4 de outubro de 2016

Capítulo 10

O coração de Kylie acelerou.
— Não é melhor a gente correr?
— Não. — A postura defensiva de Lucas relaxou. — É só...
— Eu — soou uma outra profunda voz masculina.
Kylie reconheceu a voz antes de ver Burnett de pé atrás dela. Mesmo na escuridão, ele estava perto o suficiente para ela reconhecer o olhar de descontentamento em seu rosto. Os olhos dele não estavam brilhando, então não havia nenhum perigo, mas tudo em sua expressão dizia que Burnett não estava satisfeito. E olhava diretamente para ela.
O que será que o deixara tão contrariado?
Ele chegou mais perto e sua figura pareceu ainda mais imponente.
— Holiday está...
Bastou as duas palavras para Kylie obter sua resposta.
— Merda! Esqueci! Holiday ia à minha cabana. Sinto muito.
— É isso aí — confirmou ele. — E ela realmente ficou preocupada quando não conseguiu encontrar Della, que devia ser a sua sombra. — Ele voltou o olhar para Lucas, e sua carranca piorou um pouco mais.
— Onde está Della? — Kylie perguntou. — Ela está bem?
— Está. Ela e Miranda tinham ido dar um mergulho. Mas nada disso teria acontecido se alguém não tivesse insistido para que ela deixasse de lado os seus deveres de sombra.
— É culpa minha — Kylie se adiantou.
— Não é culpa de ninguém. — Os ombros de Lucas enrijeceram. — Eu não teria deixado nada acontecer a Kylie.
— A questão não é essa! — rosnou Burnett. — Tendo em vista a sua afiliação com a UPF, você, mais do que ninguém, deveria entender a importância de seguir o protocolo. Eu atribuí a Della a incumbência de ser a sombra de Kylie, e você não tinha nenhum direito de contrariar as minhas ordens. E, fazendo justamente isso, você causou esta situação.
— Eu não teria que ter contrariado suas ordens se você tivesse atribuído essa incumbência a mim, desde o início, como eu pedi. E, considerando a minha afiliação, você devia confiar em mim para protegê-la.
Kylie olhou de Burnett para Lucas e depois de volta para o primeiro.
— Quem se esqueceu de Holiday fui eu. Se tem alguém culpado aqui...
— Mas fui eu que procurei você — retrucou Lucas, recusando-se a deixá-la assumir a culpa. Ele olhou de volta para Burnett, os olhos começando a mudar de cor.
Uma coruja piou na floresta. A meia-lua pareceu ficar mais brilhante enquanto os dois, vampiro e lobisomem, se enfrentavam com o olhar.
Burnett foi o primeiro a piscar, não por fraqueza, mas como se estivesse se preparando para expor o seu argumento.
— Confiança é algo que se conquista. Seu excesso de confiança não é nada útil à UPF.
— O meu excesso de confiança só é menor que o seu — disse Lucas. — E eu acho que essa é parte da razão por que a UPF está interessada em mim.
— Talvez. Mas a linha que separa o espírito indomável do arrogante é muito fina. E arrogância não é algo que a UPF aceite.
Burnett puxou o celular do bolso e apertou um botão.
Kylie viu Lucas apertar a mandíbula, e ela sabia como era difícil para ele ser repreendido por Burnett, especialmente na frente dela.
Lucas olhou para longe, mas não antes de Kylie ver seus olhos brilhando de raiva. Mas então ele disse:
— Lamento se causei problema. — Ele podia estar irritado, mas estava disposto a admitir o erro.
Burnett assentiu com a cabeça e falou ao telefone.
— Holiday, eu a encontrei. Ela está bem... Sim. Já vou. — Ele desligou e voltou a fitar Lucas. — Eu encontro com você no escritório num minuto. Preciso falar com Kylie.
Lucas fitou os olhos dela, como se perguntasse se ela ficaria bem indo com Burnett. Kylie assentiu com a cabeça.
— Te vejo depois.
Ele disparou e em segundos era apenas uma pequena mancha deslocando-se entre as árvores banhadas pela luz da Lua. Burnett o seguiu com os olhos até vê-lo desaparecer e, em seguida, olhou para Kylie.
Ela falou antes do vampiro.
— Eu não deveria ter me esquecido que Holiday ia passar na minha cabana.
— Tem razão. Mas Lucas não deveria ter pedido para você se afastar da sua sombra sem me consultar.
— Ele não é arrogante como você disse. — Ela franziu a testa.
— Sim, ele é. — Burnett deu uma risadinha. — Mas eu também era quando tinha a idade dele. Ele vai amadurecer. Como eu amadureci.
Kylie não gostou da resposta de Burnett, mas sentia-se melhor sabendo que ele não guardava rancor de Lucas. Quando viu que Burnett não ia diretamente ao assunto, ela fez sua própria pergunta.
— Alguma notícia das pessoas que fingiram ser meus avós?
— Não, mas o carro que estavam dirigindo foi encontrado. É roubado. Estamos verificando as impressões digitais.
Kylie acenou com a cabeça e olhou para a Lua quando uma nuvem diáfana passou sobre ela, deixando a noite mais escura. Quando olhou para Burnett, viu que ele a fitava com a testa franzida, como se estivesse verificando seu padrão. Kylie viu perplexidade em seus olhos. Já devia estar acostumada com isso, mas às vezes tinha vontade de usar um escudo sobre a testa.
— Holiday está com raiva de mim? — Kylie perguntou.
— Mais preocupada do que com raiva. Ela guarda todas as emoções hostis para usar contra mim. — Ele abriu um pequeno sorriso.
— Mas você ainda está aqui em Shadow Falls. Isso tem que significar alguma coisa.
— Significa que sou masoquista. — Ele hesitou, e embora suas palavras tenham sido ditas com bom humor, seus olhos não expressavam a mesma emoção.
— Não, eu quis dizer que o fato de ela aceitar você como acionista de Shadow Falls tem que significar alguma coisa.
Ele franziu a testa.
— Ela precisava do meu dinheiro.
Kylie teve que morder a língua para não contar a ele sobre o outro investidor.
— Você realmente gosta dela, não é? — Seu coração doeu por ele. Não que ele desejasse a compaixão dela. Mas talvez tenha sido por isso mesmo que ela a sentiu. Quando alguém tão forte e orgulhoso sofria por amor, isso causava uma impressão.
— Isso não é importante.
É, sim. Kylie viu rejeição nos olhos de Burnett. De algum modo, ela iria fazer Holiday parar de ser tão teimosa e dar ao homem uma chance. Simplesmente não fazia sentido ser tão hesitante. Se ele fosse feio ou desagradável, Kylie poderia entender. Mas Burnett não era nenhuma das duas coisas. E ele se importava tanto com Holiday que Kylie quase podia sentir.
— Eu não diria que não é importante — Kylie acrescentou.
Ele encolheu os ombros.
— Conte-me sobre a cobra e o incidente com o cervo.
Kylie contou as duas histórias pelo que parecia a centésima vez. Pelo menos agora ela conseguiu contar sem se sentir aflita. Quando concluiu o relato, Burnett só ficou ali pensando, com a testa franzida e os lábios apertados.
— Você acha que estou exagerando, não acha?
A expressão do vampiro ficou mais carregada ainda.
— Não. Eu concordo com Holiday. Com isso acontecendo duas vezes, não é possível que seja coincidência.
— Então o sistema de segurança não está funcionando? — ela perguntou.
— Está funcionando, sim.
— Então como é possível...?
— É isso o que não sabemos. Um metamorfo se infiltrou no acampamento só para espionar você. E eu não estou gostando nada disso!
Kylie sentiu um gelo no estômago. Ele não era o único que não estava gostando.


Naquela noite, o sonho chegou bem de mansinho. Mas era um sonho diferente dos outros. Kylie não estava se movendo, ela tinha acabado de acordar ali. Então viu Lucas à beira do lago para onde eles tinham corrido naquele dia e, no momento, não viu nenhuma diferença significativa. Antes que ela fosse para a cama, ele tinha batido em sua janela. Quando Kylie abriu, ele se apoiou no parapeito e deu um salto para beijá-la rapidamente nos lábios.
— Boa-noite! — ele disse, voltando a pôr os pés no chão.
Ela sorriu e observou-o se afastar. E foi para a cama desejando que ele não tivesse ido embora tão depressa.
De repente, o sonho se tornou sua realidade, fundamentada no mundo da mente, onde tudo parecia real. Kylie estava em pé atrás de Lucas e gostava da proximidade. Ela estendeu a mão, e quando tocou seu braço ele se virou, nem um pouco surpreso por ela estar ali, mas feliz por vê-la. Por um segundo, algo pareceu errado, mas quando ele a puxou de encontro a si, ela afastou a sensação.
— Você sempre foi tão bonita, Kylie Galen?
As mãos de Lucas apertaram a cintura dela. Kylie sorriu.
— Por que você não me diz? Me espiava pelas janelas quando eu tinha 5 anos...
— Que vergonha... — Ele se inclinou mais para perto. A incerteza incomodava Kylie.
Alguma coisa parecia estranha, mas ela não conseguia descobrir o quê. Sorriu para ele.
— Diga-me o que a deixa feliz — disse Lucas.
As palavras dele a deixaram intrigada.
— Como assim?
— Você quer uma mansão? Um carro novo? Quer ir para o México e beber cerveja na praia? Posso te dar tudo isso e muito mais.
Ela balançou a cabeça.
— Eu não quero nada disso.
— Então o que quer?
Essas perguntas não tinham nada a ver com Lucas, mas ela se sentiu compelida a responder.
— Eu queria que todo mundo se desse bem. Miranda e Della brigaram outra vez a noite passada. Queria que meu pai pudesse me visitar novamente. Que os Brightens estivessem bem. Queria saber o que eu sou. Ajudar esse novo fantasma a resolver seu problema, seja ele qual for.
— Eu posso te dar mais do que isso. Basta dizer sim.
— Sim para quê? — E foi aí que lhe ocorreu. Ela percebeu o que estava errado. Lucas não estava quente. — Você está frio. — Ela deu um passo para trás rapidamente, afastando-se dos braços dele. — O que está acontecendo?
— Eu queria ver você. Sabia que viria comigo se...
De repente, não era Lucas que estava ali. Era Ruivo, o neto de Mario, o mesmo vampiro que tinha matado as meninas. O mesmo que a tinha sequestrado e batido em Lucas. Ela começou a gritar, então percebeu que era apenas um sonho e ela podia acordar.
— Meu avô e os amigos dele não acham que você concordaria em trabalhar conosco. Eu só quero ajudar...
As últimas palavras do vampiro se desvaneceram quando Kylie acordou na cama, ofegante. Ela se lembrou de que a sua intuição lhe dizia desde o início do sonho que algo não estava certo. Se ela simplesmente a ouvisse, aquilo não teria acontecido. Então se lembrou de Holiday lhe dizendo que ela poderia desligar sua sensibilidade temporariamente.
Quando Kylie voltou a pensar direito, recostou-se no travesseiro e fez a visualização.
A última coisa que ela queria era ver Ruivo em seus sonhos.
Ou na sua realidade.
Na manhã seguinte, Kylie sentiu patinhas de gambá andando sobre o seu peito e, em seguida, um nariz molhado e pontudo cutucando seu queixo como se quisesse fazê-la acordar.
Ela ficou deitada ali por alguns segundos, sem se mover ou abrir os olhos, tentando descobrir por que algo parecia errado. Seu primeiro pensamento foi o sonho que tinha tido com Ruivo, mas, não, não se tratava disso. Então uma luz brilhante penetrou pelos cantos dos seus olhos fechados, e ela os abriu.
Sentou-se com cautela, fazendo em Socks seu afago obrigatório de todas as manhãs, e olhou ao redor. O sol atravessava as cortinas e lançava sombras horizontais no chão.
Que horas seriam? Ela tirou o cabelo do rosto.
Seu olhar saltou para o relógio. Sete. Era aquilo que não parecia certo... que ela não tivesse sido acordada por nenhum espírito impaciente? Jane Doe não era um fantasma madrugador? Talvez a amnésia impedisse a pessoa de julgar o tempo.
Não que Kylie estivesse reclamando. Seu último espírito raramente a deixava dormir depois que amanhecia o dia.
Ao ver o celular, Kylie se lembrou de Holiday e o pegou, na esperança de que ela tivesse ligado ou mandado uma mensagem. Antes de Kylie e Burnett terem chegado ao escritório, no dia anterior, Holiday tinha ligado para Burnett e perguntado se ele poderia assumir o acampamento por um ou dois dias porque ela tivera uma emergência familiar e precisava se afastar por alguns dias. A única coisa que ela tinha dito a Burnett é que precisava resolver o problema.
Burnett tinha ficado preocupado. Kylie sentira a frustração na voz dele quando falou com Holiday, ao ver que ela não lhe revelaria o tipo de emergência.
Kylie havia telefonado e mandado uma mensagem para Holiday, mas não tinha recebido nenhuma resposta antes de ir para a cama.
Verificando sua caixa de entrada, ela encontrou duas mensagens. Uma de Sara, a antiga melhor amiga que ela provavelmente tinha curado de um câncer – ou pelo menos era o que esperava – e outra de Holiday.
Kylie deu um suspiro de alívio ao ler a mensagem de Sara, contando que estava se sentindo ótima. Em seguida, leu rapidamente a mensagem de Holiday. Era breve e simples: Tudo está ok. Volto logo.
Querendo se assegurar de que era verdade, Kylie ligou para a líder do acampamento.
— Oi — Holiday respondeu. — Está tudo bem?
Kylie quase lhe contou sobre o sonho com o vampiro, mas sua intuição lhe dizia que Holiday já tinha muita coisa com que se preocupar. Além disso, a líder já explicara a ela como lidar com isso e, se Kylie tivesse dado ouvidos aos seus instintos, nada disso teria acontecido.
— Está tudo bem, só estou preocupada com você. Já está voltando para o acampamento?
— Ainda não. Mas devo estar aí esta tarde. — Ela ficou em silêncio. — Desculpe, eu tive que sair antes de nos falarmos. Você está conseguindo lidar com tudo aí? Nada mais aconteceu, não é?
— Não, estou bem. Nós só estamos preocupados com você.
— Nós?
— Burnett e eu — disse ela, lembrando-se da promessa que tinha feito a si mesma de bancar o cupido. — O que aconteceu? — Kylie perguntou hesitante, sem querer ultrapassar seus limites. Mas a sua relação com Holiday era mais estreita do que apenas entre líder do acampamento e campista. Ela realmente se importava com a amiga.
Holiday ficou em silêncio por um instante.
— Minha tia-avó faleceu.
— Ah, Holiday, sinto muito. Posso fazer alguma coisa? — Um frio invadiu o quarto. Kylie o ignorou e continuou concentrada na conversa ao telefone. Ela atenderia a Jane Doe em alguns minutos.
— Não. Estou bem — Holiday disse. — Chegou a hora dela. Mas ela não deixou o testamento em ordem e agora...
Kylie sentiu o colchão afundar. Ergueu os olhos e viu que, sentada aos pés da cama havia uma mulher idosa com um penhoar amarelo e um lindo colar com um pingente de cristal azul-claro em formato de lágrima.
— O testamento está colado com fita adesiva no fundo da gaveta inferior esquerda da minha cômoda. Mas eu quero que ela fique com todas as minhas peças de cristal. Não deixe Marty levá-las, ela vai tentar. Ela é uma besta quadrada.
Kylie estudou os cabelos grisalhos da mulher, espalhados sobre os ombros, e depois observou seus olhos de um verde brilhante que pareciam vagamente familiares. Apertou o telefone na mão e estremeceu. Holiday dizia que ela acabaria conseguindo ver mais de um fantasma por vez. Pelo visto isso já estava acontecendo. Mas ela saberia lidar com isso?
— Diga a ela! — insistiu o fantasma, e foi nesse momento que Kylie percebeu por que os olhos eram tão familiares. Ela apertou as sobrancelhas e verificou o padrão da mulher.
Holiday começou a falar.
— Não vai ser fácil dividir essa herança...
— Hã, Holiday...? — disse Kylie. — Como é a sua tia-avó?
— Por quê?
— Porque eu acho que ela está sentada aos pés da minha cama. Se for ela, o testamento está colado na gaveta inferior esquerda da cômoda dela.
O fantasma começou a flutuar até o teto como se algo a puxasse para longe.
— Cabelos longos e grisalhos — Holiday respondeu. — E olhos verdes.
— É ela — Kylie respondeu, agora olhando para o espírito, que flutuava perto do teto. — Então é melhor você verificar a cômoda.
O fantasma sorriu.
— Obrigada.
— Obrigada, Kylie — agradeceu Holiday.
Kylie sentiu um arrepio e puxou as cobertas um pouco mais.
— Não tem de quê.
O fantasma começou a se desvanecer no teto, depois parou e deslizou para baixo novamente.
— Quase me esqueci. Eles me pediram para dizer uma coisa. Alguém vive e alguém... — Ela desapareceu, deixando a frase incompleta.
Mas Kylie sabia o que ela queria dizer.
— ... morre — Kylie completou, fechando os olhos. Alguém vive e alguém morre. A mensagem não era apenas piração de um fantasma abilolado e sem memória. Mas como Kylie podia fazer as coisas direito, se ela não sabia o que fazer?

5 comentários:

  1. oq sera q eles querem "dizer Alguém vive e alguém morre!".Será q ela salvando sara da morte alguém vai ter q morrer no lugar?

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    1. Boa! Não tinha pensado nisso!

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    2. oi.eu também n tinha pensado nessa possibilidade. mais eu tosso que ela n tenha de escolhe entra a mãe e o padrasto que pra mim também pode se uma possibilidade

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  2. bom acho que duas pessoas vao morre...pq ela fez o pássaro viver também...acho que a cada pessoa que ela salva da morte alguém morre

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  3. oi. eu n sei n mais,toso para que n seja ela decidi entre a mãe e o padrasto.e eu também n tilha pensado nessa possibilidade dela salva sara e alguém ter de morre por causa disso

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