21 de outubro de 2016

9. Um passeio egípcio

Com seu sorriso que parecia um sol radiante, Amon desejou felicidades a cada membro da tripulação antes de desembarcar.
Ao terminar, teve confiança suficiente não apenas para conseguir se orientar no aeroporto, o que teria sido um desafio até mesmo para mim, como também para obter acesso a uma sala VIP, onde poderíamos descansar um pouco.
Depois de fazer um bochecho com água, escovar os cabelos e lavar o rosto, fui encontrar Amon na área de espera, onde ele me passou uma garrafa d’água. Estava exausta, e não só por não ter dormido quase nada. Era algo mais profundo, e eu sentia que minha ligação com Amon era a causa primária daquele cansaço. Ele também reparou na minha exaustão.
— Você está cansada, jovem Lily.
Tomei um golinho d’água e aquiesci.
— Venha — disse ele, conduzindo-me até umas cadeiras com aspecto bem confortável situadas perto de amplas janelas.
Sentei-me em uma delas e ele ficou em pé bem na minha frente. A luz do sol ajudou um pouco, mas eu ainda sentia os olhos meio inchados e, apesar de ter bebido toda a água, tinha a boca áspera e seca.
Amon pressionou os dedos na minha bochecha e manteve os olhos fechados por vários instantes.
— Bem, doutor, qual é o diagnóstico? Eu vou sobreviver? — perguntei, meio de brincadeira, meio com medo da sua resposta.
— Você precisa descansar — anunciou, pegando minha mão.
— Isso eu já sabia.
Embora sua expressão fosse de pura preocupação, ele tentou disfarçar.
— Então vamos indo — disse, delicado.
Ele me ajudou a me levantar e então me enlaçou pela cintura. Entrei em pânico na hora.
— Opa, espere um instantinho! Senhor Jeannie é um gênio. Por que não deixa a viagem na areia para quando a gente realmente precisar?
Amon parou um instante e analisou o ambiente em que estávamos.
— Talvez você tenha razão. Vamos arrumar uma carruagem dourada.
Fui atrás dele e disse:
— Talvez no Egito elas não sejam douradas.
— Ah, sim. O Cairo deve ser bem mais avançado do que aquela sua cidade de Manhattan. Vamos arrumar uns cavalos bem velozes.
— Hã, talvez seja melhor você se preparar para um pequeno choque cultural — avisei enquanto nos encaminhávamos para as portas. — Acho que não vai encontrar o mesmo Egito de mil anos atrás.
— Este ainda é o meu povo. Tenho certeza que a cidade vai ser bem parecida com a minha lembrança.
— Ok. Não diga que não avisei.
A expressão de Amon se fechou quando saímos para o sol forte. A cidade se estendia à nossa frente, e não havia como negar que não era o que ele esperava ver. Ele me olhou irritado quando brinquei:
— Está vendo? Nem um mísero camelo.
Amon foi até um dos seguranças do aeroporto e, ajeitando minha bolsa no ombro, começou a falar com o sujeito.
Quando voltou, vi o segurança falando no walkie-talkie.
— O que houve? — perguntei.
— Ele vai providenciar uma carruagem VIP para nós. — Ele apontou para um dos pequenos táxis preto e branco que passavam depressa antes de completar: — Não vou me espremer em uma carruagem tão pequena. Até no meu sarcófago havia mais espaço.
Eu ri e, quando cheguei mais perto dele para deixar passar um grupo grande de pessoas, ele pôs as mãos em volta dos meus ombros em um gesto protetor. Havia muitos grupos de turistas, de diversos países e culturas. Amon inclinou a cabeça, tentando ouvir as pessoas que passavam.
— Tantas línguas diferentes — comentou por fim.
— O Egito é um destino turístico bem popular.
— Como assim, “destino turístico”?
— Bom, muitos visitantes vêm aqui ver as pirâmides e outras relíquias do passado.
— Que tipo de relíquia?
O carro chegou e o motorista saltou depressa para pegar a bolsa que Amon estava segurando.
— Artefatos como cerâmicas, obras de arte, joias, papiros com textos antigos, múmias... esse tipo de coisa.
Ele já estava com a porta entreaberta pra mim, mas parou.
— As pessoas vêm ao Egito visitar os mortos? Ver os corpos daqueles que já partiram desta vida?
De repente, dei-me conta de quanto isso parecia desrespeitoso.
— Hã, é. Mas acho que o público não tem acesso a algumas das múmias mais frágeis. Acho que você pode pensar que essa é a maneira que as pessoas desta época encontraram para prestar homenagem aos reis e faraós de antigamente. Ninguém pode tocar as múmias, e elas em geral ficam protegidas sob uma redoma de vidro.
Ele passou alguns instantes sem dizer nada, e pude ver que estava refletindo sobre o assunto. Quando nos acomodamos dentro do carro, ele disse ao motorista:
— Nós somos viajantes VIP à procura de uma trégua na nossa jornada. Precisamos de comida e bebida, roupas novas e mantimentos.
O motorista arqueou as sobrancelhas para ele, arriscou uma olhadela para mim e perguntou, em inglês:
— Para onde gostariam de ir?
— Pode nos levar para um bom hotel.
— Bom e barato, ou bom do tipo não importa o preço?
Amon se inclinou para a frente.
— O preço é irrelevante.
— Bom do tipo não importa o preço — esclareci.
— Ótimo.
Ele saiu com o carro a toda e pegou o que desconfiei ser o caminho mais longo, mas não reclamei. Era bom observar Amon enquanto ele absorvia as mudanças na cidade.
— A que distância ficam as pirâmides de Gizé? — perguntei ao motorista.
— Não muito longe. Uns 50 quilômetros, algo assim. Querem ir lá hoje?
— Não. Hoje vamos descansar.
— Muito bem.
— Está fazendo mais frio do que eu imaginava. É normal?
— Abril aqui no Cairo é primavera — explicou o motorista. — É bem agradável.
Brinquei um pouco no celular e descobri que as pirâmides ficavam a uns 30 quilômetros do aeroporto. Fiz a conversão para cúbitos e sussurrei:
— Sessenta e sete mil e quinhentos cúbitos.
Em resposta, Amon apenas grunhiu, inteiramente fascinado com as cenas que desfilavam pela janela. O Cairo moderno era uma cidade movimentada. Assim como Nova York, exibia uma mistura de construções antigas e novas – no Egito, porém, a palavra antigo tinha um significado totalmente diferente.
Passamos por mesquitas e bazares, por cemitérios e museus, por torres e prédios de luxo, e por teatros e lojas, mas, ao contrário de Nova York, o Cairo dava a sensação de ser um lugar ancestral, e não era difícil imaginar que, se as pessoas diminuíssem suficientemente o ritmo, a poeira do deserto que vivia se acumulando nos limites da cidade se ergueria feito um animal selvagem e faminto para engolir a civilização, arrastá-la para a areia e enterrá-la de forma tão completa que o Cairo logo desapareceria, como as cidades de antigamente.
Por fim, o motorista parou na frente de um hotel grande com um lindo lago circular e um chafariz. Palmeiras margeavam o acesso de carros, e duas grossas colunas esculpidas no formato de obeliscos antigos se projetavam no céu de um lado e outro do lago.
Saltamos e, enquanto Amon girava lentamente no próprio eixo, remexi na bolsa à procura do cartão de crédito. Ele então tornou a prestar atenção em nós. Encarou fixamente o motorista, murmurou algumas palavras e, sem comentar mais nada, o sujeito virou a cabeça, engatou a marcha no carro e foi embora. Por quanto tempo será que vamos conseguir continuar assim?
O hotel era luxuoso; não fosse a decoração, eu poderia facilmente ter confundido aquele lugar com um prédio elegante de Manhattan. O lobby alardeava um restaurante cinco estrelas e, em áreas mais afastadas, lojas caras de roupas femininas, bolsas e malas de grife e suvenires, além de um bar e de um lounge que ficava aberto até tarde. Havia até uma perfumaria.
Amon hipnotizou o funcionário da recepção e logo fomos conduzidos com nossa parca bagagem até o último andar. Entregaram a Amon a chave do frigobar e a de uma sala VIP onde poderíamos jantar a sós, se quiséssemos. Depois de lhe ensinar como fazer pedidos com o cardápio do serviço de quarto, fui tomar banho.
Vestida com um roupão e pensando que preferiria dormir assim em vez de com as minhas roupas amarrotadas, espichei a cabeça para dentro do quarto e vi Amon cercado por várias travessas de comida. Ele não estava comendo, mas, sim, sentado ao sol que entrava pela janela. A vista do quarto era incrível. Bem lá embaixo ficava o belíssimo Nilo, cuja superfície cintilava ao sol. Embora os cabelos e a pele de Amon brilhassem, eu nunca o tinha visto tão melancólico.
— Vi que você pediu um banquete. Não está com fome? — perguntei.
— Estou sem paixão pela comida.
— Isso não é do seu feitio.
— Não. Está vendo, Lily? — Amon apontou para o Nilo. — Eu naveguei por esse rio incontáveis vezes, mas não conheço este lugar.
— Tenho certeza de que com o tempo a água deve ter erodido as margens...
— Não me refiro às dimensões do rio; estou falando da terra e do povo que nela habita. O povo se perdeu, foi roubado.
Desapareceu feito o orvalho com a chegada do sol.
— Amon... — segurei com força a mão dele — ... eles... nós... ainda somos o seu povo. Temos novas tecnologias, usamos outros meios de transporte para viajar, temos atividades que você nunca considerou possíveis, mas somos as mesmas pessoas. Ainda temos as mesmas necessidades: bebemos, comemos, procuramos amizade e amor. Nos preocupamos com aqueles de quem gostamos. Travamos batalhas. Nos magoamos. Ficamos doentes e morremos.
— Sim. Mas talvez vocês não precisem mais de uma... relíquia igual a mim. Talvez esteja na hora de eu ir dormir sob o vidro como os outros e nunca mais despertar.
Perguntei-me qual seria a sensação de só acordar uma vez a cada mil anos, de ver o mundo mudar e avançar sem mim, de não ter nenhum vínculo com ninguém, nenhum parente. Ele deve se sentir terrivelmente sozinho. Embora não pudéssemos ser mais diferentes um do outro, eu sabia o que a solidão fazia com uma pessoa.
Virei a cabeça e olhei para o rio azul cintilando lá embaixo.
— O Nilo já alimentou várias gerações, e continua a servir e abastecer o povo do Egito. Muitas pessoas talvez caminhem por suas margens sem lhe dar a menor atenção. Talvez elas nem pensem nos reis que navegaram suas ondas, nem nas pessoas que dependiam dele para ter água potável e irrigar as lavouras, mas isso não diminui seu impacto. Não diminui sua importância. O seu povo talvez não conheça você. Talvez passe por você na rua sem sentir o seu poder, mas isso não quer dizer que ele não precise de você.
Eu não sabia mais o que dizer. Entendia como aquele despertar devia ter sido diferente para ele em comparação com as outras vezes. Naquela época ele era celebrado, e hoje estava esquecido.
Amon ergueu a cabeça e disse:
— Tem razão, Lily.
— O quê? Como?
Eu estava justamente pensando em quanto estava errada.
— Pouco importa nós reconhecermos ou não a importância do sol; ele continua a brilhar, seja qual for a atenção que lhe damos. Se os meus esforços não forem reconhecidos, paciência. Jurei servir ao povo do Egito, e assim farei até o Egito não precisar mais de mim.
— E quando isso vai acontecer?
— Quando a escuridão não for mais uma ameaça.
— Talvez isso nunca aconteça.
— Então eu continuarei a servir.
Os olhos cor de avelã de Amon exibiam uma expressão atormentada.
— Como você está lidando com isso tudo? Quero dizer, todas essas mudanças que está vendo no mundo devem ser atordoantes.
— Eu estou lidando com elas... graças a você, Lily.
— Como assim?
— É difícil explicar.
— Mas você pode tentar?
— Através dos seus olhos, minha mente é capaz de entender o mundo. Veja o caso do seu celular, por exemplo. Se eu me concentrar, posso imaginar você usando o aparelho. Posso ver na minha mente como você confia nesse aparelho, e, embora eu não o compreenda totalmente, não tenho medo dele.
— E os aviões, carros e arranha-céus? — Ele inclinou a cabeça e me encarou. — Espere, você está fazendo isso agora, não é? Procurando a definição de arranha-céu?
— Sim.
— São esses prédios grandes.
— Ah. Embora eu possa captar imagens e emoções de qualquer pessoa que escolher, com você tenho uma conexão especial. É mais do que o Olho. O nosso vínculo não me proporciona só energia, mas também me estabiliza. Sem você eu seria uma balsa lançada em um mar revolto sem vela nem âncora. Estaria realmente perdido.
— E você já se vinculou assim a outras pessoas? Nas outras vezes em que despertou?
— Não. Você é a primeira.
— Por que não se vinculou a outras? Não precisava da ajuda delas?
— Um vínculo é uma fusão de todos os cinco aspectos de mim mesmo com outra pessoa. As fronteiras entre os dois envolvidos podem facilmente se confundir. É uma coisa... íntima.
— É por isso que eu estou achando difícil controlar o que digo? Sei lá... é como se tudo o que eu pensasse simplesmente saísse pela minha boca, querendo ou não.
Amon assentiu.
— Seus pensamentos e sensações interiores foram trazidos à superfície. Antigamente, eu sabia onde estava e o trabalho que tinha a fazer. Meus jarros da morte estavam sempre por perto, de modo que eu não precisava da ajuda de outra pessoa. Meus irmãos despertavam no mesmo dia que eu e juntos cumpríamos nosso objetivo sem impor nossa vontade a um mortal. O vínculo nunca foi criado porque nunca foi necessário. Sempre lamentarei o fardo que esse vínculo representa para você.
Passei alguns instantes calada, então disse:
— Sinto que há mais coisas que você não está me contando.
Amon desviou o olhar.
— Nada com que você precise se preocupar. Vou continuar a tomar muito cuidado para você não se machucar. Falando nisso, agora precisa descansar, jovem Lily.
— Você também está cansado — falei baixinho. — Não quer dormir?
Amon ficou em pé, me puxou e segurou entre os dedos uma mecha dos meus cabelos molhados. Ao afastá-la do meu rosto, beijou minha testa, gesto que surpreendeu a ambos.
— Você precisa dormir mais do que eu, Nehabet — disse, recuando.
— O que é isso?
— Na minha língua, um nehabet é um lírio-d’água precioso que cresce nos oásis, e este lírio aqui — ele deu uns tapinhas no meu ombro — precisa descansar. — Quando comecei a protestar, pousou a ponta de um dedo no meu lábio superior para me fazer calar. — Só tem uma cama. Quero que fique com ela.
Com um empurrãozinho, ele me despachou para o quarto. Ao fechar a porta, eu o vi se virar outra vez para a janela e passar pelos cabelos uma das mãos trêmulas.



Era começo de tarde quando adormeci e, ao acordar, já era de noite. A janela do quarto estava aberta e o ar noturno entrava, fresco, trazendo aromas de rio, flores do deserto e temperos exóticos. Abri uma fresta da porta e vi que Amon dormia. Sua forma comprida estava curvada no sofá de um jeito pouco natural, e a comida sobre a mesa continuava intacta.
Empurrei o carrinho de comida fria até o corredor, fiz uma ligação em voz baixa para pedir mais, então me ajoelhei diante dele enquanto esperava o serviço de quarto chegar. Seus cabelos recém-brotados lhe cobriam os olhos, e, após alguns instantes tentando negar o que estava sentindo, mandei a parte da minha mente que me controlava calar a boca e retirei delicadamente os cabelos da frente de seus olhos, usando só a pontinha dos dedos. O calor de sua pele me atraía, e minha única vontade era ficar sentada ali perto para sentir sua radiância.
No sono, seus lábios carnudos estavam relaxados, e percebi que estava vendo o homem, não o deus do sol. Amon tinha dois lados, ambos gravados na mesma sólida moeda. As duas versões eram poderosas, belas e autoritárias, mas o Amon homem, que era vulnerável e duvidava de si mesmo, que ansiava por sentir um vínculo com outras pessoas, era o que mais me atraía.
Era muito fácil imaginá-lo sonolento, grogue e quente, abrindo os braços para mim, e eu lhe dando um beijo e enfiando os dedos nos seus cabelos num abraço apaixonado. Quando a ideia de que seria fácil me apaixonar por alguém como ele passou pela minha cabeça, retirei a mão e me censurei por me deixar levar por fantasias de menina. Não sabia que bicho tinha me mordido, e não estava propensa a racionalizar naquele momento, mas decidi dar um descanso a mim mesma.
Aquela era a única vez na minha vida em que iria me permitir quebrar as regras; se queria me deliciar admirando um homem lindo, não havia ninguém por perto para reparar nem se importar com isso.
Mesmo assim, minha antiga forma de pensar não parava de ressurgir. Mesmo que eu acabasse gostando o suficiente de Amon para querer tomar alguma atitude, o que isso significava? Nós jamais poderíamos ter um futuro juntos.
Mas ele era atencioso; não só comigo, com os outros também. Era solar – algo de especial acontecia quando Amon aumentava a potência de sua luz; era quase como se eu não conseguisse conter minha própria felicidade. E era abnegado – como uma garota poderia resistir a um cara que abria mão dos próprios desejos e se sacrificava para salvar os outros?
Esses traços de personalidade, sem falar em muitos outros, lançavam uma luz brilhante sobre o rapaz sonhador e sombrio que eu conhecera poucos dias antes. Este havia desaparecido, e em seu lugar restava Amon. Eu poderia me apaixonar perdida e perigosamente por alguém como ele, mas não era capaz de criar na mente uma versão em que um relacionamento desses tivesse outro desfecho que não a desilusão. Meus pais, é claro, jamais iriam aprová-lo, a não ser que ele tivesse diploma universitário ou aspirações políticas.
A ironia era que, se eu tivesse vivido na época de Amon, meus pais não poderiam ter sonhado com um partido melhor. Afinal de contas, ele era um príncipe do Egito. Mesmo sem o poder do deus do sol, Amon era bem-sucedido. Torci o nariz ao pensar que ele talvez pudesse ter se casado com uma irmã, como os deuses de antigamente. Mas talvez ele nem tivesse irmã. De qualquer maneira, eu obtivera uma trégua temporária do planejamento de todo o meu futuro, e sempre seria grata a ele por isso. Não tinha reparado no peso da minha vida estruturada até ela desaparecer. Estar com Amon me dava a sensação de que tudo era possível. Eu não me sentia mais a pessoa que os outros chamavam de Srta. Young ou Lilliana. Com ele, eu era apenas Lily, ou jovem Lily. Ser Lily me agradava muito mais.
Quando alguém bateu de leve na porta, deixei de lado as reflexões e fui abrir; o garçom entrou trazendo outro carrinho. Entregou-me um recibo para assinar e saiu. Amon acordou quando eu estava arrumando a comida na mesa.
— Você vem? — perguntei, com um sorriso. — Devo confessar que estou pronta para um banquete.
Inclinando a cabeça de lado, ele me estudou com os olhos verdes arregalados.
— E o que você está comemorando, jovem Lily?
Ergui um copo cheio de suco de laranja na direção dele e disse:
— Possibilidades. Vamos celebrar o desconhecido.
Amon se adiantou, pegou um copo e o encheu com o suco da jarra.
— Ao desconhecido, então — disse, batendo o copo no meu.
Fiz meu prato com prazer, e não me permiti pensar em gorduras, carboidratos ou calorias. Se achasse algo uma delícia, fazia questão de que Amon experimentasse. Enquanto elogiava o bolo de chocolate que lhe pedi que provasse, empurrou na minha direção um prato egípcio que adorava e me incentivou a comer com a mão. Um outro prato nós comemos com pedaços de um pão fino e saboroso. Depois de experimentarmos tudo, dando várias coisas na boca para o outro provar, Amon pegou o telefone e pediu tudo o que havia no cardápio que ainda não tínhamos provado.
Juntos comemos pizza pela primeira vez, e a que ele mais adorou foi marguerita. Apresentei-o à lagosta e ao linguini, ao sorvete e às almôndegas italianas, ao steak tartare e aos rolinhos primavera, e ele me fez provar diversos pratos típicos egípcios. Alguns eram parecidos com coisas que ele comia antigamente, enquanto outros eram criações recentes.
Provar todos aqueles pratos com Amon foi uma experiência muito empolgante. Um prazer sem limites, uma aventura, e de certa forma algo muito íntimo. Acima de tudo, porém, foi divertido. Percebi que na verdade eu nunca havia me banqueteado na vida. A paixão de Amon pela comida e por se entregar aos prazeres simples do sabor e das texturas era uma grande novidade para mim. Peguei-me desejando ter feito aquilo antes.
Quando terminamos, gemi de satisfação; nunca na vida tinha comido tanto. Passava um pouco da meia-noite, e eu não sabia se deveria voltar a dormir ou assistir a um filme. Tinha começado a recolher os pratos e colocá-los de volta sobre o carrinho quando Amon me segurou delicadamente pelo pulso.
Ele fez a mão escorregar pelo meu braço até o rosto, encostou a palma na minha bochecha e disse:
— Hakenew, Lily.
— Isso quer dizer “obrigado”, não é?
— Quer dizer mais do que um simples obrigado. Expressa um profundo sentimento de gratidão por outra pessoa. É um agradecimento pelo calor e pelo conforto duradouros que se sente na companhia de alguém especial. Não estou agradecendo a você, Lily. Estou agradecendo por você.
— Ah.
— Já participei de muitos banquetes, mas nenhum foi tão bom quanto este — continuou ele. — Meu coração fica mais leve com você.
Enrubescendo, murmurei:
— Eu também gostei.
Os olhos verdes de Amon estudaram meu rosto, então baixaram até meus lábios ao mesmo tempo que ele dava um passo na minha direção. Pensei que ele fosse me beijar, mas em vez disso ele encostou a testa na minha. Nossos narizes se tocaram, mas infelizmente seus lábios altamente beijáveis não chegaram nem perto dos meus.
Recuei, e pude sentir seu arrependimento quando ele se afastou alguns passos.
— Por favor, descanse um pouco mais, Lily. Não vou demorar.
Com isso, ele saiu pela porta e sumiu.
Fiquei me perguntando: O que foi que eu fiz? Talvez ele não sentisse por mim a mesma atração que eu sentia por ele. Talvez apenas precisasse de mim e, quando tudo terminasse, não fosse ter problema algum em me deixar de lado.
Tomada pela insegurança, emoção que eu desprezava, ainda mais por causa de um cara, situação na qual nunca me permitira ficar, censurei-me por estar agindo como uma adolescente obcecada por uma paixonite não correspondida. Disse a mim mesma que estava acima dessas coisas e fui até o banheiro ver se estava com algum pedaço de comida preso nos dentes.
Não achei nada, o que me fez hesitar entre me perguntar por que Amon não se sentia atraído por mim e pensar que eu era segura demais para me importar com isso.
Peguei a escova de cabelo e notei que meus fios estavam diferentes. De ambos os lados do rosto, duas mechas não tinham mais a mesma cor que o restante. Era como se eu tivesse feito luzes louras em duas grandes mechas. Examinei as raízes, corri os dedos até as pontas das mechas realçadas e arquejei ao entender que Amon tinha tocado meus cabelos bem no lugar em que agora estavam as mechas mais claras.
O fato de minhas novas luzes muito provavelmente se deverem ao toque de deus do sol de Amon na verdade me fez apreciá-las. Meus cabelos agora eram únicos, muito diferentes dos da Lilliana que morava em uma cobertura em Nova York.
Aquela era uma Lily com uma veia aventureira. Uma Lily que saía de fininho de casa. Que comia coisas gostosas em vez de coisas que não engordavam. Endireitei os ombros e percebi uma coisa: aquela era uma Lily que adiava a universidade por um ano ou dois e ia viajar. E aquele era o tipo de Lily que talvez merecesse um lindo deus do sol egípcio como namorado.
Molhei os cabelos de novo, passei um creme e amassei as mechas enquanto as secava com o secador. Separei os cabelos em partes e formei cachos soltos com um baby-liss, criando um penteado maluquinho que refletia o meu astral. Estava me maquiando quando ouvi a porta do quarto se abrir.
— Amon? — chamei.
— Cheguei, Lily.
Ele entrou no quarto com um homem de terno obviamente hipnotizado. Ambos carregavam uma porção de sacolas de compras em cada braço. Depois de largar tudo em cima da cama, Amon agradeceu ao homem e murmurou algumas palavras, e este saiu, feliz da vida, apesar de eu ter certeza de que não tinha recebido pagamento por nenhuma das coisas que Amon já havia começado a tirar das sacolas. Quando ele saiu, vi de relance o lampejo dourado de seu crachá e indiquei com o polegar sua figura saindo do quarto.
— Você enfeitiçou o diretor do hotel e o fez subir cheio de sacolas?
Amon deu de ombros.
— A loja de roupas femininas estava fechada, e ele era o único que podia abrir.
Cruzei os braços diante do peito e o encarei, mas Amon me ignorou e começou a vasculhar as sacolas.
— Não sabia quais roupas cairiam melhor, então peguei vários modelos e tamanhos diferentes — explicou.
— Mesmo se as câmeras de segurança não tiverem filmado vocês, ele pode ter problemas com o patrão, sabia? Pode até ser preso.
Amon descartou o assunto com um gesto.
— Desde que você me mostrou a câmera do seu telefone, descobri como desativá-las por onde passamos. São aparelhos bem simplezinhos.
— Ok, só estou dizendo que às vezes é melhor ficar mais na sua.
Ele se virou para me olhar e indagou, com uma expressão intrigada:
— Na minha o quê?
— Ah, esquece — retruquei com um suspiro.
Vasculhei uma das sacolas e encontrei uma camisa de botão e uma calça jeans vários tamanhos maior do que o meu. Tirei a calça da sacola, segurei-a esticada e arqueei as sobrancelhas com um sorriso de zombaria.
— Nossa, que olho péssimo você tem.
Amon ergueu os olhos.
— Isso não é para você. É para mim.
— Ah. — Passei-lhe a calça. Depois de juntar mais algumas peças, ele fez menção de sair, mas então parou e tornou a se virar.
— Seu cabelo está diferente.
— É, eu percebi. Aliás, obrigada pelas luzes.
Afastei uma mecha loura do rosto e a soltei. Amon deixou as sacolas caírem no chão com força, aproximou-se e esticou uma das mãos, hesitante, mas se deteve, como se estivesse pedindo minha permissão.
— Tudo bem — falei. — Pode tocar. Gostei das mechas.
Ele girou uma mecha em volta do dedo e a puxou delicadamente para deixá-la reta. A ponta de seu dedo brilhou quando ele puxou os fios, e cheguei a ver ondas de luz percorrerem meus cabelos até as pontas.
— Pelo visto meu cabelo muda de cor nos lugares que você toca.
— É. — Ele observou curioso a transformação. — Mas eu não o enrolei.
— Não. Essa parte fui eu.
Amon soltou a mecha recém-alourada e deu um passo para trás.
— Desculpe — falou.
— Não precisa se desculpar. Como eu disse, gostei da cor. — Como ele não respondeu e ficou só me olhando, tornei a falar: — Você odiou? É esse o problema?
— Não. Eu achei... lindo.
— Então o que foi? Qual é o problema?
— Nenhum. — Ele sacudiu a cabeça e se virou antes de completar: — Vista uma roupa confortável. Vamos atravessar o que você chama de tempestade de areia.
— Depois a gente vai voltar para o hotel?
— Sim. Pode ser.
— Ok. Então vou levar pouca coisa.
Ele saiu e fechou a porta sem fazer barulho.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo com ele, e isso me incomodava. Ele estava chateado com alguma coisa, mas eu não conseguia saber com o quê.
Como não tinha ideia do que iríamos fazer, escolhi uma calça jeans justa, uma camiseta preta e um par de botas. Para o caso de irmos a algum lugar mais chique, pus na mochila uma saia preta esvoaçante com pontas assimétricas, além do meu caderno, algumas garrafas d’água, um par de sandálias e minha carteira. Amon provavelmente cuidaria da parte do pagamento, mas mesmo assim eu queria estar com dinheiro, só para garantir.
Ao sair do quarto, encontrei Amon vestido de forma parecida. Ele havia penteado os cabelos castanhos para trás com os dedos, o que os fazia parecer quase pretos, e estava usando uma calça jeans escura com um cinto preto grosso e uma camisa cinza desabotoada que deixava entrever por baixo uma camiseta branca. Apesar da dupla camada de tecido, dava para ver seu físico musculoso. Caramba, pensei. Nada mau, Lily. Nada mau.
Engoli em seco, pigarreei bem alto e perguntei:
— Agora é a hora da tempestade de areia?
— É.
Ele me encarou com um olhar digno de falcão que fez com que eu me sentisse ao mesmo tempo vulnerável e poderosa. Meu coração começou a bater forte quando me aproximei dele, e seus olhos pareceram absorver todos os meus movimentos de uma vez só. Tive a impressão de que ele podia sentir não apenas meu ritmo cardíaco, mas também o sangue pulsando em minhas veias, o modo como arfei quando ele deslizou a mão pelo meu braço e como minha pele se eriçou quando ele me tocou.
— Está pronta? — sussurrou junto à pele delicada abaixo da minha orelha, e quando respondi “Estou” não estava nem pensando no lugar para onde estávamos indo. Aproximei-me ainda mais dele e o abracei pela cintura. Quando a areia começou a voar, fechei os olhos e enterrei o rosto no seu peito. Senti sua surpresa diante desse gesto, mas não soube dizer se era uma surpresa agradável ou se ele teria preferido que eu mantivesse distância.
Meus ouvidos foram preenchidos pelo zumbido da tempestade e senti a areia lamber meus braços nus e o vento levantar meus cabelos. Tive um momento de pânico quando as ferroadas me deixaram anestesiada, mas Amon de alguma forma falou comigo mentalmente e me tranquilizou com palavras brandas em um idioma que não consegui entender. A mão dele subiu pelas minhas costas, segurou meu pescoço e tive apenas alguns segundos para curtir essa sensação antes de não conseguir sentir mais nada e de mergulharmos na escuridão.



A areia parou de rodopiar e nos materializamos em um beco entre dois prédios.
— Onde estamos? — perguntei, girando em círculos.
— Itjtawy — respondeu ele baixinho.
— Itjtawy é...
— Minha cidade natal.
— Ah.
Pelo visto, a “cidade natal” de Amon era agora um bairro industrial nos arredores da zona metropolitana do Cairo. Ele começou a andar e eu fui atrás, sem saber se era seguro caminhar por ali àquela hora da noite. Em poucos instantes, Amon conseguiu encontrar o Nilo e seguimos a pé pela margem enquanto ele estudava as cercanias. Parou uma vez para brincar com a ponta de um junco que crescia perto da água.
— Papiro — explicou, sem eu ter perguntado.
Eu jamais teria adivinhado que aquele aglomerado de caules altos e verdes com o topo parecido com um espanador pudesse ter sido usado para fabricar papel.
Um pouco mais adiante, Amon parou, recuou com cautela e pôs-se a contar os passos.
— Deve ser bem aqui — anunciou por fim.
— O quê? A sua casa? Como você sabe?
— Não. A minha casa devia ficar no alto daquela encosta. Está vendo?
— Aquele morro ali? Estou vendo, sim. O que tinha ali?
— O templo. O templo em que devíamos venerar Anúbis. Sei onde estamos porque aqui foi o local da minha primeira morte, experiência que jamais vou esquecer. Mesmo que tivesse esquecido, o Olho de Hórus teria me mostrado o que estou buscando.
— Ah, entendi. — Eu estava doida para fazer outras perguntas, mas pude ver que ele estava concentrado na tarefa que precisava realizar. — Então, o que precisamos fazer?
— Fique em silêncio um instante para eu poder me concentrar.
Amon caiu de joelhos, fechou os olhos e ergueu as mãos para o céu com as palmas viradas para cima. Não tive certeza do que fazer, mas ajoelhar-me pareceu o mais certo, e foi o que fiz. Ele começou a entoar um cântico e após alguns instantes senti o chão roncar.
Ele se virou para mim e estendeu a mão.
— Lily!
Puxou-me até eu ficar em pé e me apertou com força junto ao peito. Sustentou-nos juntos de pé enquanto o chão sob nossos pés tremia. A terra diante de onde estávamos se ergueu como se algo – ou alguém, o que eu sinceramente torcia para que não fosse o caso – estivesse emergindo dela. Um chifre rompeu a superfície e tive medo de que fizesse parte de um monstro subterrâneo, mas nessa hora o ronco cessou e o que quer que fosse aquilo despontando da terra permaneceu imóvel.
Com cuidado, Amon deu um passo à frente e estendeu a mão para retirar o objeto da terra. Parecia uma casquinha de sorvete grande, só que feita de argila. Tirando a sujeira que a cobria, as laterais eram lisas e na parte superior havia alguns hieróglifos egípcios.
— O que é isso? — indaguei, chegando mais perto.
— Um cone funerário.
— O que é um cone funerário? Serve para fechar a tampa do sarcófago? Me parece fácil de quebrar.
Amon fez que não com a cabeça.
— Não. Os cones marcam a entrada de um túmulo. Estes símbolos gravados aqui são uma prece para o morto. E aqui está escrito o nome dele.
— Quem é o morto, então?
Com reverência, Amon limpou a terra da superfície do cone e leu em voz alta as palavras em egípcio enquanto acompanhava um dos trechos com o dedo. Antes de traduzir, fez uma pausa e olhou para mim.
— Eu. Este cone vem da tumba situada no meu último lugar de descanso. É um recado dizendo que vou encontrar lá o que estou buscando.
— E o seu último lugar de descanso foi...
— Tebas. Não Tebas propriamente dita, mas as tumbas próximas às colinas tebanas, mais provavelmente.
— Espere um instante. No caixote que continha todos os artefatos lá no museu estava escrito que a múmia... — Mudei de posição, pouco à vontade. — Quero dizer, que você tinha sido encontrado no Vale dos Reis. — Peguei o celular e procurei o site. — É perto de onde ficava a antiga Tebas — expliquei. — A cidade hoje se chama Luxor. Detesto dizer isso, Amon, mas o Vale dos Reis é a capital arqueológica do mundo. Hã, “arqueológica” significa relacionada à escavação de relíquias enterradas.
Amon franziu o cenho.
— Como eu.
Fiz uma careta, mas respondi:
— É. A questão é que deve haver vigias por toda parte, e eles ainda nem encontraram todas as tumbas que existem lá. Vivem achando coisas novas. Vai ser como procurar uma agulha em uma duna de areia, sem falar que você vai ter que controlar a mente de um monte de pessoas só para a gente conseguir entrar lá.
Enquanto eu falava, Amon limpava metodicamente o artefato cônico. Quando terminei, ele ergueu os olhos e disse:
— Eu preciso tentar, Lily. Se não conseguir, tudo estará perdido. Ainda assim você quer me acompanhar nessa jornada?
Cheguei mais perto dele, pus a mão no seu braço e disse:
— É claro que quero. Agora me dê essa casquinha aí que eu vou guardar na bolsa para não quebrar.
Uma vez guardada a relíquia, imaginei que fôssemos partir na mesma hora para o Vale dos Reis, mas Amon quis esperar o dia seguinte para poder se revigorar antes da viagem. Ele também queria passear pela área onde antes ficava sua casa.
Estendeu uma das mãos para mim, e juntos exploramos as terras que supostamente haviam lhe pertencido um dia.
Conforme ele falava e me explicava como era sua casa, os prédios cinza tristonhos desapareceram e foram substituídos por um palácio dourado, campos de cereais e rebanhos de diversos animais. Pude ver Amon caminhando orgulhoso no meio de seu povo, navegando em um barco pelo Nilo ou celebrando com banquetes.
Logo chegamos a um prédio que fora convertido em casa noturna. Uma música eletrônica tocava muito alto e uma fila de lindas moças e rapazes esperava sua vez de entrar.
— O que é isso? — quis saber Amon.
— Parece uma boate. Um lugar onde as pessoas dançam e comemoram — expliquei.
— O meu povo dança?
— Dança, claro. As pessoas dançam no mundo todo.
— Então venha, Lily. Vamos comemorar com eles.
— Acho que não estou muito no clima.
— Como assim, clima?
— Clima é uma disposição... como quando... Ah, é complicado demais explicar.
Amon me examinou no escuro; seus olhos brilhavam. Inclinou a cabeça e disse:
— Você não gosta de dançar.
— Em geral, não.
Ele continuou a se concentrar em mim, e não demorou a discernir mais do que eu estava disposta a demonstrar.
— Considera isso um uso ruim do seu tempo e fica... encabulada.
Era isso mesmo. Que coisa estranha ter alguém captando cada pensamentozinho que eu tivesse.
— Pare de me analisar, Sigmund Freud. Eu tenho os meus motivos, e você não precisa saber tudo.
Amon ignorou minha reação e continuou:
— Lily, em primeiro lugar, não existe a menor possibilidade de os seus braços e pernas tão graciosos e lisinhos se moverem de qualquer maneira que venha a lhe causar vergonha. Segundo, o mundo já tem trabalho suficiente, Nehabet. De que adianta ter sucesso se você não aproveitar suas conquistas? É preciso ter equilíbrio. Até mesmo um rei comemora. Se não comemorasse, como poderia ter um governo eficaz?
Ele fez uma pausa e então prosseguiu:
— Você precisa se permitir sentir... alegria, jovem Lily. Precisa ter prazer pelo simples fato de estar viva. — Ele disse isso encostando os lábios em uma das minhas mãos, depois na outra.
A ironia era que em toda minha vida eu nunca tinha me sentido mais viva do que naquele instante em que Amon beijou minhas mãos. Ele já havia beijado minha testa, mas, quando levou os lábios às minhas mãos, uma descarga elétrica atravessou meu corpo. Embora eu soubesse que a paixão dele tinha mais a ver com aproveitar a vida do que comigo, foi assim mesmo uma sensação poderosa, e parte de mim quis se agarrar a isso.
— Muito bem — concordei baixinho. — Vamos dançar.
A boate estava escura e quente, mas a música era incrível: eletrônica com uma batida nervosa e uma sonoridade um pouco exótica. Na mesma hora me senti deslocada, pois a maioria das mulheres usava vestido justo e curto, salto alto e muita maquiagem. Amon estava nos guiando até o bar quando gritei mais alto do que a música:
— Vou ao banheiro! Já volto!
Fazia um calor tão grande que meu sangue chegava a latejar, mas, quando enfim cheguei ao banheiro, o contraste de temperatura era gritante. Um ar-condicionado soprava ar frio sobre as mulheres que se arrumavam diante do espelho, e me perguntei se o banheiro masculino seria assim também, ou se aquilo era algo especialmente pensado para o público feminino.
Depois de tirar minhas botas pesadas e calçar as sandálias, troquei rapidamente o jeans pela saia que havia levado e em seguida puxei a camiseta, pensando no que poderia fazer para deixá-la com um aspecto de quem estava indo à boate, e não à feira. Estava em pé na frente do espelho, com o cenho franzido, quando uma menina que passava batom me fez uma pergunta em outra língua. Minha única resposta foi dar de ombros, levantar a barra da camiseta e fazer um gesto para baixo com o polegar.
A menina franziu os lábios, arqueou as sobrancelhas, indicou a si mesma e, quando aquiesci com a cabeça, hesitante, sacou da bolsa uma minúscula tesourinha. Fiquei ainda mais hesitante, mas ela não fez movimento algum até eu menear a cabeça outra vez.
Com gestos hábeis, ela cortou a gola da camiseta, aumentando o decote para deixar um dos ombros à mostra. Então cortou o excesso da barra e deu um nó nas minhas costas, o que expôs uns três centímetros da barriga. Por fim, virou-me e juntou na mão a barra da saia.
Eu ia protestar contra cortá-la, mas ela largou a tesoura e enrolou o tecido em volta do meu corpo, prendendo-o de lado, de modo que acabei vestida com uma saia em estilo sarongue que descia até logo acima do joelho em um dos lados e mais ou menos até o meio da coxa do outro. Nunca na vida tinha usado uma roupa que me deixasse tão exposta.
Como presente de despedida, a menina me emprestou seu batom e passou um pouco do seu perfume nos meus pulsos e pescoço. O cheiro era exótico, um leve floral almiscarado. Passei batom, ajeitei os cabelos, disse um rápido obrigada e saí do banheiro à procura de Amon.
Após deixar a bolsa na chapelaria, corri os olhos pelo bar. Ele não estava lá, nem sentado em nenhuma das áreas em volta da pista de dança. Concluí que tivesse saído para tomar ar e fui na direção da porta, mas parei ao ouvir uma confusão na pista de dança ainda mais barulhenta do que a música.
Abrindo caminho em meio a uma multidão de mulheres para ver o que estava acontecendo, fiquei chocada não por ver Amon no meio das pessoas, com a pele brilhando, como se estivesse debaixo de um holofote, mas ao vê-lo dançar. Já imaginava que o seu estilo devia ser exótico e bem diferente da dança moderna, mas não esperava que ele fosse apresentar uma versão masculina da dança do ventre.
Ele havia tirado a camisa, e agora apenas a fina camiseta branca cobria seu peito, tão justa que parecia que as costuras iam arrebentar a qualquer momento.
Seu corpo girava lentamente, os músculos do abdome ondulando e o quadril rebolando de tal maneira que deveria ser proibido. A dança de Amon parecia uma mistura de Elvis Presley com um go-go boy. O deus do sol em forma humana parecia uma locomotiva liquefeita: a barriga murchava, o peito inflava, os pés deslizavam no chão, os ombros balançavam, o quadril girava. Ele causava furor, cercado por mulheres que mal podiam esperar para embarcar naquele trem.
Ele se virou e, enquanto seu olhar abarcava suas admiradoras, parou de dançar um instante. Um sorriso imenso iluminou seu rosto e ele gritou para a multidão:
— Obrigado, senhoras, mas a minha Lily chegou. Quero dançar com ela agora.
Ele estendeu a mão e eu entrei na pista, ignorando os suspiros das mulheres ao meu redor. Uma por uma, elas foram abrindo caminho, algumas com boa vontade, outras com ciúme evidente estampado no rosto.
Quando Amon pegou minhas mãos e começou a mover o corpo outra vez, lancei-me sem jeito para a frente e para trás com pequenos movimentos e em seguida me inclinei até junto de seu ouvido.
— Se você acha que vou fazer o que você fez, enlouqueceu! — falei.
Ele me puxou mais para perto e começou a girar em círculos, ajustando cada passo ao ritmo da música. Então desceu a mão pelo meu braço, segurou minha mão e me girou também. Fiquei surpresa por não perder o ritmo. Depois de algumas músicas, já me sentia bem mais confiante e estava até me divertindo. Amon me girou até eu desabar junto ao seu peito, tonta e aos risos.
Algum tempo depois, uma música lenta começou a tocar. No início Amon pareceu confuso e observou com uma expressão curiosa as outras pessoas formarem pares. Uma mulher que estava olhando para ele antes voltou e o chamou para dançar. Ele fez que não com a cabeça e respondeu:
— Eu não sou para você. Estou dançando com Lily.
Quando a mulher se afastou, dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós, e subi as mãos bem devagar por seus braços musculosos e pelos ombros até enlaçá-lo pelo pescoço. Ele ficou parado durante alguns segundos, rígido, depois relaxou e me puxou mais para ele. Aos poucos, começamos a nos mover juntos. Suas mãos, espalmadas nas minhas costas, foram se movendo centímetro por centímetro de modo provocante até chegarem à pele exposta da minha cintura. Ele me apertou ainda mais e encostou a testa na minha. O canto de seus lábios fazia cócegas na minha bochecha.
Se eu mexesse o rosto só um pouquinho, poderia beijá-lo. Só que eu era covarde demais para dar o primeiro passo. Ele escorregou as mãos até meu quadril, depois subiu de novo até a cintura. A tensão e a energia nervosa que aqueles dedos elétricos provocavam ao acariciar minha pele nua estavam me deixando maluca. Para me distrair, fiquei na ponta dos pés e perguntei:
— O que você leu no pensamento dela?
— De quem? — respondeu ele com voz rouca. Seus olhos, mais escuros agora do que eu jamais vira, cintilaram ao encarar os meus. — Ah, da mulher que me chamou para dançar? Ela está à caça de um companheiro para preencher suas noites vazias.
— Imagino que a maioria das pessoas esteja atrás da mesma coisa.
— Sim. Mas ela busca algo vazio. Não tem esperança nenhuma em relação ao amor.
Inclinei a cabeça em um ângulo que me permitia ver melhor seu rosto e indaguei:
— E você?
— Eu o quê, Nehabet?
— Tem esperança em relação ao amor?
Amon não respondeu na hora. Seu corpo se retesou de um jeito que qualquer um que o tivesse visto dançar julgaria impossível. Em vez de responder, ele me pegou pela mão e disse:
— Vamos, Lily. Está na hora de ir embora.
Amon esperou com impaciência que eu pegasse minha bolsa. Quando saímos, eu quis me demorar um pouquinho para permitir que o ar da noite refrescasse minha pele quente, mas ele me puxou e não me deu sequer um segundo para pensar.
Mal tínhamos dobrado a esquina do clube quando ele de repente parou e me puxou bruscamente contra si. Antes mesmo de eu conseguir formular uma pergunta, ele murmurou algumas palavras em egípcio e fomos sugados para dentro de um turbilhão.
Tínhamos nos rematerializado dentro de nosso quarto de hotel. Amon me deu um boa-noite abrupto e me deixou sozinha, seguindo para o sofá da saleta e fechando a porta com firmeza entre nós dois.
Escutei junto à porta, mas não consegui ouvi-lo nem tive coragem para abrir a porta e confrontá-lo em relação àquele comportamento estranho. Ele não tinha me machucado fisicamente, mas fizera com que eu me sentisse vulnerável e rejeitada. Perguntei-me o que eu tinha dito, o que tinha feito para fazê-lo se afastar de modo tão brusco, e se ele estaria sentindo o mesmo que eu ou se eu fizera uma leitura errada de seus sentimentos.
Deslizei para o chão, encostei a cabeça na porta e senti a ferroada quente das lágrimas. Era a primeira vez que eu chorava por causa de um homem, mas desde o início daquela viagem estava completamente à mercê das minhas emoções. Sentia-me instável, arrebatada, nervosa. Amon tinha usado muita energia nesse dia, e eu estava experimentando os efeitos disso.
Depois de algum tempo, arrastei-me até a cama e, mergulhando em um sono agitado, sonhei que minhas lágrimas seriam suficientes para encher o Nilo.

3 comentários:

  1. "sonhei que minhas lágrimas seriam suficientes para encher o Nilo."
    Nem um pouco dramática !
    kkkkkk

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  2. Kkkkk muito dramática mesmo

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