25 de outubro de 2016

8. O Coração da Esfinge

Levantando a cabeça, sussurrei “Me desculpe”, esperando que o vento levasse o sentimento até Amon. Sabia que minhas esperanças e meus sonhos para o futuro não importavam mais. Eu era indigna. Era hora de aceitar o destino. Abri os braços e abracei minha morte.
Quando o felino enorme caiu sobre o meu corpo, me senti como um pino de boliche derrubado por uma bola em alta velocidade. E não era o tipo de pancada leve em que o jogador não tem certeza se a bola vai conseguir chegar ao fim da pista. Eu não oscilei para a frente e para trás, sem decidir se iria tombar ou não. A leoa era pesada e, com o baque, me transformei no tipo de pino que derrubava qualquer coisa que estivesse atrás.
Acabei caída de costas, seu peso esmagador em cima de mim, me obrigando a um grande esforço só para respirar. No alto, o céu da tarde havia escurecido e escutei o estrondo de um trovão. Meus braços estavam em torno da leoa e agarrei o pelo castanho de seus flancos arfantes num aperto mortal, rezando para que tudo acabasse depressa.
Suas garras afiadas rasgaram a pele diretamente sobre o meu coração e senti seu hálito úmido no rosto. Quando ela se moveu, dobrando o corpo sobre o meu, sua pata esquerda se apoiou no meu ombro e de algum modo consegui inalar um pouquinho de ar. A leoa acomodou a cabeça ao lado da minha, enfiando-a no espaço entre meu ombro e meu pescoço, e, embora eu esperasse a mordida afiada que rasgaria minha jugular, essa não veio.
Ela se colou ainda mais em mim. Tanto que me senti como se estivesse presa de novo em areia movediça, mas dessa vez com uma criatura três vezes maior do que eu me arrastando para baixo.
Não conseguia entender por que não estava morrendo. Por que ela não estava me devorando. Eu sabia que os felinos costumam sufocar a presa esmagando-lhe a traqueia, e, apesar de eu mal conseguir respirar, ela não parecia ter pressa.
Minutos se passaram e eu me perguntei se ela teria caído no sono. Hesitando, passei a ponta dos dedos em seu pelo, mas não houve reação. O peso não parecia tão ruim quanto alguns minutos antes. Por fim, pude recuperar o fôlego e gemi por causa da dor no tronco. Sua cabeça tombou e girei a minha, a fim de olhá-la; seus olhos dourados estavam vítreos, úmidos mas sem nada ver.
Não se passou muito tempo até eu poder começar a me retorcer e sair de baixo dela; antes de empurrar para o lado seu corpo inerte, porém, ouvi uma voz irritada dentro da minha cabeça: Fique parada até que a transformação esteja completa.
Parei de me mexer e me perguntei de onde a voz tinha vindo. Seria Ísis? Alguma outra deusa egípcia que eu ainda não conhecia? Que tipo de transformação estava acontecendo exatamente?
Tentei afastar a pata do meu peito, mas não consegui. As garras estavam cravadas tão profundamente em minha carne que me maravilhei com a sorte que eu tinha por ela não ter arrancado meu coração. Desisti e fiquei deitada em silêncio até que algo aconteceu, algo ainda mais estranho do que o corpo da leoa se dissolvendo diante dos meus olhos.
Meus sentidos intensificados me alertaram para a presença de um estranho que eu não podia ver. Eu não estava sozinha. Quanto mais a leoa desaparecia, mais tangível e real se tornava essa presença fantasmagórica.
A voz que havia falado comigo não era de Ísis. Agora eu tinha certeza. E mais alarmante ainda era o fato de que o ser cuja presença eu pressentia estava comigo. Não perto de mim, nem em outro plano de existência, como quando eu encontrava Amon nos sonhos, mas verdadeiramente comigo, dentro da minha mente. Eu podia senti-lo como podia sentir as sandálias nos pés ou o cabelo roçando minhas costas.
Você consegue sentir agora, não consegue?, perguntou a voz.
— Quem... quem é você?
Essa não é a pergunta certa.
— Então que pergunta eu deveria fazer?
A formulação correta seria: “Quem somos nós?”
— Nós? — De repente minha boca ficou seca como um deserto; lambi os lábios numa tentativa inútil de umedecê-los.
Sim. Nós. Você não é mais Lilliana Young e eu não sou mais o que era.
— O que... o que você era?
A criatura que você tem nos braços.
Olhando a forma da leoa morta que ia ficando cada vez mais transparente, perguntei:
— Essa era você? Quero dizer, a voz que estou ouvindo agora é da leoa?
Não exatamente. Na minha forma corpórea eu era um animal comandado pelo instinto. Meus pensamentos eram simples. Meu objetivo era a sobrevivência. Abri mão do meu corpo físico para ser uma coisa nova, guardando as melhores partes de mim para trazer a esta união de mentes. Não sou mais. Você não é mais.
Renascemos.
Somos esfinge.
— Certo... Presumindo que seja verdade, por que estou tendo uma conversa comigo mesma?
A fusão das nossas mentes ocorre com o tempo. Num determinado momento haverá apenas uma voz e uma mente. Se isso não acontecer...
— Vou ficar louca.
É.
— E quanto tempo eu... nós — corrigi — precisamos ficar aqui?
Até que meu antigo corpo desapareça completamente. O processo só deve demorar mais alguns minutos.
Agora ela estava tão translúcida que era como tocar um sonho.
A voz ficou em silêncio por um momento e depois acrescentou: Não precisa se dirigir a mim vocalmente, você sabe. Posso ouvir e entender seus pensamentos.
— Tudo bem se eu falar verbalmente com você por enquanto? Pelo menos até me acostumar com isso?
Como quiser.
— Você vai sentir falta? — perguntei, curiosa. — De ser leoa, quero dizer?
Ela não respondeu imediatamente. Por fim disse: Individualmente nossas formas eram mortais, frágeis, fracas. E o fraco deve abrir caminho para o forte. Se quisermos crescer juntas, essa é uma coisa que você precisa entender. Enquanto eu pensava em suas palavras, ela acrescentou: Está na hora. Levante-se.
Eu nem tinha notado que a forma da leoa havia desaparecido completamente.
— Sinto muito — disse ao me levantar devagar, gemendo por causa da dor no corpo.
Sente muito? Por quê?, perguntou a voz, surpresa.
— Pelo que você perdeu.
Não perdi. Ganhei.
— Talvez você não sinta assim se essa coisa que estamos fazendo não der certo.
Ela ficou quieta por um momento, depois disse: Se fracassarmos, pelo menos lutamos para nos livrar das amarras que nos foram impostas. Ninguém pode nos censurar pela tentativa que fizemos de nos tornarmos algo mais.
— Acho que não.
Eu... não, nós levantamos a cabeça e inalamos o ar. O cheiro distinto de água nos chamou e começamos a correr na direção de onde ele vinha. No trajeto, a voz da minha companheira interna indicava os rastros de animais e identificava odores que eu conseguia discernir, mas não categorizar.
Quando avistei minha aparência louca no reflexo do poço e me desesperei com a condição do vestido e do cabelo, senti a confusão dela.
Se não gosta da sua juba, deve removê-la. Podemos nos mover discretamente sem ela, sem falar que o cheiro dela alerta seus inimigos de que você está chegando.
— A maioria dos meus inimigos não pode sentir meu cheiro.
Talvez não no seu mundo, mas no reino dos deuses tudo é possível.
— Vou pensar nisso — falei sem sinceridade. — Nesse meio-tempo, eu tomaria um banho no riacho se tivesse uma roupa para trocar.
Por que faria isso? Não está na época dos insetos que picam.
— É que, bem, eu gosto de ficar limpa.
Mas a poeira da planície esconde seu cheiro. Ah, sei. Você provavelmente usa seu cheiro para atrair a atenção de machos potenciais. Acho que é um argumento racional, mas vai ser extremamente perigoso na nossa viagem. Nesse caso, deveríamos prosseguir com cautela.
Não pude pensar numa resposta, mas ela disse, percebendo meu choque: Você sabe, claro, que não pode esconder seus pensamentos de mim.
— Isso... isso simplesmente não está certo. É como ter minha mãe olhando por cima do meu ombro.
Você não gosta da sua mãe.
— Não. Eu gosto. É só que ela...
Minha voz interna interrompeu:
Não gosta, não. Ela não nota seu jeito diferente. Quer que você se ajuste aos padrões e às escolhas dela.
— Não é isso que você quer também?
Ela ficou em silêncio por um instante.
Ajustar-nos é uma realidade para nós duas. Houve uma pausa longa e então ela acrescentou: Você tem um orgulho insolente desta juba, e sinto que não pretende seguir meu conselho.
— Certo.
Muito bem. Pode ficar com sua juba comprida demais e, se isso lhe causar sofrimento no futuro, daremos um jeito na hora certa.
— Obrigada. — Então murmurei: — Daqui a pouco ela vai querer que eu jogue fora todos os meus cremes perfumados também.
Pude sentir sua perplexidade.
Você coloca cheiro na pele de propósito, de modo que qualquer predador possa localizá-la com a mesma facilidade com que encontraria uma búfala no cio?
— Ei! Fique sabendo que meus xampus e cremes caríssimos não cheiram nem um pouco como uma búfala no cio.
Ela suspirou.
Acho que essa fusão das nossas mentes vai ser um processo demorado. Se limpar e perfumar seu corpo tem maior prioridade para você do que nossa segurança, eu diria então que você tem língua por uma razão.
Comecei a rir.
— Você... — arquejei — ... você quer que eu tome um banho de língua?
Passou-se um momento enquanto eu tentava recuperar o fôlego ao mesmo tempo que curtia a sensação de vertigem de rir, então pude sentir que ela desejava ser capaz de me acompanhar.
— O que foi? — perguntei enquanto tentava conter o riso. — Você não ri?
Minha espécie experimenta um tipo de satisfação silenciosa, mas não agimos como macacos pulando de modo ridículo.
— Não censure se você não experimentou.
Admito que a sensação não é desagradável.
Encontramos o nicho onde eu havia dormido na noite anterior e me senti estranhamente reconfortada com a presença dela enquanto me acomodava, nem de longe tão atormentada pela superfície dura como da primeira vez. A luz calorosa do sol poente banhava minha pele e eu adorei a sensação. Parte de mim gostava daquilo porque me lembrava do calor do toque de Amon, mas havia outra parte – e suspeitei que fosse a parte nova – que adorava o calor residual encontrado nas pedras que cercavam a cama improvisada. Dentro de mim agitou-se um desejo de poder cochilar no calor do dia em vez de me deitar na cama à noite.
— Você sente falta de dormir com o grupo, não é? — perguntei, lendo os pensamentos dela.
É, admitiu. Você, por outro lado, prefere o isolamento.
— Na maioria dos casos, sim.
Ela pareceu insatisfeita com a resposta. Depois de um momento acrescentei:
— Mas gosto de ter você comigo. Especialmente à noite.
À noite é quando caçamos. Terei de me adaptar a dormir à noite.
— Talvez a gente possa mesclar um pouco. Não me importo em cochilar de dia. Boa noite.
Boa noite, Lilliana.
— Lily. — Remexi o corpo, encontrando uma posição mais confortável. — Ei, como devo chamar você?
Já que vamos nos tornar uma só, não precisa de um nome para mim.
— Eu me sentiria melhor se pudesse chamar você de alguma coisa, ainda que seja só temporária.
Por enquanto, por que não pensa em mim como uma irmã? Quase pude sentir sua respiração sendo suspensa brevemente. Minha irmã gêmea se chamava Tauret.
— Você tinha uma irmã gêmea?
Isso não é incomum entre os leões.
— É um nome bonito.
Ela era minha companheira de caça, até que foi morta. Éramos como duas sombras na noite. Tauret era mais rápida, mas eu era astuta, inteligente, especialmente para tirar as presas da toca.
— O que aconteceu com ela?
Estávamos com uma caça abatida. Ela montava guarda enquanto eu comia. As hienas acabaram com ela antes que nosso protetor pudesse expulsá-las. Pelo menos ela pôde dar aviso antes que elas nos dominassem.
Como seria perder uma irmã? Uma irmã gêmea?
Não desperdice as emoções com minha vida anterior. Ela é apenas uma sombra do que irei me tornar. Ou do que iremos nos tornar.
— Você não pode me convencer de que acredita de verdade que pensar na sua irmã é um desperdício de emoções. Você a amava.
Seus pensamentos se afastaram de mim.
Ter uma leoa no cérebro era confuso. Eu podia enxergar pelos olhos dela e pelos meus ao mesmo tempo. Era como me dividir ao meio e tentar comunicar ideias através de latas ligadas por um barbante. Dava para entender por que a criada que Ísis salvara dando-lhe os poderes de uma esfinge tinha enlouquecido. De repente, com a presença muito real de uma leoa na cabeça, entendi como era viver livre e selvagem. Sem prazos a cumprir, sem expectativas, sem distrações.
Imaginei se seria mais fácil para mim me adaptar à sua visão do mundo do que para ela entender a minha. A perspectiva humana era irritante para ela. As regras eram ambíguas. Não havia sentimento de conexão com os outros. A ela parecia que zumbíamos em círculos confusos como mosquitos na superfície de um rio – sem objetivo, sem realizar nada de importante, batendo aleatoriamente de um objeto em outro. Jamais vendo para além do pequeno habitat onde nascemos, vivemos e morremos, jamais afundando nas profundezas do rio da vida, contentes em existir somente para causar desconforto às outras criaturas.
Descanse agora, Lily, disse ela, tentando acalmar meus pensamentos.
Minha mente se aquietou no mesmo instante e eu soube que isso era apenas graças a ela. Quando ela decidia que era hora de dormir, era hora de dormir. Não se sentia culpada por isso. Aproveitava os momentos de calma quando podia. Sem descanso não teria capacidade de caçar com eficácia nem alimentar os filhotes ou estar alerta quando o perigo chegasse. Precisávamos nos revigorar para o que viria. Era lógico. Era simples. E era possível, por causa dela.
Enquanto meus olhos se fechavam, sorri, satisfeita com a facilidade com que ela havia me aceitado simplesmente como Lily.
— Você não me disse o seu nome — lembrei, bocejando.
Ela falou tão baixinho que não tive certeza de que estivesse de fato respondendo à pergunta. Mas, à medida que sentia o peso do mundo se acomodar na minha mente, soube que o que ela tinha dito era mesmo seu nome e que, de certa forma, agora esse nome também me pertencia. O nome que ela havia sussurrado era Tiaret.
Tia, pensei. Que lindo.
Tia sentiu que havia algo errado antes de mim. Na verdade, tive dificuldade de acordar a mente o suficiente para prestar atenção ao que ela via.
O que está acontecendo, Lily?, perguntou, petrificada. Seu instinto dizia que precisávamos fugir.
Está tudo bem, sussurrei, enviando pensamentos reconfortantes. Estamos no meu sonho e vendo o que Amon vê no mundo dos mortos. É para lá que estamos indo.
Uma criatura sombria, com garras e asas de morcego, circulava acima de Amon e, com um guincho, mergulhou na direção dele. No último instante, Amon atirou uma série de pedras e saltou, com adagas de areia se materializando em suas mãos quando caiu; brandindo as armas, mutilou as asas da criatura. Em seguida levantou as adagas bem alto e baixou-as, cravando-as até o punho no pescoço da fera.
Com um último e débil movimento das asas, a fera do mundo dos mortos sucumbiu e, cansado, Amon deslizou das costas dela, encontrou sua bolsa de couro e se foi, a armadura se dissolvendo na areia. Mais adiante, um pântano denso surgiu e o fedor de podridão atacou suas narinas. Meus olhos se fecharam por vontade própria e senti a mente se afastando da visão, mas a atenção de Tia estava transfixada.
O companheiro que você escolheu é corajoso.
Hummm, é sim, murmurei.
Sua conexão com ele nos dá vantagem. Podemos ver os caminhos por onde ele anda. Vou rastreá-lo com mais facilidade.
Isso é bom, murmurei, as palavras se engrolando e se derretendo como sorvete derramado numa calçada quente.
Durma agora, Lily. Vou vigiá-lo.
Certo. Meu corpo estava sentindo os efeitos de ter sido quase esmagado, embora eu soubesse que a leoa tentara ser o mais gentil possível no processo de fusão. Hematomas cobriam praticamente cada centímetro quadrado do meu tronco. Eu não tinha energia suficiente para permanecer com Amon nos sonhos. Mas fiquei feliz porque ela podia e esperei ser capaz de repassar tudo que ela via enquanto eu dormia.
Quando acordei na manhã seguinte, minha língua parecia colada no céu da boca e meu corpo todo doía. Não dava para saber se tudo que eu tinha experimentado no dia anterior havia sido um sonho maluco. Sem dúvida parecia alucinação.
Mas então senti. Tia estava... ronronando. Não havia outro modo de descrever. Era um som vibrante que produzia um zumbido de contentamento na minha mente. Sua presença era um peso tranquilizador que eu sentia no peito, quase como se um gato doméstico estivesse aninhado perto de mim.
Logo descobri o motivo para ela parecer tão feliz. Estava dormindo contente, sim, mas havia algo mais. Algo que ela estava repassando no pensamento. Imagens da paisagem de sonho em que ela estava quando Amon caiu no sono relampejavam, reais como se eu as estivesse testemunhando.
— O quê? O que você fez? — Os dois não tinham tido muito tempo antes que a conexão se dissolvesse depois de ele acordar, mas os momentos que tiveram juntos foram... espantosos. — Você... você o beijou? — indaguei, chocada.
Para ser bem precisa, ele me beijou. Uma coisa bem agradável, para dizer a verdade.
— Por quê? Por que você faria isso? Não disse a ele que era você?
Achei que essa revelação deveria ser feita por você. O rapaz já sofre bastante sem que aumentemos a preocupação dele. Além disso, fiquei curiosa. E, assim que ele percebeu que podíamos fazer contato físico, ficou feliz demais. Eu não quis fazer nada para estragar o bom humor dele.
Fiquei atônita, a boca se abrindo e fechando enquanto eu tentava pensar no que fazer, e Tia bocejou, sonolenta. Sua mente estava escancarada para mim. Percebi que ela não sentia vergonha nem culpa com relação ao que havia acontecido. Incapaz de continuar a conversa com a felina sonolenta ocupando espaço no meu cérebro, usei nossa conexão para repassar tudo.
No sonho vi o corpo adormecido de Amon como sempre, mas, quando ele caiu no sono, surgiu outra versão dele. Sua forma real estava maltratada e ferida, mas o eu do sonho era inteiro, forte e tão bonito quanto eu lembrava.
Seus olhos cor de avelã brilharam ao me olhar e, quando ele disse meu nome num sussurro quase de reverência, estendendo os dedos para os meus, pude ver sua pulsação acelerar. Ele engoliu em seco e aproximou-se ainda mais de mim.
— Como isso pode acontecer? — perguntou enquanto eu envolvia a mão na sua, e uma expressão de assombro cruzou seu rosto.
Eu já ia responder quando percebi que não era capaz. Tia havia respondido. Escutei minha voz parecendo fria e distante:
— Deve ser o poder da esfinge que nos dá a capacidade de nos vermos e nos tocarmos.
— Eu não sabia que isso era possível.
— Nem eu — respondeu minha voz.
Amon deslizou as mãos pelos meus braços com cuidado, hesitante, como se o toque pudesse quebrar o feitiço.
Minha cabeça se inclinou. Tia gostou da sensação do toque de Amon, mas seu coração não saltou como o meu só de ver o rosto dele. Senti o puxão nos lábios quando Tia abriu um meio sorriso para Amon.
— Isso é agradável — disse ela.
Ri com um soluço e apertei os lábios com os dedos. Embora aquelas palavras fossem estranhas, Amon não pareceu se importar. Piscou e notei em seus olhos uma expressão intensa que os deixou levemente mais escuros.
— Você não sabe quanto senti sua falta — disse ele, passando a mão pelo meu pescoço para segurar meu rosto.
Amon colou seu corpo ao meu e houve um momento breve em que Tia se enrijeceu, mas a hesitação passou rapidamente. Senti o zumbido do contentamento dela enquanto ele acariciava meu... não, o nosso rosto com o polegar, e um leve formigamento, como se raios de sol a tocassem, acalmassem e aquecessem nossa pele.
— Não sei se estou tendo alucinações ou se algum milagre abençoado pelos deuses causou isso, mas não me importo.
Então ele me beijou. A pressão de sua boca na minha me fez ofegar. Eu estava absolutamente hipnotizada, e ver aquilo através da memória de Tia era ao mesmo tempo empolgante e perturbador. O fato de ele tê-la beijado sem saber que não era eu me provocou incômodos sentimentos de ciúme, mas ver Amon e estar com ele fisicamente, ainda que não em espírito, era um presente. Senti seu abraço com tanta clareza quanto se ele segurasse meu coração nas mãos.
O beijo tornou-se mais passional quando Amon me pressionou contra ele e nossos corpos pareceram tão colados que nada poderia nos separar.
Mas algo nos separou.
Virando a cabeça para cima bruscamente, ele deixou escapar uma palavra que não entendi e foi então que escutei o guincho de um animal ali perto. Amon desapareceu dos meus braços e sua versão castigada acordou, levantando-se com rapidez e girando num círculo.
— Lily? — chamou. — Lily!
O chão tremeu quando um monstro, todo dentes e garras, emergiu de um abismo. Tia ficou vigiando até de manhã, mas ele não voltou a dormir. Eu me perguntei de que forma essa conexão no sonho funcionava. A leoa também não estava mais acordada e, no entanto, eu não conseguia ter qualquer visão de Amon. A conexão só deve funcionar quando eu durmo, pensei, e, mesmo assim, só se eu sonhar.
Tia não havia mentido ao dizer que Amon é que a tinha beijado, e achei interessante o fato de eu não sentir mais ciúme. Claro que eu queria que tivesse sido eu, e não Tia, que ele estivesse beijando, mas estar com Amon de qualquer modo era maravilhoso. Um milagre. E Tia era o motivo para o encontro ser possível. Eu não podia me ressentir dela por causa disso, nem por ter gostado do beijo. Que garota não teria prazer ao ser beijada por um deus-sol maravilhoso como Amon?
Agradecida por sua presença quente, murmurei:
— Durma. Eu providencio o café da manhã.
Só senti que Tia acordara quando já estava na metade do caminho de volta ao lugar onde Ísis havia nos deixado. Eu esperava que o Dr. Hassan ainda estivesse lá e mantinha um ritmo constante apesar da dor no corpo, surpreendentemente menor do que quando eu havia caído no sono na véspera.
Nós nos curamos rápido, juntas, foi a primeira coisa que ela me disse depois de interromper minha corrida e com um prazer enorme espreguiçar os braços e as costas, arqueando-me como um gato antes de recuperar o controle dos membros.
— O q-que foi isso? — gaguejei, tentando retomar o passo.
Você não entendeu o que eu quis dizer na primeira vez?
— Eu escutei. Só não entendo por que de repente senti vontade de parar e me espreguiçar quando meus músculos estavam aquecidos por causa da corrida.
Ah. isso.
— É. Isso. Você está dominando minha mente?
Garanto que sua mente está tão intacta e no controle como sempre.
— Então como você fez isso?
Não fui eu. Foi você.
— Não. Não foi um pensamento consciente.
Foi. Nós pensamos.
— Como assim, nós? Eu não pensei. Você pensou.
Talvez tenha começado assim. Mas sua mente concordou e aceitou. Não se preocupe demais. É bom sinal. Quer dizer que estamos nos tornando uma só. Nossas mentes queriam que a gente se espreguiçasse. E fizemos isso.
— Talvez para você seja bom sinal. Para mim, parece que estou sendo possuída.
Pelo contrário. Você estava se sentindo segura. Relaxada. Estava contente comigo. Sua mente estava livre e em paz enquanto você corria. Essa é a sensação de correr, para mim. Era natural que você se sentisse mais em sintonia comigo num momento desses, e seu corpo reagiu à minha mente de forma fácil e tranquila.
Por mais que minha corrida tivesse sido harmoniosa, agora parecia desconjuntada. Como se eu tivesse três pernas e não conseguisse acertar o passo. Para me distrair, falei:
— Não estou com raiva. Quero dizer, com relação a Amon.
Eu sei.
— Só... só me acorde na próxima vez que isso acontecer, está bem?
Vou tentar, Lily.
— Obrigada. — Enquanto corria, comecei a imaginar quais outras coisas teriam mudado em mim agora que eu era uma esfinge.
O que foi?, perguntou Tia.
— É só que, bom, talvez eu tenha pensado que virar uma esfinge fosse significar que eu... você sabe...
Ia parecer um monstro?
— Não. É. Acho que, de certa forma, sim.
As imagens da esfinge que você tem na mente são muito inexatas, mas devo admitir que eu preferiria ter mantido as presas e as garras.
— As garras seriam um pesadelo para minha manicure. Então, além de ter você na cabeça, o que está diferente em mim?
Sentidos mais apurados, para começo de conversa. Isso começou quando o encantamento foi feito, mas se tornou permanente quando aceitei você.
— Espere aí. Você... me aceitou?
Sim. Todas as leoas tomaram consciência do encantamento no instante em que ele foi lançado. Nós nos reunimos na clareira para avaliar nossa compatibilidade. Cada uma recebeu a opção de abandonar sua forma e fundir a consciência com você, mas fui eu que ouvi seus pensamentos com mais clareza. Minhas irmãs cederam à minha reivindicação e dei início à caçada para avaliar se você era digna.
— Então, mesmo naquele momento, você poderia ter me matado?
Se eu achasse que você não era digna, sim.
— O que você estava julgando, exatamente?
Muitas coisas. Seu pensamento rápido. Seu nível de coragem diante da morte. Sua determinação. Mas, acima de tudo, seu coração.
— Você podia sentir tudo isso?
Podia. Seu coração é bom. A força que está no centro dele é o amor. Não existe ambição nem cobiça em você. Da minha perspectiva, a única coisa que a retém são as limitações que você mesma se impõe ao enjaular seus desejos e suas paixões e viver voluntariamente no cativeiro. Sabe o que quer, mas tem medo de lutar por isso. O fato de você ter sido capaz de vir tão longe explica a profundidade dos sentimentos em seu coração. Quando descobri essas coisas a seu respeito, pensei que poderia ajudá-la a abraçar esse seu lado e destrancar as coisas que você mantém mais escondidas. Por isso, eu a aceitei e abri mão do que era para ajudá-la a se tornar seu eu mais poderoso.
Eu não sabia o que dizer. Ter Tia comigo era como ter um anjo da guarda que entendia tudo. Ela aceitava meus pontos fortes e estava disposta a ficar comigo e me ajudar, independentemente da encrenca em que eu me metesse. E eu estava para entrar numa encrenca enorme.
— Obrigada. Quero dizer, por acreditar em mim.
Não sou a única. Seu companheiro também tem enorme confiança em você.
— Como sabe disso?
Ele falou com você ontem à noite enquanto andava pelo mundo dos mortos.
— Falou?
Falou. Essa parte você não viu. O rapaz não sabia que eu estava escutando, mas esperava que você entendesse a mensagem mesmo assim.
— O que ele disse?
Coisas floreadas. A maioria das palavras não tinha importância, eram declarações sentimentais sem sentido, de vários tamanhos. A única vez em que prestei atenção de verdade foi quando ele disse palavras de encorajamento e que estava ansioso para que vocês se reencontrassem, por mais que isso pudesse ser perigoso.
Soltei lentamente a respiração que nem tinha percebido que estava prendendo.
Você... quer ouvir as palavras de devoção que ele disse?
— Elas significam tudo para mim — admiti.
Então da próxima vez vou me esforçar para prestar mais atenção. Para mim, ele pareceu um sapo apaixonado na época do acasalamento, coaxando de modo cada vez mais espalhafatoso para capturar a atenção da fêmea desejada.
Dei uma gargalhada. Principalmente ao perceber que os pensamentos dela contradiziam as palavras. As declarações apaixonadas de Amon a haviam tocado, ainda que ela não entendesse de verdade o propósito daquilo.
— Espere só até isso acontecer com você, amiga — falei.
Depois fiquei séria ao perceber que ela não teria mais chance de se apaixonar, se é que os leões se apaixonavam.
— Você ama seu parceiro? — perguntei baixinho. — Ele era um leão muito bonito.
Nossa noção de amor é diferente. Eu sou ligada à minha família, e não a um leão em particular. Nós funcionamos como uma unidade coesa na qual todos são importantes. Não buscamos nos isolar dos outros, como vocês.
— Nós também somos ligados à família, mas quando escolhemos um parceiro, um companheiro, queremos que esse relacionamento seja especial, diferente. Uma coisa mágica que só exista entre os dois.
Não tenho certeza se o seu jeito é melhor do que o meu. Como vê, seu elo exclusivo com esse macho significa que você sofre quando ele é retirado de sua proximidade imediata.
— Verdade — admiti. — Eu me sinto desalentada sem ele. Meio perdida.
Você sacrifica muita coisa em troca de uma pequena chance de felicidade. Uma vida estável e produtiva pode ser mais satisfatória.
— Isso se parece demais com a vida que meus pais planejaram para mim.
Não quero dizer que você não deva explorar e fazer as coisas que lhe dão prazer. O que estou dizendo é que é importante encontrar momentos de alegria no aqui e agora, e não colocar todas as esperanças num sonho, num homem.
— Vou levar isso em consideração.
Obrigada.
Não que ela estivesse errada, exatamente. Eu jamais quis ser uma daquelas mulheres que abrem mão da própria vida por causa de um homem. Mas também nunca tinha imaginado alguém como Amon. Passei a palma da mão sobre o escaravelho do coração na minha cintura e senti um leve arrepio. Meu coração estava ligado ao dele e, até que não estivesse mais, eu faria tudo que estivesse em meu poder para estar com ele.
Já podia sentir o cheiro do Dr. Hassan, mas ainda não podia vê-lo. Era meio-dia e o sol estava a pino. Pus as mãos em concha sobre os olhos, para protegê-los, e girei. Um som atrás de mim atraiu minha atenção e me virei depressa, me agachando, pronta para atacar.
O Dr. Hassan largou um cantil inteiro, a água jorrando em ondas densas como um coração esfaqueado. Ficou ali imóvel, o choque se manifestando em seu rosto enquanto me examinava.
— Lily? O que foi que você fez?

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