8 de outubro de 2016

Capítulo 12

O peso de papel em forma de coração atingiu Burnett no peito. Chocado, ele tentou capturá-lo, mas não conseguiu. O peso se chocou contra o seu tronco musculoso e retrocedeu com o impacto. Parou no meio da sala, flutuando no ar como se estivesse cheio de gás hélio, e então disparou para a frente, tendo novamente Burnett como alvo. E, como da primeira vez, acertou na mosca.
Mas esse golpe foi muito... muito pior.
Direto na virilha. Ou, como diria Della, “suas bolas tomaram um direto na cara”.
— Mas que diabos?! — ele rosnou, curvando-se de dor. O coração voltou a se mover, e Burnett pegou o peso cheio de areia no ar e apertou-o até que ele estourou. Infelizmente, assim que a areia foi arremessada para fora, começou a se reagrupar em forma de coração novamente e conseguiu pairar no ar.
— Miranda está aqui? — Burnett rosnou, ainda curvado.
Kylie, percebendo que a bruxa encrencada que ele procurava era ela, levantou a mão e disse:
— Pare. — Quando nada aconteceu, ela se lembrou de estender o dedo mindinho. — Pare!
A areia caiu no chão e se espalhou como... bem, areia.
Holiday sentou-se em sua cadeira, parecendo atordoada demais para falar.
Burnett, a mão ainda pressionada contra as coxas, endireitou o corpo.
— Caramba! — Holiday murmurou, finalmente.
— Caramba! — Burnett repetiu.
Kylie desviou os olhos do rosto chocado de Holiday e olhou para o vampiro com o rosto ainda contorcido de dor. Kylie pensou que sua explosão era por causa da dor, mas não. Ele olhava para a testa dela.
— Interessante — disse Holiday.
— Estranho — Burnett respondeu, sem tirar os olhos da testa de Kylie.
— Uma beleza! — murmurou Kylie. Suas expressões aturdidas eram um prenúncio do que estava por vir no café da manhã. Kylie protagonizaria o show de horrores da hora da refeição.
— Você é uma bruxa — exclamou Burnett com descrença.
— Parece que sim — Holiday concordou.
— Não. Eu sou um camaleão. — E cada vez que Kylie dizia aquilo, ela acreditava um pouco mais. Não importava que ela pudesse reverter feitiços e fazer animais recuperarem a sua forma normal, ou que pudesse fazer um peso de papel em forma de coração voar pelos ares e golpear um vampiro. Seu pai tinha lhe dito que ela era um camaleão e ela acreditava nele.
— Talvez ser camaleão signifique outra coisa — Holiday disse. — Talvez tenha algo a ver com ser um protetor. Se for assim, todos os outros dons podem resultar disso também. — O telefone da líder do acampamento tocou. Como se precisasse de uma distração, ela olhou para o identificador de chamadas. Levantando o olhar, encontrou o de Kylie com uma expressão de solidariedade.
— O que é agora? — Kylie berrou.
— É... Tom Galen, o seu padrasto.
Que adorável!, Kylie pensou. Um telefonema tão cedo não poderia ser nada de bom. Então, qual seria o novo desastre que ele queria adicionar ao seu dia?
— Está tudo bem? — Derek irrompeu pela porta do escritório. — Ouvi um tumulto — murmurou.
— Não — disse Kylie um pouco antes de Holiday atender à chamada. — Neste momento em particular, eu não consigo pensar em uma única coisa que esteja bem!


Depois do almoço, Kylie e Miranda saíram do refeitório para voltar para a cabana. Della tinha ido a algum tipo de reunião com Burnett. Depois da maneira terrível como começara o dia, Kylie havia implorado para ficar de fora da Hora do Encontro. Além disso, ela iria à cachoeira com Holiday e Burnett, logo depois que este conversasse com Della.
— Elas gostam de você. Só estão surpresas — disse Miranda, pedindo desculpas pelo grupo de bruxas, que não tinha feito nada a não ser encarar a testa de Kylie durante todo o café da manhã. — Quer dizer, todas nós pensamos que você seria um vampiro ou um lobisomem. Algumas pessoas apostaram que você era um metamorfo, mas ninguém nunca pensou que iria passar a ser uma bruxa.
— Vocês realmente apostaram sobre o que eu seria? — Kylie perguntou.
— Foram alguns bruxos que começaram. — Ela franziu o cenho. — Desculpe. Se isso faz você se sentir melhor, eu perdi cinco pratas.
Kylie balançou a cabeça com descrença. Não que essa reação tenha sido apenas dos wiccanos. Todo o acampamento tinha ignorado seus ovos com bacon e só tinha olhos para observar o recém-descoberto padrão cerebral de Kylie. Ou pelo menos tinham feito isso até Della, que Deus abençoasse seu coração frio, tentasse ajudar.
A vampira tinha saltado quase dois metros no ar, caindo com um grande baque sobre a mesa, e seus tênis pretos aterrissaram sobre as bandejas de comida de vários campistas. Então, preocupada com a amiga, Della anunciou que Kylie tinha acabado de soltar uma praga e qualquer um que ficasse encarando a sua testa seria transformado num ganso flatulento.
Era, naturalmente, uma mentira deslavada. Desde que Kylie tinha feito o peso de papel voar pelos ares, no escritório de Holiday, ela estava superconsciente de que não devia mexer seu dedo mindinho. Não era uma tarefa fácil quando se tentava comer ovos fritos moles. No entanto, os seus dedos mindinhos ficariam imóveis até que ela descobrisse por que estava com padrão de bruxa.
Kylie parou na frente do escritório e pensou em entrar e perguntar a Holiday se ela já havia entrado em contato com seu padrasto. Os dois tinham deixado mensagens no celular, mas não tinham conseguido se falar. Kylie também queria verificar se Burnett tinha tido notícias de Malcolm Summers, seu avô verdadeiro.
Ele tinha dito a Burnett que estaria no acampamento no dia seguinte, mas quais eram as chances de que isso acontecesse agora, se seu telefone estava desligado e ele tinha sumido da face da Terra? Kylie suspeitava que era por causa da ligação de Burnett com a UPF. Então, mais uma vez, talvez ele não se importasse com ela. Ele mal conhecia o próprio filho, pai de Kylie.
Esse pensamento a incomodou até que ela percebeu que não fazia sentido. Se fosse verdade, por que ele e a tia tinham ido ao acampamento fingindo ser pais adotivos de seu pai? O fato de terem se disfarçado de humanos reforçava a hipótese de que o avô não confiava em alguém de Shadow Falls. E esse alguém tinha de ser Burnett, por causa de suas conexões com a UPF.
— Você não ama Della? — Miranda perguntou. — Ela é um pé no saco, mas quando se trata de nos proteger vai até as últimas consequências. — A bruxinha riu. — Aposto que ela pisou numas seis bandejas de café da manhã hoje no refeitório.
— Eu sei. Ela é demais. Mesmo quando seus planos não dão muito certo.
— Fala sério... Um ganso flatulento? Onde ela arranja essas ideias?
— Não sei — murmurou Kylie. Pra dizer a verdade, ela nem sabia direito o que significava “flatulento”. De qualquer maneira, sentindo-se sobrecarregada, Kylie decidiu considerar aquela uma experiência de aprendizado. Ela não só tinha uma palavra para olhar no dicionário, mas tinha aprendido outra importante lição: que ser encarada por todo mundo não era pior do que ver as pessoas se recusando a olhar para você. Não, nem uma única pessoa tinha arriscado olhar para ela depois do aviso de Della. A flatulência devia ser mesmo um horror.
— Isso é demais! Você é uma bruxa como eu! — Miranda esfregou as mãos, eufórica.
Kylie gostaria de ter o mesmo otimismo que a amiga.
— Eu ainda não acredito. E não me importo que até Holiday pareça acreditar — Kylie disse e depois acrescentou: — Você sabe que isso pode mudar, não é? Eu era completamente humana e agora não sou mais. — E o pai dela tinha dito que ela era um camaleão. Kylie acreditava nele.
— Mas essa é a primeira vez que você está mostrando um padrão sobrenatural de verdade, por isso provavelmente ele é real. — A bruxinha aproveitou para fazer sua dancinha da vitória, balançando os quadris. — Está empolgada com a lua?
Para agradar Miranda, Kylie abriu um sorriso amarelo, mas o comentário sobre a lua ficou se repetindo na cabeça dela, fazendo-a se lembrar de um certo lobisomem.
— Eu queria saber por que Lucas não estava no refeitório para o café da manhã — ela disse em voz alta. Não que estivesse entusiasmada para contar a ele as novidades.
— Eu não sei — disse Miranda, ainda sorrindo. Mas em seguida seu sorriso esmoreceu. — Você está preocupada com a possibilidade de ele ficar desapontado por você não ser um lobisomem?
— Não — respondeu Kylie, sem ter certeza de que estava falando toda a verdade. Ela não estava preocupada que ele ficasse desapontado; estava preocupada que ele ficasse arrasado. Seu coração ficou oprimido e ela sentiu um nó na garganta.
— Existe alguma lenda sobre a união entre lobisomens e bruxas? — Kylie perguntou.
— Não que eu saiba — disse Miranda. — Quer dizer, os lobisomens não costumam gostar de raça nenhuma, a não ser a deles. Mas não têm tanta antipatia pelas bruxas quanto têm pelos vampiros.
Kylie supôs que ela deveria agradecer por não ter se transformado num vampiro.
Mais uma vez, ela teve o pressentimento de que Lucas e sua família e alcateia só ficariam satisfeitos se ela se transformasse em lobisomem. Será que o relacionamento entre eles sobreviveria ao preconceito?
— Você quer ir para a cabana treinar alguns feitiços?
— Ah, não! Não quero causar nenhum desastre!
— Você não vai causar — garantiu Miranda. — Eu estarei com você. Não vou deixar que faça nenhuma besteira.
Certo, como se você nunca tivesse feito. As palavras se projetaram do cérebro de Kylie e aterrissaram na ponta da sua língua, mas ela conseguiu engoli-las. O fato de estar chateada não lhe dava o direito de chatear ninguém.
— Você só está nervosa. Precisa confiar em mim. — O sorriso brilhante de Miranda se alargou um pouco mais. — Nós, bruxas, temos que nos unir.
— Desculpe — disse Kylie. — Eu já consegui golpear Burnett no saco com um peso de papel. Então acho que vou tirar o resto do dia de folga.
— Sério? Você fez isso? — Miranda começou a rir, fazendo com que um grupo de lobisomens que passava por elas as olhasse com um ar de interrogação.
Kylie localizou o amigo de Lucas e o chamou:
— Will?
O adolescente de cabelos e olhos castanhos se virou com um ar contrariado. Será que era falta de educação chamar um lobisomem pelo primeiro nome? Ou a expressão dele devia-se mais a razões pessoais? Será que todos os membros da alcateia de Lucas olhariam para ela com frieza?
— Que é? — Seu tom expressava o mesmo desagrado.
Kylie afastou-se um pouco de Miranda. Na frente de Will, ela tentou não deixar que o aborrecimento do lobisomem a intimidasse.
— Lucas não estava no café da manhã. Eu queria saber se você sabe onde ele está.
Will relanceou os olhos para a floresta, como se quisesse ganhar tempo. Embora Kylie não pudesse ler mentes, era como se ele estivesse tentando pensar numa desculpa. Por quê?
— Algum problema? — ela perguntou.
Ele fez um gesto para que os outros lobisomens continuassem andando. Então esperou até que não pudessem mais ouvi-lo para começar a falar.
Aquilo devia significar que algo estava errado, não é?
— Lucas foi convocado pelo conselho — Will finalmente explicou.
— Isso é ruim? Ele está em apuros?
— Eu... não sei. Isso é entre ele e o conselho.
A notícia deixou Kylie preocupada.
— Você sabe quando ele volta?
— Não. — Will arrastou o pé pelo chão pedregoso, depois olhou para o bosque outra vez antes de fitar Kylie. — Lamento — acrescentou, e algo no tom em que falou deu a Kylie a impressão de que ele estava sendo sincero; mas por quê? Pelo que ele lamentava?
— O que você está me escondendo? — Ela deu um passo na direção dele, sentindo o coração bater forte dentro do peito. Sem aviso, o olhar de Kylie se desviou para a floresta e ela sentiu outra vez. Como se as árvores chamassem seu nome. Mas como estava preocupada com Lucas, ela se concentrou no problema diante dela e em Will. — Tem a ver comigo?
O aborrecimento de Will ficou ainda mais evidente quando sua expressão se tornou carregada.
— Eu não sei. Tenho que ir. — Dizendo isso ele se afastou. Ela ficou observando silenciosamente enquanto ele ia embora e teve o pressentimento de que havia algo por trás daquilo tudo.
Will desapareceu na trilha. O pensamento de Kylie continuou em Lucas, mas seu olhar se desviou para a floresta, onde as árvores balançavam preguiçosamente com a brisa suave. Era um sentimento estranho, como estar com muita sede diante de um lago congelado. Esse sentimento, o chamado, era até mais forte do que o chamado da cachoeira.
O que, afinal, estava se passando?
Miranda limpou a garganta e Kylie olhou para a colega de alojamento.
— Você está bem? — Miranda perguntou e se aproximou da amiga.
Kylie revirou os olhos.
— Por que todo mundo fica me perguntando isso se é tão óbvio que não estou?
— Provavelmente porque a gente tem esperança de que você esteja — Miranda respondeu, dando um tapinha no ombro de Kylie e sorrindo, solidária. — Não se preocupe. Se Lucas gostar mesmo de você, tudo vai se arranjar. Foi assim com Perry e eu.
Kylie respirou fundo. Depois soltou o ar dos pulmões. Ela recomeçou a andar, lutando contra a vontade de se embrenhar na floresta e descobrir quem estava lá e por que queria chamar a atenção dela tão desesperadamente.
Elas andaram por mais cinco minutos sem falar nada. Kylie se concentrou no som rítmico dos próprios passos, o que lhe dava uma sensação de calma. Mas um grito, um grito de puro pavor, foi suficiente para mandar sua calma pelos ares.
Kylie parou tão rápido que quase tropeçou e teve que agarrar o braço de Miranda para se equilibrar. O grito tinha vindo justamente do lugar pelo qual ela se sentia atraída – o bosque. As profundezas do bosque.
— O que foi? — Miranda perguntou.
Kylie olhou para ela.
— Você não ouviu?
Miranda negou com a cabeça.
— Ouviu o quê?
Kylie deu um passo ou dois na direção da floresta e tentou identificar a voz de quem havia gritado. O som estridente dizia a Kylie que era uma mulher, mas ela não percebeu nenhuma familiaridade. Nenhuma mesmo.
Não importava. Ela sentiu o mesmo borbulhar em seu sangue, algo que sempre acontecia quando seu lado protetora entrava em ação.
Com o ar preso na garganta, tudo dentro dela dizia que alguém precisava de ajuda. Ela não teve alternativa a não ser atender ao pedido de socorro. Disparou para a floresta.
— Kylie! — gritou Miranda. — Não corra!
Um pouco antes de entrar na floresta, Kylie gritou para que Miranda fosse buscar ajuda.
E rápido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!