8 de outubro de 2016

Capítulo 10

Kylie estava deitada de costas, em meio à escuridão. Uma escuridão profunda e tenebrosa. É apenas uma visão. Não é real. Não é real.
Algo, dos dois lados do seu corpo, apertava com força os seus antebraços. Parecia real. Ela tentou se mover, mas não conseguiu. O medo cresceu dentro dela. Ela sentiu um gosto amargo na língua.
Desorientada, tentou encontrar um sentido para tudo aquilo. Ao respirar, sentiu cheiro de terra. Terra molhada de chuva. Ela não estava sob a cama. Onde estava? Uma resposta lhe ocorreu e ela desejou que não tivesse. Ela estava enterrada. Outro grito ficou preso na garganta, mas a lógica lhe disse que isso não era real. Apenas uma visão.
Mas de quem? E do quê? Holiday?
O som da própria respiração deixando seus lábios parecia muito alto. Imediatamente, Kylie percebeu que não estava sozinha. Não era o barulho de outra pessoa respirando. Ninguém respirava, além dela. No entanto, o aperto em seu pulso não tinha afrouxado. Quem a havia arrastado até ali embaixo não tinha partido, alguém ainda se agarrava ao seu pulso, como se a vida dessa pessoa dependesse disso. Infelizmente, Kylie sabia que era tarde demais. Apenas ela estava viva.
— Por que estou aqui? — Ela tentou se mover novamente, mas sentiu que algo a impedia.
Nenhuma resposta.
Piscando, sua visão lentamente se ajustou à escuridão. Ela viu uma tábua de madeira velha a poucos centímetros do seu rosto.
Tentou libertar seu pulso do aperto, mas ele só aumentou.
— Ah, merda. O que vocês fizeram? — Uma voz familiar ecoou na escuridão.
Holiday.
— Eu estou aqui — Kylie chamou. Só que dessa vez as palavras não saíram da sua boca. Ela não podia falar.
— Cara M. disse que podia nos ajudar a sair daqui — outra voz feminina respondeu.
Soaram passos acima. O assoalho de madeira rangeu. Terra e sujeira caíram sobre o rosto de Kylie. Ela piscou, para tirar a terra dos olhos, e tentou segurar a respiração para não engasgar.
— Ele está indo embora — alguém sussurrou.
Kylie piscou e, quando abriu os olhos, tudo tinha mudado. Ela estava numa velha cabana em ruínas, olhando para tábuas de madeira sob os pés. Então, como se o chão se desvanecesse, Kylie viu o que estava escondido embaixo.
Três corpos em decomposição, posicionados lado a lado. Um grito saiu dos lábios de Kylie. Ela tentou correr, mas seus pés pareciam congelados. Tentou desviar o olhar, mas não conseguiu.
Um dos cadáveres era de uma mulher com o cabelo escuro, provavelmente com vinte e poucos anos, vestindo uma camisola. A segunda era de uma loira em torno da mesma idade, vestindo um uniforme de garçonete com um crachá preso nele onde se lia Cara M. E o terceiro... Oh, Deus! Era Holiday.
Lágrimas encheram os olhos de Kylie. Ela gritou mais alto quando percebeu que estava mais uma vez deitada de costas. A escuridão a engolia. O pânico aumentou quando sentiu algo se movendo ao seu lado. A adrenalina jorrava em suas veias. Ela pulou e bateu a cabeça com tanta força que sacudiu o seu cérebro. Caiu de costas novamente.
— Onde diabos você está? — Uma voz ecoou em torno dela. Uma voz familiar. A voz de Della.
— Aqui! — A luz de repente ofuscou a visão de Kylie.
— O que você está fazendo aí?
Kylie engasgou, engoliu seu grito e percebeu que estava deitada no chão do seu quarto com Socks tremendo ao seu lado.
— Você é mesmo muito estranha... — Della, parecendo sonolenta e irritada, estava em pé sobre Kylie, segurando a cama acima da cabeça. Sim, a cama inteira – cama e colchão. Segurando-a como se ela não passasse de um pedaço de espuma.
Socks soltou um miado fraco.
Com receio de que Della deixasse a cama cair, Kylie pegou no colo o gambazinho e ficou de pé. Seus joelhos vacilaram, o gambá tremia em seus braços. Ela olhou para baixo, rezando para ver o chão do quarto e não uma cova.
Nenhuma sepultura. Nenhuma garota morta. Nem Holiday morta.
Kylie inspirou. Por mais que quisesse afastar a horrível memória do seu cérebro, ela não podia. Algo na visão poderia ajudá-la. Ajudá-la a descobrir como poderia impedir que isso acontecesse.
Ajudá-la a salvar a vida de Holiday.
— Mas que diabos está acontecendo? — Della perguntou novamente. — Ou será que eu nem vou querer saber?
— Desculpe. Foi só um sonho ruim. — A voz de Kylie tremeu.
Della deixou a cama cair. Ela bateu no chão com um ruído estrondoso.
— Há um fantasma aqui? — Della olhou ao redor, obviamente não acreditando na desculpa de Kylie sobre o sonho ruim.
Kylie levou um segundo para sentir a temperatura.
— Não — ela disse, honestamente.
Della estudou-a, sua expressão se suavizando.
— Você está bem?
Kylie assentiu e viu a carranca de Della voltar.
— E você não vai explicar isso? — Della perguntou.
Kylie balançou a cabeça. Della de fato não ia querer saber.
— Então boa noite! — A vampirinha disparou para fora do quarto, deixando-o tão rapidamente quanto tinha aparecido.
Kylie encheu os pulmões de ar. Depois expirou. Tentou acalmar o coração acelerado.
Ela tentou ver o lado bom da visão – o lado bom de estar numa cova com três corpos em decomposição.
Não era uma tarefa fácil.
No entanto, pelo menos tinha algo para investigar. Mas será que isso a ajudaria? Oh, Deus, tinha que ajudar, não é?
Ela puxou Socks mais para perto, oferecendo conforto e ao mesmo tempo buscando-o, enquanto abraçava alguém tão assustado quanto ela. Poderia ter funcionado se uma batida forte em sua janela não tivesse feito seu coração quase saltar pela boca. Kylie deu um pulo e quase foi parar do outro lado do quarto.
Outro grito se formou em seu peito, mas antes que ela o libertasse, viu Miranda espiando pela janela, a palma da mão pressionada contra o vidro.
— Você vem? — ela gritou. — Nós vamos perder a primeira luz da manhã.
O frio se espalhou pelo quarto. E o espírito apareceu. Kylie olhou para o fantasma, que parecia exatamente como Holiday.
— Eu sinto muito. Ela não devia ter feito aquilo.
Kylie tentou não imaginar Holiday, ou que Deus a ajudasse, a sósia de Holiday, com a aparência que ela tinha na sepultura.
— Está tudo bem — disse Kylie, com sinceridade. Ela podia lidar com aquilo. Se conversar com pessoas mortas pouparia a vida de Holiday, ela faria isso. Droga, até dançava com os mortos se isso significasse salvar Holiday.
— Eu preciso saber o que aconteceu — disse Kylie. — Você precisa me mostrar, para que eu possa saber como ajudar você.
— Mostrar o quê? — Miranda perguntou.
Kylie ignorou Miranda.
O espírito balançou a cabeça.
— Eu te disse, não acho que seja a mim que você tem que ajudar.
E não é que, igualzinha a Holiday, Kylie pensou, essa também teimava em não aceitar ajuda? Mesmo na forma de um fantasma?
— A única ajuda que eu preciso é que você traga Socks aqui para fora — gritou Miranda da janela de novo.
— Você deveria ir — Holiday disse. — Esse pequenino gostaria de ser um gato novamente.
Kylie olhou para Miranda e depois voltou a fitar o espírito.
— Como você sabe o que ele quer?
— É um dos meus dons, eu posso me comunicar com os animais.
— Não, você não pode — disse Kylie. Ou melhor, Holiday não podia se comunicar com os animais. Será que seres sobrenaturais adquirem dons diferentes depois que morrem? Kylie achava que não. Isso significava que ela não era Holiday? E se não era, quem era então?
— Tudo bem, você quer que ele continue sendo um gambá — disse Miranda com irritação na voz.
Socks escolheu esse momento para colocar a pata sobre os olhos e Kylie gemeu.
Alguns minutos depois, Kylie saiu da cabana com Socks aconchegado em seu peito. Ainda estava escuro e silencioso, como se o mundo não tivesse acordado ainda. Ao contrário dela, o mundo lá fora não despertava com bruxas ou visões de pessoas mortas.
O ar da manhã ainda estava frio, um dos primeiros sinais de que o verão estava acabando e o outono logo iria substituí-lo.
Quando deu um passo para a frente, ela sentiu. O chamado. Seu olhar se desviou para a borda da floresta. O coração disparou e a tentação de se aproximar sussurrou seu nome como um velho amigo.
Kylie deu mais um passo, quase atendendo ao anseio inexplicável, mas a voz de Miranda a puxou de volta.
— Por que demorou tanto?
— Eu tive que tirá-lo de debaixo da cama — disse Kylie, sem ânimo para reverter feitiços, mas lembrou-se da insegurança na voz de Miranda quando tinha contado que as outras bruxas a provocavam por causa disso. Como a primeira luz da manhã durava apenas alguns minutos, era um preço pequeno a pagar pela felicidade da amiga. Então Kylie sentou-se e recapitulou o que tinha descoberto no sonho. Alguma coisa nele tinha que ajudá-la a entender as visões.
Miranda, segurando a bolsinha preta onde carregava as suas ervas mágicas, levou Kylie até os fundos da cabana.
— Eu não judiei dele. Não sei por que ele não gosta de mim.
— Eu sei. — Depois de um mês sendo perseguido por Miranda, na tentativa de reverter o feitiço, Socks tinha começado a olhá-la com desconfiança. Kylie também tinha começado a olhá-la assim.
Miranda olhou para o céu e viu os primeiros raios do sol.
— Está na hora. — Ela ensaiou alguns passinhos de comemoração. — Coloque Socks no chão.
Kylie fez um carinho no pelo preto e branco de Socks. Por mais absurdo que parecesse, ela sentiria falta do seu lado gambá. Apreciando pela última vez a visão do animalzinho na pele de gambá, Kylie o colocou no chão e se afastou, dando espaço para Miranda fazer a sua magia. Naturalmente, Socks começou a seguir Kylie, sem querer ficar para trás.
— Fique aí! — Kylie mandou, fazendo um sinal para Miranda começar.
Miranda deu início ao encantamento. Algo sobre a luz e o verdadeiro eu. Socks começou a andar novamente. Miranda acenou para Kylie pegá-lo. Kylie falou suavemente com o gambá e ele ficou parado. Então, estendendo a mão na direção da bolsa, Miranda tirou dali uma pitada de uma coisa estranha parecida com uma erva. Ela a jogou no ar sobre Socks; alguns fragmentos estalaram e chiaram enquanto caíam em torno dele.
Kylie prendeu a respiração, esperando ver seu amado animal de estimação se transformar num felino. Mas nada. O animalzinho com uma listra branca nas costas permaneceu em sua forma de gambá.
Miranda franziu o cenho para o céu e começou a entoar o feitiço novamente. Espalhou mais ervas no ar. Dessa vez, Socks levantou-se sobre as perninhas peludas de trás e golpeou as faíscas com as patas minúsculas.
No entanto, mesmo depois de todas aquelas ervas chiando, ele continuou sendo o mesmo gambá bicolor. Miranda olhou para o céu, desesperada, e começou a repetir o encantamento.
Levantou a bolsinha preta sobre a cabeça e apenas sacudiu-a sobre o animal.
Socks viu a alça da bolsa pendurada e pulou no ar para apanhá-la. Quando Miranda puxou-a para trás, o gambazinho começou a se afastar.
— Pare já! — A frustração de Miranda era alta e clara.
Kylie ajoelhou-se e acenou para que o animal voltasse. Seus olhos negros e redondos olhavam para ela, confusos. A compaixão pelo animal encheu seu peito. Miranda começou a entoar o feitiço mais uma vez.
Socks tentou fugir novamente.
Miranda insistiu para que Kylie o segurasse de novo.
Ela continuou por mais vários minutos até que Kylie ergueu a mão, interrompendo a amiga.
— Isso não vai funcionar.
— Tem que funcionar! — disse Miranda. — Eu só tenho mais alguns minutos antes de o sol nascer. Só faça com que ele fique quieto.
Como se Socks entendesse, ele correu e passou entre as pernas de Miranda.
— Não! — disse Miranda.
Kylie pegou o animal confuso.
— Eu acho que para ele já chega — Kylie disse no seu tom de voz mais simpático.
— Mas ele ainda é um gambá. Coloque-o no chão, por favor. Eu posso fazer isso. Tenho que fazer isso.
Kylie entendia a necessidade de Miranda de provar para si mesma a sua competência, mas...
— Não dá pra tentar novamente amanhã?
— Só mais uma vez. É rapidinho, tá? Tudo o que ele tem de fazer é ficar parado.
Cedendo, Kylie colocou Socks no chão e Miranda voltou a recitar o feitiço.
Quando Miranda parou e viu que Socks ainda era um gambá, Kylie lançou para a amiga um olhar de condolências.
— Tudo bem. Vamos tentar outra hora — Kylie disse, começando a perder a paciência.
— Espere. Eu me esqueci de abençoar a luz e o vento. — Miranda fez uma pausa enquanto se recordava das palavras.
Kylie estendeu a mão, com o mindinho para cima, e murmurou:
— Por que não pode simplesmente mexer o dedo mindinho na direção dele e dizer “volte a ser um gato”?
Os fragmentos de ervas deixados no chão se levantaram no ar. Estalaram e emitiram um chiado em torno do pequeno gambá e então começaram a rodopiar em torno dele como um minúsculo tornado. Socks, de pé sobre as patas traseiras, dava patadas nos pedacinhos de ervas.
E então, num passe de mágica – bem, era de fato magia – o gambá desapareceu e Socks, o gato, surgiu em seu lugar.
Miranda olhou boquiaberta para Kylie.
— Como você fez isso?
O olhar de Kylie estava preso no gatinho, que ainda golpeava com a pata as ervas flutuando em torno dele.
— Eu não fiz isso! — Ela olhou para Miranda.
— Minha nossa! — Miranda gritou.
Alguém tinha passado por elas como um borrão.
— Que diabos é isso agora? — Della parou diante de Miranda, derrapando.
— Ela é uma bruxa! — Miranda apontou para Kylie. — Você é uma bruxa!
Kylie balançou a cabeça. Ela era um camaleão.
— Eu não fiz isso. Foi você. Só que... foi uma reação retardada.
— Não. Você é uma bruxa. Agora, você é uma bruxa.
Della revirou os olhos.
— Mas que droga está acontecendo aqui?
— Eu estou dizendo, eu não fiz isso — Kylie insistiu.
Ela não tinha feito mesmo. Ou tinha?
Della olhou para Kylie.
— Caraca! — exclamou Della.
Miranda deu alguns tapinhas na testa.
— O seu padrão diz que você é uma bruxa.
— Qual o problema? — Uma voz masculina soou atrás de Kylie.
Kylie se virou. Derek, parecendo despenteado como se tivesse saído da cama às pressas, chegou correndo.
— Ela é uma bruxa! — gritou Miranda.
— Não sou! — discordou Kylie. Girando, ela olhou para Socks, ainda em sua forma felina. Seu pai tinha dito que ela era um camaleão. Seu pai devia saber, não é? Claro, a princípio ela não queria ser um lagarto, mas agora tinha aceitado. Além disso, por que seu pai mentiria?
Com o canto do olho, ela viu Derek movendo-se para a frente dela. Sua testa se franziu.
— Não é verdade, é? — Kylie esperou que Derek negasse.
Ela se encheu de dúvida. Daniel teria mentido? Será que sua avó tinha se confundido quando disse ao pai de Kylie que eram camaleões? Mas como Burnett já tinha ouvido falar de camaleões se eles não existiam? Por que a vida tinha que ser tão difícil?
— Me diga já! — Kylie insistiu. — Eu sou uma bruxa?

4 comentários:

  1. Ah vai caça coquinho até eu já entendi q ela pode ser tudo e ta fazendo cú doce ai sff.

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    1. Pois é, uma coisa tão simples, está na cara, vontade de chegar e sacudir ela

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  2. Oi?
    Vocês são as autoras agora ?

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