4 de outubro de 2016

Capítulo 1

Eles estavam ali. Bem ali no acampamento.
Kylie Galen saiu do refeitório lotado, rumo à claridade da luz do Sol, e olhou para o escritório do acampamento Shadow Falls, mais à frente. Não ouvia mais as vozes dos outros campistas. Passarinhos cantavam a distância, uma rajada de vento agitou as árvores, mas ela só ouvia o som do próprio coração martelando no peito.
Tum. Tum. Tum.
Os avós estavam ali para vê-la.
Seu pulso acelerou ao pensar que encontraria os Brightens, o casal que tinha adotado e criado seu pai biológico. Um pai que ela nunca conhecera em vida, mas tinha aprendido a amar com as breves visitas que ele lhe fizera da vida após a morte.
Ela andou em direção ao escritório, insegura com o torvelinho emocional que se agitava dentro dela.
Empolgação.
Curiosidade.
Medo. Sim, muito medo.
Mas do quê?
Uma gota de suor, mais de nervosismo do que do clima quente de final de verão no Texas, rolou pela sua testa.
Vá e descubra o seu passado, para que possa descobrir o seu destino. As palavras misteriosas dos anjos da morte se repetiam na sua cabeça. Ela deu um passo à frente e depois parou. Embora não visse a hora de solucionar o mistério sobre quem era o seu pai, quem ela era e, com sorte, a que espécie pertencia, seus instintos gritavam para que desse meia-volta e fugisse dali.
Era disso que ela sentia tanto medo? De saber a verdade?
Antes de vir para Shadow Falls, alguns meses antes, Kylie tinha certeza de que era só uma adolescente confusa, cuja sensação de ser diferente era uma coisa normal. Agora entendia por quê.
Ela não era normal.
Não era nem humana! Pelo menos não totalmente.
E descobrir seu lado não humano era como tentar solucionar um enigma.
Um enigma que os Brightens podiam ajudar a resolver.
Kylie deu outro passo. O vento, como se estivesse ansioso para fugir assim como ela, soprou e levou com ele algumas mechas rebeldes dos seus cabelos loiros, cobrindo seu rosto.
Ela piscou e, quando abriu os olhos, o brilho do Sol tinha desaparecido. Ao olhar para cima, viu uma imensa nuvem carregada bem acima dela, provocando uma grande sombra ao seu redor e sobre o arvoredo. Incerta se aquilo era um mau presságio ou uma simples tempestade de verão, ela congelou, o coração acelerando ainda mais. Inspirando o ar com aroma de chuva, Kylie ia dar mais um passo, quando sentiu uma mão segurando seu braço. A lembrança de outra mão agarrando-a fez o pânico disparar em suas veias.
Ela se virou, sobressaltada.
— Calma! Está tudo bem? — Lucas afrouxou os dedos em torno do braço dela.
Kylie prendeu a respiração e fitou os olhos azuis do lobisomem.
 — Tudo bem. Você só... me assustou. Você sempre me assusta! Precisa assobiar quando estiver se aproximando de mim. — Ela expulsou as lembranças de Mario e do neto vampiro, Ruivo.
— Desculpe. — Ele sorriu, enquanto desenhava pequenos círculos com o polegar no braço dela. De algum modo aquela leve carícia com o dedo pareceu... íntima. Como ele conseguia fazer um toque tão simples parecer um doce pecado?
Outra rajada de vento, está prenunciando tempestade, agitou o cabelo preto de Lucas e jogou-o sobre a testa. Ele continuou olhando para ela, os olhos azuis aquecendo-a e afastando seus piores medos.
— Você não parece bem. Alguma coisa errada? — Ele estendeu o braço e tirou do rosto dela um fio de cabelo, recolocando-o atrás da orelha.
Ela desviou os olhos e fitou a cabana onde ficava o escritório do acampamento.
— Meus avós... Os pais adotivos do meu pai biológico estão aqui.
Ele devia ter percebido a relutância dela em estar ali.
— Achei que você queria vê-los. Por isso pediu que viessem, não foi?
— É... Eu só...
— Está com medo. — ele terminou a frase por ela.
Kylie não queria admitir, mas, como os lobisomens podiam farejar o medo, mentiras eram inúteis.
— É. — Ela olhou novamente para ele e viu um toque de divertimento em seus olhos.
— O que é tão engraçado?
— Você. Ainda estou tentando entendê-la. Quando foi raptada por um vampiro delinquente não parecia tão assustada. Na verdade, você foi... incrível!
Kylie sorriu. Não, Lucas é que tinha sido incrível. Ele tinha arriscado a própria vida para salvá-la das garras de Mario e de Ruivo, e ela nunca se esqueceria disso.
— Sério, Kylie, se esse é o mesmo casal que eu vi entrando há alguns minutos, então são só dois idosos simplesmente humanos. Acho que você pode dar conta deles com as duas mãos amarradas nas costas.
— Não estou assustada desse jeito. Só estou... — Ela fechou os olhos, sem saber ao certo como explicar algo que nem ela entendia direito, mas então as palavras brotaram da sua boca. — O que vou dizer a eles? “Eu sei que vocês nunca disseram ao meu pai que ele era adotado, mas ele descobriu depois de morto. E veio me ver. Ah, sim, e ele não era humano. Então, podem, por favor, me dizer quem são os pais verdadeiros dele? Para que assim eu possa descobrir também o que sou?”
Lucas certamente percebeu a angústia na voz dela porque seu sorriso se desvaneceu.
— Você vai encontrar um jeito.
— É. — Mas Kylie não estava tão confiante. Ela recomeçou a andar, sentindo a presença dele, o calor do seu corpo, enquanto subia com ela os degraus da cabana. O trajeto tinha sido mais fácil com ele ao seu lado.
Lucas parou ao lado da porta e acariciou o braço dela.
— Quer que eu entre com você?
Ela quase disse sim, mas isso era algo que precisava fazer sozinha.
Ela pensou ter ouvido vozes e olhou para trás, em direção à porta. Bem, no final das contas não estaria completamente sozinha. Sem dúvida Holiday, a líder do acampamento, esperava por ela lá dentro, preparada para oferecer apoio moral e também para acalmá-la com seu toque tranquilizador. Normalmente Kylie não gostava que suas emoções fossem manipuladas, mas esse momento poderia ser uma exceção.
— Obrigada, mas tenho certeza de que Holiday está aí dentro.
Ele assentiu. Seu olhar desceu para sua boca e seus lábios chegaram perigosamente perto. Mas, antes que sua boca exigisse a dela, aquele calafrio que sempre acompanhava os mortos envolveu o corpo de Kylie. Ela pressionou dois dedos sobre os lábios dele. Beijar era algo que ela preferia fazer sem uma plateia, mesmo que fosse do outro mundo.
Ou talvez não fosse simplesmente a plateia. Ela estaria realmente pronta para se entregar aos beijos dele? Era uma boa pergunta, e ela precisava de uma resposta, mas tinha que pensar num problema de cada vez. No momento ela tinha os Brightens com que se preocupar.
— Tenho que ir — ela disse, apontando para a porta. O frio se fez sentir novamente. Corrigindo: ela tinha os Brightens e um fantasma com que se preocupar.
A decepção brilhou nos olhos de Lucas. Então ele mudou de posição, parecendo desconfortável, e olhou em volta como se percebesse que não estavam sozinhos.
— Boa sorte. — Ele hesitou um pouco e depois começou a se afastar.
Kylie o observou indo embora e, então, olhou ao redor, procurando pelo espírito. Arrepios percorreram sua espinha. Sua capacidade de ver fantasmas tinha sido a primeira pista de que ela não era normal.
— Isso não pode esperar até mais tarde? — ela sussurrou.
Uma nuvem de fumaça apareceu ao lado das cadeiras de balanço brancas, na varanda da cabana. O espírito obviamente não tinha poder ou conhecimento suficientes para completar a manifestação. Mas o que tinha bastou para fazer as cadeiras balançarem. O rangido da madeira no assoalho parecia fantasmagórico... o que de fato era.
Ela esperou, supondo se tratar do espírito da mulher que tinha aparecido naquele mesmo dia dentro do carro da mãe dela, quando passavam na frente do Cemitério de Fallen, a caminho do acampamento. Quem era ela? O que queria de Kylie? Nunca havia respostas fáceis quando se tratava de fantasmas.
— Agora não é uma boa hora — ela insistiu, mesmo sabendo que seria inútil. Os espíritos acreditavam na política de portas abertas.
A nuvem de fumaça começou a tomar forma e o peito de Kylie inflou de emoção.
Não era a mulher que ela vira antes.
— Daniel? — Kylie estendeu a mão e as pontas dos seus dedos penetraram na névoa gelada enquanto ela tomava uma forma mais familiar. Um sentimento cálido – uma mistura de amor e remorso – subiu pelo braço dela. Ela puxou a mão para trás, mas lágrimas inundaram seus olhos. — Daniel? — Ela quase o chamou de pai. Mas aquilo ainda parecia esquisito.
Ela assistiu enquanto ele se esforçava para se manifestar. Daniel explicara uma vez que o seu tempo de permanência na Terra era limitado. Mais lágrimas encheram seus olhos quando ela percebeu o quanto era limitado. Seu sentimento de perda triplicou quando pensou em como isso devia ser difícil para ele. Seu pai queria estar ali quando ela conhecesse os avós. E ela também precisava dele ali – queria muito que ele tivesse lhe contado um pouco mais sobre os Brightens – e desejou mais do que tudo que ele não tivesse morrido.
— Não! — A única palavra de Daniel, pronunciada rapidamente, soou urgente.
— Não, o quê? — Ele não queria (ou não podia) responder. — Eu não devo perguntar a eles sobre os seus pais verdadeiros? Mas eu tenho que fazer isso, Daniel, esse é o único jeito de eu descobrir a verdade.
Não é... — Sua voz falhou.
— Não é o quê? Não é importante? — Ela esperou pela resposta, mas a fraca aparição empalideceu e o frio espiritual que a rodeava começou a se dissipar. As cadeiras brancas diminuíram seu balanço e um silêncio caiu sobre ela. — É importante para mim — disse Kylie. — Eu preciso...
O calor do Texas afugentou o frio persistente. Ele tinha ido embora. De repente ocorreu a Kylie que ele poderia nunca mais voltar.
— Não é justo!
Ela secou com um gesto brusco as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. A necessidade de correr e se esconder se tornou quase irreprimível. Mas ela resistiu até que passasse. Segurou a maçaneta da porta, ainda sentindo frio por causa do espírito de Daniel, e se preparou para enfrentar os Brightens.
No interior da cabana, Kylie ouviu leves murmúrios vindos de uma das salas de reuniões, nos fundos. Ela tentou discernir as palavras. Nada.
Nas últimas semanas, tinha se surpreendido ao perceber que sua audição estava ultrassensível. Mas esse novo dom se revelou passageiro. Que bem poderia fazer um talento como esse se ela não sabia como usá-lo? Só contribuía para aumentar a sensação de que tudo em sua vida estava fora de controle.
Mordendo o lábio, ela cruzou silenciosamente o corredor e tentou se concentrar no seu objetivo principal: obter respostas. Quem eram os verdadeiros pais de Daniel? De que espécie ela era? Kylie ouviu Holiday dizer:
— Tenho certeza, vocês vão amar Kylie!
Os passos dela ficaram mais lentos. Amar?
Não era um pouco demais? Eles poderiam simplesmente gostar dela. Isso já estava de bom tamanho. Amar alguém era... complicado. Mesmo gostar muito de alguém tinha suas desvantagens, como ela comprovou quando um certo meio fae supergato decidiu que ficar perto dela era difícil demais... e deu no pé.
É isso aí, Derek era definitivamente um exemplo da desvantagem de se gostar muito de alguém. E ele provavelmente era a razão de ela hesitar em aceitar os beijos de Lucas.
Um problema de cada vez. Ela afastou o pensamento ao entrar pela porta aberta da sala de reunião.
O homem idoso sentado à mesa estava com as mãos cruzadas sobre a grande escrivaninha de carvalho.
— Em que tipo de problema ela se meteu?
— Como assim? — Holiday voltou os olhos verdes para a porta e jogou os longos cabelos ruivos por sobre os ombros.
O velho continuou:
— Nós pesquisamos sobre Shadow Falls na Internet e descobrimos que é um acampamento para adolescentes problemáticos.
Que maravilha! Os pais de Daniel achavam que ela era uma delinquente juvenil.
— Vocês não devem acreditar em tudo o que leem na Internet. — Uma ponta de contrariedade transpareceu na voz da líder do acampamento. — Na verdade, somos uma escola para adolescentes muito talentosos que estão tentando conhecer a si mesmos.
— Por favor, não me diga que são drogas! — exclamou a senhora de cabelos grisalhos, sentada ao lado do homem. — Não sei se eu conseguiria lidar com isso.
— Não sou uma drogada! — disse Kylie em voz alta, sentindo na pele o que Della, sua colega de quarto vampira, tinha de suportar com essa suspeita dos pais.
 Todas as cabeças se voltaram para Kylie que, sentindo-se o centro das atenções, prendeu a respiração.
— Ah, querida! — lamentou a mulher. — Eu não quis ofendê-la.
Kylie entrou na sala.
— Não estou ofendida. Só queria deixar isso bem claro. — Ela fitou os olhos de um cinza desbotado da mulher e depois se voltou para o velho, em busca... do quê? De uma semelhança, talvez. Por quê? Ela sabia que eles não eram os pais verdadeiros de Daniel. Mas eles o haviam criado, provavelmente tinham transmitido a ele seu jeito de ser e suas qualidades.
Kylie pensou em Tom Galen, seu padrasto, o homem que a criara e que até pouco tempo antes ela acreditava ser seu verdadeiro pai. Embora Kylie ainda não tivesse aceitado bem o fato de ele ter abandonado sua mãe, depois de dezessete anos de casamento, ela não podia negar que tinha alguns trejeitos dele. Não que não visse mais de Daniel em si mesma; ela herdara do pai desde o DNA sobrenatural até suas características físicas.
— Nós lemos num site que este era um abrigo para adolescentes problemáticos. — Kylie percebeu um pedido de desculpas na voz do velho.
Ela se lembrou de Daniel dizendo a ela que seus pais adotivos o amavam e que a amariam também se a conhecessem.
Amor. A emoção se acumulava em seu peito. Tentando decifrar a sensação, Kylie se lembrou de Nana, a mãe de sua mãe, e do quanto a adorava, o quanto tinha sofrido quando ela morrera. Será que era a constatação de que os Brightens já tinham bastante idade – e que seu tempo na Terra era breve – que a fizera se lembrar da avó falecida?
Como se o pensamento na morte de algum modo o tivesse evocado, um frio fantasmagórico se instalou na sala. Daniel? Ela o chamou mentalmente, mas o frio que pinicava sua pele era diferente.
Quando o ar frio entrou nos pulmões de Kylie, o espírito se materializou atrás da senhora Britghten. Embora a aparição parecesse feminina, sua cabeça raspada refletia a luz acima. Pontos cirúrgicos de aparência recente eram visíveis no couro cabeludo raspado, fazendo Kylie se encolher de aflição.
— Só estamos preocupados — explicou o senhor Brighten. — Não sabíamos que você existia.
— Eu... entendo — Kylie respondeu, incapaz de desviar o olhar do espírito que olhava para o casal idoso com perplexidade.
Ao ver o rosto do espírito novamente, Kylie percebeu que era a mesma mulher daquela manhã. Obviamente, a cabeça raspada e os pontos cirúrgicos eram uma pista. Mas uma pista do quê?
O espírito olhou para Kylie.
— Estou tão confusa!
Eu também, Kylie pensou, sem ter certeza se o espírito podia ler seus pensamentos como os outros podiam.
— Tantos querem que eu diga uma coisa a você!
— Quem? — Percebendo que ela tinha sussurrado a palavra em voz alta, Kylie mordeu o lábio. Daniel? Nana? O que eles querem que você me diga?
O espírito encontrou os olhos de Kylie como se entendesse.
— Alguém vive. Alguém morre.
Mais enigmas, Kylie pensou, e desviou os olhos do fantasma.
Ela viu Holiday olhar ao redor, sentindo o espírito. A senhora Brighten olhou para o teto como se procurasse um ar-condicionado para culpar pelo ar gelado da sala. Felizmente o espírito desapareceu, levando com ele o frio.
Tentando afastar o fantasma de sua mente, Kylie voltou a olhar para os Brightens. Seu olhar foi atraído para o tufo de cabelos grisalhos e grossos do ancião. Sua tez pálida indicava que ele tinha sido ruivo quando mais novo.
Por alguma razão, Kylie se sentiu compelida a arquear as sobrancelhas e verificar os padrões cerebrais do casal. Esse era um pequeno truque sobrenatural que ela tinha aprendido só bem recentemente e que na maioria das vezes os seres sobrenaturais usavam para reconhecer uns aos outros e os seres humanos. O senhor e a senhora Brighten eram humanos. Pessoas normais e provavelmente decentes. Então, por que Kylie estava tão nervosa?
Ela observou o casal enquanto eles também a observavam. Esperava que fizessem algum comentário sobre o quanto ela se parecia com Daniel. Mas não fizeram. Em vez disso, a senhora Brighten disse:
— Estamos de fato muito felizes em conhecê-la.
— Eu também — disse Kylie. Mas também apavorada! Ela se sentou na cadeira ao lado de Holiday, em frente aos avós. Estendendo o braço sobre a mesa, buscou a mão de Holiday e a apertou. Uma calma muito bem-vinda fluiu do toque da amiga.
— Vocês podem me contar alguma coisa sobre o meu pai? — Kylie perguntou.
— Claro! — A expressão do senhor Brighten se suavizou. — Ele era um garoto muito carismático. Popular. Esperto. Extrovertido.
Kylie pousou a mão livre sobre a mesa.
— Não era como eu, então. — Ela mordeu o lábio, arrependendo-se de dizer aquilo em voz alta.
A senhora Brighten franziu a testa.
— Eu não diria isso. A sua líder do acampamento estava nos dizendo o quanto você é encantadora. — A senhora estendeu o braço sobre a mesa e descansou a mão quente sobre a de Kylie. — Mal posso acreditar que temos uma neta!
Algo no toque da mulher mexeu com os sentimentos de Kylie. Não apenas o calor da sua pele, mas o ligeiro tremor, os dedos finos e nodosos que o tempo e a artrite haviam deformado. Kylie lembrou-se de Nana, de como o toque suave da avó tinha se tornado frágil um pouco antes de ela morrer. Sem aviso, a dor aumentou no peito de Kylie. Tristeza por Nana e talvez até mesmo um prenúncio do que ela sentiria pelos pais de Daniel, quando a hora deles chegasse. Considerando-se a idade do casal, essa hora não tardaria.
— Quando você soube que Daniel era seu pai? — A mão da senhora Brighten ainda repousava sobre o pulso de Kylie. E o toque era estranhamente reconfortante.
— Só recentemente — disse ela, com a emoção provocando um bolo em sua garganta. — Meus pais estão se divorciando e a verdade de repente veio à tona. — Aquilo não era uma completa mentira.
— Divorciando-se? Pobrezinha...
O velho balançou a cabeça em concordância, e Kylie notou que seus olhos eram azuis – como os do pai e os dela.
— Estamos felizes que você tenha resolvido nos procurar.
— Muito felizes. — A voz da senhora Brighten tremeu. — Nós nunca deixamos de sentir falta do nosso filho. Ele morreu tão jovem... — Uma sensação silenciosa de perda, de dor compartilhada, envolveu a sala.
Kylie mordeu a língua para não dizer que ela também passara a amar Daniel. Para não assegurar a eles que o pai os amava. Tantas coisas ela desejava perguntar, lhes dizer, mas não poderia.
— Trouxemos fotos! — anunciou a senhora Brighten.
— Do meu pai? — Kylie se inclinou para a frente, entusiasmada.
A senhora Brighten assentiu e mudou de posição na cadeira. Com a lentidão típica da idade, ela puxou um envelope pardo da sua grande bolsa branca de senhora. O coração de Kylie acelerou com a expectativa de ver as fotos de Daniel. Será que ele se parecia com ela quando jovem?
A mulher passou o envelope para Kylie e ela o abriu o mais rápido que pôde.
Sua garganta apertou quando viu a primeira imagem: Daniel na infância, talvez com uns 6 anos de idade, sem os dentes da frente. Ela se lembrou das suas próprias fotos de escola, banguela, e podia jurar que a semelhança era incrível.
As fotos a levaram ao longo da vida de Daniel – desde que ele era um adolescente com cabelos longos e jeans rasgados até a idade adulta.
Na foto na idade adulta, ele estava com um grupo de pessoas. A garganta de Kylie apertou ainda mais quando ela percebeu quem estava de pé ao lado dele.
A mãe dela.
Seu olhar se desviou da foto.
— Esta é a minha mãe.
A senhora Brighten assentiu.
— Sim, nós sabemos.
— Sabem? — perguntou Kylie, confusa. — Eu achei que vocês não a conheciam.
— Nós suspeitávamos — o senhor Brighten explicou. — Depois que soubemos de você, suspeitamos que ela poderia ser a garota da foto.
— Ah... — Kylie olhou para as imagens e se perguntou como eles poderiam ter feito aquela dedução a partir de uma foto. Não que isso importasse.
— Posso ficar com elas?
— Claro! — concordou a senhora Brighten. — Eu fiz cópias. Daniel ia gostar que você ficasse com elas.
Sim, ele ia. Kylie se lembrou dele tentando se materializar como se tivesse algo importante a dizer.
— Minha mãe o amava — Kylie acrescentou, lembrando-se da preocupação da mãe de que os Brightens ficassem ressentidos com ela por não tentar encontrá-los antes. Mas eles não pareciam cultivar nenhum sentimento negativo.
— Tenho certeza disso. — A senhora Brighten se inclinou e tocou a mão de Kylie novamente. Calor e emoção genuínos irradiaram do toque. Era quase... mágico!
Um bipe súbito do telefone de Kylie quebrou o frágil silêncio. Ela ignorou a mensagem de texto, sentindo-se quase hipnotizada pelos olhos da senhora Brighten. Então, por razões que Kylie não entendia, seu coração se abriu.
Talvez ela de fato quisesse que eles a amassem. Talvez quisesse amá-los também. Não importava o pouco tempo que lhes restasse. Ou o fato de não serem seus avós biológicos. Eles tinham amado seu pai e depois o perdido. Assim como ela. Simplesmente parecia certo que eles se amassem.
Seria isso que Daniel queria dizer a ela? Kylie olhou para as fotografias mais uma vez e então as recolocou no envelope, sabendo que iria passar horas contemplando-as mais tarde.
O telefone de Kylie tocou. Ela ia desligar, mas viu o nome de Derek na tela. Seu coração deu um salto. Ele estaria ligando para se desculpar por ir embora? Ela queria que ele se desculpasse?
Outro telefone tocou. Dessa vez era o celular de Holiday.
— Com licença. — Holiday se levantou e começou a sair da sala enquanto atendia à chamada. Ela deu uma parada abrupta na porta.  — Fale mais devagar — disse ao telefone. A tensão na voz da líder do acampamento mudou o clima da sala. Holiday deu meia-volta e se aproximou de Kylie.
— O que foi? — Kylie murmurou.
Holiday apertou o ombro de Kylie, em seguida fechou o celular e olhou para os Brightens.
— É uma emergência. Vamos ter que remarcar esta reunião.
— Algo errado? — Kylie perguntou.
Holiday não respondeu. Kylie viu os rostos decepcionados dos Brightens e sentiu a mesma emoção se infiltrando em seu peito.
— Não podemos...?
— Não! — disse Holiday com firmeza. — Vou ter que lhes pedir para partirem. Agora.
O tom de voz da líder foi pontuado pelo barulho alto da porta da frente da cabana se abrindo violentamente e batendo contra a parede. Tanto a líder quanto os Brightens se sobressaltaram e olharam para a porta ao ouvir os passos ruidosos de alguém entrando apressadamente na sala de reunião.

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