21 de outubro de 2016

5. Um banquete no novo reino

Girando nos calcanhares, com voz incrédula, sussurrei:
— Amon? O que você está fazendo aqui em cima? Espere. Não. Mais importante ainda: como você chegou aqui em cima?
Mantive a voz baixa enquanto olhava nervosa para a porta do meu quarto. Era improvável que meus pais ou Marcella viessem falar comigo tão cedo, mas, por outro lado, eles gostavam de mudar a rotina de vez em quando para me pegar desprevenida.
— Eu preciso de você, Lily — disse ele simplesmente.
— O que você precisa mesmo é ir para casa — retruquei. — Olhe, que tal eu ligar para a polícia e ver se eles conseguem localizar alguém que conheça você?
Virei-me para a porta da varanda.
— Não.
Aquela ordem dita em voz baixa me deteve, e senti um brilho quente e conhecido se infiltrar em minha mente, como quando eu não conseguira me afastar dele na rua. No momento em que tomei a decisão mental de não ligar para a polícia, recuperei o controle dos meus membros.
Ergui os olhos para os de Amon com um ar questionador e senti as emoções dele brotarem dentro de mim.
— Você não tem mais casa, não é?
— Minha casa virou pó há muito tempo.
Inclinando a cabeça, perguntei:
— Você está me controlando com hipnose?
— O que é hipnose?
— Você sabe, dominar minha mente, me transformar no seu Renfield.
Ele se concentrou nos meus olhos e, em seguida, arqueou as sobrancelhas como se tivesse descoberto a resposta a uma pergunta.
— Ah, entendi — disse. Andando de um lado para outro atrás do sofá, uniu as mãos às costas. — A resposta que eu poderia lhe dar é: não exatamente. Não tenho a intenção de transformar você em escrava da minha vontade, jovem Lily.
A luz da aurora se derramava sobre seu corpo e imprimia à pele um brilho cálido. Embora com certeza fosse estranho – para não dizer errado sob vários aspectos – encontrá-lo não só no prédio em que eu morava como no mesmo andar e na varanda do meu quarto, fiquei surpresa com a felicidade que senti ao vê-lo, fosse ele ou não um maluco que estivesse me perseguindo.
Se eu fosse agir movida pela lógica, estaria bolando um jeito de avisar à polícia, ou no mínimo à segurança do prédio, mas o meu desejo de fazer isso era bem fraco e eu não conseguia me forçar a sentir outra coisa que não alívio. Amon também pareceu reconfortado ao ver que eu estava bem.
Eu tinha que admitir, é claro, que sua resposta à minha pergunta sobre Renfield tinha sido “não exatamente”, ou seja, eu de alguma forma estava ligada a ele como Renfield ao conde Drácula. Era totalmente possível que ele próprio estivesse pondo na minha cabeça aqueles pensamentos tranquilizadores. Será que eu confiava mesmo nele ou será que ele estava só me forçando a sentir isso? Ao mesmo tempo, se eu não podia confiar na minha própria reação emocional, em que poderia confiar?
Dei alguns passos à frente, então parei; minha mente travava uma batalha com meus sentimentos. A luz do sol se intensificava em volta de Amon, e eu quase podia ver o calor se irradiar do seu corpo. Apesar do grosso edredom sob o qual havia me enfiado ao deitar, o frio que tinha penetrado meu corpo desde o banho não desaparecera, mas Amon fazia lembrar tudo o que era quente – um dia de verão na praia misturado a uma brisa tropical, enrolado em um cobertor aquecido.
Ele pareceu saber o que eu estava pensando e sorriu; quando estendeu a mão, seus dentes muito brancos reluziram em contraste com a pele dourada. Por alguns instantes, perguntei-me se aquele seu calor também iria me invadir caso eu a segurasse. Cerrei os dentes, porém, decidida a não deixar que ele me manipulasse, e resisti.
Cruzei os braços diante do peito, reprimi um calafrio e sibilei:
— Responda à minha pergunta. Como chegou aqui em cima?
Amon abaixou a mão e franziu o cenho.
— O homem que cuida da gaiola dourada me mostrou onde encontrar você.
— Stan? — Balancei a cabeça. — Não. Impossível.
Ele me fitou com um olhar demorado e suspirou.
— Há muito mais coisas possíveis do que você pode imaginar, Lily.
Parece que sim. E agora o meu bom senso me dizia que eu precisava fugir. Recuei alguns passos e me aproximei um pouco mais da porta de vidro aberta.
— O que você quer de mim, afinal? Por que está me seguindo?
— Nós estamos... ligados, Lily.
— Ligados — repeti, sem entonação.
— É. Eu lancei um encantamento que uniu meu ka ao seu.
— Seu ka? Que diabo é isso?
— O ka é como...
Ele bateu com a mão espalmada na cabeça e se afastou, fazendo o saiote branco esvoaçar em volta das coxas musculosas.
Com ele de costas, pude ter uma boa visão de seus ombros largos e braços fortes, que me distraíram um pouco menos do que o peito largo e o abdome definido. Sacudi a cabeça para clarear os pensamentos. Será que ele era mesmo o cara mais atraente que eu já vira ou estaria apenas me manipulando para eu acreditar que fosse?
Amon se virou depressa e, embora não tenha parecido reparar no meu olhar que se redirecionou de seu corpo para seu rosto, minhas bochechas arderam. Dessa vez não tive a impressão de que ele estivesse consciente da atração que eu sentia.
Franzi o cenho ao reconhecer que essas sensações tinham vindo da minha própria cabeça, não da dele.
— É como uma força vital — continuou ele. — Minha força vital está ligada à sua.
— Ainda não entendi. Está querendo dizer que nós somos companheiros de alma?
— Companheiros? — Foi a sua vez de enrubescer. — Não. Nós não temos esse tipo de relação.
Não pude evitar uma risadinha. Mordi o lábio e me perguntei se deveria ficar aliviada ou ofendida pelo fato de ele não se interessar por mim dessa forma.
De repente, Amon pareceu nervoso e baixou os olhos.
— Os seus... — Ele fez um gesto em direção à minha barriga. — ... órgãos internos, suas vísceras, estômago, pulmões, intestinos, até mesmo o seu coração, estão ligados aos meus. Essa conexão lhe causou dor. Sinto muito por isso, mas eu estava desesperado. Não vou conseguir sobreviver por muito tempo neste mundo sem meus vasos da morte, sabe, e como eu...
Levantei uma das mãos.
— Espere... um... instante — eu disse, destacando cada palavra. — Está dizendo que você pegou emprestado os meus “órgãos internos” porque não conseguiu encontrar seus vasos canópicos?
— Isso.
— E está falando sério?
— Estou.
Não havia sequer um indício em seu rosto que sugerisse algo além de sinceridade. Tudo bem. Decidi aceitar a loucura só por alguns instantes e tentar entender o que exatamente estava se perdendo naquela conversa. Pelo menos agora eu obtinha algumas respostas.
— Então você está dizendo que eu ando me sentindo mal por causa desse encantamento que você lançou.
— Seus pensamentos estão corretos.
— Então... você é o quê, exatamente? Um vampiro de órgãos?
Um vampiro invasor de mentes eu podia compreender, embora não acreditasse nessas coisas.
— Não entendo a palavra “vampiro”.
— Ah, uma criatura que chupa sangue, sabe? Que não suporta alho. Que se transforma em morcego. Um demônio brilhante que evita a luz do sol. Esse tipo de coisa.
— Eu não evito a luz do sol; o sol me fortalece. Também não bebo sangue.
— Arrã. Então nesse caso você é um...
Usei o mesmo truque da minha mãe e esperei que ele preenchesse a lacuna, mas ele simplesmente ficou parado me encarando.
— Tudo bem — falei, abraçando meu sarcasmo interior. — Então escolha a resposta que melhor se aplica a você. “Eu sou (a) maluco, (b) viciado em bronzeamento e malhação, (c) um ex-assassino à procura de um lugar para guardar seus órgãos, ou (d) produto da imaginação muito criativa de Lily.”
Ele franziu o cenho.
— Minha mente está sã, Lily. Não entendo o que significa “bronzeamento”, e as únicas vidas que já tirei foram a de homens maus.
Estava prestes a fazer uma pergunta sobre a morte de homens maus quando Amon avançou decidido na minha direção.
Mais uma vez, constatei que não conseguia me mexer, embora sua proximidade cada vez maior tenha disparado vários alarmes no meu cérebro. Com delicadeza, ele encostou a palma da mão na minha bochecha e me encarou com olhos mais verdes que a grama da Irlanda.
No mesmo instante, tomei consciência de seu cheiro singular: âmbar liquefeito, com um toque de caxemira e uma leve sugestão de mirra aquecida ao sol. Gostei desse cheiro. Muito. Não queria gostar. Minha bochecha ardia no ponto em que a palma dele a tocou, e constatei que não conseguia lhe virar as costas.
Com toda a sinceridade, ele indagou:
— Meu toque prova a você que sou um homem de verdade, e não alguém que só existe nos seus sonhos?
Minha garganta havia secado de repente. Fiz um esforço para engolir e responder, mas em vez disso me concentrei nos seus lábios carnudos e apenas fiz que sim com a cabeça, sobretudo ao perceber que na verdade não sabia como responder àquela pergunta.
A mão dele desceu pelo meu rosto e segurou meu queixo, e ele estudou minha expressão por alguns instantes antes de dizer:
— Não precisa ter medo de mim, Lily. Você está sofrendo por causa dos meus atos. Por favor, me deixe ajudar.
Depois que ele disse isso, consegui me concentrar outra vez no latejar que sentia na nuca, na dor dos meus membros e no tremor nauseante no estômago. Assenti, naquele momento confusa mas confiante, apesar de a outra metade da minha mente protestar dizendo o contrário.
Amon deu um passo mais para perto até toda a extensão de seu peito nu estar a poucos centímetros de mim, e senti um formigamento de calor percorrer meu corpo, como se houvesse sido atingida por pequenas flechas de luz do sol.
Ele fechou os olhos, levou as mãos ao meu pescoço e o envolveu delicadamente. Ocorreu-me por um instante que eu talvez estivesse prestes a ser estrangulada, mas ele me segurou com o cuidado que se dedica a uma borboleta. Então começou a murmurar, e suas mãos me queimaram como se estivessem cobertas de pomada descongestionante. Minha pele ardeu quando o calor percorreu meu corpo, eliminando a dor e deixando em seu rastro um abençoado entorpecimento.
Quando Amon levantou a cabeça e cambaleou alguns passos para trás, pude sentir quanto havia lhe custado o que acabara de fazer. A pele dourada agora exibia um tom acinzentado, e seus olhos brilhantes tinham um ar cansado e estavam mais castanhos do que verdes.
Ele desabou no sofá da varanda e enterrou o rosto nas mãos. Seu peito começou a subir e descer depressa, a respiração acelerada, como se ele houvesse corrido.
— O que você fez? — perguntei, tentando entender o que havia acontecido.
— Devolvi um pouco da energia que roubei de você. Infelizmente, jovem Lily, é só um alento temporário.
— Temporário?
— Sim. A dor vai voltar, mas eu vou dividir o fardo dela com você quanto puder. Precisa acreditar que fazer você compartilhar o meu destino nunca foi minha intenção.
— Olhe, no que diz respeito ao destino, não estou entendendo muito bem. Então vou partir do princípio de que você me aplicou alguma espécie de hipnoterapia e deu certo. Nesse caso, obrigada. Estou me sentindo bem melhor.
Após um breve instante de hesitação, afundei na almofada ao seu lado. Suas emoções tinham um sabor amargo. Supondo que ele estivesse dizendo a verdade e estivéssemos de fato ligados um ao outro, o que eu estava sentindo podia, teoricamente, estar vindo dele. Dor. Fraqueza. E alguma outra coisa... algo abaixo da superfície. Finalmente me ocorreu o que era: solidão. Assim que entendi isso, a emoção desapareceu.
— Não mergulhe muito fundo, jovem Lily. — Amon reclinou a cabeça no encosto. — Talvez não goste do que vai encontrar — acrescentou, suave.
Fechou os olhos e os longos cílios projetaram sombras em seus malares. Hesitante, encostei as costas da mão em sua testa. A pele, poucos instantes antes repleta de calor, havia se tornado fria como gelo.
— Você está congelando — declarei.
Entrei correndo no quarto e peguei o edredom de plumas, parando para fechar e trancar a porta só para o caso de meus pais ou Marcella resolverem vir ver como eu estava, e tornei a sair para a varanda. Depois de ajeitar o edredom em volta de Amon, perguntei:
— Você estava falando sério quando disse que o sol o fortalece?
— Estava, Lily.
— Então vamos pôr você ao sol de novo.
Apesar de eu não entender o que estava acontecendo entre nós, a fraqueza dele tinha gerado uma atração tangível ainda mais forte. Era uma coisa suave, mas persistente, que me chegava em pequenas ondas e ia aos poucos minando minha força.
— Seus pensamentos estão corretos — disse Amon enquanto eu o fazia andar até um banco banhado de sol. — Mas vou tentar usar o mínimo possível da sua energia.
— Você consegue ler meus pensamentos?
— Eu entendo você do mesmo jeito que você me entende — explicou ele, críptico. — Obrigado, Lily — murmurou depois de se acomodar.
O sol de fato o fez reviver. A diferença era perceptível e inegável. A atração que ele exercia sobre mim diminuiu até eu quase não conseguir sentir mais nada. Após observá-lo por alguns instantes, eu disse:
— Muito bem, estou pensando o seguinte: você deve ter algum problema de saúde. Como uma daquelas alergias raras ao sol, só que no seu caso é o contrário. Você tem um problema com a sombra. — Se fosse mesmo isso, porém, como é que ele havia me transmitido sua estranha doença ligada ao sol? — Amon... você disse que estava compartilhando a minha energia.
— Sim. É isso mesmo — respondeu ele.
— Então ontem, quando se feriu, você pegou minha energia emprestada para se curar. Foi isso?
— Em parte. Você é o meu vínculo com este mundo. Como a âncora de um barco. Só vou ter acesso à totalidade do meu poder quando estiver completamente formado. Enquanto não retornar à minha estrutura correta, preciso continuar ligado a você.
Aquilo estava ficando mais esquisito a cada segundo.
— Ok, deixe-me ver se estou entendendo. O seu corpo funciona como um painel solar, com o sol exercendo uma cura milagrosa pessoal. Você precisa urgentemente de um transplante de órgãos, e por enquanto eu tenho que ser o seu coelhinho da Duracell.
Só reparei que estava gesticulando quando ele segurou minhas mãos.
— Lily, suas palavras estão me deixando confuso. Embora eu obtenha energia a partir do sol, isso não basta para fazer as coisas que preciso fazer no tempo de que disponho. Sem os jarros que contêm o restante da minha essência, eu logo vou morrer.
— Você está morrendo?
Ele assentiu.
— Mas ainda não está na hora. Preciso permanecer neste mundo até ter cumprido meu objetivo.
Ah. Minhas tentativas semiconscientes de minimizar seus sintomas desapareceram, sufocadas pela gravidade de sua situação. A Lilliana sensata e prática passou para o primeiro plano. Apertei sua mão.
— É claro que precisa. Você é jovem demais para morrer.
De repente, todas as peças se encaixaram. Ele ainda estava perdido, mas agora eu sabia que estava também acometido por uma doença terminal.
A questão dos órgãos devia ser porque seu organismo estava entrando em colapso, e ele devia estar tomando remédios muito fortes, o que explicava o fato de parecer um pouco louco.
Testar tratamentos alternativos poderia explicar sua obsessão pela cura e a transferência de energia. Alguém provavelmente tinha falhado ao vigiá-lo, e ele havia fugido usando apenas um lençol branco, talvez proveniente do seu leito de hospital. Isso também explicava os pés descalços e a perda de cabelos em um rapaz tão jovem. Perguntei-me se ele tinha ido ao museu porque esse era seu último desejo antes de morrer.
— Lily?
O simples ato de ele pronunciar meu nome fez as engrenagens dentro da minha cabeça pararem de girar por completo.
— Sim, Amon — respondi baixinho, com uma espécie de sorriso de desculpas.
— Eu posso sentir seus pensamentos. Embora seja verdade que meu corpo está enfraquecido, não há doença alguma na minha mente. Eu não tenho muito tempo no seu mundo, e a cerimônia precisa se realizar enquanto eu tiver forças. Se conseguir despertar meus irmãos, eles vão me ajudar a terminar o que preciso fazer, mas para isso eu preciso da sua ajuda para encontrá-los.
— Quer que eu o ajude a encontrar seus irmãos?
— Quero.
O alívio me inundou.
— Claro. Farei tudo o que puder. Eles estavam no museu com você?
Ele fez que não com a cabeça.
— Estão perdidos, como eu.
Então ele queria retomar contato com os irmãos. Bem, se precisava de ajuda com a lista de coisas que desejava fazer antes de morrer, nisso eu podia ser útil. Deixando-o ali ao sol, entrei novamente no quarto e voltei com um bloquinho e minha lapiseira confiável.
— Muito bem, vamos começar com os nomes.
Ele concordou.
— Um deles se chama Asten.
Escrevi Asten.
— É filho de Khalfani.
— Certo. Sobrenome Khalfani.
— Não. O nome do pai dele é Khalfani.
— Ok, ótimo. Está muito bem, Amon. — Dei um sorriso radiante. — Qual é o sobrenome dele? — perguntei devagar.
Amon estreitou os olhos, mas respondeu à pergunta:
— Ele é conhecido só como Asten, mas às vezes também é chamado de Mágico Celeste ou Sonhador Cósmico.
— Humm... ok.
Anotei possível mágico/checar Las Vegas e em seguida perguntei sobre o outro irmão.
— O nome dele é Ahmose, e ele era o príncipe de Waset.
— Waset. Isso é um país?
— Waset já foi uma grande cidade.
— Certo. Pode continuar — falei, enquanto anotava possível político.
— Ele é o Grande Curandeiro, e é o Mestre tanto dos Animais quanto da Tempestade.
— Entendi.
Reformulei minhas anotações: risquei possível político e escrevi veterinário, ou talvez meteorologista.
— Qual foi a última vez que você viu algum deles?
— Faz um milênio.
— Arrã.
Durante alguns instantes, o único barulho que se ouviu foi o da minha lapiseira arranhando o papel.
Fechei o bloco com um estalo e disse:
— Acho que tenho um bom lugar para começar. — Pousei a mão no ombro nu de Amon e o apertei de leve. — Prometo fazer o melhor que puder para encontrar seus irmãos e levar você até onde precisa estar.
— Obrigado, jovem Lily.
— De nada. E agora, que tal um pouco de substância? — Fiz uma breve pausa antes de arrematar: — Você pode comer coisas sólidas?
Eu nunca deveria ter dado um cachorro-quente a um paciente com câncer. Onde estava com a cabeça?
— Tem cachorro-quente? — perguntou ele, como se estivesse lendo meus pensamentos.
— Cachorro-quente não é um alimento muito nutritivo, e acho pouco provável ter isso aqui em casa, mas vou pedir alguma coisa para você. Alguma coisa macia, fácil de digerir.
— Eu tenho dentes fortes. Não preciso comer mingau. Minha chegada em geral é celebrada com banquetes e música, mas você pode cantar para mim outro dia. Confesso que no momento estou tão faminto quanto um chacal expulso da matilha, e não trocaria um banquete por nenhum tipo de entretenimento, por mais extasiante que fosse.
— Ok. Vou deixar os cantos extasiantes para outro dia. Mas um banquete eu posso providenciar. Fique aqui ao sol até eu voltar.
Ele assentiu. O cansaço em seu rosto era evidente.
Fechei com cuidado a porta e as cortinas da varanda, peguei meu roupão e fui até a cozinha, parando no caminho para verificar meu reflexo no espelho. Os cabelos escuros caíam pelas minhas costas em grossas ondas despenteadas. Os olhos azuis que me encaravam de volta estavam brilhantes, e eu tinha as faces coradas de sol.
Com certeza não parecia a menina altiva, elegante e controlada que geralmente era. Estava com um aspecto animado, selvagem, um pouco descontrolado. Fazendo um esforço consciente para me acalmar e ajeitar os cabelos, avancei devagar até a cozinha. Não havia ninguém ali. Meus pais deviam ter saído cedo. Então me ocorreu que aquele dia também era a folga de Marcella. Perfeito.
Liguei para o serviço de quarto, fiz o pedido e em seguida voltei para a varanda.
— Já absorveu sol suficiente? — perguntei.
— Tudo o que posso absorver por enquanto.
— Ótimo. Então vamos entrar.
Ele me seguiu quarto adentro e me observou com interesse catar um sutiã de renda preta do encosto de uma cadeira e jogá-lo junto com o edredom em uma pilha toda amarfanhada sobre a cama.
— Então... seu café da manhã está vindo, mas vai demorar uma meia hora. Vou procurar umas roupas para você no closet do meu pai. Enquanto isso, quer tomar uma ducha?
— Ducha?
— A não ser que prefira um banho de banheira.
— Ah, sim. Eu iria gostar de uma boa esfregada.
— Ótimo. Então vou pegar as roupas, e o banheiro fica logo aqui.
Antes de entrar no banheiro, Amon me lançou um olhar de quem não estava entendendo. Deixei-o se virar sozinho enquanto ia arrumar alguma coisa para ele vestir.
O quarto e o banheiro dos meus pais eram ainda maiores que os meus, e seu closet era gigantesco. Eu sabia que meu pai tinha umas camisetas e jeans velhos nas gavetas do fundo. Desencavei um par de tênis, meias, uma camiseta de malhar, uma calça de moletom e um casaco leve, e estava retornando ao quarto dos meus pais quando me ocorreu que Amon talvez precisasse de uma cueca.
Mexer na gaveta de roupas íntimas do meu pai era algo que eu nunca pensara ter que fazer, mas fiquei ainda mais sem jeito quando comecei a ponderar qual cueca serviria melhor em Amon. Acabei escolhendo uma boxer genérica e voltei para o meu banheiro.
Quando entrei, era como se as Cataratas do Niágara estivessem despencando de uma montanha bem dentro do meu quarto. Todas as torneiras estavam abertas no máximo. Em pé junto à pia, Amon encarava o próprio reflexo com um ar de fascínio.
— Este banheiro é único — disse ele, testando a palavra.
Fechei a torneira da pia.
— Acho que sim. Tome... as roupas. Decidiu se vai tomar uma ducha ou um banho?
— Onde fica a ducha? — perguntou ele.
Quando apontei para o chuveiro em estilo spa, que no momento jorrava água por todos os sprays e jatos, Amon olhou nessa direção, mas em vez disso se virou para a banheira e estendeu a mão para o saiote. Começou a desamarrar uma cordinha em um dos lados.
Levantei as mãos, virei de costas e dei um gritinho involuntário quando continuei a vê-lo pelo espelho tentando tirar a roupa. Fechei os olhos depressa e disse:
— Caramba. Dá para esperar eu sair, pelo menos?
— Por que você sairia?
— Hã... por causa de uma coisinha chamada pudor?
— Pu... dor?
— É. Sabe? Não mostrar o que os deuses do Egito lhe deram. Essas coisas.
— Não entendi. Então quem vai me esfregar?
Uma gargalhada me escapou da garganta antes que eu conseguisse contê-la.
— Hum, você mesmo, que tal? — Ainda de olhos fechados, tateei até a pia e de lá até a porta. — Amon, eu entendo que provavelmente devia haver enfermeiras no hospital que davam banho em você com esponja e tal, mas eu não estou preparada para dar esse passo com você. Ok?
Ouvi o barulho inconfundível de uma roupa caindo no chão, em seguida o barulho da água quando ele entrou na banheira.
— Tudo bem, Lily. Pode ficar com o seu... pudor.
— Obrigada.
Recuei até que a única coisa que conseguisse ver fosse sua cabeça, então abri os olhos.
— Tome. — Joguei-lhe uma toalhinha e um sabonete. — Se quiser ligar a hidromassagem, é só apertar aquele botão ali na lateral. — Saí e fechei a porta antes de completar aos gritos: — E saia daí vestido, por favor!
Arrumei o quarto rapidamente e pouco depois o telefone tocou: a comida tinha chegado. Fui receber o garçom no elevador, assinei a nota e peguei o carrinho.
— Eu ligo quando for para vir buscar, ok?
— Certo, senhorita.
Empurrei o carrinho até a cozinha, arrumei dois lugares e peguei leite, várias garrafas de suco e duas canecas para o chocolate quente que tinha pedido. Depois de arrumar as travessas na mesa, gritei:
— Amon! O café está na mesa! Já se vestiu?
Sobressaltei-me ao ouvir sua voz logo atrás de mim.
— Estou com um probleminha...
— Que susto você me deu. — Ao me virar, deparei com ele segurando os tênis em uma das mãos e a calça de moletom na cintura com a outra. — Ficou tão folgada assim? — perguntei.
Para demonstrar, ele soltou a peça, e a calça escorregou perigosamente pelo quadril. Não vi a boxer branca.
— Hã... Amon? Cadê o resto das roupas que peguei para você?
— Eu escolhi esta. É a que cobre mais.
— Ah, entendi. Boa escolha, mas a minha intenção era que você usasse todas as roupas.
— Todas? — Ele correu os olhos pelo meu corpo ainda vestido com o pijama. — Mas você não usa tantas assim.
— Não, para dormir não, mas quando eu me vestir para o dia vou usar roupas como as que dei a você.
— Tudo bem. Posso comer primeiro, Lily?
— Claro. Sente-se.
Enquanto ele se sentava, destampei os pratos. Um vapor de aromas deliciosos espalhou-se pelo ar quando ergui cada uma das redomas.
— Pronto. Agora coma enquanto eu vou me vestir. Vou trazer suas outras roupas também.
Amon encarou a comida de olhos arregalados e a única resposta que conseguiu dar foi assentir com a cabeça.
Quando me virei para ir embora, sorri. Meus pais iriam estranhar quando vissem a quantidade de comida que eu havia pedido para apenas uma refeição, mas valia a pena só para ver a expressão de Amon. Ele havia solicitado um banquete, e era isso que eu tinha lhe dado. Um banquete digno da lista de desejos de qualquer pessoa.
Ele agora estava cercado por ovos preparados de oito maneiras diferentes, batatas rösti e fritas, presunto curado, linguiça, bacon, biscoitos com mel e manteiga derretida, panquecas com maçã caramelizada e chantilly, rabanada de crème brûléewaffles com xarope maltado, uma travessa de frutas e uma cesta repleta de croissants, doces e muffins de mirtilo com farofa crocante. Se nisso tudo não conseguisse encontrar nada de que gostasse, não havia esperança para ele.
Vesti-me no estilo que costumo chamar de casual chique e sorri ao me olhar no espelho. Embora meus olhos ainda brilhassem, eu estava bem mais parecida com a versão altiva, calma e controlada de mim mesma. Quando voltei à cozinha, larguei as roupas de Amon na cadeira ao seu lado, pus as mãos nos quadris e ri ao ver a cena à minha frente.
— Do que você gostou mais?
— De tudo — balbuciou Amon, de boca cheia. — Venha, Lily. Sente-se aqui. — Ele puxou uma cadeira, segurou meu braço e me puxou até eu me sentar. — Coma.
Pus umas frutas no prato e fiquei mordiscando enquanto ele tornava a se servir. Na metade do prato, ele parou e olhou para mim.
— Por que não está comendo?
— Essas coisas têm carboidrato demais.
— O que é carboidrato?
— Hã, uma coisa que engorda.
— Você não é gorda. — Amon me olhou de cima a baixo de um jeito que me fez sentir levemente desconfortável. — É magra demais. Coma.
Pegou uma colher e começou a encher meu prato até não caber mais nada.
— Chega! — Ergui as mãos. — Já está bom.
Ele voltou a comer com um grunhido, mas ficou me vigiando, e apontava para meu prato sempre que eu pousava o talher.
Quando cutucou meu braço pela terceira vez, falei:
— Não consigo mais comer. Em geral, de manhã só tomo chá.
— Chá não é comida.
— Para mim basta.
— Basta nada. Uma mulher precisa de mais do que chá — afirmou Amon, encarando-me.
De repente me senti muito exposta, como se estivéssemos falando sobre mais do que um simples café da manhã. Tive a nítida impressão de que ele estava me estudando por dentro e por fora e que conseguia ver todas as minhas inseguranças. Nesse instante, fome e alimento pareceram adquirir outro significado.
— É, acho que sim — respondi, desviando os olhos.
Quando ele por fim terminou de comer, afastou-se da mesa e declarou que estava pronto para começar a busca pelos irmãos. Como lutava para vestir a camiseta, ajudei-o a virá-la. Ao fazê-lo, minhas mãos roçaram naquele peito bonito. Fiquei vermelha e me virei para pegar o casaco. Depois de jogá-lo nas mãos dele, reparei que a calça de moletom estava novamente ameaçando escorregar do seu quadril.
Pigarreei. Embora examinasse o capuz do casaco com uma expressão curiosa, ele ergueu os olhos.
— É que... hã, a sua calça... tem um cordão, está vendo? Na cintura. É só puxar e amarrar.
Amon largou o casaco, encontrou o cordão e o puxou de um dos lados, depois do outro. Deixei-o terminando de se vestir e voltei ao quarto para pegar a bolsa, na qual coloquei tudo de que poderíamos precisar.
Peguei o laptop, o celular e o carregador, meu caderno e a carteira. Então voltei para a cozinha e acrescentei algumas garrafas de água mineral. Amon pôs dentro da bolsa maçãs e laranjas, e eu, um pacote de cream crackers. Depois de passar a alça da bolsa pelo pescoço, ajoelhei-me aos pés dele para ajudá-lo a amarrar os tênis, e então comecei a pensar em para onde poderíamos ir.
Pela lógica, o primeiro passo seria levá-lo até o hospital perto do Met e ver se alguém o reconhecia, mas mordi o lábio ao perceber que ele talvez não tivesse oportunidade de encontrar os irmãos se fizéssemos isso. Depois da sua fuga, as chances de eles o trancafiarem no hospital eram grandes. Levá-lo de volta para lá me pareceu errado.
— Está pronta, jovem Lily?
Amon estendeu a mão para me ajudar a me levantar.
— Obrigada. Sim, estou pronta quando você estiver.
— Certo.
Sem largar minha mão, ele se aproximou de mim. Enlaçou-me pela cintura e disse:
— Segure-se bem firme em mim.
— Amon... o que você está...
Minha pergunta se transformou em um grito quando um vento se ergueu ao redor de nossos corpos e senti areia áspera espetar minha pele como se fossem milhares de agulhas. Observei horrorizada meu próprio corpo se desintegrar, pedaço por pedaço, até se juntar ao turbilhão, e meu grito foi interrompido porque eu não tinha mais garganta, quanto mais voz.
Em pânico, estendi a mão para segurar alguma coisa e tomei consciência de outra presença ao meu lado. Amon respondeu ao meu medo. Tentou me tranquilizar, me sustentando, mas eu sabia que o que estava sentindo não eram os seus braços. Com a tempestade rodopiando à nossa volta, fomos descendo rumo a um lugar que ia se tornando mais escuro a cada segundo.
Então afundei na areia movediça.

4 comentários:

  1. "Eu nunca deveria ter dado um cachorro-quente a um paciente com câncer. Onde estava com a cabeça?"
    dramático, mas engraçado também

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  2. kkkk, esse capitulo me matou de ri, ela é muito bobinha!
    Ass: Bina.

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