrisse que era um vampiro, teria que lidar com isso. Mas até então, a ideia de beber sangue, mesmo achando que ele tinha gosto de ambrosia, não a atraía nem um pouco.
Miranda deve ter fechado as portas do refeitório com um pouco de violência, porque ela bateu com força e todo mundo olhou para elas. Kylie sentiu os olhos de todos sobre ela, ou sobre a sua testa, ávidos para ver como estava o seu padrão cerebral mutante.
Mas então notou um par de olhos azuis, e eles não estavam olhando para a sua testa. Estavam olhando para ela inteira.
Ela sabia que Lucas tinha gostado do vestido. Ou pelo menos gostado do vestido nela. E não era isso o que ela queria?
A vontade de percorrer o salão com os olhos para ver se Derek estava lá bateu forte. Ela lutou contra o impulso. Aquela noite seria de Lucas. E da maneira como ele olhava para ela, Kylie tinha a impressão de que ele aproveitaria.

2 comentários:

  1. Não entendo a recusa da Kylie em ser vampira, ou parte. Sangue nem é tão ruim, pelo menos não em um bife mal passado. To afim de ver ação nessa festa. Desconfio desse cara que a mãe dela falou, desconfio de muita gente.

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