31 de outubro de 2016

Capítulo 11

Eles não tiveram muito tempo para pensar. Nellie tinha dobrado a esquina, correndo atrás do caminhão de reboque.
Se nós formos com ele, o Sr. Smood pode nos tirar em questão de horas, Amy pensou. Se lutarmos, seremos presos.
Mesmo enquanto pensava sobre isso, os agentes os apressavam para o banco de trás do carro preto. Amy deslizou para dar espaço para Dan.
Os dois agentes se sentaram na parte da frente do carro. Amy olhou para a porta. Não havia maçanetas. O carro partiu.
— Qual é a acusação? — Amy perguntou.
Não houve resposta.
Ela se inclinou para frente.
— Posso ligar para o meu advogado?
Não houve resposta.
Ela pegou seu celular. Sem sinal.
— Deve haver um dispositivo bloqueador no carro — Dan sussurrou.
Para onde eles estão indo? Amy se perguntou. A maioria dos escritórios federais ficava no centro. Mas para sua surpresa, eles dirigiram a oeste pelo Central Park e depois viraram para o norte em direção ao Bronx.
Ela e o Dan trocaram olhares. Algo não parecia certo.
A Avenida Amsterdam estava tranquila. Já passava da uma da manhã agora. Algumas pessoas estavam nas ruas, andando rapidamente, ombros curvados para se proteger do frio. Um grupo de jovens saía de um bar, rindo alto. Um comerciante saiu e endireitou as pilhas de papéis do lado de fora de sua loja. Parecia tão estranho ver as pessoas fazendo ações tão comuns enquanto eles iam... onde? Amy tateou a porta com os dedos, em busca de uma trava ou de uma maneira de abrir a janela. Não havia nada.
O carro serpenteou por ruas desconhecidas, fazendo várias voltas. Ele cruzou ao lado de um parque cheio de mato. Amy vislumbrou uma torre à distância. A área era deserta. O sangue de Amy gelou. Parecia incrível que eles ainda estivessem em Manhattan, e não havia uma alma-viva ao redor.
— Sugiro que, assim que eles abrirem a porta, nós corremos — Dan murmurou.
O carro diminuiu a velocidade e parou. O coração de Amy agora martelava tão forte contra suas costelas que doía. Ela agarrou o assento do carro, pronta para saltar. Os dois agentes na frente saíram.
Ambas as portas se abriram simultaneamente. Eles não tiveram chance de correr. Foram agarrados bruscamente e tirados do carro. Os braços de Amy estavam presos ao lado de seu corpo e seus pulsos mantidos juntos atrás das costas.
Eles foram forçados a andar sobre uma passarela ampla para pedestres coberta por arbustos. Passaram por uma praça de chão de tijolinhos e ela viu uma ponte em arco imponente a sua direita. Era alta e graciosa, metade aço, metade pedra. Havia faróis de carro sobre eles. Eles atravessavam o rio e a rodovia.
Ela foi escoltada através do parque. O aperto em seus pulsos era tão forte que ela quase podia sentir os ossos finos se partirem. Ela conseguia ouvir a respiração de Dan atrás dela.
Ainda não tinha visto os rostos de seus captores. Mas, quando passaram sob um poste de luz, ela avistou o perfil do agente.
Era o homem sorridente do cemitério.
O medo a gelou. Embora ela não mexesse a cabeça, seus olhos percorriam os arredores, à procura de uma possibilidade de fuga. O caminho estreito era cercado por encostas íngremes emaranhadas com a moita. Ela aguçou os ouvidos, mas tudo o que escutou foi um leve zumbido de tráfego ao longe.
Eles foram empurrados grosseiramente para uma escada íngreme. A torre se erguia acima. Através da escuridão, ela só conseguia enxergar uma placa.


Amy sentiu o suor pingar em suas costas. De repente, ela estava ciente de tudo – o frescor da brisa, a forma das folhas, o som pesado dos passos de seus captores. Ela tentou pensar em uma maneira de fugir, mas o aperto em seu pulso era impiedoso e ela não podia deixar Dan. Ele estava sendo puxado para frente tão rápido que seus pés arrastavam no chão. Sua garganta se fechou. O homem que a segurava a empurrou com força para a frente.
O caminho fazia uma curva, e ela viu a ponte como uma aparição estranha. Metade aço, metade pedra, ela se erguia a centenas de metros acima do rio Harlem e das rodovias próximas a ele. Ela sabia que era para lá que se dirigiam.
Duas enormes portas de metal negras guardavam a ponte. Elas eram uma mistura de pichações e cadeados, uma corrente grossa enrolada como trinco. Em uma placa lia-se ENTRADA PROIBIDA. Ela sentiu um alívio momentâneo, mas terminou quando o capanga usou a outra mão para tirar a corrente da porta. Ela não teve tempo de registrar o choque porque foi empurrada através e pela ponte.
Ela ouviu as portas serem trancadas atrás dela. Empurrando e puxando, os homens os forçaram a seguir em frente.
Em outras circunstâncias, ela teria notado que a vista era de tirar o fôlego. As luzes de Manhattan brilhavam na escuridão da noite. As estradas eram fitas de luz.
— Vocês podem fazer uma escolha — a voz era baixa em sua orelha. Apesar de todo o esforço, ele não ofegava. — Podem pular no rio ou na rodovia. O rio parecerá concreto de qualquer modo.
O outro bufou uma risada. Ele era baixo e musculoso, com um corte loiro raspado.
— Vê como somos é bonzinhos? Estamos deixando vocês escolherem.
Ela viu o queixo de Dan tremendo. Em seguida, ele cerrou os dentes.
— Um par de anjinhos — ele forçou.
Amy queria tanto chegar até ele, pegar sua mão.
— Sim, espertinho — o homem mais baixo segurando Dan falou. — E vocês são um par de aventureiros, fazendo baderna na ponte. Eu até consigo ver a manchete.
— Escolha, ou escolheremos por vocês — o homem segurando os pulsos de Amy sorriu ironicamente.
Amy viu o reluzir de dentes brancos e perfeitos. Ela o viu de perto, a textura de seus poros, a forma de suas sobrancelhas, seus ouvidos. Ele era alguém que ela não olharia duas vezes na rua. Alguém na fila para o café, ou esperando por um ônibus, ou levando o seu cão para um passeio. Que tipo de pessoa, ela pensou, atiraria duas crianças de uma ponte como se tudo fosse apenas mais um dia de trabalho?
Eles os arrastaram até o corrimão. O rio era um canal oleoso escuro. A faixa de luzes de carros na estrada, as luzes dos prédios baixos, o som fraco de uma buzina de carro – Amy ouviu tudo com a mesma clareza estranha. Seus dentes batiam. Ela olhou para o céu luminoso.
— Rio — ela falou.
Eles soltaram seus pulsos. Ela agarrou a mão de Dan com firmeza. Sentiu a textura de sua pele, seus dedos leves. A sensação deles fez lágrimas arderem em seus olhos. Seu irmão mais novo. Ela não podia salvá-lo, não podia protegê-lo...
Ela havia passado meses e meses correndo, treinando, levantando pesos e estudando artes marciais. E ali estavam eles, naquela ponte alta, sem ter para onde correr. Eles não pulariam sem lutar, mas ela sabia que eles perderiam. Eles seriam jogados se não pulassem. Ela preferia ser jogada. Ela preferia morrer lutando.
A grade só chegava na altura da cintura. Ela sentiu a mão de Dan, apertado a dela. Sabia que ele estava esperando que ela desse o sinal.
— Vamos, pirralhos, eu não tenho o dia todo. Escalem a grade.
A grade de metal estava molhada e fria. Amy curvou seus dedos em torno dela. Ela colocou a mão por cima da de Dan. Aguçando os ouvidos, pensou ter escutado o som de um carro. Mas vinha da  direção da passarela de pedestres.
— Vão logo! — o homem trás dela rosnou.
Ele colocou as mãos na cintura dela e a ergueu bruscamente por cima da grade. Amy sentiu o seu equilíbrio oscilar, enquanto se pendurava na grade. Pânico se espalhou por ela quando começou a tombar para frente.
— Amy! — Dan gritou.
O homem tentou arrancar as mãos dela do corrimão. Ela não tinha tempo de se virar e lutar, e estava sem equilíbrio. Amy não conseguia respirar enquanto ele a apertava pela cintura e ela chutava, tentando empurrar a grade de metal e tirar o equilíbrio dele. Era como tentar desequilibrar uma montanha.
O barulho do motor de carro se transformou de distante para perto, e de repente faróis varreram a ponte. Um caminhão corria na direção deles. Um caminhão de reboque com um jipe amarelo sendo puxado loucamente atrás dele.
Ela mal tinha registrado sua surpresa quando foi subitamente arremessada da passarela. Amy gritava enquanto o rio se aproximava rapidamente dela. Ela ouviu Dan gritando, o guincho de freios...
E alguém tinha agarrado seu tornozelo. O rosto de Dan, olhando para ela, a boca aberta, os olhos arregalados com terror. Ele estava com as duas mãos envoltas em seu tornozelo, enquanto o capanga atrás dele tinha o braço em volta do pescoço de Dan. O rosto de Dan estava roxo.
Gritando, Amy balançava no ar.
O rio negro tão abaixo. Reflexos vermelhos em sua superfície. Sua própria pulsação em seus ouvidos, rugindo...
O aperto de Dan se afrouxou. Ele estava perdendo ar, ele estava a perdendo, ela estava perdendo, eles estavam perdendo...
O arco de aço da ponte, se ela apenas pudesse... de alguma forma... agarrar aquela viga que dava sustentação à grade... O aperto de Dan se afrouxou de novo, e ela gritou quando o rio se aproximou, mas o impulso só a fez balançar um pouco.
Mais... uma... chance...
Ela tinha feito várias aulas de trapézio – um presente de aniversário de Fiske – e sua memória muscular disse a ela o que fazer: usar o balanço, estender os braços, dedos esticados, prontos para agarrar...
O barulho estridente de metal assaltou seus ouvidos, bloqueando o som de sua respiração dificultosa e rápida, e o leve ruído de tráfego. Seus dedos atingiram o cano assim que o Dan a soltou e ela foi capaz de segurar firme. O peso de seu corpo caindo quase a fez soltar o cano, mas ela se segurou. Ela agora pendia acima do rio, segurando-se com uma mão só. Seu braço parecia estar sendo arrancado do ombro.
Terror brilhou através de seus dedos. Ela ergueu seu outro braço e pegou o tubo de alumínio. Não desperdiçaria sua energia gritando. Ela mordeu o lábio e ergueu o corpo para cima, os músculos do braço tremendo com o esforço.
Ela deitou-se de barriga para baixo sobre a viga em seu estômago e foi capaz de tomar o fôlego uma vez antes de deslizar, centímetro por maldito centímetro, mais perto da ponte. As mãos dela bateram contra a borda e ela se permitiu um soluço de alívio quando se levantou para o topo da grade.
Enquanto se erguia, ela viu o Jeep preso no reboque atropelar os dois homens. Eles saíram voando. Mesmo dali, ela ouviu o estalo do crânio contra o pavimento.
As mãos de Dan estavam sob suas axilas, puxando-a para cima, e isso foi uma coisa boa, porque agora as suas pernas não estavam funcionando. O corpo de Dan estremeceu com soluços. Juntos, eles se deixaram cair na passarela. As lágrimas dele misturadas com o suor de seu rosto.
— Eu soltei você! Eu achei que você tinha caído!
— Não... Eu não caí. Eu não caí — Amy sentiu gosto de sangue em sua boca e percebeu que tinha rompido a pele em seu lábio.
Sobre o ombro de Dan, ela viu o caminhão de reboque estacionar em um ângulo estranho. Um dos capangas lutava para se levantar, balançando a cabeça para clareá-la. A cabeça de Nellie apareceu.
— ENTREM! — ela gritou.
Dan ajudou Amy ficar de pé, e eles correram. Nellie abriu a porta e eles pularam dentro da cabine do caminhão. Ela acelerou.
— O que tem no fim dessa passarela? — ela gritou.
— Eu não sei! — Amy gritou. — Mas provavelmente os mesmos portões de metal do outro lado. Eles têm uma corrente e um cadeado!
— Não, hoje eles não têm. Esse bebê foi feito como um tanque. Apertem o cinto e se segurem!
Eles aceleravam pela passarela, a agulha do velocímetro subindo cada vez mais. As duas portas de metal negro apareciam à frente. Amy sabia que elas estavam trancadas firmemente, e que eram fechadas do outro lado com uma corrente grossa de metal.
— Segurem firme!
O caminhão acertou o portão com um estrondo e Nellie continuou com o pé no pedal. O solavanco os fez voar, esticando seus cintos de segurança ao máximo.
O caminhão não foi suficiente.  O metal amassou e só abriu o portão por apenas centímetros. Eles estavam encravados no meio, presos entre eles. A corrente manteve as portas juntas.
Nellie olhou para frente.
— Bem. Isso quase funcionou. — Ela olhou para trás. — E nós estamos prestes a ter companhia.
Amy se virou e olhou para trás. Os dois homens corriam pela passarela na direção a eles.
— Saiam pela janela e subam pelo capô.  — Nellie ordenou. Nellie se contorceu para fora de sua janela aberta, espremeu-se pela abertura entre o caminhão e as portas de metal, e gritou: — Amanhã eu começo uma dieta! — enquanto descia do capô. Amy e Dan a seguiram.
Eles escorregaram pelo capô e pularam, seguros na calçada e encarando o parque  escuro e montanhoso. Com um olhar rápido para trás, viram os homens saltarem para a parte de trás do caminhão de reboque e escalarem por cima.
— Corram — Nellie ordenou um tanto desnecessariamente.
O caminho se virava para uma subida íngreme. Eles correram por um conjunto de escadas de pedra. Sem fôlego, pararam no topo, e viram abaixo os dois homens ainda correndo atrás deles, suas pernas tão poderosas e regulares quanto pistões em um motor. Os três começaram a correr novamente, cruzando trilhas. Se continuassem a subir, esperavam eventualmente chegar a uma estrada. Amy sentiu sua respiração quente e áspera em seu peito. Seus pulmões estavam desistindo. A luta para voltar à ponte tinha tirado a maior parte de sua força.
Finalmente, eles acabaram em uma rua escura e vazia. Amy quase chorou de decepção. Não havia ninguém por perto. As lojas estavam fechadas, os portões de metal trancados.
Um carro passou o sinal vermelho e dobrou na rua. Um dos homens saltou pelo o muro de pedra. Nellie correu para o meio da rua enquanto o carro se aproximava na direção dela. Ela não se moveu. Fechou os olhos.
Com um guincho dos freios, ele parou a poucos centímetros dela. Uma cabeça saiu pela janela. Amy não podia ouvir o que ele dizia, mas captou o senso geral de indignação, alarme e irritação. Ela e Dan correram em direção ao carro enquanto Nellie deslizava sobre o capô e cruzava os braços.
— Você  maluca, mulher? — O homem afroamericano de cabelos brancos berrava irritado. — Estou indo para o meu trabalho! Não me deem problemas agora!
— Eu só preciso de uma carona — Nellie disse. — Eu e meus amigos.
— Eu tenho cara de ônibus?
Os dois homens estavam na calçada agora, observando. Amy sabia que não levaria muito tempo até eles tomarem uma decisão. Com a mesma neutralidade assustadora, eles poderiam matar o homem do carro, também.
Ela correu, já pegando o dinheiro em seu cinto. Deu ao homem uma nota de cem dólares.
— Aqui está seu bilhete.
Ele olhou para o dinheiro.
— Acho que comecei uma empresa. Serviço de Carros do Ernie. Entrem.
Eles saltaram no banco de trás e Ernie partiu. Levou um minuto inteiro para os corações deles desacelerarem.
— Belo resgate. — Dan comentou. — Como você conseguiu o caminhão?
— Eles não deviam ter parado para tomar café — Nellie respondeu, e piscou.

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