25 de outubro de 2016

7. Caçadora

Meu estômago tornou a se revirar enquanto caíamos, e fiquei sem ar quando ela me ajeitou como uma boneca de trapos em seus braços ao me posicionar para o pouso. Com mais algumas batidas vigorosas de suas asas, os dedos de nossos pés abriram pequenos sulcos na terra até encontrarem apoio numa pequena colina coberta de grama. A areia se agitou à nossa volta, fazendo a pele formigar, e então Ísis acomodou as asas reluzentes atrás do corpo.
— Chegamos — declarou.
— Chegamos aonde? — perguntei enquanto espanava a poeira dos braços e sacudia o vestido.
Quando passei as mãos nos cabelos, fiz uma careta. Estavam revoltos, embaraçados e sujos. Joguei aquela juba por cima dos ombros e olhei em volta. Num raio de quilômetros não havia nada além de árvores esparsas, aves voando em círculos e o som de insetos.
— No mundo mortal isto é uma parte do que você chamaria de África, mas você jamais conseguiria encontrar o local exato se procurasse. Estamos no território sagrado da esfinge. O lugar onde você encontrará seu coração.
— Eu já não tenho um?
— Você precisa de um segundo coração. Lembre-se, a esfinge tem dois.
— Certo, então preciso achar um coração, e depois?
— Ah, não é você quem a encontra. Ela encontra você.
— Ok. Ela me encontra. — Nervosa, arrastei o pé calçado com a sandália por um trecho de grama. — Então, quem está me procurando, exatamente?
— Por enquanto, ninguém. Primeiro o vizir precisa dizer as palavras do encantamento. À medida que o poder delas cair sobre você, ela vai farejar sua intenção e virá atrás.
— Me farejar? — A conversa estava seguindo um caminho desagradável. — Se o voo já não tivesse me deixado ansiosa, essa sua explicação enigmática sem dúvida deixou.
— Você não precisa se afligir. Se ela a considerar digna, vai lhe dar o coração.
— E se não considerar?
— Então vai devorar você.
— Ah. Só isso? Claro. Não há nenhum motivo para me afligir.
Levei os dedos à boca e comecei a roer as unhas, nervosa. Desde minha última aventura com Amon, elas ainda não tinham voltado à forma bem cuidada de antes.
Vendo meu estado lamentável, o Dr. Hassan interveio:
— O próximo passo é o encantamento, não é?
— É. Assim que o encantamento for pronunciado sobre a cabeça de Lily, ela irá se tornar ao mesmo tempo a caçadora e a caça. Você irá esperá-la aqui. Se ela sobreviver, você lhe dará as armas tiradas da Sala dos Enigmas. Lembre-se: Wasret é uma esfinge, mas nem todas as esfinges são Wasret. Ainda que não seja a ela que as estrelas se referiram, talvez ela ainda seja capaz de salvar o amado. Mas, se não retornar...
— Então estamos todos perdidos — terminou o Dr. Hassan.
— Sim — confirmou Ísis baixinho.
Seus olhos de tempestade se voltaram para mim.
— Como vamos saber se era ela na profecia? — perguntou o Dr. Hassan.
A deusa sorriu.
— O tempo dirá. Que a sorte esteja com você, Lily. Pelo seu bem, eu lhe desejo sucesso.
Só pude assentir com a cabeça em resposta enquanto tentava reprimir a careta que atravessava meu rosto no lugar do sorriso. Ísis sacudiu as asas, mas, quando se preparava para decolar, disse:
— Ah. Quase esqueci.
Estendendo as asas em volta do corpo, piscou rapidamente, os olhos lindos se enchendo de lágrimas que ela então recolheu com a ponta da asa. O procedimento pareceu objetivo e nem um pouco emotivo. Quando terminou, ela pegou uma pena cintilante de sua asa e a arrancou, sussurrando um encantamento.
— Segure isto enquanto o vizir pronuncia o encantamento — disse, antes de entregá-la a mim. — Fiz uma pequena melhoria desde a última vez que o encanto foi usado. As lágrimas vão protegê-la de qualquer criatura que eu possa comandar, mas, assim que elas se esgotarem, você não terá mais meu escudo e precisará contar com a própria força. Use as lágrimas com parcimônia. Quanto ao restante... — Ela sorriu. — Estou guardando para uma surpresa.
Então voltou-se para o Dr. Hassan.
— Presumo que você será totalmente capaz de instruí-la nos caminhos da esfinge. Rezemos para que a mente dela seja firme.
— Farei o melhor que puder, Deusa.
— Faça mesmo.
Com isso, Ísis levantou os braços em direção ao leste, onde o sol estava começando a espiar por cima do horizonte, e todo o seu corpo se encheu de luz. Senti um vento forte agitar a grama à nossa volta enquanto a forma da deusa subia no céu. Apesar de eu proteger os olhos para observá-la, seu caminho se alinhou com o sol e logo eu não consegui mais distinguir a diferença entre os dois. Ela se foi.
Girei entre os dedos a pena reluzente que ela havia deixado.
— Há uma imensa lista de ses antes de eu chegar até Amon, não?
— Sim. Essa jornada parece meio complicada.
— Nem me fale.
O Dr. Hassan pigarreou.
— Vamos começar?
— Acho que devemos. Há uma fera terrível e desconhecida por aí esperando para me caçar. — Ele emitiu um som ao passar a palma da mão no pescoço. Estava preocupado. — Ei, apesar do meu óbvio desconforto, eu me ofereci, lembra? Eu quero fazer isso. Vou ficar bem. Especialmente porque o senhor é quem vai me preparar.
Ele me lançou um olhar de dúvida, mas obedientemente pegou o caderno e começou o encantamento. Enquanto entoava as palavras, caminhava ao meu redor:

Aqui, no Território Sagrado da Esfinge, fazemos um pedido.
Lilliana Young vem de dia, depois de caminhar nos passos dos deuses.
Seus feitos são prodigiosos e foram registrados nos anais do Cosmo.
Ela é a Caça e chega armada de força e pureza,
Procurando a Caçadora que espera de dentes e garras à mostra,
Aquela que Dança no Sangue e se Alimenta de Corações...

Isso não estava soando nada bem. Por que os encantamentos egípcios não podiam falar de cachorrinhos, chocolate e unicórnios? Cada encantamento que eu havia encontrado desde que conhecera Amon tinha a ver com sangue, múmias e morte. Certo, eu estava tecnicamente apaixonada por uma múmia, de modo que parte disso era de esperar, mas por que nenhuma das minhas aventuras egípcias tipo Indiana Jones podia ser divertida? Alguma coisa sobre a qual eu pudesse escrever num trabalho de faculdade?
O Dr. Hassan prosseguiu em tom monocórdio e eu consegui me concentrar outra vez:

Aquela que será sua acompanhante até o outro lado,
Esta é a hora de seus caminhos se cruzarem.
Ambas são dignas.
Ambas são enobrecidas pelos deuses.
Ambas realizaram feitos que provam seu valor.
Caçadora, deixe sua alma aparecer e não se afaste.
Caça, vista-se com o poder de sua companheira e não tema seu abraço.
Fundam seus passados. Compartilhem os amanhãs.
Duas almas combatentes vivendo num só corpo.
Nenhuma das duas será esquecida.
Hoje elas são unidas.
Hoje estão limpas de tudo.
Hoje morrem e renascem.

Espere aí. Ele disse “morrem”?

Respirem juntas. Cacem juntas. Lutem juntas.
Aquela que não fala, encontre sua voz interior.
Aquela que não vê, encontre sua visão real.
Venha encontrar seu par, ó guardiã da planície!

Quando o Dr. Hassan entoou o último verso, sua voz ecoava, emanando poder. Eu podia sentir o encantamento baixando sobre mim como uma coisa tangível. Ao encontrar seu lugar em meu coração, ele afundou. Como uma pedra pesada num lago, seu peso provocou ondulações que percorreram minha pele e dispararam pelo ar, como se eu fosse o epicentro de um terremoto invisível.
A pena que eu segurava saltou no ar, livre, como se tivesse vontade própria, e começou a flutuar na minha frente. Então o vento a encontrou e, alarmada, estendi a mão para pegá-la, mas ela me escapou. Demorei apenas um instante para perceber que seus movimentos eram propositais. Ela ganhou velocidade e girou ao redor do meu corpo, cada vez mais rápido, até que senti uma dor aguda nas costas. Lágrimas queimaram meus olhos, minha visão tingiu-se de vermelho. Virei-me.
— Onde ela está? — perguntei ao Dr. Hassan. — Para onde foi a pena?
— Ela... hã... desapareceu.
— Desapareceu? Como assim desapareceu?
— A pena de Ísis foi absorvida pelas suas costas.
— Pelas minhas... — Fiquei imóvel por um momento, esperando o resultado daquilo. Minhas costas latejavam junto com meu coração. Subitamente desesperada, girei num movimento brusco, levando a mão às costas e tentando olhar por cima do ombro, mas as pontas dos dedos não encontraram nada. De novo me perguntei por que tive de fazer uma coisa idiota como me apaixonar por uma múmia.
Num relacionamento normal eu só precisaria emprestar algum dinheiro ao cara, dar uma carona ou ajudar com o dever de casa quando ele se encrencasse. Com Amon eu precisava voar com deusas, me defender de avanços amorosos de divindades e ser caçada por superferas. Mesmo assim, eu sabia, no fundo do coração, que arriscaria qualquer coisa por ele. A chance de estar de novo com Amon valia cada sacrifício que me pediam.
Ao tirar a mão do ombro, meu olhar se fixou na ponta dos dedos. As linhas e espirais ali ganharam mais foco e eu pude ver o sangue circulando nas veias minúsculas logo abaixo da superfície.
— O que é isso? — sussurrei.
De repente, estava ultraconsciente de que meus sentidos tinham sido intensificados pelo encantamento. O pio dos pássaros me assustou. Senti o peso de uma colônia de cupins a mais de um quilômetro de distância e o cheiro de um rio cheio de criaturas selvagens. Fechei os olhos e inalei profundamente.
Havia alguma coisa por ali.
Uma coisa poderosa.
Uma coisa perigosa.
Eu podia sentir seu gosto metálico ao passar a língua pelos dentes. Virando-me para o Dr. Hassan, flexionei os músculos das costas e dos ombros, aquecendo-os, ainda sem saber com que propósito.
— O que devo fazer agora?
Apesar de ter feito a pergunta, um desejo recém-despertado já estava me puxando com cordões invisíveis. Havia alguma coisa, alguém, que eu precisava encontrar, e não era Amon.
O Dr. Hassan me dirigiu um sorriso hesitante.
— Você precisa ir, Lily. Vou esperá-la aqui pelo tempo que me for possível.
— Está bem — respondi, apesar de a voz parecer totalmente diferente da minha e de meus pensamentos parecerem turvos.
— Siga seus instintos — disse ele por fim. Quando baixei a mão para pegar uma bolsa, ele balançou a cabeça. — Você não deve levar nada. Nem água. Você vai ser testada.
Engoli em seco, já sedenta diante da ideia de que andaria pela savana africana sem nenhum suprimento. Apesar da minha determinação, lágrimas encheram meus olhos. Somente com grande esforço evitei que elas caíssem. Amon precisava de mim. Eu era capaz de fazer isso.
Ergui o rosto para o sol e inalei profundamente, tanto para me firmar quanto para tentar perceber a direção em que precisava ir. A luz estava cor-de-rosa por trás das pálpebras fechadas e, ao me abrir para os sons e cheiros à minha volta, alguma coisa atraiu minha atenção, um ruído distinto, como a batida de um tambor distante.
— Lily? — ouvi o Dr. Hassan chamar.
— O que foi? — respondi, o queixo levantado e os olhos ainda bem fechados.
— É hora de correr.
Num instante todos os nervos do meu corpo ficaram em estado de alerta. Inclinando apenas a cabeça em sua direção, fiz um leve movimento de anuência e logo me vi correndo. Cambaleei por um momento quando minhas pernas se embolaram no tecido do vestido, então segurei a bainha no meio de um salto e a puxei para cima, prendendo-a com firmeza no cinto.
O ar enchia meus pulmões e eu o sorvia e soltava em grandes rajadas, pernas e braços se movimentando num ritmo constante. Logo o Dr. Hassan tornou-se apenas um pontinho no horizonte e fiquei surpresa ao descobrir que era capaz de saltar e me equilibrar tão bem quanto uma corça. Mesmo nunca tendo me considerado particularmente atlética e jamais tendo corrido com velocidade, o ritmo rápido não me deixou sem fôlego. Eu estava explodindo de energia e adorava a sensação dos músculos aquecidos e da poeira que cobria meus pés e sandálias.
O cabelo voava atrás de mim, a brisa agitando-o como uma crina de cavalo, e, embora eu fosse humana e frágil e corresse grande perigo, posso dizer honestamente que nunca tinha me sentido tão viva. Meus membros zumbiam e todas as preocupações ficaram de lado enquanto atravessava aquele território. Era uma criatura sem nada para provar e sem ninguém a quem prestar contas. Eu era livre.
Durante horas não parei. Mas, quando finalmente fiquei cansada, por instinto segui para o rio distante. Num determinado trecho havia uma pequena nascente que criava um regato onde poderia beber facilmente. Esgueirei-me no mato baixo perto do rio, ofegante, espiando entre as árvores esparsas e o capim alto, atenta a qualquer perigo. A cobertura era densa e eu estava bem escondida, mas esperei e observei até ter certeza de que ninguém e nada maior do que um esquilo estivesse por perto antes de me aventurar a deixar aquele esconderijo.
A princípio estendi as mãos em concha no riacho que cascateava e derramei as gotas na boca, mas isso não me satisfez. Olhei para os dois lados e, ainda não vendo nada, mergulhei o rosto inteiro na água, abrindo a boca e bebendo em grandes goles.
Parte da minha mente me atormentava com pensamentos de insetos, vermes e vários tipos de doença, mas aquela Lily, a garota de Nova York, não estava mais no comando. Eu estava com sede. Precisava beber. O rio estava cheio d’água. Eu gostava da simplicidade daquilo. Não havia dúvida. Nem hesitação. Só a necessidade e a satisfação da necessidade. O irritante eco de mim mesma era uma garota preocupada demais; enquanto bebia, permiti que todas as inquietações e os temores mesquinhos escorressem para o rio e fossem levados para longe.
Finalmente saciada, recuei e ajeitei o corpete do vestido molhado. A água era fresca e revigorante na pele quente e eu joguei o cabelo para trás, irritada com o peso dele nos ombros.
Ouvi um barulho e me agachei, mal notando que as sandálias douradas agora estavam sujas de lama e a bainha do vestido e minhas pernas nuas estavam imundas.
Um trio de pequenos roedores tinha vindo beber no rio e minha barriga roncou. Imaginei por quanto tempo deveria andar pela savana. Será que teria de capturar minha comida, matá-la e cozinhá-la? Como faria uma fogueira? Talvez houvesse alguma vegetação comestível ou algum tipo de fruta.
Permaneci escondida perto do rio, por várias horas. Não havia como explicar, mas aquele parecia o lugar certo para ficar. Depois de uma hora tentando inutilmente pegar um peixe para comer, desisti e me resignei a passar a noite não somente sozinha em uma área selvagem, mas também com fome.
Depois de cavar uma pequena fenda nas pedras perto do rio, deitei-me no pequeno útero de terra e fiquei olhando as estrelas e ouvindo as criaturas da noite até que os sons constantes dos insetos embalaram meu sono.
— Lily! Lily? Está me ouvindo?
A urgência na voz dele arrastou meu eu do sonho para a consciência, embora a exaustão continuasse tentando me rebocar de novo para o esquecimento.
— Amon? — sussurrei, grogue. — Como é que conseguimos fazer isso de novo?
— Lily? Que bom, você consegue me ouvir. Só podemos nos comunicar assim quando os dois estamos no mundo dos sonhos.
Entreabri os olhos do meu eu do sonho, por pura determinação, e vi a forma de Amon dormindo com a cabeça descansando no braço. Um grande hematoma roxo enfeitava o lado exposto de seu rosto e a luz de uma fogueira dançava sobre sua pele. Eu ansiava por correr a mão por seu braço e beijar de leve sua têmpora, e até mesmo estiquei o braço para tentar tocá-lo, mas era inútil. Nossos eus do sonho não podiam se tocar. O esforço mental me exauriu e eu estava prestes a voltar para meu feliz mundo dos sonhos quando escutei Amon falar de novo:
— Você precisa ficar acordada e ouvir, Lily. Sei que está cansada, mas isso é importante. Você não pode fazer isso. Está me entendendo? Não vou permitir que corra perigo por minha causa. De jeito nenhum.
A intensidade de Amon dispersou a escuridão que oferecia um doce alívio.
— Mas Ísis disse... — comecei.
— Confiar nos deuses é tolice. Eles só querem proteger a si mesmos. Eu vou ficar bem e prometo que vou arranjar um modo de esperar você, e vamos nos encontrar de novo quando chegar a hora de você passar para o próximo plano de existência. Isso só vai acontecer depois de você ter uma vida longa cheia de amor e experiências mortais. Você não deve pensar em mim nem em nada disto. Esse caminho que você está seguindo é perigoso demais.
— Mas é o único modo de salvar você. A Devoradora vai pegá-lo, Amon. Ela vai consumir seu coração e destruir o mundo. Não vou deixar que isso aconteça.
Ele ficou em silêncio por um momento.
— Me conte tudo que eles disseram — pediu.
Repassei todos os detalhes que pude lembrar e no fim perguntei:
— Amon? Ainda está aí?
— Estou aqui, Nehabet.
— Então você entende? Não se trata mais apenas de nós dois. Trata-se de proteger o mundo.
— Seria melhor se nós dois não tivéssemos nos encontrado — disse ele baixinho. — Talvez então, mesmo que eu não estivesse feliz com minha tarefa, eu fosse ao menos complacente.
Engoli em seco.
— Você está mesmo arrependido de ter me conhecido? — perguntei, quase com medo de ouvir a resposta.
— Lily. — Sua voz estava embargada e havia uma saudade tão grande, um desespero tão grande associado ao meu nome que seu peso esmagou meu coração.
— Eu amo você, Amon, e também não tenho arrependimentos — declarei. — Isso inclui fazer o que preciso fazer agora. Vou encontrar um modo de chegar até você. Prometo.
— Se você está decidida a percorrer esse caminho, então não posso fazer nada para impedi-la.
— Mas preferiria que eu não fizesse isso.
— A perda do mundo inteiro tem menos importância para mim do que a perda de um único e adorável fio de cabelo seu.
— Amon. — Seu nome soou como um suspiro e desejei que ele estivesse me abraçando. — Eu tenho de fazer isso.
— Então vou vigiar e aconselhar você sempre que tiver oportunidade.
— Só fique vivo até eu chegar aí. Caso contrário, tudo isso terá sido por nada.
— Vou me esforçar.
— E você tem algum conselho para mim agora?
— Abrace seus instintos.
— Isso não é muito específico.
— Você vai entender quando chegar a hora. — Senti que Amon queria falar mais alguma coisa mas não conseguia. Por fim ele disse: — Queria estar com você. Proteger você. Sofro em saber que o perigo está à sua espreita.
— Acho que o perigo está mais atrás de você do que de mim.
— Não existe fera nem demônio mais aterrorizante do que o medo que sinto sabendo que não posso fazer nada para ajudá-la.
— Ísis me deu as próprias lágrimas. Elas devem me proteger pelo menos de alguns monstros.
— Sim. — Ele suspirou. — Mas somente dos que temem a ira dela. E, no mundo dos mortos, esses não são muitos.
— Se isso o faz se sentir melhor, eu também queria que você estivesse comigo.
Por um momento ele não disse nada, pensando, depois murmurou:
— Talvez eu possa estar.
— Verdade? — perguntei, empolgada com essa perspectiva. — Como?
— Para ser franco, não vou ser eu. Não de verdade. Mas, como estamos ligados, você pode usar meu poder para chamar Nebu.
— Nebu, o garanhão do deserto?
— Sim. Existe a possibilidade de Nebu não atender ao seu chamado, mas vale a pena tentar conseguir a proteção dele.
— Ok.
Amon e eu treinamos o encantamento para chamar Nebu até que as palavras dele mudaram de advertências e instruções para promessas e desejos sussurrados que aqueceram meu coração.
Num determinado ponto, nossas mentes se afastaram, mas a lembrança de nossos pensamentos entrelaçados me sustentou durante o sono. Fui confortada pelo pensamento de que pelo menos dessa vez eu tinha dito que o amava. Não sei quantas horas se passaram, mas, quando senti uma mudança no ambiente, acordei imediatamente e vi que a lua crescente estava alta no céu, derramando sua luz fraca sobre a paisagem à medida que o alvorecer se aproximava.
Era hora. Minha pele latejava, a ansiedade vibrando nos ossos.
Levantei-me da cama de terra sem nem mesmo me incomodar em tirar os torrões do vestido e do cabelo e esfreguei as costas da mão na boca. As criaturas da noite haviam se recolhido e as do dia ainda não tinham acordado. Eu estava sozinha.
Depois de saciar a sede outra vez e ajeitar a saia para não tropeçar, pensei brevemente na direção que deveria seguir, mas, recorrendo a meus instintos, soube que precisava me dirigir ao sol nascente. O sol trazia a vida.
Corri.
O sol não se encontrava exatamente no zênite quando parei. Ligeiramente ofegante, examinei o horizonte em todas as direções, mas parecia que a planície estava deserta.
Eu sabia que não estava.
O capim alto e dourado fazia cócegas nos meus dedos e as hastes secas estalavam sob a sola das sandálias douradas. À esquerda, esquadrinhei um pequeno bosque com árvores em forma de guarda-chuva com folhas finas. À direita ficava um afloramento de rochas em tom de sépia que parecia deslocado na planície forrada de capim, como se um gigante as tivesse largado ali por acidente.
Quando me dirigi para as pedras, um vento mais forte soprou, fazendo o capim farfalhar e ecoar a voz de mil sussurros. Estava na metade do caminho quando percebi que havia algo errado. As pedras não eram o lugar para onde eu precisava ir. Parei, fechei os olhos e respirei fundo. Uma espécie de almíscar adocicado pinicou minhas narinas e me virei para o lado oposto. Cada passo que eu dava parecia solene.
O capim que balançava com o vento foi ficando mais esparso à medida que eu me aproximava das árvores. As folhas finas se sacudiram loucamente e depois ficaram imóveis, como se o vento estivesse prendendo o fôlego. Um zumbido como o de um milhão de cigarras e o ruído da natureza me distraíam e confundiam.
Meu coração batia forte no peito, como se sinalizasse para o que quer que estivesse à minha espera que eu estava ali e era vulnerável. Então, de repente, o zumbido reverberante cessou; o único som era minha respiração. Eu estava enraizada, completamente incapaz de me deslocar para trás ou para os lados e sem ousar dar mais um passo adiante. O único movimento que conseguia fazer era mudar o peso de um pé para outro, nervosa. Todos os meus sentidos estavam vivos e voltados para a coisa escondida no meio das árvores, que eu não podia ver.
Um leve movimento à esquerda atraiu minha atenção.
Reunindo toda a minha coragem, apertei os punhos e gritei:
— Por que não aparece, então? Sei que você está aí.
Um rugido tão profundo que ecoou no meu peito me assustou. Um sibilo veio de trás, junto com o som de arbustos secos sendo esmagados. Uma cauda castanha desapareceu atrás de uma árvore. Outro rosnado veio da minha esquerda e percebi que havia mais de uma criatura.
Corri.
O medo me corroía feito ácido e no entanto cada sentido estava intensificado, alerta. Feras que não tentavam mais ser discretas me cercavam e me acompanhavam, chegando mais perto a cada passo. A proximidade delas provocou arrepios nas minhas costas, mas eu não ousava me virar para olhar. Isso iria torná-las reais.
Eu já me encontrava no meio do círculo de árvores quando parei, derrapando. Se as criaturas atrás de mim eram amedrontadoras, não eram nada comparadas ao que me aguardava atrás da árvore grande no centro do bosque. A menos de dez metros encontrava-se o maior felino que eu já tinha visto. Seus olhos sonolentos se abriram de repente em estado de alerta. Ele agitou a cauda com um tufo na ponta, irritado, ao se levantar da sombra onde estivera cochilando.
Quando sacudiu a juba densa e impressionante, vários tons mais escura do que o pelo castanho, fiquei momentaneamente distraída pela poeira que flutuou nos raios do sol da tarde.
O leão imenso avançou, ganhando velocidade muito mais rapidamente do que eu esperava para um animal do seu tamanho, e parou bem à minha frente. Quando rugiu, a potência daquele som quase estourou meus tímpanos. Meu corpo inteiro se sacudiu em pânico e os abalos causados por seu rugido de advertência fizeram minha pele ondular.
Ele virou a cabeça de um lado para outro, abrindo a bocarra e mostrando os impressionantes dentes afiados. Outro rugido trovejante me informou que não apenas mais um felino se reunira a nós, mas vários outros que, juntos, formavam uma assembleia mortal. Pelo menos duas dúzias de fêmeas tinham se materializado saindo do capim alto em torno das árvores, e mais dois machos, ainda que menores do que aquele que me encarava, também se aproximaram do grupo.
Com todo o bando presente, começaram a andar de um lado para outro, rosnando e sibilando, esperando o sinal para atacar. O círculo da morte era apavorante, capaz de fazer o diabo largar o tridente e fugir, mas tudo que eu podia fazer era ficar ali tremendo e esperar que algo acontecesse.
Nada aconteceu.
Eu estava esperando um ataque, mas os leões pareciam esperar outra coisa. O macho levantou a cabeça e rugiu antes de dar um passo de lado, sinalizando que era hora de eu partir. Dei um passo hesitante e depois outro.
Quando cheguei ao limite das árvores, a pouco menos de quinhentos metros dali, e passei pela maior delas, ouvi um trovão. Ainda que não existisse nenhuma nuvem no céu, um zumbido de eletricidade eriçou os pelos minúsculos da minha nuca.
Virei-me para espiar o grupo, protegendo os olhos contra o sol, e ouvi o macho soltar um rugido. Ele repetiu isso três vezes antes que todas as fêmeas se sentassem. Todas menos uma. Ela avançou, cutucando-o com o focinho, mas ele manteve os olhos focados à frente. Em mim. Com um último rugido capaz de rachar os ouvidos, o macho deu um passo para trás e a fêmea respondeu.
Antes que eu pudesse piscar, ela veio para mim a toda velocidade.
Um arquejo de horror escapou dos meus lábios, o coração acelerando. Dando meia-volta, corri sobre a crista de um morro ali perto e atravessei o terreno o mais rápido que minhas pernas conseguiam me carregar. Saltei por cima de uma árvore caída e, alguns segundos depois, ouvi as garras dela roçando a casca. Enfiando-me no mato, me desviei para um lado e para outro, desesperada para escapar da leoa que me perseguia, mas eu era uma presa desajeitada.
Se tivesse uma arma, talvez pudesse lutar. Ela estava quase em cima de mim. Quando tropecei numa pedra, suas garras riscaram toda a extensão do meu vestido e o pano rasgado voou atrás de mim, prendendo-se em galhos e arbustos. Quando atravessei correndo um riacho raso, ela saltou rapidamente para a outra margem, virando-se para me encarar. Agachou-se, os olhos dourados me avaliando, os membros poderosos se flexionando.
Se eu ia ser o jantar de um bando de leões famintos, pelo menos podia lhes dar trabalho antes disso.
Depois de chutar água na cara dela, girei e corri de volta na direção de onde tinha vindo. Minha respiração saía em lufadas pesadas e o estômago se contraía; eu sabia que a qualquer segundo sentiria as garras dela se cravando em minhas costas e seus dentes beijando minha garganta. Eu me desesperei, sabendo que morreria ali. Jamais encontraria Amon e jamais salvaria as pessoas que eu amava.
E me perguntei por quanto tempo o Dr. Hassan iria me esperar. Será que encontraria meus ossos roídos e me daria um enterro decente? Será que pelo menos saberia o que tinha acontecido comigo? Se ao menos eu pudesse ver Amon de novo antes de morrer! Sentir seu abraço mais uma vez. Pensar em Amon fez com que me lembrasse do que ele tinha dito na noite anterior. Ele me alertara para abraçar meus instintos. E o que dizia meu instinto?
Eu estava apavorada. Seria possível que essa leoa é que iria julgar meu valor? Eu estivera esperando uma esfinge de verdade ou algum tipo de monstro. Não um leão comum, normal. Talvez estivesse enganada com relação a tudo. Ísis tinha dito que, se eu fosse considerada indigna, meu coração seria consumido. O que eu deveria fazer?
Logo ficou óbvio que a leoa estava brincando comigo em vez de me liquidar. Com o sol descendo a oeste, eu sabia que não teria energia para continuar por muito tempo. As palavras do Dr. Hassan me voltaram então, sobre como se podia encontrar a morte no pôr do sol e a vida no leste. Eu estava indo para a morte.
Parando finalmente, virei-me para minha perseguidora. A leoa se deteve e rosnou baixinho, como se estivesse desapontada porque o camundongo com o qual estivera brincando perdera o interesse no jogo.
— Olhe, não sei se você é a resposta para este enigma — declarei. — Não sei se você só quer me exaurir ou se pretende mesmo me devorar, mas, seja como for, eu escolho viver. Não quero que meu coração seja comido.
Respirei fundo e continuei:
— Preciso salvar o mundo e preciso encontrar a criatura que vive em algum lugar por aqui e que vai compartilhar seu coração comigo para que eu vire uma esfinge e faça o serviço. Se for você, tudo bem, vamos logo com isso. Se não for, então eu gostaria muito de ser deixada em paz para poder encontrar a caçadora.
A leoa sentou-se nas patas traseiras, a cauda balançando de um lado para outro. Então, de súbito, ela saltou.

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