14 de outubro de 2016

Capítulo 10

Kylie tinha ouvido a expressão “o bicho vai pegar”, num filme em que condenados caminhavam para a execução e, no trajeto até a cabana de Hayden, ela de fato caminhava como um condenado rumo à cadeira elétrica. Burnett não falou. Ela mal o ouvia respirar. E ainda assim sua postura rígida ao lado dela revelava sua impaciência. Sua lealdade para com o avô e Burnett dilacerava o seu coração como num cabo de guerra.
— Podemos falar com Holiday primeiro? — perguntou Kylie, sabendo que talvez a fae pudesse acalmar Burnett e fazê-lo entender.
— Não. — A resposta de Burnett soou áspera. — Eu vou descobrir a verdade.
Mas a que preço, Kylie pensava. Será que Hayden perceberia que Kylie não o delatara? Ela esperava que sim. Mas será que o avô ia pensar que ela quebrara a sua promessa? Ela achava que sim.
Como o homem andando tão bruscamente ao seu lado, seu avô também não era tolerante.
Quando chegaram à curva perto da cabana de Hayden, Kylie procurou desesperadamente uma saída.
— Temos que acordá-lo? Não podemos simplesmente...
— Ele já está acordado — Burnett disse com severidade. — Está se revirando na cama, preocupado com alguma coisa. Ele estava esperando você esta manhã? Você já está atrasada?
— Não — ela murmurou.
Eles continuaram avançando até chegar aos degraus da varanda da cabana e de repente Kylie percebeu uma coisa. A raiva agitou suas entranhas e ela agarrou Burnett pelo cotovelo.
— Tudo bem, você pode ouvir tudo!
— E por que está me dizendo isso agora? — perguntou ele, obviamente notando a sua nova disposição. E, sim, ficar com raiva fez com que ela se sentisse um pouco menos culpada por ter sido pega escondendo coisas dele.
— Mais cedo, quando me deixou na minha cabana, você sabia que Lucas estava lá, não sabia? Você sabia que ele estava esperando para falar comigo!
Um vinco se formou na testa de Burnett, demonstrando culpa.
— Ele me implorou para lhe dar dez minutos.
— E você deu. Achou que a escolha era sua — Kylie acusou.
Burnett franziu a testa, mas a culpa não desapareceu completamente dos seus olhos.
— Se bem me lembro, você também colocou o seu dedinho no meu relacionamento amoroso com Holiday.
— Nenhum de vocês dois fugiu e ficou noivo de outra pessoa!
Burnett não vacilou, mas pela expressão dele viu que o argumento provocou um peso na consciência do vampiro.
— Todo mundo merece a chance de se explicar — ele justificou, sem muita convicção.
— Não há explicação para o que ele fez — ela contra-atacou.
Burnett suspirou e beliscou a parte superior do nariz.
— Ok, admito que eu possa ter errado permitindo esse privilégio a ele. E já adianto que não vou interferir mais. E agora, talvez você e Hayden possam se corrigir também e explicar o que os dois estão escondendo de mim!
Ele arqueou uma sobrancelha para Kylie, levantou o punho e bateu na porta de Hayden com tanta força que sacudiu as dobradiças.
Depois de descarregar todo o seu mau humor na porta, Burnett desviou os olhos para Kylie novamente. Ela percebeu a sua mente agitada, à procura de respostas. Era a primeira vez que ela tinha a sensação de que Burnett não sabia tanto quanto ela temia.
— Fique avisada — ameaçou o vampiro —, se eu descobrir que está rolando um romance aqui, vou mandá-lo de volta para o lugar de onde veio... mas aos pedaços.
O queixo de Kylie caiu.
— Um romance? Ah, pelo amor de Deus, ele é muito velho pra mim. Tão velho quanto você.
A testa de Burnett se franziu.
— É por isso mesmo que estou avisando... — Sua carranca se aprofundou. — Não que eu seja tão velho assim.
Hayden abriu a porta e seu olhar oscilou entre Burnett e Kylie.
Burnett rosnou. Depois o vampiro cruzou a soleira da porta como se fosse o maioral ali. O que de fato ele era.
Hayden não ficou feliz com a entrada triunfal de Burnett, mas não tentou detê-lo. Ele recuou, permitindo que o vampiro entrasse.
Kylie engoliu em seco, sem saber como aquela situação ia acabar. Burnett ia ficar furioso e, assim que o avô soubesse que Burnett tinha descoberto o disfarce de Hayden, ele ficaria furioso também.
— Ok, vamos deixar uma coisa bem clara — disse Burnett, iniciando a conversa. — Ninguém vai deixar esta cabana até que eu tenha respostas. E não me importo de ter que usar a força para obtê-las. — Ele olhou diretamente para Hayden. — E já que eu não bato em garotas, sugiro que você comece a se explicar.
Hayden inclinou a cabeça de lado.
— Explicar o quê? — perguntou, não se mostrando nem um pouco intimidado.
Kylie teve que admirar Hayden por isso, também. Ela adorava Burnett e sabia que ele não era injusto, mas ainda sentia um aperto na boca do estômago. O vampiro era um apreciador da arte da intimidação. E era um mestre nessa arte.
— Qual é a ligação entre vocês dois? — perguntou Burnett.
— Ligação? — perguntou Hayden.
— No início, Kylie tinha certeza de que você estava por trás da morte das garotas, e de repente você se tornou um aliado. Você mentiu quando me disse que ela pediu para ser deixada no cemitério.
— Eu a deixei no cemitério.
— Então você mentiu sobre ela tê-lo procurado. Eu conheço Kylie, e ela não teria procurado você para pedir ajuda sem um motivo, sem uma conexão de algum tipo.
— Sou professor dela — respondeu Hayden. — Pensei que ajudar um aluno em situação difícil era um fator positivo aqui.
— E eu pensei que você fosse inteligente o bastante para saber quando falar a verdade! — Os olhos de Burnett soltavam centelhas de raiva. — A única razão pela qual eu ainda não chutei você daqui é que primeiro eu quero respostas. Portanto, comece a falar!
Kylie, com medo de que a situação saísse do controle, colocou-se entre os dois homens.
— Será que você pode nos deixar sozinhos um instante?
A expressão de Burnett endureceu.
— Por favor — disse Kylie. — Eu... acho que vai ajudar a esclarecer isto.
Burnett cerrou o maxilar a ponto de parecer que estava prestes a quebrá-lo.
— E quando você voltar, vou ter as respostas que você quer.
A carranca se aprofundou.
— Estarei do lado de fora da porta.
— Mas você ainda vai poder ouvir...
— É tudo o que eu posso oferecer! — ele deixou claro.
De repente, ela percebeu que aquilo bastava, pois ela e Hayden poderiam ficar invisíveis e a conversa entre eles não seria ouvida pelos ouvidos indiscretos do vampiro. Ela concordou com a cabeça e observou o vampiro furioso sair. Assim que a porta se fechou, ela pressionou um dedo sobre os lábios e, em seguida, agarrou a mão de Hayden e levou-o para o reino invisível com ela.
— Você já consegue fazer isso? — A voz de Hayden ecoou, mas ele permaneceu invisível.
— Consigo. — Kylie segurou a mão dele, para saber onde ele estava.
— Isso é incrível, Kylie! Você percebe quanto já progrediu? Quando foi que você...
— Desculpe, mas não temos tempo para falar sobre isso agora. O que vamos dizer a Burnett? Eu acho que devíamos abrir o jogo.
— Ele vai insistir para eu ir embora — disse Hayden. — E você vai perder a minha proteção.
— Em primeiro lugar, não preciso da proteção de ninguém aqui. Mas não quero que você vá, quero ter alguém que eu possa procurar se tiver alguma dúvida. Em segundo lugar, não sei bem se Burnett vai mandar você embora. Mas, se não dissermos a verdade, ele com certeza vai chutar você daqui. A única chance que temos é dizer a verdade.
— Talvez você tenha razão... — disse Hayden. — Mas...
— Não contei nada a ele, você sabe. Ele ainda não sabe que você é um camaleão. Ele simplesmente...
— Eu sei — disse Hayden. — Ele já desconfiava de mim desde antes de você partir.
— A culpa é minha. Eu...
— Eu sei — disse Hayden.
O som da porta da frente batendo violentamente interrompeu Hayden. Burnett invadiu a cabana, com os olhos brilhando de fúria.
— Esse homem é impossível — disse Hayden.
— Filhos de uma...! — As palavras de Burnett ecoaram pelo cômodo. — Kylie! Onde você está?!
— Vou falar com ele — Kylie disse a Hayden. — Você fica invisível.
Ela soltou a mão dele e desejou ficar visível.
A cara feia de Burnett fixou-se nela instantaneamente.
— Onde ele está? — ele perguntou com rispidez.
— Está aqui. Nós ainda estamos conversando. Em particular, como eu pedi.
— Você pode deixar outras pessoas invisíveis?
Ela assentiu com a cabeça. Não que eu precisasse deixar Hayden invisível, sendo ele um camaleão, mas Burnett não sabe disso.
— Isso é tolice. Eu quero respostas!
— E você vai ter, se me der um tempo — ela implorou, sem recuar. — Estou pedindo que você confie em mim, como você mesmo me pediu tantas vezes no passado.
Ele grunhiu e voltou a olhar para o teto, como se pedindo a Deus para ter paciência. Kylie desejou ficar invisível novamente.
— Eu estou bem aqui — a voz de Hayden soou ao seu lado. — Então exatamente o que você quer contar a ele?
— Tudo — Kylie disse olhando para o vazio, mas acreditando que ele estava ali. — Que você foi enviado aqui pelo meu avô e é um camaleão. E que você quer ficar aqui. — Ela fez uma pausa. — E não faria mal acrescentar quanto você está impressionado com este lugar. Se pudermos convencê-lo de que você é nosso aliado, então talvez...
— Talvez o quê? — perguntou Hayden.
— Eu não sei se é possível, mas eu estava pensando que uma grande parte dos camaleões mais jovens, como Jenny, poderia se beneficiar de Shadow Falls.
— Tenho pensado nisso também — disse Hayden. — Mas os anciãos não vão...
— Ok, acabou o tempo! — Burnett gritou, e começou a andar em torno do cômodo. — Podem fazer o favor de voltar agora.
— Só mais um minuto — Kylie insistiu. — Estamos quase terminando.
— Ele não pode ouvi-la — disse Hayden.
— Ah, é. — Ela fez uma pausa; as perguntas que tinha para Hayden se sucediam na sua cabeça, mas Burnett estava prestes a surtar. E um surto de Burnett não era brincadeira.
— Está pronto? — perguntou Kylie. — Eu tenho muito mais para conversar com você, mas por ora... Acho que devemos acabar logo com isso. Espere! — Kylie pediu. Quando ela não o ouviu, ela chamou por ele. — Hayden?
— O quê? — ele perguntou.
— Você acha que meu avô estava a par do plano de me raptar e me impedir de vir para Shadow Falls?
— Não. Eu não acho. Ele está muito preocupado com você, a ponto de me ligar seis vezes antes de você chegar.
O alívio vibrou através dela.
— Você pode dizer a ele que eu sinto muito por... não ter me despedido?
— Claro.
— Kylie! — Burnett rosnou.
Respirando fundo, ela desejou ficar visível novamente. Hayden apareceu ao seu lado.
Burnett não pareceu impressionado. Ele se aproximou de Hayden e agarrou-o pela gola da camisa.
— Desapareça de novo e eu vou fazer você desaparecer para sempre.
— Acalme-se. — Kylie aproximou-se de Burnett. — Hayden não é nosso inimigo. É por causa dele que conseguimos encontrar Holiday, quando Warren a levou. Na verdade, foi por causa dele que eu consegui escapar esta noite. — Kylie viu Hayden olhar para ela como se estivesse surpreso ao ver que ela conhecia essa peça do quebra-cabeça.
Burnett soltou Hayden e depois estudou a testa do professor.
— Não me diga que você é um camaleão.
A postura corporal de Hayden se enrijeceu.
— Você diz isso como se fosse um insulto.
Burnett endireitou os ombros.
— Eu digo isso como se você tivesse mentido para mim.
Hayden arrumou a gola da camisa.
— Eu vim aqui para me certificar de que Kylie não seria levada para a UPF por alguém que vive alardeando sua autoridade.
Burnett fez uma careta.
— Eu sou a autoridade aqui. E investiguei você a fundo. Tudo indica que seja metade vampiro, metade fae. Você está até registrado assim.
— Estou — disse Hayden.
— Mas isso não é verdade.
Hayden não piscou.
— Foi assim que eu escolhi viver a minha vida.
Burnett balançou a cabeça, como se estivesse tentando entender.
— Mas, de acordo com a minha pesquisa, o avô de Kylie está registrado como ser humano na UPF. E os poucos camaleões que eu vi fora do complexo usavam o padrão de seres humanos. Eu achava que isso era o que todos vocês faziam o mundo pensar. Aliás, por que você optou por não viver no complexo com os outros? Você é um desgarrado?
Hayden se empertigou.
— Você é um desgarrado porque não vive numa comunidade de vampiros? A gente deve viver a vida como quer, não é assim? Eu simplesmente preferi viver por conta própria e escolhi ser sobrenatural em vez de humano.
— Então, você apenas escolheu uma espécie e falsificou esse padrão?
— Eu não fiz nada de errado para ser julgado por você — Hayden disse.
Burnett ainda parecia confuso.
— Quantos como você existem por aí? Vivendo como um tipo diferente de sobrenatural?
— Não o suficiente para a gente se sentir confortável se expondo por aí — Hayden explicou. — Não quando a História tem mostrado o que pode acontecer.
Kylie viu Burnett tentar absorver e registrar o que estava ouvindo.
— Então, quando você viu que eu não representava nenhuma ameaça à Kylie, por que não revelou sua identidade?
— Para que você pudesse me chutar daqui ou, pior, me prender?
Burnett era forte, até mesmo um pouco mais forte do que Hayden, mas verbalmente Hayden estava levando a melhor. E esse fato não agradava a Burnett.
— Você trabalha para o avô de Kylie? — perguntou Burnett.
— Se trabalho para ele? Não. Se eu o estava ajudando? Sim. Como você deve saber com base nas muitas investigações que fez a meu respeito, eu dei aulas para o ensino médio durante três anos numa escola em Houston.
— Você ainda está ajudando o avô de Kylie? — A pergunta de Burnett pairou no ar como se a resposta fosse decisiva.
— Depende do que você entende por ajudar. Estou tentando ir contra você para causar algum dano a Kylie? Não. Mas ainda estou de olho nela e respondendo às perguntas de seu avô preocupado? Sim.
— O mesmo avô preocupado que tinha planejado sequestrá-la?
— Meu avô não estava por trás disso! — disse Kylie antes que Hayden pudesse responder. — E eu tampouco quero que você mande Hayden embora. Por favor, Burnett, faça isso por mim.
Burnett olhou para Kylie.
— Não sei se eu posso trabalhar com alguém que não sabe a quem ser leal.
Kylie revirou os olhos.
— Quer dizer, como você e a UPF?
Burnett estreitou os olhos.
— Meu compromisso foi sempre o de proteger você.
— Mas você ainda trabalha para eles também. Porque, como você diz, você vê o bem que a UPF faz. Bem, Hayden faz o mesmo. Ele quer me proteger, mas compreende que o meu avô tem boas intenções. Por que você não pode aceitar isso?
Burnett franziu a testa, mas Kylie podia ver que seu argumento tinha convencido o vampiro.
— Vou levar isso em consideração e discutir o assunto com Holiday.
Hayden acenou com a cabeça, sua expressão dizendo que não iria implorar para ficar. Não que Kylie o culpasse por não querer implorar, mas ela não era orgulhosa a ponto de fazer o mesmo. Sua vida seria simplesmente mais fácil com Hayden ali, e a ajudaria a se comunicar com o avô. Ela realmente, realmente precisava de Hayden.
— Minhas regras, no entanto, ainda estão valendo — Burnett continuou. — Não importa o que eu decida com relação ao futuro do senhor Yates em Shadow Falls — disse Burnett, encarando Kylie —, você não vai fugir para ver o seu avô. Vai andar por aí acompanhada de uma sombra e, se eu tiver que guardar pessoalmente sua cabana todas as noites para impedi-la de violar as regras, vou fazer isso.
Kylie concordou com a cabeça, aceitando que teria que conquistar a confiança do vampiro novamente.
Burnett voltou sua atenção para Hayden.
— E se eu decidir deixá-lo ficar em Shadow Falls, espero que aceite as minhas regras e me ajude a ficar de olho em Kylie. E me ajude também a aprender como lidar com aquele ladino da sua espécie.
— Se você decidir que eu posso ficar, vou considerar a sua oferta — disse Hayden, a rispidez da sua voz indicando que ele obviamente não tinha se esquecido do comportamento de Burnett. Não que Kylie pudesse culpá-lo. Ela também tinha levado um tempo para se acostumar com o vampiro. Até perceber quanto ele se importava com ela.
— Mas uma coisa eu posso dizer, senhor James, eu me recuso a ser tratado com desrespeito.
— Desrespeito? — Burnett rosnou.
E então tudo foi por água abaixo.
Burnett e Hayden passaram a trocar duros golpes verbais. De acordo com Hayden, Burnett era metido a besta e, de acordo com Burnett, Hayden era um idiota pedante que tinha mentido para ele.
Ela não sabia se tinha certeza de que a tensão não acabaria com uma troca de socos ou se estava simplesmente cansada demais para se importar. Se os dois quebrassem o nariz um do outro, paciência. Ela não achava que fossem se matar. Pensando bem, ela podia estar enganada.
No entanto, subitamente ficou cansada demais para tentar detê-los.
Seus joelhos ficaram bambos e as pálpebras, cada vez mais pesadas. Ela tinha que se sentar antes que caísse ali mesmo. Ignorando os dois homens trocando insultos, Kylie atravessou o cômodo e se jogou no sofá de Hayden.
Sentindo um arrepio percorrê-la, ela abraçou a si mesma. Estava tão cansada que levou um minuto para perceber que o frio não era apenas uma reação natural à sua exaustão. Também levou um segundo para perceber que os homens haviam parado de discutir e estavam olhando para ela.
Kylie ignorou os homens para lidar com o espírito.
— Agora não — ela murmurou, e olhou diretamente para a mesinha de centro na frente dela, sem vontade de enfrentar o fantasma e sua conversa absurda sobre um assassinato. E realmente sem vontade de enfrentar Burnett ou Hayden, também.
— Agora não, o quê? — perguntou Burnett.
— Nada — disse Kylie, e o fantasma entrou na frente dela. Seu vestido rosa pálido pendia pesado, encharcado de sangue. Muito sangue. Pelo menos parecia sangue.
Matar ou ser morto. As palavras do espírito se agitaram na mente de Kylie.
Ela se inclinou para trás e fitou os olhos frios e sem vida do espírito. Neste momento, eu ia preferir “estar morta”. Estou cansada demais.
— Está pronta para voltar para sua cabana? — Burnett olhou ao redor como se tivesse consciência de que havia um visitante ali que ele não podia ver. Ele de fato não devia ser capaz de ver o fantasma, mas tinha conseguido ver Hannah, a irmã de Holiday, então Kylie não tinha certeza.
— Você pode vê-la? — perguntou Kylie.
— Ver quem? — perguntou Hayden.
— Um fantasma — Burnett respondeu a Hayden.
— Merda! — Hayden murmurou, e deu um passo para trás.
— Não, mas posso senti-la — disse Burnett, e seu olhar preocupado se fixou em Kylie. — Você não vai desmaiar, não é?
— Acho que não — respondeu Kylie.
— Ótimo. Vamos voltar para a sua cabana? — perguntou Burnett novamente.
— Sim — disse Kylie. Quando estava prestes a se levantar, ela viu o telefone de Hayden sobre a mesinha de centro. Lembrando-se de que queria ligar para a mãe, ela o pegou e olhou para Hayden.
— Vou pegar emprestado, tá? — disse a ele. — Deixei o meu com o meu avô.
Hayden fez uma careta.
— Só não ligue para a minha namorada como fez da última vez que pegou o meu telefone emprestado.
Ela andou até Hayden, ignorando o espírito que sentia estar perto da porta, e o abraçou. Talvez ela não devesse ter feito isso, porque ele ficou tenso. O que os homens têm contra os abraços?, ela se perguntou.
— Obrigada — disse ela, afastando-se.
— Tudo bem.
Ela olhou para Burnett. Ele parecia chateado, como se ela tivesse acabado de abraçar o inimigo.
— Sabem, o problema com vocês dois é que são muito parecidos — ela constatou.
Ambos pigarrearam como se não concordassem. Kylie apenas revirou os olhos e se dirigiu para a porta. E o fantasma, carregando uma espada ensanguentada numa mão e... e a cabeça de alguém na outra, entrou na frente de Kylie. A cabeça, aparentemente recém-cortada e ainda pingando sangue, balançava e batia contra seu quadril enquanto ela se movia.
Kylie arquejou e fez uma parada abrupta. O espírito se virou e sorriu. Em seguida, levantando a cabeça por um punhado de cabelo escuro como se fosse um troféu, deu uma boa sacudida nela.
— Eu disse, matar é moleza.
O fantasma agitou a cabeça decapitada. Os olhos balançaram, como se soltos das órbitas, e o sangue esguichou do pescoço. Kylie soltou um grito assustado.
Perdendo o equilíbrio, Kylie colidiu com Burnett, enterrou o rosto em seu ombro e ficou ali.
— Estou cansada demais para enfrentar cabeças decapitadas — ela choramingou. — Faça com que ela vá embora. Por favor, faça com que ela vá embora.

3 comentários:

  1. Ate_agora_esse_fantasma_foi_o_unico_que_parece_ter_certeza_do_que_esta_fazendo_aí_e_nao_esta_confuso_precisando_de_ajuda

    ResponderExcluir
  2. Essa Kylie é muito fresca. Garota desprovida de tato. Nunca tive tanta antipatia por um personagem de livro.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!