25 de outubro de 2016

Bônus - O Unicórnio e o Leão

— Por que não me conta a história do Unicórnio e do Leão? — pedi.
Ele não vai contar a verdade, resmungou Tia na minha mente.
— Tenho certeza de que você vai corrigir qualquer coisa que ele errar — afirmei, tentando consolá-la com bons pensamentos e bancar a diplomata.
Como sou uma criatura gentil, disse Nebu, vou contar a história que você quer ouvir, desde que você continue acariciando meu pescoço. Gosto um bocado disso, acrescentou.
— Trato feito.
Em primeiro lugar, você precisa saber que não se trata da história de um Unicórnio e uma Leoa. É O Unicórnio e o Leão.
O Leão e o Unicórnio, corrigiu Tia.
— Quieta — repreendi. — Vamos escutar.
O garanhão dourado começou: Era uma vez uma donzela jovem e linda – na verdade, era uma princesa – abençoada pelos deuses com uma beleza transcendental, um encanto inigualável, uma gentileza capaz de aquecer os corações e uma pureza capaz de partir corações.
— Por que a pureza dela era capaz de partir corações?
Vou chegar lá. Ela era doce como o orvalho na campina e feliz como o sol da primavera. Todo homem que a via ficava instantânea e perdidamente apaixonado. Ela preenchia os sonhos deles com calor e alegria, e cada um deles se punha a imaginar como seria a vida caso aquela jovem adorável fosse sua. Era tão virtuosa que os que se aproximavam sentiam o desejo de se tornar iguais a ela, já que era amplamente sabido que somente um companheiro tão belo e único como ela serviria como seu par. Essa foi a causa do coração partido de muitos homens. Veja, a esperança deles era efêmera. A maioria dos que buscavam sua mão em casamento não poderia nem sonhar em chegar perto desse nível de perfeição. Eles imaginavam que, se ela fosse um pouquinho menos do que impecável, um pouquinho mais impressionável por uma forma e um rosto bonito, ou talvez um pouquinho mais disposta a comprometer a virtude, eles poderiam convencê-la a escolher um marido a partir de um momento de paixão. Infelizmente, ela não era conquistada com tanta facilidade. Quando se determinou que era a hora de ela se casar, seu pai, o rei, procurou o companheiro mais corajoso, mais firme e digno para ser seu marido.
Tia não tinha dito nada até então, mas dava para perceber que também estava escutando, examinando cada palavra dita por Nebu.
— Por favor, continue — encorajei.
Os homens vinham de grandes distâncias. Eram príncipes e camponeses. Cavaleiros e patifes. Serviçais e escravos. Seus postos, suas riquezas e suas belas figuras não importavam, porque a jovem só se preocupava com o que eles traziam em seu interior. Cada pretendente era levado diante da princesa, que segurava sua mão, olhando-o nos olhos e através da alma. Jamais encorajava nem rejeitava nenhum deles, mas, mesmo assim, um a um eles partiam, aceitando, infelizes, o fato de que ela jamais lhes pertenceria.
— Como eles sabiam que não eram o eleito?
Quando ela olhava dentro de seu coração, eles se encolhiam. Não conseguiam nem suportar seu olhar. Era como espiar o rosto de uma deusa e ter cada pecado e cada segredo revelado. Eles eram indignos e não havia como negar.
— O que aconteceu, então?
Quando todos os pretendentes tinham se apresentado e não restava mais ninguém, a princesa desanimou, de tanta solidão. Temia que jamais houvesse alguém como ela e que estava destinada a continuar sozinha em sua jornada neste mundo. Um dia ela estava na floresta, mergulhando os pés num poço fresco, quando um leão apareceu. Ele também se apaixonou desesperadamente pela jovem. Então se aproximou e implorou para ficar ao lado dela. Apesar do medo, ela olhou no coração do leão e não encontrou maldade. Veja, um leão não é uma criatura gananciosa, invejosa, embriagada com o próprio poder nem egoísta. É um animal, e suas ações se baseiam no instinto e na sobrevivência. Enquanto olhava o coração dele, a princesa percebeu que ali, finalmente, estava alguém que era igual a ela.
— Então ela... fez o quê? Levou o leão para casa, para apresentar ao pai? — Tia e Nebu se irritaram com minha observação blasé sobre o conto de fadas que os dois obviamente levavam muito a sério. — Desculpe — falei. — Não queria interromper.
Quando o rei recebeu a filha na porta lateral, encontrou-a acompanhada por um leão e ficou surpreso, para dizer o mínimo. Nunca havia esperado que um leão se tornasse herdeiro do trono.
— Espere um minuto. Então o leão ia mesmo se casar com a moça?
Sim. O rei tinha prometido a filha a quem se mostrasse digno dela.
Dentro da minha cabeça, perguntei a Tia: Foi assim que o leão passou a ser conhecido como Rei dos Animais?
Ela bufou, com desprezo.
Os leões não precisam da ajuda da realeza humana para receber esse título. Somos predadores majestosos sem igual. Mas pode haver alguma evidência de que os humanos tenham passado a reconhecer os leões desse modo por causa dessa história.
Como a moça estava sofrendo de solidão, continuou Nebu, seu pai, o rei, concordou com a ideia de um casamento na primavera. A princesa e o leão passaram todo o tempo juntos no verão, no outono e no inverno, mas havia um lado negativo em ser noiva de um leão.
— Só um? — Sorri.
Tia não gostou do meu comentário.
A jovem donzela estava acostumada a viver cercada de pessoas implorando sua atenção. Com um leão por perto, os cidadãos de seu reino, até os que professavam um amor profundo e permanente pela princesa, não se aproximavam dela, temendo a ira do leão. O leão não via nada de errado nisso. De fato, ele preferia tê-la somente para si, embora ficasse perturbado ao vê-la tão infeliz.
— E onde entra o unicórnio?
Na verdade ele entra na história agora, respondeu Nebu.
É aqui que ela fica interessante, acrescentou Tia.
O leão era igual à princesa em muitos sentidos. Em todos, menos um: a princesa não comia carne.
— Ah. — Pisquei. — Que importância tem isso?
Normalmente não teria, e ela sabia que o leão só comia carne para saciar a fome. Não matava arbitrariamente. Ainda assim, isso incomodava a jovem. Ela, que amava todos os seres, não suportava saber que seu noivo era o responsável pela morte de criaturas inocentes.
— E o que ela fez?
Ela chorava a cada morte, até que o leão parou totalmente de comer. Alguns meses se passaram e, apesar de ele tentar comer frutas e verduras como ela, ficou fraco. Jamais em sua existência havia sentido tamanha fraqueza. Mas tão grande era seu amor pela jovem que, para deixá-la feliz, continuou ignorando os instintos. Uma tarde eles se dirigiram à floresta para um piquenique com maçãs, cenouras e morangos. O leão, ainda faminto e insatisfeito, deitou-se ao lado da moça que ele amava e, com a mão dela em suas costas, caiu no sono. Enquanto ele dormia, a moça começou a andar entre as árvores, procurando flores, e encontrou um bosque secreto, opulento e luxuriante, que somente alguém com coração inocente e puro conseguiria achar. Era o lar de um unicórnio – um animal grande e nobre que também fora abençoado pelos deuses.
Tia fez o equivalente mental de revirar os olhos.
Interessado em conhecer a pessoa que havia encontrado seu lar, o unicórnio entrou na clareira e viu a linda jovem colhendo suas flores. Aproximou-se e, quando ela levantou os olhos, os dois souberam que tinham sido feitos um para o outro. O grande coração do unicórnio derreteu-se. De imediato ele amou tudo que havia nela, desde a expressão modesta até o calor da presença. Achou delicioso seu riso efervescente, mas acima de tudo a pureza do coração e a riqueza da alma o atraíram. Como a jovem, o unicórnio era belo por dentro e por fora. E também conseguia ler o coração dos outros. Ele possuía o mesmo tipo de magia que atraía os outros e fazia com que quisessem ser melhores. Seu coração era puro. Ele era digno. Era a combinação perfeita para ela. A jovem foi atraída por ele tanto quanto ele por ela. Era um sentimento, uma convicção diferente de tudo que a princesa havia sentido com qualquer outro, e no entanto esse conhecimento partiu seu coração. A princesa ficou durante toda a tarde com o unicórnio e contou a ele que seria impossível permanecerem juntos. Estava noiva de um leão e a bondade dentro dela não lhe permitiria romper a promessa de casamento. O unicórnio chorou em desespero, porque conhecia o coração dela melhor do que o de qualquer pessoa e jamais pediria que ela fosse menos do que era. Pousou a cabeça no colo da princesa, decidido a aproveitar ao máximo o pouco tempo que tinham juntos. Ela foi embora ao pôr do sol e disse que jamais iria procurá-lo de novo. Ele aceitou, apesar da dor em seu coração. Tornou-se taciturno à medida que os dias passavam, mas a princesa foi fiel à palavra e não voltou ao bosque oculto do unicórnio. Ele tentou dizer a si mesmo que tudo estava acabado. Que seu amor era um mero flerte, que ardia quente mas poderia ser apagado rapidamente. Porém, no fundo do coração, ele sabia que estava mentindo a si mesmo. Estava loucamente apaixonado pela jovem e a separação lhe causava dor inacreditável, tormento indizível. Por isso entrou no mundo dos humanos só para vislumbrá-la mais uma vez. Quando fez isso, viu que ela estava tão melancólica quanto ele. Era essencial ficarem juntos.
Essa é a sua opinião!, sibilou Tia, ainda que o unicórnio não tivesse acesso a seus pensamentos.
Nebu continuou:
Bom, um unicórnio possui uma certa quantidade de magia, que fica concentrada no alicórnio, o chifre que brota no topo da cabeça.
— Mas você não tem um.
Correto. E agora você vai entender por quê. O unicórnio estava desesperado, por isso fez algo que nenhum unicórnio tinha feito antes.
Enganou o leão!, gritou Tia na minha mente.
Sacrificou o poder que tinha para dar um presente ao leão.
Mentira! Não era nenhum presente. O leão foi enganado!, exclamou Tia.
— Tia, quieta — pedi.
Esta é a parte em que o leão e o unicórnio discordam, explicou Nebu. Provavelmente ela vai lhe dar outra versão da história. O presente, prosseguiu, que o leão atribuiu a um comportamento furtivo da parte do unicórnio, era a fonte de seu poder, o alicórnio.
— Por que ele ofereceu isso ao leão?
O unicórnio encontrou o leão e confessou-lhe a verdade: que estava apaixonado pela jovem, assim como o leão, e que odiava vê-la infeliz. Disse ao leão que havia grande poder em seu alicórnio e que, se o leão o aceitasse, poderia usá-lo para alterar o corpo de modo a viver dos grãos, frutas e verduras de que a princesa se alimentava e ainda manter a energia. Resumindo, ele estaria imbuído de força outra vez.
— Então por que Tia diz que foi um truque?
Por causa do que aconteceu em seguida. Não tendo como retirar o chifre, o unicórnio se ajoelhou. E o leão, desesperado por permanecer com a jovem que ele amava, saltou sobre o unicórnio e usou as garras afiadas para cortar o chifre. Assim que foi cortado, o chifre perdeu o poder, tornando o unicórnio quase tão fraco quanto um cavalo mortal.
— Então a coisa não funcionou? O leão não ficou forte?
Ah, o leão ficou forte de novo, mas isso não importou, porque ele tinha intencionalmente feito mal a outra criatura por um ganho pessoal. Quando o leão levou o chifre cortado para a princesa e o colocou aos pés dela, ela chorou amargamente, porque agora seu noivo estava perdido. O coração dele não era mais puro. Em desespero, o leão gritou que tinha sido enganado e insistiu que só havia feito isso para ficar com ela. O unicórnio mutilado foi até a jovem, perguntando se agora poderiam ficar juntos, já que se desejavam com tanto ardor. Apesar de amar o unicórnio e sentir que não havia malícia em seu coração...
Imagina!, disse Tia.
... a moça hesitou. O leão insistiu que o unicórnio o havia enganado e pediu ajuda aos deuses. Um tribunal foi formado e decidiu que as duas criaturas tinham agido com egoísmo e portanto seriam penalizadas. A linda jovem chorou, porque seu coração gentil não suportava ver nenhum dos animais que amava ser castigado. Pegou o alicórnio quebrado e o cravou no próprio coração. Quando ela morreu, nem o leão nem o unicórnio se importaram mais com o que acontecesse com eles. O único desejo era se unir no além à jovem que amavam. O tribunal, furioso ao ver que o amor forjara um fim tão horrendo, não lhes concedeu esse desejo. Foi decidido então que todos os leões seriam banidos para o mundo humano. E, para lhes dar uma lição, estariam para sempre em rixa com os mortais. Os animais mortais não vão para o além após a morte, por isso o leão jamais veria sua noiva outra vez. Quanto ao unicórnio, toda a sua espécie seria proibida de se mostrar aos mortais. Alguns violam essa lei, mas recebem um castigo rapidamente. Os unicórnios receberam o dom, ou a maldição, dependendo do ponto de vista, da imortalidade. Jamais poderemos entrar no além, e aquele unicórnio em particular jamais veria sua princesa de novo, ainda que seu amor fosse mais verdadeiro do que qualquer um que tenha existido ou venha a existir na Terra. Porque era o amor nascido de um coração puro.
Ah, por favor, murmurou Tia.
Ignorei-a, enquanto Nebu continuava: Veja, o grande amor que o unicórnio sentia por sua linda princesa não morreu e procura renascer constantemente. É por isso que os unicórnios têm dificuldade para resistir a quem tem o coração inocente: essas pessoas os lembram da jovem perdida. Para garantir que o unicórnio se lembrasse da lição do tribunal, todos os alicórnios foram eliminados. Seu poder foi retirado completamente, de modo que não restassem nem mesmo mínimos vestígios. Dizem que, se um unicórnio realizar um feito completamente altruísta, ele pode ganhar de volta o alicórnio, mas até agora nenhum conseguiu.
Agora eu sabia por que unicórnios e leões não se entendiam. Era trágico. Um destino terrível para todos. Tendo encontrado alguém com quem meu coração era capaz de falar, eu compreendia a dor da separação. Obviamente, eu também me sentia disposta a fazer o que fosse necessário para estar perto de Amon de novo.
Por fim, eu disse:
— Sinto muito. Fico triste por vocês dois. Ambos perderam muito.
A dor se embota com o tempo, mas acho que meu coração jamais irá se recuperar completamente, disse Nebu.
— Espere aí. Está dizendo... que aquele unicórnio era você? Que essa história é sua? Você é que se apaixonou pela princesa?
O que importa se fui eu?
— Mas... você é pai. Você tem filhos.
Não no sentido que você supõe. Os unicórnios não nascem. Somos criados. Sou simplesmente o mais velho da minha espécie. Os jovens me chamam de pai.
Tia?, pensei. Você acha que é ele? O que realmente a amou?
Se é, disse ela baixinho, então é uma alma condenada por toda a eternidade. Eu não desejaria isso nem para meu pior inimigo.

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