4 de outubro de 2016

Capítulo 11

Já vestida e ainda lutando contra a sensação de que algo estava errado, Kylie saiu do quarto uma hora depois. Ou Miranda e Della já haviam saído ou ainda estavam dormindo. De qualquer maneira, Kylie ficou feliz por não ter de enfrentá-las. Primeiro esperava encontrar Helen, a meio fae que também tinha o dom de cura. Kylie não tinha certeza se a mensagem de que “alguém ia viver e alguém ia morrer” significava que ela poderia impedir uma morte, mas tinha que tentar. Depois queria conversar com Burnett e dizer o que sabia sobre a ausência de Holiday, embora não tivesse intenção de fazer nada pelas costas da amiga.
Antes de desligarem, ela tinha perguntado a Holiday se podia contar a Burnett sobre a conversa entre elas. Quando a líder do acampamento hesitou, Kylie perguntou como ela se sentiria se Burnett desaparecesse por causa de uma “emergência” e não explicasse por quê.
— Tudo bem — concordou Holiday.
No entanto, ela não parecia feliz com a decisão.
Alguns minutos mais tarde, Kylie estava saindo da cabana quando tropeçou e caiu em cima de um labrador preto enorme, enrodilhado no capacho da frente da porta.
— Ai, meu Deus do Céu! — Atordoada, lutou para se levantar e, na tentativa, pisou sem querer no rabo do cachorro. O cão ganiu de dor e a culpa se estampou no rosto de Kylie. — Desculpe!
Será que o animal estava ferido? Uma vez um cão machucado tinha aparecido na porta da casa de Kylie quando ela era uma criança. Sua mãe obrigara seu pai a levá-lo ao veterinário e eles acabaram tendo que sacrificá-lo.
Kylie chorou e culpou a mãe por matar o cão. Com aquela memória triste oprimindo o seu coração, Kylie se agachou.
— Desculpe — disse ao cão novamente, deixando-o cheirar sua mão antes de lhe dar um leve tapinha na cabeça. — Você está machucado? Foi atropelado por um carro ou algo assim?
— Você pisou no meu rabo, e é claro que isso machuca — disse o cão.
Kylie, ainda agachada, caiu sentada para trás e fitou, atordoada, o cão falante.
— O que foi? — perguntou o cão.
— Não faça isso!
— Fazer o quê?
— Falar!
As fagulhas agora se espalhavam no ar e a mudança na cor dos olhos revelou que era Perry. Mesmo assim ver um cachorro falante era assustador.
Ela ficou de pé e continuou a olhar feio para o animal. Sentia uma necessidade gritante de chutar alguma coisa para extravasar sua frustração, e só tinha um cão na sua frente. Um labrador preto que neste momento estava mudando de forma. Ela esperou até Perry se transformar.
— Por que, pelo amor de Deus, este seu traseiro canino está deitado na minha porta?
— Eu fiquei com medo de Miranda sair e, se soubesse que era eu, agitar seu dedo mindinho e fazer espinhas aparecerem na minha cara ou coisa assim.
— Ok. — Ela apertou os olhos. — Mas isso não explica o que você está fazendo na minha porta.
— Dãã, eu estava esperando você! — explicou ele com naturalidade. — Sou sua sombra hoje.
— Ah, droga! Me esqueci... disso. — Ela respirou fundo e tentou se conformar com o fato de ter alguém seguindo-a por todo lado como um... cachorrinho sem dono.
Perry a estudou com seus olhos dourados.
— Você está furiosa comigo, não está?
— Não — disse ela, tentando conter a frustração. — Você tem razão. Miranda teria enchido a sua cara de espinhas ou algo assim. Mas acabou de quase me matar de susto falando comigo na forma de um cachorro. — Ela colocou uma mão em cada lado da cabeça. — Isso me deixou zonza!
— Não, eu quis dizer furiosa por causa de toda a merda de ontem.
Kylie apenas olhou para ele.
— Você vai ter que ser mais específico. Porque um monte de merda aconteceu ontem.
Ele sorriu, mas o sorriso desapareceu rapidamente.
— Quero dizer, quando perdi o rastro do casal de velhos que estavam fingindo ser seus avós. — Um sincero pedido de desculpas se estampou em seus olhos. — Eu falhei.
— Não foi culpa sua.
— Foi, sim. De quem mais seria? Eu era o único que devia segui-los.
— Que tal não culparmos ninguém? — Kylie começou a andar na direção da trilha do escritório.
Ele começou a andar ao lado dela.
— Boa ideia.
Eles caminharam alguns minutos em silêncio. Kylie notou que o céu estava salpicado de nuvens, bem brancas e fofas, e tentou não pensar no casal de idosos que Perry seguira ou exatamente o que significava o fato de terem evaporado no ar.
— Você acha que eles estão mortos? — perguntou ela.
— Quem?
— O casal de velhos.
As feições de Perry enrijeceram.
— Eu realmente não sei. Nunca vi seres humanos desaparecerem daquele jeito.
Eles ficaram quietos novamente. A temperatura pela manhã ainda não tinha subido a ponto de tornar o calor incômodo, mas ela podia senti-la se elevando.
Perry lançou sua próxima pergunta.
— Você acha que Miranda vai algum dia aceitar o meu pedido de desculpas?
Kylie olhou para ele.
— Você se desculpou?!
Ele pareceu sinceramente perplexo.
— Falei com ela. É a mesma coisa.
Kylie balançou a cabeça.
— Ah, não é, não. Falar com alguém não é um pedido de desculpas, Perry. O que você fez, beijá-la daquele jeito e depois ignorá-la... Aquilo foi cruel!
Ele franziu a testa e chutou uma pedra.
— Ela beijou Kevin! Eu fiquei furioso.
— Percebi — disse Kylie, lembrando-se do momento em que tinha visto a imagem de Derek beijando Ellie. — E eu sei que dói, mas na verdade foi Kevin quem a beijou. E, mesmo assim, dois erros não fazem um acerto.
Ela o flagrou verificando seu padrão cerebral e franziu a testa. Ele não disse nada; continuou andando, mas desviou o olhar para o chão. Eles não conversaram por algum tempo e então Kylie simplesmente deixou escapar.
— Todo mundo diz que agora o meu padrão muda como o de um metamorfo. É verdade?
— É — respondeu ele. — Mas o nosso só muda quando estamos nos transformando.
Ela parou de andar e o encarou.
— Existe mais alguma coisa no meu padrão que faça com que ele se pareça com o de um metamorfo? Quer dizer, você vê algum sinal de que eu poderia ser um?
Ele sorriu.
— Você quer ser um metamorfo?
— Não. — Claro que não! — Quer dizer, não necessariamente. Eu só quero descobrir o que eu sou. — Ela mordeu o lábio e decidiu ir direto ao assunto. — Quantos anos você tinha quando começou a se transformar?
— Ah, eu era bem novo, novo demais. Cinco anos mais novo do que a maioria dos metamorfos. Eu mal tinha feito dois anos de idade. Imagine o que é ter de lidar com a birra de um metamorfo de 2 anos. Acabei com a paciência dos meus pais. E com o casamento deles também.
Kylie sentiu um leve sentimento de mágoa na voz dele.
— Eles se separaram?
— Sim.
— Sinto muito.
— Ah... Não era problema meu.
Ah, era, sim. Os olhos dele tinham até adquirido um solitário tom de castanho.
— Com quem você foi morar? Com a sua mãe ou com o seu pai?
Perry ficou calado por um minuto.
— Com nenhum dos dois.
Ela hesitou em perguntar, mas de algum modo pressentiu que ele queria que ela perguntasse.
— Por quê?
— Acho que é porque eu era uma peste...
— Para onde você foi?
— A UPF tem um programa de adoção. Sabe, para crianças que não têm para onde ir. Eu ficava um pouco em cada lugar...
Kylie sentiu que compreendia Perry melhor do que nunca. E ela quase o perdoou por ser o engraçadinho que às vezes tentava ser.
— Era muito ruim? — ela perguntou, percebendo de repente que tinha perdido todo o direito de se lamentar sobre o quanto a sua própria vida tinha sido ruim.
— Não — disse ele. — Sou um metamorfo, aprendi a me adaptar... à maioria dos lugares. Claro, eu não era convidado a voltar em alguns deles. — Ele riu, mas, como Kylie já havia suspeitado, Perry escondia muita dor por trás do seu senso de humor.
Ela também tinha a sensação de que havia muita coisa que ele simplesmente não dizia. Não que ela o culpasse. E caramba! Nem conseguia imaginar como ele devia ter se sentido passando de lar em lar.
— Sabe — disse ele, como se de repente quisesse mudar de assunto — alguns metamorfos só começam a se transformar quando estão na adolescência. Talvez você seja um deles.
— Talvez. Mas eu seria meio-sangue. Os metamorfos meio-sangue têm dons diferentes? Como fazer curas ou algo assim?
— Não que eu saiba. Tenho uns primos meio-sangue que têm limitações; não é em tudo que podem se transformar. Um deles só pode se transformar em pássaro. Eu costumava me transformar num gato e persegui-lo por todo lado, e uma vez...
— Por favor, não me diga que você devorou o seu primo! — espantou-se Kylie.
— Só torturei um pouco... — disse ele com um sorriso. — Quando ele voltava a se transformar em gente, já estava bem outra vez. — Perry suspirou e pareceu perdido em pensamentos. — Quer saber? Eu provavelmente devia tentar encontrar os meus primos.
Kylie se perguntou se ele já teria pensado em encontrar os pais, mas, sem querer forçar demais a barra, ficou quieta.
— Ah, claro! — exclamou ela, sorrindo e tentando manter a conversa leve. — Aposto que eles iam adorar ver você de novo!
Poucos minutos depois eles chegaram ao final da trilha, onde ficavam o refeitório e o escritório. Ela olhou em volta para ver se localizava Helen, a tímida meio fae que tinha ajudado Kylie a verificar se tinha um tumor no cérebro, mas não viu a garota em lugar nenhum.
Como Helen também tinha poder de cura, Kylie achava que ela seria a pessoa mais indicada para esclarecer suas dúvidas sobre esse dom. Ela queria fazer perguntas do tipo “Você já trouxe alguém de volta à vida?”. Mas Helen não era uma das adolescentes que conversavam na frente do refeitório.
Nesse momento, Kylie viu Burnett entrar no escritório e se lembrou de que também tinha algumas coisas para falar com ele. Ela se virou para Perry.
— Eu preciso conversar com Burnett um instante. Vejo você daqui a...
— Não, não vai me ver daqui a pouco, não — disse Perry. — Aonde você for, eu vou. Não sei nem se você pode ir ao banheiro sozinha hoje. — Ele sorriu. — E eu tenho carta branca de Burnett para me transformar num tamanduá-bandeira gigante, chutar traseiros e perguntar depois, caso alguém tente assumir o meu lugar.
Kylie revirou os olhos, sabendo que Burnett tinha falado sobre Lucas. Pensando em Lucas, ela olhou em volta mais uma vez, mas ele também não estava entre os outros campistas.
Olhando para trás, na direção de Perry, ela acrescentou:
— Tudo bem, mas eu vou falar com Burnett. E não acho que você tenha que ficar lá dentro junto conosco.
Ele encolheu os ombros.
— Aonde você for, eu vou. Até Burnett me dispensar.
— Mas que inferno! Então, anda.


O café da manhã tinha começado meio estranho: ela entrando no escritório de Holiday, Perry nos seus calcanhares e Burnett sentado à mesa de Holiday pela segunda vez. Graças a Deus, Burnett dispensou Perry para que conversassem. Kylie perguntou se havia alguma notícia sobre o casal de velhinhos impostores e ele disse que nada tinha sido descoberto ainda.
Ela quase contou sobre o sonho com Ruivo, mas no último momento decidiu que queria ser capaz de lidar sozinha com pelo menos uma coisa. E era isso. Se algo assim acontecesse de novo, ela ia falar com Holiday, mas por enquanto enfrentaria sozinha essa missão. Por mais louco que parecesse, parecia o melhor a fazer. Queria acreditar que podia cuidar de si mesma.
Quando ela disse a Burnett que a tia de Holiday tinha falecido, ele ficou aparentemente chocado e... algo mais. Levou um segundo, mas ela reconheceu a emoção em seus olhos: mágoa.
— Por que ela não me contou? — perguntou ele.
— Tenho certeza de que ela só está lidando com a situação do seu próprio modo. — Kylie tentou assegurar, mas percebeu que suas tentativas foram inúteis. Quando se virou para sair, sem saber muito bem por que, ela olhou para trás e disse: — Seja paciente com ela. Vai valer a pena.
No refeitório, ainda com Perry em seus calcanhares, Kylie olhou para seu café da manhã composto de bacon, ovos e torrada. Para variar, os ovos não estavam moles demais e o bacon não estava cru ou queimado. Mas ela tinha dado apenas algumas garfadas, quando percebeu com pesar que todo mundo estava olhando para a sua testa novamente. Perdeu o apetite instantaneamente.
Uma sinfonia de ruídos – pessoas tagarelando, garfos retinindo e bandejas sendo despejadas de qualquer jeito nas mesas – retumbava no amplo salão. Tanto Miranda quanto Della estavam ausentes, e Kylie não tinha localizado Helen nem Lucas.
Infelizmente, ela avistara Derek e Ellie.
Eles estavam sentados juntos à mesa, de costas para ela. E era natural que Derek se sentasse com Ellie, considerando que era nova no acampamento.
Na noite anterior, depois de fitar o teto por umas boas duas horas, Kylie se resignara a não odiar Ellie ou Derek, mas aceitar as coisas e seguir em frente – mesmo que isso significasse vê-los juntos como um casal.
Kylie também se propusera a cumprir a promessa que tinha feito a Della e dar uma chance a Lucas. No entanto, mesmo depois de ter decidido tudo isso, ver Derek e Ellie sussurrando um para o outro doía tanto quanto ser picada entre os dedos por uma formiga saúva.
Tempo, Kylie disse a si mesma. Com o tempo, não doeria mais.
— Preciso apertar o botão “avançar” — ela murmurou.
— Apertar o quê? — Perry perguntou.
— Nada — disse Kylie. — Só estou falando sozinha. — Ela olhou para cima e flagrou mais três ou quatro pessoas contraindo as sobrancelhas para ela. Ela se virou e olhou para Perry. — Como está agora?
— Como está o quê?
— Meu padrão maldito... Todo mundo está olhando outra vez.
Perry se remexeu na cadeira.
— Ai, caramba! Está passando por aquela mudança de novo. Só que mais rápido.
Kylie fechou os olhos.
— Estou tão cansada de ser a diversão de todo mundo, de ser a aberração de Shadow Falls!
— Você não é uma aberração — discordou Perry, parecendo preocupado. — Você só é diferente. — Ele deu uma cutucada de leve com o cotovelo em Kylie. — Mas todo mundo gosta de você de qualquer maneira.
Ela abriu os olhos e murmurou:
— Obrigada.
— Vai comer esse pedaço de bacon? — Perry perguntou.
— Não. — Ela empurrou a bandeja para ele. Neste instante viu Miranda aproximando-se com a bandeja de café nas mãos. Quando estava prestes a se sentar ao lado de Kylie, estancou ao se deparar com Perry.
Ela ficou paralisada no lugar.
— O que ele está fazendo aqui? — perguntou para a amiga, como se o metamorfo não pudesse ouvi-la.
— Tomando café da manhã — Kylie respondeu, esperando impedir Perry de vir com alguma gracinha. Ao vê-lo abrir a boca, ela lhe deu um bom pontapé por debaixo da mesa. Ele se encolheu, mas fechou a boca.
— Bem, então vou me juntar às minhas irmãs bruxas hoje e deixar que aproveitem a companhia um do outro. — Miranda se virou para ir embora.
Kylie pegou a amiga pelo braço, obrigando-a fazer uma parada brusca que quase fez seus ovos voarem da bandeja.
— Sente-se. Por favor — Kylie implorou. Quando Miranda parecia prestes a negar, ela acrescentou: — Eu estou precisando de apoio. — Ela voltou os olhos para Derek e Ellie. E era verdade, ela precisava de apoio, mas não poderia negar que também queria fazer Miranda superar sua implicância com Perry. Ele realmente não era mau sujeito.
Miranda cedeu e desabou no assento do banco.
— Obrigada — murmurou Kylie e então perguntou: — Onde está Della?
— Fora, bebendo sangue com outros vampiros — Miranda respondeu ao mesmo tempo em que enfiava um pedaço de torrada na boca.
Kylie pegou seu leite e tomou um longo gole, enquanto procurava mentalmente um tema de conversa que faria Miranda e Perry falarem.
— Então... — disse Kylie, largando a caixa de leite meio vazia sobre a mesa. — Será que alguém sabe se Holiday já contratou professores para o ano letivo?
Perry, como se percebesse a intenção de Kylie, aproveitou a deixa.
— Quando eu estava no escritório ontem à noite com Burnett, ele recebeu o telefonema de um sujeito fae que Holiday supostamente contratou. Acho que ele vai vir pra cá e se mudar pra uma cabana na próxima semana.
Miranda, como se também percebesse o que a amiga estava tramando, começou a encher a boca de ovos.
Kylie e Perry conversaram alguns minutos sobre o professor fae e como seria estranho frequentar aulas de verdade no acampamento quando chegasse o outono. Miranda continuou a enfiar comida na boca, como se precisasse de uma desculpa para não falar.
Aceitando que o seu último assunto tinha se revelado um fracasso, Kylie estendeu a mão para pegar seu leite novamente e voltou a pensar em outro tema.
Finalmente, baixando a caixa de leite, olhou para Miranda e disse a primeira coisa que lhe veio à mente.
— Você sabia que Perry quase devorou o primo quando tinha 2 anos de idade?

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Néh!nesse momento me identifico com Kylie e Leo valdez.

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    2. Não se esqueça do Harry, vela eterna kkkkkk

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