21 de outubro de 2016

6. A revelação da verdade

A luz penetrou a escuridão, e onde eu antes não sentia nada pude perceber a pressão do braço de Amon à minha volta e de sua mão apertando a minha. A areia começou a rodopiar mais devagar e a se unir, e nesse processo seus grãos tornaram a constituir meus braços, pernas e tronco. Correndo o risco de me sentir horrorizada diante da visão da própria carne, abri os olhos e fiquei imensamente aliviada ao ver que minha pele ainda estava presa ao corpo. Além de não haver nenhuma ferida aberta ou arranhão, a pele reluzia de saúde. Entendi então que a tempestade de areia devia ter esfoliado meu corpo inteiro, ideia que provocou em mim uma leve sensação de tontura.
Estávamos em um parque – no Central Park, na verdade – em uma trilha que eu já tinha percorrido muitas vezes ao longo dos anos. Não havia ninguém por perto para ver quando nos materializamos, e eu não sabia muito bem se isso era bom ou ruim, mas uma coisa era certa: Amon com certeza não era a pessoa que eu acreditava que fosse.
Ao longe, pude distinguir o contorno do Hotel Helios. O peito de Amon arfava sob minha mão espalmada. Ele tinha a cabeça inclinada em direção ao sol e os olhos ainda fechados.
— Amon?
Ele abriu os olhos, me encarou, então observou nosso entorno com uma expressão confusa que logo se transformou em outra coisa.
Mehsehhah ef yibehu hawb! — gritou, e ergueu as duas mãos em um gesto de intensa frustração.
Girou lentamente no próprio eixo enquanto murmurava consigo mesmo em outro idioma. Ao reconhecer o hotel, algumas outras palavras que desconfiei serem palavrões escaparam de seus lábios.
Uma emoção impossível de conter crescia dentro de mim. Minha vida tão estruturada estava fugindo ao controle.
Eu era inteligente. Era culta e sensata. Me dava bem com os adultos. Era o retrato de uma menina tranquila, calma e controlada. E nunca, nunca perdia o controle. Eu, Lilliana Jailene Young, estava correndo o risco de perder a cabeça por causa de um cara, um cara maluco, fascinante, inexplicável, impossível de entender.
Depois de algum tempo, ele tornou a se virar para mim e disse:
— Meus poderes estão enfraquecidos, e meus irmãos estão longe demais. Nós vamos precisar de ajuda.
— Ajuda? — disparei, e então comecei a gritar, incrédula: — Ajuda? Sério mesmo? Você acha isso? Porque eu, pessoalmente, estou achando que nada nem ninguém pode me ajudar!
Era a primeira vez na vida que eu gritava com toda a força dos meus pulmões. Desde que havia conhecido Amon, gritar parecia ter se tornado um novo hábito para mim, mas o lado positivo era que fazer isso na verdade me proporcionava uma sensação boa.
Ele me encarou como se a louca de hospício fosse eu.
— Jovem Lily, acalme-se.
— Que me acalmar o quê! — exclamei.
— Lily, a gente precisa...
— A gente não precisa nada! Eu não sei quem você é nem que tipo de droga maluca andou me dando, mas chega. Essa história entre a gente acabou. Entendeu bem? Eu não vou mais te ajudar.
Virei-me em direção à minha casa e saí pisando firme, ato que me provocou intensa satisfação. Cada passo, cada pequena unidade de distância que eu abria entre nós dois contribuía para eu me controlar e me sentir normal outra vez.
Mudei a bolsa de posição para que não balançasse tanto e torci para Amon não estar me seguindo.
Os poucos transeuntes com quem cruzei se afastaram para eu passar, enfurecida, murmurando coisas sobre caras perdidos, condenados à morte, bonitos demais para o seu próprio bem. Não conseguia descrever o que acabara de acontecer sem usar referências a Star Trek.
Já tinha tentado racionalizar tudo o que havia ocorrido, guardar cada fato estranho bem guardadinho dentro de uma pequena caixa, mas o que Amon acabara de fazer havia disparado uma bomba no meu escritório mental tão bem-arrumado.
Aquele acontecimento não iria caber ali. Na verdade, não cabia em caixa nenhuma. O melhor a fazer era me afastar um pouco e tentar entender o que estava acontecendo comigo, porque eu claramente não estava raciocinando direito.
Perguntei-me se Amon viria atrás de mim. Se viesse, eu iria gritar e pronto. O parque normalmente vivia cheio de gente, e alguém com certeza me escutaria.
— Lily!
Falando no capeta do sol... Amon estava mesmo vindo atrás de mim.
— Jovem Lily, venha aqui agora! — chamou ele, como se eu fosse um cachorrinho desobediente.
— Me deixe em paz, senão eu vou gritar! — berrei de volta, aumentando o ritmo da caminhada até quase começar a correr.
Dava para ouvi-lo me seguindo, e inspirei fundo para gritar por socorro quando, em tom imperioso, ele bradou:
— Lily, pare agora!
Minhas pernas congelaram com um choque tão súbito que a bolsa passou para a frente do meu corpo e me desequilibrou. Desabei na grama, sem saber muito bem o que tinha acabado de acontecer. Nos poucos segundos que levei para catar os objetos caídos da bolsa, Amon chegou ao meu lado e me estendeu a mão. Quando recusei, teimosa, ele tornou a usar aquela voz controladora:
Lily, segure a minha mão.
Dessa vez, fiz um esforço consciente para não obedecer à ordem, e fui recompensada com dor; parecia que eu estava sendo apunhalada, que alguém estava girando uma faca nas minhas entranhas. A dor me fez dar um arquejo, e tive certeza absoluta de que era Amon quem havia causado aquilo, de uma forma ou de outra. Desobedecê-lo me causava dor. Quando minha determinação enfraqueceu e a dor me dominou, gemi baixinho e desisti. Minha mão traidora se ergueu, e ele me puxou. Ressentimento é uma palavra fraca demais para descrever o que senti por ele naquele momento.
— Agora você vai sentar e conversar comigo — ordenou ele.
Cerrei os dentes, dei alguns passos desafiadores e cambaleei, dobrando o corpo, tomada por uma agonia excruciante. A raiva que eu sentia aumentava a cada segundo. Meu corpo inteiro se sacudia por causa dela, e nesse instante não havia uma só pessoa ou coisa no mundo que eu odiasse mais do que ele. Eu estava fervendo de ódio, e jamais tinha sentido isso por ninguém. Nunca em toda minha vida.
— Me solte! — sibilei enquanto ele me conduzia a um banco ali perto.
— Não. Você não vai fugir e não vai gritar.
Lágrimas de raiva encheram meus olhos, e eu as deixei escorrer silenciosamente pelo rosto, desesperada por não lhe dar a satisfação de ver o efeito que suas ações tinham sobre mim, mas incapaz de fazer qualquer coisa para evitar que isso acontecesse.
— O que você vai fazer comigo? Isso é um sequestro? Um ataque?
Ele olhou para o meu rosto e viu as lágrimas. Com um gesto hesitante, enxugou uma delas em minha bochecha com o polegar, sua expressão demonstrando arrependimento.
— Sente-se — disse ele, mas então seu tom de voz mudou: — Por favor.
Amon pegou a bolsa do meu ombro, pousou-a no banco ao meu lado, depois passou alguns instantes andando de um lado para outro na minha frente.
— Sinto muito usar meu poder para controlar suas ações. Sei quanto você detesta isso, mas...
— Você não sabe nada sobre mim — cuspi.
Ele deu um suspiro.
— Sei mais sobre você a cada minuto que passa, jovem Lily. Mesmo sem a nossa conexão, posso ver como você despreza a ideia de submeter sua vontade a outra pessoa, mas precisa entender que eu não posso deixá-la ir embora. Não precisa ter medo de mim. Não tenho o menor desejo de machucá-la.
— Não entendo o que você está fazendo para me controlar, mas vou resistir. Na verdade... vou odiar você para sempre por isso.
Na realidade eu nunca tinha dito essas palavras para ninguém antes, e não tinha total certeza de que poderia cumprir a ameaça. Jamais tivera motivo algum para sentir ódio.
É claro que havia pessoas de quem eu não gostava, mas simplesmente as categorizava em caixinhas com as etiquetas Carentes, Baixa Autoestima, Agressivas. Aquilo nunca me afetava de um ponto de vista emocional. Eu sempre conseguia me distanciar e manter as emoções sob controle, mas com Amon era diferente. A ideia de que o rapaz que eu havia acolhido pudesse me manipular me magoava mais do que eu pensava ser possível.
Amon adotou uma expressão dura.
— Então me odeie. Resista. Me xingue. Rebele-se a cada passo, mas não vai adiantar. Você só vai causar mais dor a si mesma. Já falei, Lily, você está ligada a mim e vai permanecer ao meu lado enquanto eu assim quiser.
A indignação e a raiva que senti se dissolveram em uma terceira coisa. Meu corpo tremeu e eu me senti como um cachorro que tivesse levado um chute do dono.
— Que forma bonita de agir quando tudo que eu fiz foi ajudar você — falei.
Ele deu de ombros como se não ligasse para o que eu sentia, mas pude ver que ligava, sim, o que me deixou ainda mais confusa.
— É necessário — reconheceu ele por fim.
— Mas por quê? Por que eu não posso ir embora? O que você quer de mim?
Funguei bem alto e, com um grunhido frustrado, vasculhei a bolsa até achar um pacote de lenços de papel.
— Já falei. Preciso encontrar meus irmãos.
— Você não deve mesmo ter coração, para tirar vantagem desse jeito da bondade de uma desconhecida. — Lágrimas se prenderam aos meus cílios, deixando a imagem de Amon borrada. Por que eu estava chorando? Eu nunca chorava. Chorar era feio. Era um sinal de ingratidão. Minhas emoções estavam excessivamente à flor da pele. Tentando contê-las, assoei o nariz e enxuguei os olhos. — Você tem câncer, afinal?
Amon se ajoelhou na minha frente, pegou outro lenço para limpar minhas bochechas molhadas e suspirou.
— Descobri ao longo dos séculos que o meu coração me serve de muito pouca coisa.
Ele deslizou a ponta do dedo pela curva da minha bochecha, e um calor começou a penetrar minha pele. Por um breve instante, entreguei-me ao seu toque delicado, mas então me imobilizei, e percebi que ele também tinha se paralisado.
Sua mão caiu junto à lateral do corpo, e senti que ele havia ficado tão surpreso com o próprio gesto quanto eu. Ele era encrenca. Era meu inimigo. Ou será que não? Uma coisa era certa, porém: ele tinha me feito... sentir. E eu não estava à vontade com isso.
Amon já era atraente o bastante por si só, mas percebi que havia mais além da minha simples atração física por ele. Eu nunca tinha sido afetada por um garoto daquele jeito antes, e a sensação era perturbadora. Não de um jeito sinistro, como em um filme de terror, mas o tipo de perturbação que me deixava com a sensação de estar à deriva. Ele havia me tirado de uma vida muito confortável, e estava segurando meu frágil corpo na palma da mão.
Apesar disso, ao estudar aquele rosto bonito, admiti que parte de mim, uma parte que eu não queria ter que reivindicar nem reconhecer, ansiava pelo calor proporcionado pelo seu toque. Que, mesmo que eu não estivesse à vontade com as emoções que ele despertava, jamais me sentira tão viva. Mais como uma garota de verdade e menos como a boneca de porcelana que meus pais haviam moldado.
Amon parecia ter ao mesmo tempo a capacidade de provocar confusão e de desfazê-la. Estar com ele era empolgante e assustador; ao mesmo tempo que me dava uma sensação de poder, me deixava inteiramente fraca. O resultado era que eu me sentia desequilibrada e nervosa, com uma pontada de culpa.
— Não gosto desse poder que você tem sobre mim — eu disse baixinho. — Fico sentindo que não sou mais eu mesma. Como se não tivesse controle sobre o meu próprio corpo.
— Sinto muito por isso. Como já disse, não gostaria de exercer esse poder, mas não posso seguir meu caminho sem você. Eu preciso de você. Nem imagina quanto. — Ele segurou minhas mãos e alisou os nós dos dedos com os polegares. — Lily, por favor, saiba que eu não desejo deixar você triste nem lhe fazer mal nenhum. Pode acreditar pelo menos nisso?
Passei vários instantes encarando seus olhos cor de avelã. Amon era muitas coisas, e havia diversas partes dele que eu simplesmente não entendia, mas de algum modo eu sabia que ele não era um mentiroso. Podia sentir isso.
— Consigo — respondi, a contragosto. — Eu acredito em você.
— Ótimo. — Ele aquiesceu. — Agora, o que é câncer?
— Uma doença das células. Como é que você pode não saber o que é câncer?
Ele deu um suspiro.
— Quantas perguntas você tem...
Fechei a boca, recostei-me no banco, virei a cabeça e dei de ombros.
— Por que você faz isso?
— Isso o quê?
— Você se fecha.
— Como assim? Não estou entendendo.
Ele estudou meu rosto, e por fim falou:
— Não quis ofender. Suas perguntas são bem-vindas. Talvez eu possa respondê-las e pedir em troca algumas respostas...
Hesitei, mas concordei.
— Em primeiro lugar, existem muitas coisas no seu mundo que eu não entendo, mas sei que o meu corpo não está doente.
Comecei a rir e logo em seguida a chorar, soluçando tanto que cheguei a engasgar. Tinha perdido completamente o controle. Uma tontura impossível de resistir tomou conta de mim; era como se fizesse uma semana que eu não dormia.
Quando peguei um segundo lenço, depois um terceiro, ele falou:
— Lily, segure a minha mão.
Olhei desconfiada para sua mão e funguei bem alto.
— Lily, por favor. Eu posso lhe trazer paz.
Sentindo que dessa vez não se tratava de uma ordem, e entendendo que obedecer não iria doer, deixei a mão dele envolver a minha.
— Use a minha energia — disse ele. — Tente encontrar equilíbrio.
Inspirei fundo para tentar me concentrar e senti algo se mover entre nós. Era como se a sensação de alguém me puxando houvesse se invertido e a luz quente do sol começasse aos poucos a me invadir. Aquilo me acalmou e me relaxou de tal maneira que a confusão e a raiva perderam importância. Eu ainda lembrava que estava com raiva, mas parecia algo distante, enterrado, como se eu tivesse que ir bem lá no fundo de mim mesma e me esforçar para trazer à tona esse sentimento.
— Quem é você? — sussurrei. Os cílios dele estremeceram, e seus olhos verdes rodeados por um círculo castanho-dourado se abriram e olharam bem dentro da minha alma. — O jeito como você me olha... É como se... me conhecesse.
— Sim.
— Quero dizer... como se me conhecesse por inteiro.
— Não... por inteiro, não.
— Mas você consegue me ler... não sei como.
Amon assentiu.
— É essa a nossa conexão, Lily.
— Você não é o que eu penso que é... certo?
— Sou mais. E talvez menos.
Suspirei. Não dava mesmo para entender.
— Está bem. Então que tal a gente começar tudo de novo do jeito mais tradicional? — Estendi a mão, e ele a pegou. — Meu nome é Lilliana, e o seu é Amon. Então, Amon, de onde você é?
Ele me lançou um olhar de estranheza, então assentiu.
— Do Egito.
— Você nasceu lá?
— Isso. Muitos anos atrás.
— E como chegou aqui?
Amon sentou-se na grama, aos meus pés.
— Não sei bem. Mas o meu sarcófago estava no Templo das Musas, então imagino que alguém tenha me trazido. Mas por que motivo, eu não sei.
— Seu sarcófago?
— É.
— Não estou entendendo. Você é dono do sarcófago? É algum tipo de curador? De onde vem o seu poder?
Amon riu.
— Vou tentar responder às suas perguntas da melhor maneira possível e torcer para que assim você comece a confiar em mim. — Ele ergueu as mãos, então começou a contar as respostas nos dedos. — Não entendo o que significa “curador”. Meu poder é uma dádiva do deus-sol Amon-Rá e de seu filho Hórus. E aquele sarcófago é um dos muitos nos quais já repousei ao longo dos séculos.
Fiquei olhando para ele por vários segundos, com o queixo caído, e então, sem acreditar totalmente que estava pronunciando aquelas palavras, murmurei:
— Está tentando me dizer que você é... uma múmia?
— Múmia. — Os lábios dele articularam a palavra como se ele a estivesse saboreando. Quando respondeu, falou devagar: — A cada milênio, quando passo pelo seu mundo, meu corpo está envolto nas ataduras de Anúbis. É disso que você está falando?
Recostei-me com força no banco.
— A mumificação ocorre quando um cadáver é envolto da cabeça aos pés em ataduras e posto dentro de um sarcófago, que depois em geral é escondido dentro de uma pirâmide ou templo — expliquei.
— Nesse caso, sim. Eu sou uma múmia.
Quando consegui falar de novo, disse:
— Você não parece morto.
— E não estou, mesmo — afirmou ele. — No presente momento — acrescentou.
De repente, lembrei-me de entrar na área da exposição sobre o Egito e encontrar o sarcófago vazio.
— Você jura que está dizendo a verdade?
— Juro pelo coração da minha amada mãe que as palavras que digo são verdadeiras.
Antes, quando Amon havia me perguntado se eu acreditava nele, eu lhe respondera com sinceridade que sim. Não havia absolutamente nada de insincero naquele rapaz. Dava para ver que ele acreditava no que dizia, mas isso não significava que o que dizia fosse cem por cento verdade.
Para tirar aquilo a limpo, encarnei os interrogadores durões da polícia que já tinha visto na TV. Inclinei-me para a frente, estreitei os olhos e comecei a crivar Amon de perguntas:
— Qual era o nome dos seus pais?
— Rei Heru e rainha Omorose.
— Qual era o seu brinquedo preferido quando criança?
— Um cavalinho de madeira.
— Qual é sua comida favorita?
— Mel e tâmaras do meu país, e aquele discos doces recheados com frutas do seu.
— Arrã. — Então ele gostava de folheados doces. — E sua música preferida?
— Sistro, harpa e alaúde.
— Se você é mesmo uma múmia egípcia, cadê suas ataduras?
— Meu corpo agora não precisa delas. Eu ressuscitei, como faço uma vez a cada mil anos.
Pisquei os olhos depois de absorver essa afirmação e prossegui:
— Mas eu não vi atadura nenhuma jogada no museu. O que houve com elas?
— Quando chega a hora de eu ressuscitar, acordo e uso meu poder para fazer as ataduras se desintegrarem. Do contrário seria difícil me locomover.
Dei um grunhido.
— É. Acho que seria complicado — balbuciei. Inclinei a cabeça e continuei. — Como consegue entender inglês?
— Um encantamento. — Quando minha única reação foi piscar, ele explicou: — No início eu não entendia a sua língua. Lembra quando você fez aqueles gestos para mim lá no Templo das Musas?
Fiz que sim com a cabeça.
— Eu invoquei um encantamento do Livro dos Mortos para conseguir comunicar meus pensamentos a você. É por isso que conseguimos nos entender.
— Quer dizer que você consegue entender qualquer pessoa, de qualquer país?
— Se for preciso, sim.
— Por que escolheu a mim?
Ele demorou alguns segundos para responder, apenas me olhando. Então arrancou uma folha de grama e a girou entre os dedos.
— Você estava lá — retrucou, simplesmente.
Recostei-me no banco, cruzei as mãos no colo e estudei seu rosto. A cada resposta que ele me dava, minha incredulidade aumentava um pouco mais. Aquilo não era possível.
— Pode me mostrar alguma coisa? — Fiz um gesto com uma das mãos. — Sei lá... alguma coisa de magia?
— Transportar você até o parque e controlar seus atos não é prova suficiente do meu poder?
— Bom, eu venho partindo do princípio de que você estava me hipnotizando de alguma forma, então preciso ver mais alguma coisa para ficar convencida.
— O que a convenceria?
— Ah, sei lá. As dez pragas do Egito, despertar um exército de mortos-vivos, ressuscitar seu amor perdido... coisas assim.
Amon franziu o cenho.
— Por que eu iria fazer qualquer uma dessas coisas?
Dei de ombros e respondi:
— É o que as múmias fazem nos filmes.
— O que é um filme?
— É como uma peça de teatro. Uma história encenada.
— Entendi. Não quero fazer praga nenhuma se abater sobre sua cidade. Para despertar um exército de mortos-vivos, precisaria canalizar muito poder, poder este de que não disponho no momento. E nunca encontrei uma mulher para amar.
— Sério? Quer dizer que não existe nenhuma namorada múmia por aí?
Ele inclinou a cabeça.
— Meus irmãos estão me esperando, mas não há mais ninguém. Nenhuma amiga do sexo feminino.
— Hum. Interessante. — Guardei essa informação em um canto da mente. — Ok, então faça alguma outra coisa, algo diferente.
Após pensar alguns instantes, ele disse:
— Preciso conservar meu poder, então vou fazer algo pequeno.
— Tudo bem.
Inclinei-me para a frente e fiquei observando Amon com olhos de águia enquanto ele erguia as duas mãos e as unia uma à outra. Nada estava acontecendo. Ele fechou os olhos, concentrou-se, em seguida separou as mãos devagar. Uma luz preencheu o espaço entre as duas palmas, e senti as ferroadas de pequenas partículas roçarem meu rosto quando minúsculos grãos de areia começaram a voar na direção dos seus dedos.
Fascinada, observei a areia rodopiar e vi o contorno de uma esfinge começar a tomar forma. Quando um homem surgiu correndo no topo da ladeira, pulei do banco e cobri as mãos de Amon com as minhas. A luz desapareceu e a areia caiu à nossa volta em uma chuva áspera.
— Eu acredito em você — sussurrei.
De repente, fiquei muito consciente de quanto nossos rostos estavam próximos e de como a atração entre nós era tangível, quente. Minha respiração travou e eu enrubesci enquanto meus olhos desciam dos dele até seus lábios. Ele não recuou nem fez qualquer movimento, mas senti uma mudança, como se o ar entre nós houvesse ficado subitamente muito quente.
Bastaria um leve movimento para nos beijarmos. Com uma pontada de alarme, percebi que queria sentir os lábios dele nos meus, e me perguntei se isso era realmente algo que eu desejava ou se era ele quem estava me fazendo querer.
Não conseguia entender como pudera passar do ódio absoluto – bem, pelo menos o mais perto desse sentimento que eu consegui chegar – à confiança em um sujeito que era uma múmia antiga, com poderes mágicos e tal, e depois a querer que essa múmia antiga me beijasse, tudo em questão de minutos. Cara, eu estava mesmo... fora de mim.
Recuei alguns centímetros e uma brisa fresca fez minhas faces arderem.
Pigarreei para limpar a garganta, apertei a mão dele e disse:
— Amon, sejam quais forem os poderes que você tem, não pode mostrá-los para ninguém além de mim e seus irmãos. Prometa para mim.
— Por que está me pedindo isso? — indagou ele baixinho, acariciando de leve os meus dedos com os polegares. O gesto disparou pulsações cálidas pelas minhas veias e estimulou minhas terminações nervosas de forma muito agradável. Nervosa, retirei as mãos e me afastei um pouco. Amon não pareceu decepcionado com a minha atitude, apenas curioso.
Olhei em volta e aguardei o corredor desaparecer entre as árvores antes de dizer:
— É perigoso, ok? Como quando você se curou e depois se levantou na frente da multidão, deixando as pessoas verem o seu poder. Precisa tomar mais cuidado. Tente se misturar aos outros. Senão as pessoas vão achar que você é maluco, como eu achei, ou pensar que usou drogas, e vão prendê-lo. Tentariam machucar você, ou no mínimo despachá-lo para a Área 51. — Sua expressão confusa me levou a arrematar: — Depois explico o que significa Área 51. Ainda tenho um bilhão de perguntas para fazer, mas acredito que você seja mesmo quem diz que é, por mais impossível que pareça.
Amon assentiu com a cabeça.
— Ótimo.
— Agora me diga por que precisa que eu vá com você.
— Como já falei, sem os seus órgãos internos para me abastecer de energia, vou morrer antes de cumprir meu objetivo.
— E qual é o seu objetivo?
— Despertar meus irmãos e completar a cerimônia de alinhamento do sol, da lua e das estrelas para que o Obscuro, Seth, deus do caos, possa ser mantido afastado por mais mil anos.
— Arrã. Espere um instante. — Peguei o caderno na bolsa e comecei a escrever. — Mil anos... sol... lua... estrelas... o Obscuro. Hum... depois você vai ter que me falar mais sobre esse tal de Seth. Os seus irmãos também são múmias?
— Sim.
— Você entende que estamos muito longe de Tebas, não é?
— A que distância exatamente?
— Me deixe ver. — Peguei meu smartphone e rolei a tela por várias páginas da internet. — O Egito fica a... uns nove mil quilômetros de distância — anunciei.
— O que é quilômetro? — indagou ele, olhando com interesse para o meu telefone.
— Ai, caramba. Que unidades de medida vocês usavam no Egito? — Amon segurou minha mão, e minha pulsação disparou. — O que está fazendo? — perguntei, aflita.
Ele sorriu.
— Mostrando a você nossas unidades de medida. — Ele correu o dedo pelas linhas da minha palma, em seguida pela extensão do meu dedo mindinho. — Isto aqui se chama djeba, a largura de um dedo. Em seguida vem shesep, a largura da palma. Meh niswt é um cúbito real, ou seja, sete palmas.
Ele posicionou a palma da sua mão ao lado da minha e demonstrou as larguras somadas uma à outra.
Com o rosto vermelho, teclei os números no meu telefone.
— Então, está escrito aqui que um quilômetro equivale a 1.910 cúbitos. Ou seja, para chegar a Tebas seria preciso percorrer... 17.190.000 cúbitos.
Ele deu um arquejo.
— Mas isso são quase mil iteru!
— Sim, e nem é por terra. É preciso atravessar um oceano. Você já viu o oceano?
Ele fez que sim.
— Já vi o grande mar alimentado pelo Nilo.
— Pode acreditar, Amon, esse grande mar na verdade é bem pequeno se comparado a outros.
Ele desviou o olhar e disse baixinho:
— Não tive muita oportunidade de explorar o mundo.
Uma expressão de melancolia atravessou seu rosto, e eu me peguei com saudade de seu sorriso caloroso.
— Amon? — Toquei sua mão e cheguei mais perto para que ele visse meu telefone. — Olhe aqui. — Mostrei-lhe uma imagem da Terra. — A gente está neste continente aqui, chamado América do Norte. O Egito... — Usei os dedos para girar o globo e depois dar um zoom na África. — ... fica bem longe, aqui no continente africano. Como pode ver, Dorothy, a gente está bem longe do Kansas.
— Que caixa mágica é essa?
— Hã, isto se chama telefone. Ele tem aplicativos que funcionam quase como um computador.
— Não estou entendendo.
— Ele serve para procurar respostas a perguntas.
— Como um oráculo?
— Acho que sim, de certa forma.
— Como você recebeu essa dádiva dos deuses? Derrotou algum monstro em batalha?
— Não exatamente. Quase todo mundo tem um.
— Posso ver? — Passei-lhe o celular e ele deslizou os dedos pelo mapa-múndi, observando, fascinado, a perspectiva se modificar. — A gente está mesmo do outro lado do mundo? — perguntou.
— Está. E não se esqueça: estamos partindo do princípio de que os seus irmãos ainda estão no Egito. Na verdade, eles podem estar em qualquer lugar... China, França, Reino Unido... muitos museus têm alas dedicadas ao Egito.
Amon passou a mão pela cabeça calva enquanto comentava, pensativo:
— É por isso que o meu poder não conseguiu nos levar até eles. — Ele me encarou. — Não posso usar meu poder para atravessar águas extensas. A areia do deserto fica pesada demais quando se mistura à água. Nós nos perderíamos no oceano sem fundo.
Engoli em seco.
— Bem, tecnicamente o oceano tem fundo, mas entendi.
Ele começou a brincar com o telefone, apertando vários botões e explorando os diferentes aplicativos. Fiquei chocada com a rapidez com que ele absorvia a tecnologia moderna.
— Tem razão, são oceanos de mais — declarou. — Mas, se a gente conseguisse chegar ao Egito, eu poderia pedir ajuda a Anúbis.
— Não dá para pedir ajuda a ele daqui?
— Não. O ritual de invocação precisa ser realizado em um local específico.
— Certo. — Pensar que aquele homem intrigante e fascinante de outra época iria embora era um alívio, mas ao mesmo tempo eu lamentaria vê-lo partir. Quantas vezes uma garota tem a oportunidade de sair com um príncipe do Egito?
Amon olhava para mim com ar de expectativa. Mordi o lábio e de repente percebi o que ele queria. Este encontro ainda não terminou.
— Hã... olhe, Amon, eu não trouxe bagagem para férias longas, e não posso simplesmente sair passeando pelo mundo. Meus pais não achariam a menor graça, e na próxima semana as aulas recomeçam. As férias de primavera acabam na segunda, sabe?
Fiz uma pausa antes de continuar:
— Por que você não faz o seguinte: hipnotiza alguém que esteja a caminho do Egito no aeroporto e pega emprestados os “órgãos internos” dessa pessoa até chegar lá? Aí, tcharã, é só pegar uma tempestade de areia para chegar aos seus irmãos, despertá-los dos mortos, concluir sua cerimônia e limpar o pó das mãos, por assim dizer.
— O que é aeroporto? — perguntou ele.
— Um lugar com várias carruagens brancas capazes de voar no céu, até mesmo sobre águas extensas.
Amon se levantou na hora.
— Isso. Vamos pegar uma carruagem voadora até o Egito.
— Opa, peraí! — exclamei, enquanto ele me puxava para levantar do banco. — O que houve com a ideia de se conectar a outra pessoa que já esteja indo para lá?
Ele pegou minha bolsa, passou a correia em volta do peito e me segurou pelas duas mãos.
— Eu só posso me ligar a uma pessoa, Lily. — Sem dúvida ele notou minha expressão alarmada, pois se apressou em acrescentar: — Não se preocupe. Depois que a cerimônia terminar, nossa necessidade de estar ligados vai desaparecer e você poderá voltar para sua família e a escola. A essa altura eu já terei recuperado todo o meu poder e vou poder manipular o tempo e mandar você de volta para casa de modo que chegue um segundo depois de termos saído. Ninguém vai dar pela sua falta. Seus pais não vão nem perceber que você saiu.
Enquanto ele começava a me puxar pelo caminho, fui ficando mais ansiosa.
— Mas e se o seu local especial para realizar o ritual de Anúbis não existir mais? Quero dizer, você sabe que houve muitas escavações arqueológicas nos últimos mil anos. Isso significa que, hã, tumbas foram escavadas — acrescentei, para o caso de ele não estar entendendo. — É uma chance bem remota. — Tentei afastar a mão das suas enquanto prosseguia: — Quero dizer, os restos mortais dos seus irmãos podem estar em qualquer lugar. Falando nisso, por que você precisa despertá-los? Por que eles não podem despertar sozinhos, igual a você? E outra coisa...
— Lily. — Amon parou de andar, virou-se e pôs a mão em meus ombros. O calor se irradiou diretamente para dentro dos meus ossos, e meus músculos relaxaram de forma tão completa que todas as perguntas que eu tinha na cabeça se dissiparam. Perguntei-me se ele estava fazendo aquilo de propósito outra vez ou se era apenas uma consequência natural de estar ao seu lado. — Prometo responder a todas as suas perguntas — disse ele. — Mas preciso concluir a cerimônia antes de a lua cheia subir até ficar exatamente acima dos antigos templos de Gizé. Esses monumentos ainda estão de pé, não estão?
— As pirâmides? Estão, mas...
— Então precisamos chegar lá quanto antes.
— Mas essa restrição da lua cheia significa que a gente só tem um mês, no máximo.
— Infelizmente, acho que nosso tempo é bem mais limitado — disse Amon após lançar rapidamente um olhar para o céu. — Pelos meus cálculos, mais ou menos uma semana.
Ele tornou a segurar minha mão e me guiou com habilidade até fora do parque.
O barulho das buzinas ficou mais alto, e logo fomos cercados por pessoas. Se eu queria escapar, tinha que ser agora. Só que eu não estava certa de querer escapar. Sim, minhas emoções eram contraditórias. Sim, Amon estava me usando como se eu fosse uma barrinha energética. Sim, ele era uma múmia egípcia ressuscitada. Mas eu não podia negar que jamais me sentira tão... viva em todos os meus 17 anos como nas últimas 24 horas.
Amon parou em frente às carroças puxadas por cavalos, abriu um largo sorriso e arqueou as sobrancelhas.
— Sinto muito, Espártaco, elas só circulam dentro do parque — expliquei.
Ele deu um suspiro.
— Melhor assim, eu acho. Esses cavalos estão gordos e parecem preguiçosos. Decerto não têm energia para a velocidade que eu quero.
— Ei! — protestou um cocheiro que ouviu a conversa.
Amon o ignorou e, ao ver um táxi passar, postou-se intrepidamente na frente do carro e ergueu a mão em um gesto de comando, apesar de a luz acesa do veículo indicar que o taxista não estava pegando passageiros.
— Pare, carruagem dourada! — gritou.
Ele deu a volta até o lado do taxista e conversou com o sujeito por alguns instantes, ignorando as buzinas e os gestos grosseiros dos outros motoristas. Então acenou para que eu me aproximasse.
O taxista saltou e abriu a porta para mim.
— Por favor, senhorita, fique à vontade. Vou levar vocês até o aeroporto em tempo recorde — disse ele, pegando minha bolsa com Amon.
Diante da porta aberta, hesitei. Olhei para cima, vi que Amon me fitava com a mão estendida e me perguntei se ele estava usando seu poder para ler meus pensamentos.
— Vem comigo, Lily?
Não “Você vem comigo”, nem “Venha comigo”, mas “Vem comigo?”.
Ele estava me deixando decidir. Eu não tinha certeza de que aquilo era exatamente uma escolha, mas foi um gesto gentil. Era chegada a hora. Ainda que eu não dispusesse de todos os fatos, conhecia detalhes suficientes para tomar uma decisão consciente. Amon ainda tinha o poder de me controlar, e estava desesperado o suficiente para me forçar a fazer o que ele queria, mas ao mesmo tempo me oferecia um precioso gostinho de livre-arbítrio.
Eu sabia que era covarde, uma covarde privilegiada, fraca e iludida, que preferia ficar sentada na sua linda mansão, no seu quartinho todo perfeito, apaziguando as amigas falsas do colégio particular, o tempo todo se enganando e tentando acreditar que tinha o espírito tão livre quanto as pessoas que desenhava no caderno.
Só que não tinha. E nesse instante, enquanto fitava Amon nos olhos, entrei em pânico. Não só porque o que ele estava me pedindo para fazer estava muito, muito além da minha zona de conforto, mas também porque estava morta de medo de que aquela aventura fosse minha única oportunidade de romper esse padrão. De escolher algo diferente. De ser uma pessoa diferente. Era fácil demais imaginar minha vida dali a cinco anos.
Uma determinação ferrenha tomou conta de mim. Não tive certeza se era por causa da influência de Amon ou se algum interruptor dentro da minha mente fora enfim acionado, mas de repente eu queria ir. Queria pular do precipício. Saltar do avião. Agarrar a oportunidade, por mais louca que fosse, de fazer e ver coisas que ninguém mais faria ou veria.
Embora minha mão tremesse, segurei a de Amon e falei:
— Vamos.
Respirei fundo e mandei embora todas as minhas reservas, cheia de orgulho por ter tido a coragem de dizer sim. Agora só precisava entrar naquele táxi antes que minhas dúvidas me vencessem.
Amon, me presenteando com um sorriso radiante, puxou-me mais para perto e sussurrou no meu ouvido:
— Você é mais corajosa do que pensa. É sério, você tem mesmo um coração de esfinge.
— O que significa isso exatamente? — indaguei, enquanto embarcava no táxi e chegava para o lado de modo a lhe abrir espaço.
— No meu país, a esfinge em geral é representada como homem, mas os gregos acreditavam que a esfinge era fêmea: metade leoa, metade humana. Gosto mais dessa versão. Uma leoa tem coragem e inteligência. É uma caçadora que provê os filhos de comida. Todos os animais que ela caça têm potencial para matá-la, mas ela os caça mesmo assim, porque há outros seres que dependem dela. Ter um coração de esfinge significa ter um coração de leoa. Mas a esfinge é também uma protetora, uma defensora. Quando ela abre suas imensas asas, cria um vento poderoso que afugenta o mal.
— Quer dizer que as esfinges existem mesmo? Enfim, se Anúbis é real e as múmias também, isso é uma possibilidade, não?
Amon finalmente se virou para mim e esfregou o queixo.
— Eu nunca vi nenhuma, mas existe uma lenda entre os guerreiros de que uma mulher de coração valente, que demonstre seu valor em batalha, será adotada pelo espírito da esfinge.
— Certo. Pensando bem, não tenho certeza de que eu iria querer algo assim. Batalhas não estão na minha lista, e também não gosto muito da ideia de ter um rabo.
Amon olhou com interesse para o meu corpo, como se estivesse considerando essa possibilidade.
— O que foi? — balbuciei, meu rosto ficando todo vermelho.
— Nada — respondeu ele, sem conseguir disfarçar o sorriso.
Dei-lhe um cutucão nas costelas com o cotovelo e falei:
— Pare com isso. E, antes que eu me esqueça, pare de ler meus pensamentos também.
— Eu tento evitar, acredite, mas às vezes seus sentimentos são tão intensos que nem mesmo eu, com todos os meus poderes, sou capaz de me defender do ataque.
Espiei o motorista e me perguntei o que ele estaria achando daquela conversa, mas o homem não parecia estar prestando muita atenção. Na verdade, sua expressão era quase... tonta.
— O que você fez com ele? — perguntei baixinho a Amon. — Está controlando o cara?
— Estou manipulando a visão dele — respondeu Amon, chegando mais perto.
— Como assim?
— O que ele está vendo são as duas pessoas mais importantes que já entraram no seu táxi.



Chegando ao aeroporto JFK, saquei meu cartão de crédito para pagar, mas o taxista se ofendeu por eu sequer sugerir tal coisa. Chegou a dar uma limpadinha na minha bolsa e se ofereceu para carregá-la até o saguão. Quando conseguimos enfim nos despedir, ele apertou a mão de Amon, entregou-lhe um cartão de visita, disse que era um grande fã e acrescentou que, se algum dia Amon voltasse a Nova York, não hesitasse em lhe telefonar por qualquer motivo que fosse.
Quando o taxista foi embora, não consegui me segurar: comecei a rir.
— Quem ele achou que você fosse?
— Não tenho certeza do nome, mas me veio à cabeça a imagem de um jovem cantor com muito cabelo.
Pensar que o passageiro dos sonhos de um taxista nova-iorquino fosse o integrante de uma boy band me fez continuar sorrindo enquanto entrávamos no terminal do aeroporto.

Um comentário:

  1. "Falando do capita do sol..." kkkkkkkkkkkk, morri de ri.

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