25 de outubro de 2016

9. Chamando Nebu

Lentamente me ergui, aprumando os ombros, os ossos estalando com o relaxamento dos músculos tensos.
— Como assim, “o que foi que eu fiz”? Não cumpri a missão em que o senhor me mandou? Deveria estar satisfeito porque não morri nesse processo.
O Dr. Hassan me observava boquiaberto.
— Você... você — gaguejou ele por fim — está com a caçadora agora.
— É. Estamos aqui — respondeu Tia usando minha voz, o que me irritou e chocou o Dr. Hassan completamente.
— Mas... Lily. Vocês fundiram suas formas.
— Não era isso que deveríamos fazer?
— Sim. Não. — Ele sacudiu a cabeça. — Não exatamente.
Pus as mãos nos quadris e fiquei olhando enquanto ele tirava o chapéu e passava a mão pelo cabelo curto e branco, fazendo-o ficar eriçado. Em seguida, tirou um lenço do bolso e enxugou o suor do rosto.
— Não entendo por que está tão incomodado — comentei. Depois, vendo que ele continuava a enxugar a testa, acrescentei: — Talvez o senhor devesse se sentar.
Levei-o até uma árvore caída e, pegando o cantil, fiz com que bebesse um grande gole antes de borrifar o restante da água em seu lenço e pressioná-lo contra suas faces ligeiramente queimadas de sol. Permiti brevemente que eu mesma ficasse maravilhada ao ver que minha pele clara não tinha se queimado com o sol, levando-se em conta o tempo que eu ficara exposta. Na verdade, o calor me incomodava muito menos do que quando havíamos chegado.
— Pronto — falei. — Agora diga o que fizemos de errado.
— Fizemos? — Ele torceu o lenço nas mãos. — É exatamente isso. Não deveria haver um “nós”.
Franzi a testa e então percebi do que ele devia estar falando.
— Ah, sim. Tia me disse que demoraria um tempo até nossas mentes se fundirem. Ela me garantiu que isso é normal.
— Tia? Normal? — guinchou o Dr. Hassan. — Agora escute, Lily, e não me esconda a verdade — insistiu ele, pegando minhas mãos. Eu assenti, a confusão evidente no rosto. — Quando você... — ele fez uma pausa, como se procurasse a palavra certa — ... se uniu à leoa, o corpo dela desapareceu?
— Desapareceu — respondi francamente.
— E você a... matou?
— Não! — exclamei, horrorizada com a simples ideia de fazer mal a Tia. — Ela abriu mão de sua forma física.
— Céus... — Ele suspirou e olhou nos meus olhos como se procurasse alguma coisa, então desviou o olhar, como se não pudesse suportar o que havia encontrado. — Era o que eu temia.
— Acho que não estou entendendo por que toda essa preocupação.
— Sim! Expresse seus pensamentos com clareza, velho. Do que está nos acusando?
Apertei a boca com as mãos, depois sussurrei:
— Tia! Deixe que eu fale.
Na minha mente ela respondeu: Você não diz as palavras que quer dizer por medo de magoar os sentimentos dele. Eu prefiro ser direta.
Já notei, disparei de volta.
Fiz a pergunta seguinte, o que ela de fato queria saber, mas consegui reformular a frase de modo a ser um pouquinho mais educada.
— O senhor está parecendo um arauto do fim do mundo — falei com um arremedo de risada que secou na garganta tão depressa quanto a água do seu cantil desaparecera na areia. Minha débil tentativa de aliviar o clima fracassou miseravelmente. — Diga o que fizemos de errado, por favor.
— Lily — começou o Dr. Hassan —, você deveria ter matado a caçadora.
— Matar? O senhor não disse isso!
— Estava implícito.
— Na verdade, não.
Por que ele está chateado com isso?, perguntou Tia, com uma urgência em seus pensamentos cuja razão eu não conseguia identificar.
Não sei. Em voz alta, perguntei:
— Que diferença faz? A forma física dela se foi. Ela abriu mão dela.
— Você não entende. Ela deveria tentar matar você e você deveria tentar matá-la. Uma de vocês morreria e a que sobrevivesse absorveria as energias da derrotada.
— O encantamento disse que nós duas iríamos morrer.
— Sim, ao reabsorver o poder da derrotada, a antiga Lily morreria e renasceria. A caçadora não deve sacrificar a própria vida. Pelo menos não desse jeito.
— Certo. — Sacudi a mão no ar, agitada e completamente insatisfeita com os significados enigmáticos e as instruções ambíguas que tinha recebido até então. Tia estava certa em pedir uma comunicação mais direta. — Então ela se sacrificou. É isso. Que diferença faz?
— A diferença, Lily, é que mudanças começarão a acontecer em você, e nada pode ser feito para evitá-las.
— Seja mais claro — pediu Tia, e dessa vez o Dr. Hassan estava tão perturbado que não notou que ela é que havia perguntado, não eu.
— Se você tivesse matado a caçadora, como deveria ter feito — explicou —, teria absorvido as energias e a força dela. Teria ganhado o direito de controlá-las. A percepção que ela possuía de si mesma iria desaparecer. Só permaneceria o instinto. Como ela se sacrificou e você permitiu que as duas se fundissem em vez de tomar o que era dela, vocês duas vão compartilhar um corpo, junto com o poder de uma esfinge. Essencialmente, você não terá mais controle completo sobre si mesma. Esse fenômeno já é evidente, visto que você falou sem intenção de falar.
— Ísis deveria ter dito o que eu tinha de fazer.
O Dr. Hassan balançou a cabeça.
— Você deveria descobrir seu objetivo durante a jornada.
— Bom, então eu fiz um péssimo serviço, não foi?
Portanto agora eu iria me perder para a mente da leoa? Como o Dr. Hassan e Ísis puderam deixar que eu fosse embora sem dizer uma coisa tão crucial? Tinham me orientado a abraçar meu instinto, e meus sentimentos não disseram nenhuma vez que eu devia matar. Como eu podia ter estragado tudo tão completamente? E uma ideia mais espantosa ainda surgiu em minha mente: e se esse erro que havia cometido me impedisse de salvar Amon?
Examinei as lembranças do momento em que tinha deixado a coisa toda desandar, mas não consegui identificar um único erro específico. Seria possível que eu não devesse matá-la? Que, afinal de contas, meus instintos estivessem corretos? Tentei me agarrar a essa esperança, mas era difícil, com o Dr. Hassan tão certo de que a coisa não terminaria bem. Tia havia se recolhido tão completamente que eu mal conseguia sentir sua presença. Atônita, sentei-me ao lado do Dr. Hassan e apoiei a cabeça nas mãos.
— O que vai acontecer comigo? — sussurrei. — E o que isso implica para Amon?
Ele deixou escapar um profundo suspiro.
— Não há motivo para acreditar que você não poderá usar o poder da esfinge, e é disso que você vai precisar para ter acesso ao mundo dos mortos. Quanto ao seu problema específico, não conheço todas as histórias sobre a esfinge, mas vou contar tudo que sei e espero que você encontre alguma coisa de valor.
Ele me olhou sério antes de continuar:
— A melhor hipótese em que posso pensar é que vocês duas vão realizar seu objetivo e de algum modo vão encontrar harmonia e ser capazes de residir pacificamente no mesmo corpo. Mas devo alertar: há uma possibilidade muito real de que a caçadora domine você e que a pessoa que você é acabe se perdendo. Vocês precisam andar juntas em seu caminho. Caso contrário, o cabo de guerra pelo direito de controlar seu corpo irá começar.
Inspirei e expirei lentamente, concentrando-me em cada ato de inalar e exalar o ar, sentindo que a presença que havia se tornado parte de mim tinha me traído. Quis arrancá-la da mente, mas isso era impossível. Em vez disso, um gemido minúsculo escapou dos meus lábios quando percebi a profundidade do que eu havia concordado em fazer.
Você sabia disso?, acusei. Que eu deveria matá-la?
Com voz fraca, Tia admitiu: Sabia.
Como você pôde?
Por um longo momento ela não respondeu e, quando o fez, as palavras não eram as que eu esperava: Não sou covarde, portanto tire da mente os pensamentos desse tipo. Não tenho medo da morte. A princípio, quando você entrou no nosso território, eu me perguntei se você teria força suficiente para me derrotar. Você cheirava a presa. Não era uma adversária à altura. Mas então você me chamou. Me desafiou. Sinal de um coração forte. Espírito de heroína. Passou no teste e conquistou o direito ao prêmio. Mas o prêmio que você buscava não era o que eu esperava. Seu coração falava de amor e família. Fiquei surpresa ao descobrir que você não tinha vindo à procura da minha morte, em absoluto, apesar de eu saber que esse deveria ser seu objetivo. Concentrei-me no seu coração, tentando sentir o que você iria fazer. Sua profunda solidão era quase insuportável, e essa emoção provocou um eco em mim. Desde a morte da minha irmã eu me sentia sozinha, mesmo num bando grande como o meu. Decidi lhe dar a opção e me oferecer. Se você me matasse, eu teria aceitado. Você tinha o motivo e os meios. Havia galhos pontudos ali perto, que poderia ter usado facilmente para cravar no meu pescoço ou no meu olho. Você poderia estar com uma faca, até onde eu sabia. A decisão estava totalmente nas suas mãos. Minha vida era sua, para que a tomasse. Meu coração estava pronto para o sacrifício.
Eu nem havia notado os galhos. Ela estava certa ao dizer que a opção de matá-la não existia na minha mente. Meus instintos tinham me orientado a me entregar a ela, e parecia que esse impulso havia ecoado nela também.
Quando se passou tempo suficiente, presumi que você queria o mesmo que eu. O desejo secreto do meu coração. Ter uma irmã de novo. Se esse não era seu desejo, sinto muito, Lily. Garanto que nunca foi minha intenção tirar você do seu caminho ou erradicar sua essência para estabelecer minha vontade. Se duvida disso, você tem a capacidade de ler meu coração, assim como posso ler o seu.
Quando seus pensamentos se aquietaram, fechei os olhos e procurei sua presença calorosa no pensamento. A princípio só tive consciência de um batimento cardíaco, e não sabia se era apenas a batida de meu coração físico ou se uma parte dela ainda existia em outro plano. Estendendo-me para além do físico, penetrei mais fundo e Tia abriu a alma para mim. Não sei quanto tempo ficamos nos comunicando interiormente, mas, quando abri os olhos, tinha a resposta que estava procurando.
— Agora Tia faz parte de mim, Dr. Hassan. Não precisa se preocupar conosco. Vamos trabalhar bem, juntas. A única exceção é o desejo dela de comer carne crua. Isso terá de mudar. Um bife mal passado ou um sushi de vez em quando é tudo que ela vai ter.
O Dr. Hassan me olhou por longo tempo e depois meneou a cabeça concordando.
— Pelo seu bem, espero que esteja certa, Lily.
Estendi a mão, peguei seus dedos e apertei.
— Vamos ficar bem. Prometo.
Ele assentiu, preocupado, e disse:
— Bom, acho que a primeira coisa que precisamos fazer está a meu cargo: devo mostrar suas armas.
Enquanto o seguia até a bolsa empoeirada que ele tinha deixado à sombra de uma pedra grande, falei:
— Vamos sentir falta das nossas garras.
Ele pareceu desconfortável com meu uso do plural, mas se recuperou depressa, tossiu e disse:
— Falando nisso, você tem garras.
Pude sentir a empolgação súbita de Tia.
— Espere. Quer dizer que temos uma arma que parece garras?
— Não. Você precisará usar o poder da esfinge para fazer com que elas apareçam.
— Como fazemos isso? — perguntou Tia através de mim, mas depois pediu desculpas e ocupou de novo um lugar no banco traseiro mental.
— Normalmente eu diria que você precisa canalizar a caçadora — respondeu ele —, mas como ela já está aí...
— Devo deixar simplesmente que ela assuma o controle?
— Imagino que sim.
Quando assenti e figurativamente entreguei as chaves a Tia, a sensação foi estranha. De algum modo, fiquei menor. Era como se estivesse vendo as coisas de longe. Não era uma sensação assustadora. Na verdade, eu me sentia protegida, como se estivesse enrolada num cobertor quente e pudesse simplesmente me recostar e deixar que outra pessoa assumisse as rédeas, para variar.
Numa espécie de névoa, entreouvi o Dr. Hassan instruindo Tia sobre como canalizar seu poder e, quando ela o invocou, um jorro elétrico de energia atravessou meu corpo. De repente fiquei muito alerta, mas meus sentidos estavam entorpecidos. Com fascínio, vi minhas mãos mudando.
Não houve dor, só uma espécie de calor intenso que queimava, mas não de modo ruim. Os ossos se alongaram, um calor líquido formigando na direção de cada ponta dos dedos, até que uma articulação extra se formou. Uma energia correu descendo pelos braços e uma luz prateada emergiu das pontas e fluiu de cada dedo, até se solidificar finalmente em garras de aço. Contraí os dedos e os ergui, fascinada.
Santo céu egípcio, pensei. Sou o Wolverine!
Tia não entendeu a referência, mas a empolgação que ela experimentava era impossível de descrever. Ela se sentia invencível, mais perto do seu eu verdadeiro. Agitou as garras no ar antes de testá-las arranhando uma rocha. Um pedaço da pedra se soltou completamente. Caramba! É melhor ter cuidado com isso, avisei.
— São perfeitas — murmurou ela, fazendo o Dr. Hassan encolher-se novamente.
Ah, como é que a gente volta ao normal?, perguntei, não tão confortável quanto Tia com minhas garras novas. Tia verbalizou minha preocupação para o Dr. Hassan.
— É só retrair — respondeu ele. — Reabsorva o poder em seu âmago.
Antes que eu sequer pudesse pensar no que fazer, as garras haviam desaparecido e eu olhava novamente minhas mãos pálidas.
Fácil, disse Tia com um risinho que eu sabia estar visível no meu rosto.
— Esse não é o único poder que você tem à sua disposição — acrescentou o Dr. Hassan, estremecendo ao me olhar, como se estivesse desconfortável por falar com minha leoa interior, e não comigo. — Há outros poderes que Ísis sugeriu e que você vai descobrir durante a viagem. Eles só vão se manifestar quando você estiver pronta para usá-los. Sei de algumas lendas que podem inspirá-las, mas pode ser que elas tenham sido totalmente inventadas. Você é a única... hã... vocês são as únicas que poderão determinar a realidade de seus dons. Invocar as garras é o mais fácil de controlar, já que a caçadora sabe muito bem como usá-las.
Ele nos dirigiu um olhar tímido e disse:
— Gostaria de ter mais tempo. Isso é tudo que consigo lembrar, assim, de uma hora para outra. Espero que alguma parte ajude. — Passou a ponta do dedo pelo caderno e começou a ler: — “Supostamente a esfinge tem o poder de manipular o vento, encontrar a verdade nas palavras do homem e matar por estrangulamento.”
— Isso é provavelmente verdade, mas não sei como posso estrangular minha presa tendo dentes mais cegos que os de um filhote recém-nascido.
Não vamos morder a jugular de nada, adverti-a.
O Dr. Hassan continuou:
— “Ela é uma caçadora implacável, tem força feroz e tipicamente é representada com cabeça de mulher, corpo de leoa e asas de águia.”
Pelo menos duas dessas coisas são exatas, me disse Tia interiormente.
Quieta, estou ouvindo, censurei-a.
— “Ela é protetora e escudo. A guardiã dos horizontes leste e oeste. Anda pelos caminhos do ontem e do amanhã. É associada à morte e ao renascimento, o que é inteiramente óbvio neste ponto, e, assim que sua fúria é despertada, só seu companheiro pode esfriar seu sangue.”
Interessante, disse Tia. E os lugares aonde seus pensamentos me levaram me fizeram ruborizar.
Pare com isso e preste atenção.
Ele está falando demais, queixou-se ela.
Isso é importante!
— “Ela se coloca entre a humanidade e o Ente Escuro do Cosmo, absorvendo as marés do mal que ele lança sobre o mundo.”
O Dr. Hassan me olhou ao dizer essas palavras, e eu soube que estávamos pensando a mesma coisa.
— Seth — sussurrei.
Ele assentiu levemente, confirmando que tinha ouvido.
— “Em um dos mitos, a esfinge é considerada a responsável pela destruição da humanidade, mas outro diz que ela enxerga através dos olhos de Amon-Rá e usa esse poder para salvar o Universo.” — Suspirando, fechou o caderninho. — Como você pode ver, as histórias conflitantes e as descrições breves não são de muita ajuda. Mas vou tentar aprender tudo que puder sobre as lendas da esfinge enquanto você estiver fora, e espero encontrar algo que... ajude.
O Dr. Hassan me olhou com as sobrancelhas levantadas e meneou significativamente a cabeça.
Queria que eu soubesse que ele tentaria encontrar um modo de me tornar normal de novo, me separar de Tia. O que ele não sabia é que Tia captara, se não o significado completo, pelo menos a ideia geral, e isso a deixou... não com raiva como eu esperaria, mas triste.
Não se preocupe, garanti a ela. Estamos nisso juntas. É improvável que essa condição não seja permanente, mas, mesmo que possa ser revertida, eu não faria isso, se significasse a sua morte.
Ela hesitou antes de falar:
Não precisamos pensar nessa possibilidade no presente, mas, se algo assim viesse a ser possível um dia, eu iria em frente.
Dizer que fiquei chocada com a firmeza de sua determinação seria um eufemismo.
O Dr. Hassan interrompeu nossa comunicação interior:
— Peço desculpas por só ter conseguido isso, Lily.
— Obrigada — falei, tentando recuperar o controle do meu corpo. O interessante é que eu quase tenha tido de forçar as palavras pelos lábios. Tia não estava se sentindo nem um pouco agradecida. — É mais informação do que tínhamos antes — continuei, com uma voz que parecia afetada e pouco natural. — Vai ter de bastar.
Mas na verdade não basta, não é?, contrapôs Tia mentalmente enquanto recuperava o controle e levantava meu braço para examinar minha mão humana, desejando liberar de novo as garras perigosas.
Apesar de saber que as garras a faziam sentir-se um pouco mais como seu antigo eu, elas me assustavam. O que me preocupava mais era o que aconteceria caso ela decidisse permanecer no controle do meu corpo. Será que eu conseguiria recuperá-lo? Será que seria relegada a vê-la viver uma vida, a minha vida, e não seria capaz de fazer nada para impedir?
Pare. Por favor, acrescentei, pedindo que ela recuasse.
Depois de um momento tenso, ela consentiu. Mas percebi seu ressentimento e a perda que experimentou quando a releguei a um papel menor de novo. Agora eu sabia como era ser passageira no corpo de outra pessoa.
Ou ela havia escondido de mim o pior, ou isso não a incomodava tanto assim. Se minha breve experiência de ter garras servia como exemplo, eu enlouqueceria se a situação fosse inversa e eu é que estivesse confinada no corpo de uma leoa. Tia sentiu meu pânico de ficar mentalmente enjaulada e seu descontentamento desapareceu, substituído por uma espécie de empatia tranquilizadora. Ela compreendia. E foi então que eu soube que ela era mais forte... uma alma mais forte do que eu.
Talvez fosse esse o motivo, caso a oportunidade se apresentasse, de ela preferir desaparecer a ser trancada na mesma forma comigo por toda a eternidade. Presumindo, claro, que agora fôssemos imortais. O que eu não acreditava que fôssemos, já que outras esfinges não estavam mais por aí. Eu não tinha certeza do que tudo isso significava para nós duas, mas ambas achamos melhor não nos preocuparmos muito por ora.
O Dr. Hassan ficou de pé.
— Ísis me instruiu a lhe dar estas armas. São as que tirei da caverna.
Ele ergueu uma espécie de arnês que se acomodava nos ombros, e havia uma vara de metal em cada um dos dois bolsos. Estendi a mão e peguei uma delas. A arma era afiada na ponta que estivera dentro da bainha.
— Ah. — Tia exalou seu sentimento ao estender minha outra mão e segurar a outra arma. Houve um momento desajeitado de luta pelo controle no qual meu corpo foi literalmente puxado em dois lugares ao mesmo tempo. Ambas nos imobilizamos.
Desculpe, disse Tia. Não queria forçar a barra.
Tudo bem, respondi. Deve ser difícil ser uma passageira sempre.
Por enquanto vou observar.
Mas tenho certeza de que você luta melhor.
Não há ninguém com quem lutar neste momento. Aproveite a oportunidade para aprender.
O Dr. Hassan nos olhou com uma expressão de alarme mal contida.
— Como está se sentindo, Lily?
— Bem — respondi, oferecendo-lhe o que esperava ser um sorriso tranquilizador. — Só vou demorar um pouco para me acostumar.
— De fato.
— Então, me diga para que serve essa arma.
— Ah! — Ele pareceu empolgado e em seu verdadeiro elemento. — Esta é uma arma muito rara e antiga usada pelos deuses. Como as cimitarras de Amon, estas lanças podem ser usadas em combate corpo a corpo, mas também podem ser usadas a distância.
— Lanças? — Elas me pareciam facas sai, mas os dentes laterais eram quase tão compridos quanto o central, parecendo facões de três pontas. As três lâminas alongadas em cada arma tinham aparência maligna e ponta afiada. — Não são meio curtas para lanças?
Ele estendeu as mãos e segurei o cabo pesado da arma. Quando ele tocou um botão no centro, uma espécie de mola escondida fez com que ela se alongasse até virar uma lança de tamanho normal. Dentro da minha cabeça, Tia estava quase ronronando de felicidade. Logo que pressionado novamente o botão, a arma volta ao tamanho que cabia na bainha.
O Dr. Hassan me ajudou a colocar o arnês de couro e afivelá-lo nos ombros.
— Você pode usá-las para cortar e apunhalar de perto ou para empalar de longe — disse ele.
Experimentando, levei as mãos atrás do pescoço e peguei as lanças. Pareciam se ajustar perfeitamente às minhas mãos. Girei-as nas palmas, sentindo-lhes o peso, e fiquei surpresa com a agilidade natural que demonstrava ao manuseá-las.
Atirei uma delas, e a ponta da lança se cravou quase liquidamente no tronco grosso de uma árvore a boa distância.
Eu estava prestes a perguntar por que me sentia tão confortável com as armas quando Tia explicou: Provavelmente é o nosso instinto. Seus sentidos foram aumentados, inclusive o senso espacial e o tato. Assim como sou capaz de calcular a velocidade e a distância entre mim e a presa.
Mas sem dúvida é mais do que apenas a habilidade de uma leoa, respondi. Você nunca segurou uma arma destas, e é como se eu já soubesse usá-la.
Somos esfinge, ela respondeu em tom casual. Você usou o poder que há dentro de nós. Eu senti. Você não?
Agora que ela mencionara, concluí que havia de fato sentido alguma coisa. Uma espécie de corrente que me percorrera no momento em que a intenção de sacar a arma entrou na minha mente. Distraindo-me dos pensamentos, ela perguntou com impaciência: E a outra?
Apontei a outra forma que se projetava da bolsa dele.
— O senhor também tem um arco.
— Sim — respondeu o Dr. Hassan, saindo do transe assombrado em que me olhava e se agachando perto da pedra.
Ele me entregou um arco reluzente esculpido com imagens que eu não entendia. Corri a ponta do dedo em cada sulco, imaginando o que significariam. Quando os mostrei ao Dr. Hassan, ele deu de ombros.
— Nunca vi isso antes e temo fazer suposições. Imagino que fosse a isso que Ísis se referisse quando falou sobre aprender durante a jornada.
A aljava estava cheia de flechas em cujas pontas se viam penas brancas e reluzentes, com bordas de ouro. Ele me viu passando o dedo em uma delas.
— São as penas de Ísis — explicou. — A mira delas é sempre acurada, mas, como você pode ver, o número é limitado. Use-as com sabedoria.
Assim que todas as armas ficaram presas no arnês, o Dr. Hassan fez uma pausa, me olhando com a estranha mistura de simpatia e da reverência que ele dedicava aos deuses. Por fim, deixou escapar um suspiro.
— Eu gostaria de poder ajudá-la mais. — Afastando-se alguns passos, disse: — Se ao menos pudesse acompanhá-la...
— Se isso ajuda, eu também gostaria que o senhor fosse comigo.
Ele amassou o chapéu nas mãos.
— Simplesmente não é possível. Pedi a Ísis. Implorei a ponto de me arriscar à fúria dela enquanto esperava você aqui, e a única resposta que recebi foi que eu não sobreviveria. Só você é destinada a isso. Só você pode salvar Amon. Tudo que posso fazer é prepará-la para a jornada ao além, e para isso devo selar o Coração da Esfinge em você, a parte final do encantamento. — Quando confirmei com a cabeça, ele disse: — Repita comigo.
Enquanto ele falava, cada palavra parecia agarrar-se ao meu ser, como se cada parte minha que ele listava daquela maneira se manifestasse fisicamente.

Meu cabelo voa como a juba de um leão. É o meu escudo.
Meu rosto é belo e brilha com a luz do sol.
Meus olhos enxergam em lugares escuros e abrem cavernas secretas.
Meus ouvidos podem localizar um escaravelho enterrado no deserto.
Minhas narinas captam o cheiro de uma pétala no fundo do oceano.
Minha voz é melíflua e leva o perigo a quem ouvir.
Meus lábios estão escancarados para engolir as almas do mal.
Meus dentes são armas afiadas contra os cruéis e deformados.
Meus músculos estão aquecidos e prontos para a batalha.
Minha barriga não é macia, é rígida como uma rocha.
Meu corpo é ágil; minha forma, perigosa e atraente.
Meus pés estão prontos para me levar por passagens escondidas.
Minhas garras buscam o seu fim e vão destruí-lo completamente.
Minhas asas afastarão o mal e triunfarão sobre meus inimigos.

Quando ele terminou a última parte do encantamento, uma dor aguda atravessou minhas costas e quase me atirou na poeira do chão. Lentamente me aprumei, sabendo que jamais voltaria a ser a mesma pessoa, a mesma mulher, a mesma criatura. Eu não era humana. Não era leoa. Era esfinge.
Ergui o braço e, embora ele parecesse o mesmo, eu sabia que havia uma firmeza maior nos músculos. Minha pele formigava da raiz dos cabelos até os dedos dos pés.
Meu ser, a essência do que eu era, havia mudado, e no entanto, até onde podia ver, eu ainda me parecia comigo. Perguntei-me se, caso olhasse num espelho, veria os mesmos olhos me encarando de volta ou enxergaria uma estranha. Será que Amon me veria da mesma maneira quando o encontrasse? Será que aprenderia a gostar da criatura em que eu havia me transformado? Endireitei os ombros, sabendo que isso não importava. Ele precisava ser salvo e eu – não, nós éramos as únicas que podiam ajudá-lo.
O Dr. Hassan, que agora me olhava com mais veneração ainda, rapidamente explicou:
— O lugar que você procura chama-se Duat. É o lar de Amon-Rá. Você só pode acessá-lo durante o dia e descobrir sua entrada através de uma tumba. Posso levá-la até uma que fica a apenas algumas horas daqui.
Levantei o nariz e fechei os olhos. A mente de Tia se uniu à minha e falamos como se fôssemos apenas uma em pensamento. De algum modo, eu me sentia adequada e inteira. Se minha voz era o vento, a dela era uma profunda piscina natural agitada pelo vento.
— Há o túmulo esquecido de um viajante perdido bem mais perto. Vamos encontrar o caminho sozinhas.
Nervoso, o Dr. Hassan assentiu, como se esperasse uma resposta assim. E, como parecia sofrer por me deixar naquele estado, nós é que o deixamos. Seguimos até que eu não pude mais ver a elevação onde ele estava; depois, sabendo o que precisava fazer, ergui as mãos e invoquei o poder da esfinge, pedindo que o vento expusesse o túmulo escondido que eu pressentia sob meus pés. Grãos de areia começaram a se mexer e então milhares deles subiram, pinicando minha pele, guiando-nos até nosso destino. Assim que o vento parou, nós avançamos.



A caverna escura que o vento havia exposto guardava o esqueleto de um homem que tinha morrido no deserto muito tempo atrás. Ainda que não fosse uma tumba oficial como aquela que o Dr. Hassan considerara, serviria ao nosso propósito.
Canalizando o poder que residia dentro de nós, sopramos devagar. O sopro agitou as roupas do morto comidas pelos vermes e abriu um buraco na escuridão do seu leito de morte. O buraco cresceu, estendendo-se como uma bolha frágil até estar quase do tamanho suficiente para passarmos.
Era um caminho para outro reino, uma dimensão diferente de nossos mundos. Minha mente o interpretou como um buraco de minhoca, mas Tia não entendeu isso. Para ela, era um redemoinho num lago preto levando a um lugar do qual ela não tinha conhecimento nem vontade de descobrir.
Ambas sentimos o problema ao mesmo tempo.
Vamos precisar de ajuda, disse ela.
Sim. Contemplei o obstáculo e então uma lembrança veio à superfície. Acho que sei o que fazer, murmurei.
Fechando os olhos, entoei o encantamento que Amon havia treinado comigo e imbuí minhas palavras de todas as nossas energias. Pouco depois, a superfície da duna ao nosso lado se deslocou e se agitou.
O que é isso?, perguntou Tia, temendo uma serpente grande ou uma matilha de chacais.
Um amigo, respondi com um sorrisinho.
Um instante depois, uma figura enorme surgiu numa explosão de areia. O grande animal relinchou baixinho e trotou até nós, os pelos reluzindo ao sol feito mica. Era lindo. Muito maior do que os cavalos que Amon havia chamado antes. Dando um passo em sua direção, corri a mão por seu pescoço sedoso e tentei acalmar Tia, que estava frenética com a proximidade dele.
Respondi ao seu chamado, Esfinge. Aonde deseja ir?
— Vamos para Duat — respondi.
É uma jornada longa... e perigosa.
— Você não pode nos levar? — perguntei.
O garanhão bateu os cascos dourados no chão e sacudiu a cauda, irritado.
É claro que posso, declarou. Eu sou Nebu!

5 comentários:

  1. É legal a ideia da esfinge...mas eu realmente achei q ela iria parecer uma esfinge (corpo de leoa e cabeça de mulher - seria interessante kkk)

    p.s.: Nabu me lembrou o Arion (semideuses entenderão!!)

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    1. Também me lembrei de arion # saudades.

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    2. So q menos boca suja heheh
      Ass:bia

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    3. vdd cara, e tb ele não come ouro e morde as mãos dos outros, se bem q so o Percy entendia ele, semideuses realmente entendeão a referencia

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  2. Eu tbm acho muito legal essa coisa dela ser esfinge... Tipo, agora ela não é apenas Lily, uma mera mortal hahaha ELA É A ESFINGEEEE!!! Woooow!!

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