21 de outubro de 2016

8. Visão do paraíso

O barulho de talheres e um suave burburinho de vozes me acordaram. Ao abrir os olhos, vi que um homem grandão do outro lado do corredor já estava jantando e fui trazida de volta à realidade com um choque. Levei as mãos aos olhos, esfreguei-os e me perguntei se os últimos dois dias não teriam passado de um sonho.
— Com licença — pediu a comissária de bordo, quase enfiando os fartos seios na minha cara para poder ter um acesso melhor ao meu companheiro de viagem. É claro que aquilo não era um sonho. Eu estava desperta o suficiente para ouvir Amon soltar exclamações enquanto ouvia a descrição do jantar que ela iria lhe trazer. Revirando os olhos, toquei em seu ombro.
— Queria passar para ir ao banheiro, por favor.
— Ah, claro.
Uma vez lá, tranquei a porta e molhei uma toalha, que pressionei contra o rosto. Eu não me sentia no meu estado normal. Minha postura em geral segura, com os ombros eretos, agora parecia encurvada, e meu aspecto saudável tinha sido substituído por um ar doentio. Minha pele exibia um tom claramente cinza, agravado ainda mais por uma fina camada de suor. Os cabelos castanhos com reflexos vermelhos estavam murchos e grudados em feixes, como fios de espaguete, sem brilho nenhum. A maquiagem cuidadosa estava borrada, e as olheiras debaixo dos olhos pareciam saquinhos de chá espremidos.
Peguei o pequeno estojo de maquiagem que felizmente levara comigo, retoquei o rosto da melhor forma que pude e prendi os cabelos em um rabo de cavalo frouxo. No que você foi se meter? Autorizei-me um breve instante de histeria por ter concordado – eu mal conseguia formular o pensamento – em ir até o Egito na companhia de um príncipe-múmia de não sei quantos milhares de anos de idade que, sob vários aspectos, era um “problema” difícil demais para mim.
Depois de repetir umas dez vezes o mantra “É assim e pronto”, me preparei para voltar ao meu lugar.
Encontrei uma mulher de meia-idade sentada ao lado de Amon, fazendo-lhe todo tipo de pergunta sobre sua terra natal. Ao me ver, ele lhe disse com educação:
— Minha Lily voltou e está na hora do nosso jantar. Quem sabe possamos conversar um pouco mais sobre o Egito depois?
— Ah, sim, eu adoraria — respondeu a mulher, abrindo um sorriso de orelha a orelha antes de voltar para a sua fileira.
Com uma careta, deixei-me cair na poltrona e guardei a bolsinha de maquiagem debaixo da poltrona da frente. Amon se inclinou para prender meu cinto.
— Você tem que ficar com isso o tempo todo até o comandante dizer que é seguro andar pela cabine.
Afastei as mãos dele.
— Sim, eu sei. E, a propósito, eu não sou a sua Lily coisa nenhuma.
Ignorando alegremente o meu comentário, ele perguntou:
— Você sabe abaixar a mesinha?
— Sei. Eu nasci neste século.
Meu sarcasmo pareceu deixá-lo ao mesmo tempo fascinado e um tanto confuso. Nem eu entendi muito bem aquela minha animosidade repentina. Mais uma vez, minhas emoções estavam fugindo ao controle. Depois que abri a mesa, a comissária trouxe nossa comida. Vi o sorriso especial que ela dirigiu a Amon e estreitei os olhos. Então gelei: tinha entendido por que estava tão irritada. Eu experimentava... um sentimento de posse em relação a ele. Depois que pigarreei ruidosamente, a comissária pousou as bandejas com violência e perguntou a Amon se ele queria mais alguma coisa. Quando ele disse que avisaria se quisesse, ela nos deixou em paz. Só que não havia um nem dois jantares na nossa frente, mas, sim, três.
— O que é isso? — Quase cuspi a pergunta.
— Um banquete. Ou pelo menos o melhor que Gloria conseguiu arrumar nas atuais circunstâncias.
Pelo visto, ele tinha pedido a lasanha vegetariana, o frango, uma salada do chef e um prato de frutas e queijo para cada um de nós.
— Ela disse que vai trazer a sobremesa depois — explicou ele, pegando um cacho de uvas e começando a arrancá-las com os dentes, uma de cada vez.
Balancei a cabeça. Meu mau humor foi embora ao vê-lo comer as uvas como um deus antigo, algo que, imagino, ele de fato era, e meus lábios se curvaram em um sorriso apesar da minha tentativa de continuar brava.
— Assim — sussurrei, separando algumas uvas do cacho e as colocando na boca.
Amon pousou seu cacho e ficou me observando, com a atenção focada nos meus lábios. Eu estava começando a me sentir pouco à vontade, constrangida e com um pouco de calor quando ele apontou para a lasanha.
Foi copiando cada movimento que eu fazia, de como usar o garfo e a faca até como abrir os pacotinhos de sal e pimenta, usar o guardanapo, despejar o molho sobre a salada. Logo reparou que eu havia posto o guardanapo sobre a bandeja e na mesma hora ficou preocupado.
Passando os dedos pela minha bochecha no que devia ser a versão de um deus egípcio de uma avaliação de saúde, ele perguntou:
— Você está doente?
— Não. Só um pouco cansada — respondi, enquanto ele me estudava com os olhos cor de avelã.
— Então por que parou de comer?
Dei de ombros.
— Em geral eu não como muito. Já falei isso, lembra?
— Lembro.
Amon voltou novamente a atenção para a comida, mas logo também afastou o resto da refeição. Quando lhe perguntei por quê, respondeu:
— Um banquete não é algo que se faça sozinho. É um momento de celebração, de renovação. Se você não quer comer comigo, também vou me abster.
— Você está celebrando exatamente o quê?
— A vida — respondeu ele com simplicidade.
— Não entendi.
A comissária levou embora nossas refeições ainda pela metade e completou as bebidas. Depois de experimentar todas as opções não gaseificadas disponíveis no avião, Amon declarou que sua preferida era o suco de laranja, o que fazia sentido para um deus do sol. Observou ressabiado meu copo quando dei um golinho no meu ginger ale diet que acabara de ser completado.
— Por que você está celebrando a vida? — repeti.
— Sempre que eu... desperto, constato que sinto uma grande fome de vida. Nas semanas anteriores à cerimônia, eu como até me fartar. Danço. Eu me cerco... — sem parar de falar, ele correu as pontas dos dedos por um cacho solto dos meus cabelos até os fios roçarem meu rosto — ... de beleza. Saboreio cada momento de estar vivo. Assim tenho algo para refletir, algo para me aquecer durante os longos anos de escuridão.
— Para onde você vai depois da cerimônia?
A expressão dele passou de tranquila a pesarosa e ele se virou ao responder.
— Não quero falar nisso.
— Tudo bem. — Era muito estranho olhar para Amon e não ver o calor que eu já conhecia tão bem. — Bom, que tal um filme?
— O que é isso mesmo?
— Quer ver como é a interpretação moderna das múmias?
— Sim.
Ficamos acordados até tarde e assistimos a vários filmes, parando apenas para ir ao banheiro. Comecei com um clássico: A múmia, com Boris Karloff. A única reação de Amon quando o filme terminou foi pedir: “Mais um.” Peguei-me observando mais as suas expressões do que os filmes em si enquanto assistíamos à versão de 1999 de A múmia e à continuação de 2001, O retorno da múmia.
Amon franzia o cenho nas cenas cuja intenção era serem divertidas e zombava abertamente de outras. Ficou fascinado pelos figurinos e cenários, e em determinado momento sussurrou:
— Não conheço esse lugar.
Tentei explicar que os cenários muitas vezes eram falsos, criados por artistas que trabalham em computadores, mas ele me mandou calar com um psiu e continuou assistindo. Peguei no sono durante o terceiro filme e acordei quase no final.
— Gostou? — perguntei.
Sem responder à pergunta, ele começou a me fazer várias.
— Por que as pessoas veem o Egito assim? Eu sou pintado como um monstro, quando o meu papel é salvar a humanidade das trevas. Não sou mau, Lily.
Segurei sua mão e disse:
— Eu sei.
— Foi por isso que você teve medo de mim lá no Templo das Musas? Pensou que eu fosse devorar sua carne e separar seu eu espiritual de seu corpo físico, ou fazer uma praga cair sobre você?
— Não... não exatamente. Mas eu tive medo, sim.
Amon se recostou na poltrona e resmungou:
— Os antigos não temiam o nosso despertar. Pelo contrário: ansiavam por esse evento. Guirlandas eram postas em volta do nosso pescoço. Éramos tratados como deuses, como príncipes. As pessoas nos ofereciam seu amor e sua devoção. Agora somos repelidos, temidos, transformados em criaturas de morte e fedor. No melhor dos casos, somos esquecidos; no pior, somos demônios vingativos. Ninguém nos conhece. Somos indignos, odiados. Talvez nosso destino seja nos desintegrar até virarmos nada, nos tornar de fato as relíquias que somos e nos render ao pó e à decomposição.
As emoções que ele estava sentindo – desespero, solidão – me atingiram em ondas, e eu não pude deixar de reagir.
— Amon... — Envolvi a mão dele com a minha e falei baixinho: — Sei que você não despertou em circunstâncias ideais, e tem razão quando diz que a sua... espécie não é considerada uma raça de heróis pelas massas, mas isso não diminui o que você é, quem você é, nem qualquer que possa ser o seu propósito. Mesmo que as pessoas que você encontra não o conheçam, elas sentem algo especial e gravitam na sua direção. Olhe só as comissárias! Elas podem não reconhecer você como príncipe, mas mesmo assim se derretem e o tratam com veneração. É como se não conseguissem resistir. O seu calor as atrai.
Minhas palavras causaram um impacto. Senti isso nele enquanto o via refletir sobre o que eu tinha dito. Aos poucos, seus pensamentos sombrios se dissiparam e não demorou muito para ele me presentear com um sorriso mortificado.
— Lily, você por acaso é uma deusa em forma moderna? Tem a mesma sabedoria.
— Não sou deusa nenhuma, pode acreditar. Sou só uma boa observadora das pessoas.
— Você observa sem interagir?
— Em geral, sim. Tento não interferir nem me meter na vida alheia.
— Por que não?
— Acho que estragaria o mistério.
— Para mim não há mistério nenhum. Quando eu me concentro em alguém, consigo perceber os pensamentos dessa pessoa.
— Quer dizer que você consegue ler os pensamentos de todo mundo, não só os meus? — indaguei.
— Eu recebi a dádiva do Olho de Hórus.
— Quem é Hórus, exatamente, e o que o olho dele tem a ver com essa história? — perguntei, nervosa, olhando em volta e abaixando a voz.
— Não se preocupe, Lily. A maioria das pessoas a nosso redor está dormindo, e, se eu quiser, elas não vão conseguir nos escutar. Eu posso... perturbar sua audição.
— Como aquilo que aconteceu com a sua foto?
— Isso. É a mesma coisa. Elas vão saber que a gente está falando, mas não vão entender nada. — Ele se concentrou por um instante e então disse: — Pronto.
O avião às escuras e o fato de ninguém poder nos escutar fez com que eu me sentisse presa em uma pequena bolha de intimidade com Amon, e constatei que essa sensação me agradava.
— Me conte sobre Hórus, então.
O sorriso dele brilhou no escuro.
— Não está cansada, Lily?
— Exausta, mas quero muito ouvir essa história.
— Está bem. — Ele fez uma pausa de alguns instantes, então começou: — Hórus é filho de Amon-Rá. As pessoas o chamavam de Sol Dourado; enquanto seu pai era o Sol Nascido, Hórus era a luz que despontava acima das colinas no início de um novo dia e preenchia o mundo de uma ponta a outra.
— O horizonte — murmurei. — Ele é o horizonte.
Amon inclinou a cabeça e pensou no que eu havia acabado de dizer.
— Sim. Acho que essa é uma definição precisa.
— Fale mais — pedi, pegando meu caderno para desenhar e acendendo a luzinha de leitura para ver melhor. — Consegue descrever Hórus?
— Nas esculturas, ele muitas vezes é representado com a cabeça de um falcão, mas como os seus... filmes mostraram, esse conceito foi mal compreendido. Ele na verdade não tem cabeça de falcão, assim como Anúbis não tem cabeça de chacal. Esses animais são seus companheiros.
Amon espiou meu esboço e prosseguiu:
— Os deuses e deusas muitas vezes eram retratados com as cabeças de seus animais emblemáticos, para poderem ser diferenciados entre si e de outros líderes importantes.
— Faz sentido. Hórus tem os cabelos de que cor?
— Eu nunca vi Hórus pessoalmente.
— Ah. Bem, então só me diga o que você sabe sobre ele, sobre os olhos dele ou qualquer outra coisa — falei, o lápis erguido para tomar notas.
— Hórus é filho de Ísis e Osíris...
— Espere. Achei que ele fosse filho de Amon-Rá.
— E é.
— Como ele pode ser filho de dois pais?
— Vou explicar. Talvez seja melhor começar com Osíris. Ele se casou com a irmã, Ísis.
— Com a irmã?
— É.
— O incesto é uma prática comum entre os deuses egípcios?
— Sim, e mais tarde, também entre os faraós.
— Eca... Mas tudo bem, continue.
— Osíris foi um bom e sábio governante do Egito e, quando chegou a hora de se casar, descobriu que não havia mulher nenhuma que amasse mais do que a irmã, Ísis. A deusa Ísis era suave e bela como um raio de luar e tinha um dom incomparável para a magia. Foi uma união feliz e celebrada por todos, exceto por uma pessoa: seu irmão Seth.
— Mas... Seth não é aquele do mal? O Obscuro, ou sei lá o quê, que vocês precisam derrotar?
— Ele mesmo.
— Que interessante.
Enquanto Amon prosseguia, comecei a fazer uma nova lista.
— O deus obscuro Seth nem sempre teve um coração tão negro, no entanto tinha inveja do irmão Osíris. Ele queria governar, mas acima de tudo queria Ísis. Seth estava enfeitiçado pela beleza da irmã e, embora tenha desposado muitas mulheres, não considerava nenhuma delas tão desejável quanto a que não podia ter. A necessidade de possuir a irmã o consumia. Irado, ele virou as costas para tudo o que era bom e permitiu que as sementes da corrupção, da amargura e da luxúria crescessem no seu coração.
Ele fez uma pausa e continuou:
— Ísis disse ao marido que as investidas de Seth haviam se tornado cada vez mais intoleráveis e que seu irmão finalmente tinha ido longe demais: ele tentara agarrá-la à força. Por sorte, ela conseguira usar a magia para rechaçar sua atenção indesejada. Osíris foi falar com Seth, mas o irmão do governante havia se tornado um hábil mentiroso. Ele acusou Ísis de interpretar mal suas intenções e garantiu a Osíris que tinha um casamento feliz não apenas com uma esposa, mas com várias. “Que necessidade eu tenho de querer também a esposa do meu irmão?”, indagou.
— Que falso — murmurei enquanto fazia uma anotação.
— Osíris, que era um homem bondoso, acreditava no melhor lado de todo mundo, inclusive do irmão, e tranquilizou a mulher dizendo que ela devia ter entendido mal. Mas Ísis era esperta. Intuiu que Seth estava tramando alguma coisa, e logo viu que tinha razão.
— O que ele fez? — perguntei, fascinada pela história.
— Ordenou que construíssem um lindo baú de madeira todo esculpido, folheado a ouro puro, nas dimensões exatas de Osíris.
— Um baú para um corpo? Como um caixão? — Sacudi a mão. — Quero dizer, um sarcófago?
— Exatamente. Seth ofereceu um grande banquete em homenagem a Osíris, então anunciou que o lindo baú seria de quem coubesse lá dentro. Várias pessoas tentaram, decerto pensando em ficar com todo aquele ouro, mas ninguém coube exatamente.
— Ninguém, a não ser seu irmão.
— Isso mesmo. Logo todos já haviam tentado entrar no baú, mas ninguém ainda conseguira ficar com ele. Seth provocou o irmão e disse que talvez “só um rei coubesse ali dentro”, e convidou Osíris a tentar a sorte. Ísis implorou ao marido que não fizesse aquilo, pois estava pressentindo uma traição, mas Osíris não viu mal nenhum e ficou encantado com o fato de o irmão lhe trazer um objeto tão precioso.
— Hum.
— Osíris entrou no baú, e na mesma hora Seth e seus criados lacraram a tampa com chumbo derretido. Enquanto os homens carregavam o baú com Osíris para fora do palácio, Seth encurralou Ísis. Ele usava um amuleto que o protegia da magia dela e estava decidido a se apossar não só do trono, mas também da irmã. A única coisa que Ísis pôde fazer foi usar o poder da lua para escapar: ela saltou em um raio de luar e desapareceu. Mais tarde, Ísis descobriu que o baú fora jogado no Nilo. Quando conseguiu resgatá-lo, ele já havia sido invadido pelos crocodilos e o corpo de Osíris fora despedaçado.
— Que horror!
— É.
— Não entendo. Se Osíris morreu, como Hórus pôde nascer? Ele era criança quando isso tudo aconteceu?
— Bem, Ísis era uma mulher muito determinada, sabe? Não aceitou a morte do marido. Invocou todos os poderes de que dispunha e assim conseguiu juntar os pedaços do seu corpo, matando para isso uma porção de crocodilos.
Torci o nariz.
— Credo. Por quê?
— Para ressuscitar Osíris. — Ao ver minha sobrancelha arqueada, Amon chegou mais perto e explicou: — Quando todos os pedaços foram recolhidos, Ísis chamou Anúbis e disse que precisava da ajuda dele para reaver o marido.
— E deu certo?
— De certa forma. Anúbis enrolou cuidadosamente todos os pedaços de Osíris, encaixando o pé na perna e a perna no tronco até obter o formato de um homem. Se uma perna ou braço estivesse mutilado demais, ou se faltasse um dedo da mão ou do pé, Ísis preenchia a lacuna com pedaços dos crocodilos que matara para recuperar os restos do marido. Enquanto Ísis não parava de entoar encantamentos, Anúbis embalsamou os restos de Osíris e conseguiu reunir seus cinco componentes. Ele havia reconstituído o corpo, emprestado o próprio ba, seu poder, conectado a shuwt, a sombra, invocado o ka para que este retornasse e nomeado a forma reconstituída com seu ren, seu nome: Osíris.
— Nossa!
— Juntos, Anúbis e Ísis geraram um forte vento, que rodopiou em torno da forma de Osíris e a ergueu no ar. A figura se moveu, e com delicadeza foi pousada no chão, em pé. Osíris foi a primeira múmia do Egito. Aos prantos, Ísis removeu as ataduras do corpo do marido e o encontrou novamente inteiro e perfeito, a não ser pela pele, agora verde como a de um crocodilo. Ela ficou muito feliz, mas Anúbis lhe informou com tristeza que a magia que trouxera seu marido de volta à vida tinha um preço. Anúbis explicou que Osíris ficaria para sempre ligado ao mundo dos mortos. Ísis e Osíris poderiam passar uma noite juntos, mas depois ele precisaria deixá-la e assumir seu lugar junto a Anúbis. De lá, ele supervisiona a balança do juízo e comanda a Terra dos Mortos.
— E ela engravidou nessa noite?
— Isso. Contrariado em sua tentativa de ficar com a irmã, Seth reivindicou para si o trono do Egito. Como Osíris nunca tivera um herdeiro, estava certo de que ninguém iria contestá-lo.
— Mas aí Hórus nasceu.
Amon assentiu.
— Hórus era a alegria da mãe, e herdou parte de seu poder. A magia de Ísis canalizava a lua, e Hórus recebeu desse astro um grande dom: nasceu com olhos opacos capazes de ver no escuro. Diziam que os seus olhos podiam criar a luz. Hórus conseguia ver muito longe e podia distinguir os mais ínfimos detalhes. Nenhuma presa conseguia se esconder dele, e ele tinha a capacidade de saber o que era verdade e o que era mentira. Ísis zelou muito bem pelo filho e por suas dádivas. Hórus foi criado em segredo, e sua mãe assumiu uma identidade nova para impedir Seth de encontrá-los. Quando Hórus chegou à maioridade, Ísis foi com ele pedir a ajuda do próprio Amon-Rá para devolver ao filho seu lugar de direito como governante. Amon-Rá não quis ajudar. Hórus não tinha experiência, e Seth havia se tornado muito poderoso.
A história me impressionava. Ele prosseguiu:
— Frustrada, Ísis recorreu à magia. Chamou uma víbora do deserto e lhe deu para comer um rato que havia envenenado com sua magia. O roedor não matou a cobra, mas deixou seu veneno potente o bastante para fazer mal a um deus, mesmo um deus tão poderoso quanto Amon-Rá. Como sabia onde o deus gostava de caminhar todo entardecer, Ísis pôs a víbora no meio do seu caminho. Amon-Rá ignorou o bicho como fazia com a maioria das criaturas, uma vez que nenhuma delas podia lhe fazer mal, e, quando a cobra o picou, ele riu e continuou seu passeio. Ao pôr do sol, Amon-Rá tomou a barca cerimonial que percorria o mundo dos mortos e, bem na hora em que emergiu para iniciar um novo dia, desabou no chão, vítima do veneno de Ísis. Mensageiros foram despachados para encontrar uma cura, e Ísis foi depressa até onde Amon-Rá se encontrava e sussurrou em seu ouvido que, se lhe dissesse seu verdadeiro nome, ela lhe daria o antídoto para o veneno.
Desesperado, ele concordou.
— Qual era o verdadeiro nome dele e por que ela queria saber? — indaguei.
— Não sei. Parte do acordo era Ísis jamais revelar esse nome. Ela curou Amon-Rá, depois usou seu verdadeiro nome para forçá-lo a ajudar Hórus. Quando você conhece o verdadeiro nome de algum ser, seja ele deus, humano ou animal, adquire poder sobre ele.
— Mas eu só tenho um nome.
— É que você ainda não descobriu seu verdadeiro nome.
— Nem sei se eu tenho um.
— Todo ser vivo tem. O seu verdadeiro nome representa o seu eu ideal. A pessoa que você é lá no fundo. É o nome que está gravado no seu coração.
— Você tem um nome assim?
— Tenho.
— E não é Amon?
Ele fez que não com a cabeça.
— Eu recebi o nome Amon quando fui convocado para cumprir meu destino.
— Então por que Amon não seria o seu verdadeiro nome?
Ele pegou minha mão e pressionou a palma contra o próprio peito.
— No meu coração eu sei que não é.
Com a mão dele em volta da minha, pude sentir o conhecido calor de seus dedos, mas experimentei também um calor mais intenso que emanava de seu peito.
Retirei minha mão, embora ele parecesse relutante em soltá-la. Pigarreei, peguei meu caderno e percorri as anotações que tinha feito.
— O poder do olho que você mencionou parece diferente do que você faz.
— É ao mesmo tempo igual e diferente. Quer que eu continue a história?
Fiz que sim com a cabeça, mordisquei a borracha do lápis e cruzei as pernas, pousando o caderno no colo.
— Ísis invocou o verdadeiro nome de Amon-Rá com um encantamento que só o libertaria quando três exigências fossem atendidas. Seu primeiro pedido foi que Hórus ocupasse a posição do pai. O segundo foi que, sempre que quisesse, ela poderia acompanhar Amon-Rá na jornada que ele fazia todas as noites ao mundo dos mortos, para poder visitar Osíris.
— E o terceiro?
— Ela pediu algo que ninguém jamais ousara pedir. Ísis disse a Amon-Rá que não apenas queria que o filho fosse o legítimo herdeiro de Osíris, mas também que fosse nomeado herdeiro do próprio Amon-Rá.
— Foi assim que ele virou filho de Amon-Rá?
— Sim. Amon-Rá foi obrigado a conceder os três desejos de Ísis, e consequentemente adotou Hórus como seu filho.
— Aposto que Seth não gostou nadinha.
— Nem um pouco. Na mesma hora, ele desafiou Hórus, e os dois deram início a uma série de fatigantes batalhas.
— Amon-Rá não tentou impedir?
— Não. Para ele, combater Seth seria uma boa oportunidade para Hórus provar que era digno da sua atenção. Três testes foram organizados: um de força, outro de habilidade e um terceiro de poder. Para demonstrar força, eles passaram três meses lutando na forma de hipopótamos, mas a luta acabou empatada. Em seguida, ambos tiveram que construir embarcações de pedra e apostar corrida no Nilo, mas Hórus trapaceou e pintou um navio de madeira para fazê-lo parecer de pedra. O barco de Seth afundou e Hórus venceu a corrida, mas a trapaça foi descoberta e novamente não houve um vencedor.
Eu ouvia tudo atentamente.
— Por fim, organizou-se uma caçada. Aquele que conseguisse encontrar Nebu, o garanhão dourado que vivia no deserto, domá-lo e levá-lo até Amon-Rá seria declarado vencedor. Seth ouviu dizer que Hórus tinha a visão muito aguçada e temeu que o rival fosse o primeiro a encontrar Nebu; assim, desesperado, surpreendeu Hórus enquanto este dormia e arrancou-lhe os olhos das órbitas. Jogou-os nas dunas e deixou Hórus cego e à beira da morte enquanto saía à procura do famoso cavalo. Sem os olhos, Hórus foi privado de sua imortalidade. Passou meses vagando sozinho pelo deserto; sua única companhia era um falcão com quem fez amizade. O pássaro lhe trazia carne, que ele comia crua, e tornou-se seu fiel companheiro. Hórus percebeu que sua ambição e seu poder o haviam tornado arrogante. Diariamente, virava o rosto para o sol do deserto e prometia a Amon-Rá, seu novo pai, mudar de comportamento e se tornar o tipo de líder de que o povo necessitava.
Ele fez uma pausa antes de continuar:
— Semanas se passaram, e Amon-Rá decidiu que Hórus já fora punido o suficiente. Disfarçado de velha, foi procurá-lo e gritou por socorro. Hórus mandou seu falcão achar a mulher e seguiu o canto do pássaro até encontrá-la. Ofereceu-lhe toda a ajuda que podia e, para sua surpresa, a mulher mudou de forma. Ao sentir o calor do rei-sol, Hórus se ajoelhou aos pés de Amon-Rá e implorou perdão. Pediu não para ser instituído, mas que o levassem até sua mãe para que ele pudesse ser reconfortado pelo amor dela antes de morrer. Amon-Rá se apiedou de Hórus e exclamou que não somente ele veria a mãe com os próprios olhos mas também recuperaria seu poder. Dessa vez, um dos olhos, o esquerdo, conservou o poder da lua, mas ao olho direito de Hórus Amon-Rá atribuiu o poder do sol, tornando-o assim seu verdadeiro herdeiro. O Wadjet, ou Olho de Hórus, pode ser visto em obras de arte e esculturas por todo o Egito. Dizem que um amuleto feito com o Olho de Hórus é capaz de afastar o mal e proteger quem o usa. O símbolo é um sinal da proteção do deus do sol e um lembrete: quando somos privados de tudo aquilo que valorizamos, finalmente conseguimos ver a verdade.
— Quer dizer então que, de certa forma, você está sob a proteção de Amon-Rá e pode ver a verdade quando olha para as pessoas? — perguntei.
— Existem outros poderes associados a essa condição, também. Eu consigo extrair energia do sol, ver no escuro e encontrar coisas que estão escondidas.
— Foi assim que me encontrou em Nova York?
— Sim, e também por causa da minha ligação com você. Eu provavelmente conseguiria encontrá-la mesmo sem a nossa ligação, mas teria demorado bastante. A sua cidade é a maior que já vi.
Dei um grunhido.
— É uma das maiores do mundo, mas acho que na China há algumas ainda maiores.
— Difícil de imaginar.
— É difícil para muita gente, até para quem nasceu nesta época. Mas, afinal, Seth acabou encontrando o cavalo dourado?
— Sim, mas não conseguiu capturá-lo. Depois que curou Hórus, Amon-Rá expulsou Seth, que foi tragado por uma tempestade de areia e só voltou a aparecer na minha época. Nebu, o garanhão dourado, virou uma lenda. Muitos homens morreram procurando-o no deserto. Ninguém jamais cumpriu o desafio de Amon-Rá, e muitos pensaram poder se tornar herdeiros do deus do sol caso capturassem e domassem o famoso cavalo.
— Pode me contar essa história também?
— Talvez mais tarde, jovem Lily.
— Eu não sabia que deuses do sol precisavam de descanso.
Amon fechou os olhos e murmurou:
— Suas perguntas finalmente me cansaram.
— Bom, você é muito velho — provoquei.
Ele abriu ligeiramente os olhos, mantendo-os como duas fendas, e virou a cabeça para mim.
— Não tão velho que não consiga conter belas torturadoras que me crivam de perguntas e se deleitam me afligindo com incentivos de todo tipo.
Quando eu ia perguntar o que ele queria dizer com incentivos, ele deu um suspiro e pousou a cabeça no meu ombro.
Meu nariz ficou em seus cabelos. Os fios eram macios como os de um recém-nascido, e não pude evitar inspirar seu cheiro: âmbar cálido e mirra. Ele se ajeitou, chegando ainda mais perto, cobriu nós dois com um cobertor e pegou no sono rapidamente.
Meu corpo foi acalentado por aquele contato à medida que pequenas pulsações de calor percorriam minha pele. Um turbilhão de perguntas se agitava na minha mente; mesmo assim, apaguei a luz e deixei a escuridão do avião me envolver.
Tentei aquietar os pensamentos, mas, em vez disso, fiquei imaginando como seria percorrer o deserto, cega. Um falcão gritou e acordei sobressaltada bem na hora em que o comandante anunciava nosso pouso no Cairo.

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