21 de outubro de 2016

7. Carruagens voadoras

Entramos no aeroporto sem problema algum, e Amon ficou observando os outros passageiros com um ar de profundo fascínio. Como devíamos lhe parecer estranhos e diferentes: aquelas janelas reluzentes, os espaços amplos e arejados feitos de cromo e metal, e todo mundo andando apressado para lá e para cá com suas malas de rodinhas.
— Uma coisa: é preciso tomar cuidado com o que fizer aqui dentro. Você tem talento para atrair atenção para si. Tente se misturar. Há câmeras por toda parte. — Quando olhei para seu ar confuso, expliquei: — Uma câmera tira fotos. Como aqueles desenhos em relevo nas paredes dos templos e pirâmides, sabe? Fotos são assim, só que bem, bem mais precisas. Olhe só.
Tirei uma selfie com o celular e lhe mostrei. Fascinado, ele passou o dedo sobre a imagem.
Virei o telefone e tirei uma foto sua, mas a tela ficou borrada.
— Espere. Vou tentar outra vez.
Desativei o flash e tornei a pressionar o botão várias vezes, mas todas as imagens saíram iguais. No lugar onde Amon deveria estar havia apenas uma explosão de luz.
— Sua tecnologia não consegue esculpir minha imagem. Provavelmente porque eu sou uma sombra ambulante.
Com os olhos pregados no borrão brilhante na tela do meu celular, balbuciei:
— Acho que você está mais para uma supernova ambulante, isso sim.
Amon continuou a estudar os outros passageiros, então perguntou de repente:
— Como você me vê, jovem Lily?
— Não sei. Quero dizer, não tenho como classificar você. Será um deus egípcio? Uma múmia? Ou será humano? Um fantasma? Está claro que você é imortal, mas na verdade não existe nenhum parâmetro de referência.
— Não. O que eu queria perguntar era: o que há de errado com a minha aparência?
— Hã... na verdade, nada.
Pelo menos nenhuma garota que eu conheço veria algum problema.
Amon franziu o cenho.
— Você sabe se este... aeroporto tem lugar para tomar banho?
— Você quer tomar banho agora? — perguntei, sem entender.
— Não.
Foi então que me ocorreu.
— Ah, um toalete. Claro.
— Não, eu não quero uma toalha.
— Eu sei. Mas é assim que esse lugar se chama: banheiro, toalete, sanitário. — Olhei em volta e vi um não muito longe dali. — Está vendo onde aquele homem entrou? Ali é o toalete masculino.
— Você me espera aqui?
— Espero.
Enquanto o via se afastar, tive uma ideia. Por impulso, andei até a barraquinha que vendia fones de ouvido. Sabia que Amon acharia aquilo muito interessante, e estava comprando um par para ele quando senti uma espécie de puxão por dentro.
Assinei depressa o recibo do cartão, cedi à força que me puxava e fui atraída de volta mais ou menos na direção do lugar em que estávamos sentados. As cadeiras agora estavam ocupadas por outros passageiros, e não vi Amon em lugar nenhum.
Dei uma rodadinha, ajeitei o cabelo atrás da orelha e comecei a procurá-lo.
A sensação de que algo me puxava tinha passado. Supus que tivesse sido provocada por Amon, de modo que aquela sua súbita ausência me deixou preocupada.
Uma voz conhecida chamou meu nome baixinho, e eu me virei.
— Amon? O que... o que você fez?
Ele havia tirado as roupas de ginástica folgadas do meu pai e, ao olhar em volta, percebi como arrumara outras roupas.
Três jovens saíram cambaleando do banheiro vestidos com as peças do meu pai. Todos exibiam um ar confuso e um deles não parava de puxar a camiseta velha enquanto se afastava.
O fato de Amon ter trocado de roupa com eles era a parte menos impressionante da sua transformação. Não entendi como, mas aquele rapaz de sorriso de matar tinha dado um jeito de acrescentar cabelos à cabeça.
— É uma peruca?
Puxei os cabelos com uma das mãos e constatei que estavam presos com firmeza ao couro cabeludo.
— É o meu próprio cabelo. O estilo está certo?
Se eu antes já achava Amon bonito, sua beleza agora tinha sido elevada à enésima potência. Os cabelos eram castanho-escuros, curtos atrás e dos lados e um pouco mais compridos na parte de cima. Eram grossos, densos e volumosos, além de meio bagunçados. O tipo de cabelo no qual uma garota poderia enterrar os dedos durante um beijo. Lily, pare com isso!
— Ficou... não ficou nada mau — respondi por fim. — Como você fez isso?
— Eu só acelerei o crescimento natural.
— Pensei que você fosse careca porque não tinha cabelo.
— Não. Os príncipes egípcios raspam a cabeça.
— Entendi. Mas... por que você trocou de roupa e fez o cabelo crescer?
Amon deu de ombros.
— Não pude deixar de reparar que não me pareço com os outros homens da minha idade. Vai ser mais fácil andar por aí se eu... chamar menos atenção. Não posso fazer grande coisa para alterar meu comportamento, a não ser seguir o seu exemplo, mas posso tentar pelo menos ter a aparência de alguém do seu mundo. Não vi muitos homens da minha idade com a cabeça raspada.
— Certo, mas...
— Estou melhor agora?
— Você está ótimo — respondi, e era verdade.
Ele usava uma calça jeans escura de corte reto, um blazer azul ajustado, uma camisa de malha branca de manga comprida com três botões no pescoço e um par de All Star cinza nos pés.
— Arrumei também um cinto novo. Viu?
Ele levantou a camisa para me mostrar, mas fiquei distraída demais com os músculos rijos de sua barriga para reparar no cinto.
— Que... que legal — murmurei, e virei-me para disfarçar o rubor nas bochechas.
Ele soltou a camiseta e perguntou:
— Não correspondi às suas expectativas?
Fiz um gesto casual.
— Acredite... você está acima e além das minhas expectativas. — Pigarreei, pouco à vontade, ao me dar conta do que acabara de dizer. Ele não pareceu perceber nada de anormal. — Bom. Agora que você está vestido de maneira confortável, vamos ver que avião temos que pegar para chegar ao Egito?
Deixando para trás um rastro de funcionárias de companhias aéreas com ar sonhador, todas enfeitiçadas pelo poder de Amon, por sua beleza de revista ou por uma combinação das duas coisas, e tendo nas mãos duas passagens para o Cairo, pelas quais não pagáramos nem tivéramos que mostrar passaporte, atravessamos o aeroporto. Não demorei muito para perceber o efeito que Amon exercia não apenas sobre as funcionárias, mas em quase todas as pessoas do sexo feminino com quem cruzávamos.
Ele possuía uma aura de poder e, pelo menos para mim, irradiava todo tipo de sensação cálida e ensolarada. Desconfiei que isso fosse natural nele ou então um reflexo das dádivas do rei-sol. Nós todas parecíamos girassóis virando a cabeça na direção de um astro-rei estonteante. Pensar isso me irritou e percebi que era simplesmente porque, por egoísmo, eu queria guardar todo o calor de Amon para mim.
Assim que embarcarmos, as comissárias de bordo começaram a nos dispensar uma atenção um tanto excessiva. Amon se deleitou com isso.
Depois da primeira hora, as comissárias já tinham se tornado um incômodo constante. Quando a quarta delas apareceu só para ver, pela segunda vez, se Amon estava precisando de alguma coisa, eu me enchi e a interrompi antes que ela dissesse qualquer coisa:
— Estamos bem, obrigada. — Então sibilei para Amon: — Eu gostava mais de você careca.
Amon achou minha reação hilária. Minha resposta foi arrancar o travesseiro do braço da sua poltrona, enfiá-lo atrás da cabeça, cruzar os braços na frente do peito e fechar os olhos, para não ter que assistir ao interminável desfile de suas adoradoras.
Ainda rindo, ele pegou o cobertor que uma das comissárias tinha lhe dado – cujo perfume, segundo ele, era digno de uma rainha do Egito – ajeitou-o à minha volta e se inclinou para sussurrar:
— Um lírio do deserto não olha com ciúme para uma reles violeta.
Não respondi, e logo adormeci embalada pelo ronco das turbinas.

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