25 de outubro de 2016

5. A Sala dos Enigmas

— Acho que este é um bom momento para irmos — declarou o Dr. Hassan, categórico. Olhou na minha direção, mas se levantou depressa de onde havia se sentado para descansar e concentrou a atenção no chapéu, que estava amassando com as mãos. Agora eu estava ainda mais preocupada. O chapéu do Dr. Hassan era sagrado. Ele jamais iria estragá-lo. — A não ser que você precise descansar primeiro... — disse ele gentilmente enquanto recolocava o chapéu torto na cabeça.
— Não. Acho que estou bem. Além disso, quem pode dormir depois de receber um visitante noturno como Anúbis? Acho que esse tipo de anúncio sinistro do fim do mundo me daria pesadelos.
— É — murmurou ele, distraído, e me dirigiu um sorriso débil enquanto começava a juntar seus pertences.
— Há alguma coisa que não está me contando, não é? — perguntei enquanto o ajudava a colocar as ferramentas numa bolsa. — O senhor acha que eu vou fracassar.
— Não. Não — enfatizou inequivocamente quando lancei-lhe um olhar de quem sabia das coisas. — Você não vai fracassar. Simplesmente não vou permitir.
— Mas o senhor não sabe de verdade, não é? Não há nenhuma garantia.
— Vamos nos preocupar com uma coisa de cada vez, está bem? — Quando assenti, relutante, ele bufou e disse: — Começando do princípio. Precisamos chegar a Luxor.
— Certo.
Coloquei uma das bolsas dele no ombro e esperei com paciência que ele terminasse. Quando por fim se virou para mim, o Dr. Hassan me olhou mais demoradamente, como se não tivesse me visto direito antes. Empurrou o chapéu mais para o alto da cabeça, largou a bolsa numa mesa de escritório improvisada e esticou os dedos para tocar o arnês alado em meu ombro.
— O que é isso que você está usando, Lily? Pensei que fosse sua camisola, mas obviamente me enganei.
Passei a mão pelo vestido e senti o calor fluir para o meu rosto.
— É meio exagerado, eu sei. Anúbis fez para mim.
— É lindo — disse o Dr. Hassan de um jeito meio clínico enquanto observava com mais atenção cada segmento da peça. Andou lentamente ao meu redor e só parou ao encontrar o escaravelho na cintura. Tive a sensação de que ele sabia que aquilo estava ali o tempo todo mas de propósito tinha deixado a descoberta melhor e mais interessante para o fim.
O Dr. Hassan enfiou a mão em sua bolsa e pegou uns óculos malucos, com lentes que se projetavam. Apertando um botão enquanto os ajustava diante dos olhos, fez um facho de luz brilhante voltar-se para minha cintura. Permaneci o mais imóvel que pude enquanto ele girava as lentes até ficar satisfeito, depois mordi o lábio enquanto ele murmurava consigo mesmo. Por fim ele se aprumou e declarou:
— É autêntico.
— Claro que é. O que o senhor esperava?
— Não sei bem. A pedra é uma esmeralda genuína da maior qualidade, até onde posso ver. Você sabia que é um escaravelho do coração?
— Sabia.
Ele tirou os óculos e bateu com eles na palma da mão, cogitando alguma coisa. Seus olhos perspicazes e afiados examinaram meu rosto.
— Antes que pergunte, vou dizer. Era de Amon. Anúbis disse que um pedaço do coração de Amon está preso ao escaravelho. Eu até consigo escutar os batimentos, se ouvir com atenção.
O queixo do Dr. Hassan caiu.
— Espantoso!
Pelo seu tom de voz, eu não sabia se estava empolgado ou preocupado, mas de repente espantoso pareceu uma palavra que eu não quereria inspirar em alguém como o Dr. Hassan. Espantoso, nesse caso, não podia ser coisa boa. Na minha mente a palavra se traduziu em todas as outras que ele não disse. Palavras como desconcertante, inédito, complicado, chocante, ou talvez simplesmente Em que diabos você se meteu, Lily?
Tentei afastar os pensamentos agitados e me lancei numa explicação de tudo que havia acontecido, do melhor modo que pude lembrar. Ele ouviu em silêncio, só fazendo perguntas rápidas para esclarecer algum ponto, e, quando terminei, sentou-se pesadamente na beira da mesa.
— Nunca ouvi falar em nada disso. A história de Ísis e do marido, Osíris, é uma das narrativas mais bem documentadas do Egito, e nunca encontrei qualquer sugestão, em qualquer gravura, de que Ísis ficou com um pedaço do coração dele. Se bem que agora, pensando melhor...
O Dr. Hassan se levantou e fez um esboço muito exato do escaravelho do coração em um pedaço de papel, depois o dobrou com cuidado e enfiou num dos muitos bolsos de seu colete.
— De todos os casais do panteão egípcio, esses dois são os mais ligados, sobre quem mais se escreveu.
Ele soltou o ar com força.
— Mesmo assim, os dois eram imortais. Não faço ideia de como funciona essa conexão entre vocês, mas creio que ela implicaria um grande perigo para uma mortal, e é por esse motivo que acho que Anúbis precisa que você faça essa cerimônia. Lily, não vou mentir e dizer que não estou preocupado. Os sacrifícios que você será chamada a fazer, além dos perigos da viagem... — Ele esfregou o pescoço como se já pudesse sentir a tensão aumentando. — Só espero ser capaz de servir bem aos seus objetivos.
— Se alguém pode me ajudar, Dr. Hassan, é o senhor.
— Vamos rezar para que esteja certa. Venha, Lily. Vamos para o meu carro.
Enquanto subíamos uma escada escura e poeirenta na direção da luz do verão egípcio, perguntei:
— Onde estamos? — O calor se erguia em ondas da areia e dos morros rochosos à volta.
— Sacara, na antiga capital Mênfis. — Quando viu que eu continuava sem entender, acrescentou: — Estamos uns trinta quilômetros ao sul do Cairo. — E explicou enquanto me levava ao veículo: — Estou trabalhando neste local de escavação há três meses. É a tumba da Testemunha Que Alimentava a Carne do Deus. Em outras palavras, Maia, a ama de leite do rei Tutancâmon. Ela foi descoberta aqui no fim da década de 1990 e estou oficialmente supervisionando a escavação de sua capela.
— Existe alguma pirâmide nesta área?
— Várias, inclusive a famosa pirâmide de Djoser.
— O senhor... bom... — continuei num sussurro — ... escondeu algum dos irmãos aqui?
— Aqui, não. Mas o corpo de Ahmose não está muito longe deste local. Nunca escolhi um lugar onde houvesse escavações acontecendo, para que os Filhos do Egito não sejam encontrados.
— Ah.
Fiquei incomodada ao pensar em Ahmose apodrecendo numa tumba escondida. Não suportava pensar nele desse jeito, quanto mais em Amon. Em vez de ficar alimentando esses pensamentos, perguntei:
— A que distância fica o templo de...?
— Medinet Habu.
— Isso. É em Luxor?
— Correto. Vamos levar umas oito horas.



No caminho, o Dr. Hassan passou a maior parte do tempo tentando se certificar de que eu entendia exatamente quão perigoso esse plano seria, citando cada fato ruim que sabia sobre ritos secretos que deram errado, sobre humanos sem noção que caíam em armadilhas criadas pelos deuses e sobre o mundo dos mortos em geral.
Mas o coração de Amon me chamava. Ninguém mais poderia fazer aquilo. Nem Anúbis. Nem Asten ou Ahmose, nem o Dr. Hassan. Eu, Lilliana Young, uma garota mortal e comum, acabaria sendo a heroína ou a vítima trágica – a primeira em uma longa lista de baixas na guerra entre o bem e o mal, caso não conseguisse impedir que o impensável acontecesse.
Era tarde quando chegamos e o templo estava fechado aos turistas, mas, após algumas palavras com o vigia noturno, o Dr. Hassan conseguiu permissão para entrarmos e o guarda abriu o portão baixo de madeira que teria sido quase pateticamente fácil de pular.
— Por que eles não protegem melhor os templos? — perguntei enquanto nos afastávamos da pequena guarita.
— Nem me fale — respondeu o Dr. Hassan secamente enquanto me entregava uma lanterna. — Bom, se me lembro direito, o segundo portal deve ficar nessa direção.
Passamos sob o primeiro portal e o Dr. Hassan me deu uma rápida aula de arquitetura.
— Os portais se assemelham à representação do horizonte em hieróglifos. Está vendo aquela forma ali? Parecem dois morros grandes com um sol nascendo no meio.
— Eu me lembro de que o nome de Hórus foi dado por causa do horizonte.
— Chegou perto. É o contrário. Quando você entra no templo, entra no reino do sol, ou do deus-sol, neste caso. Cada portal é uma passagem para o próximo reino, e cada seção pode ter propósitos diferentes. Lembre-se dessa forma para o caso de vê-la mais tarde. Não se esqueça, Lily, o sol sempre leva à vida. Ver o nascer do sol é abraçar a vida. O pôr do sol é onde você vai encontrar a morte.
— Foi por isso que usou o nascer do sol na caverna dos vermes para ver através do ovo de serpente?
O Dr. Hassan sorriu.
— Fico feliz por você lembrar.
— Aprendi que, quando a gente está apaixonada por uma múmia, é bom prestar atenção em coisas pequenas como maldições, ovos de serpente e arqueólogos prolixos.
— Quero que saiba, mocinha, que sou um dos palestrantes mais requisitados do Egito. Não sou prolixo — disse ele com um sorriso irônico. — Bom. Onde eu estava, mesmo?
— Portais.
— Ah, sim, os portais também podem servir como algo além de decoração ou símbolo. Foram encontradas escadas e salas antigas dentro de alguns deles. Acho que a sala que Anúbis descreveu pode ser uma dessas.
Entramos num pátio aberto vigiado por enormes estátuas e colunas.
— Quem é ele? — perguntei, apontando para a estátua.
— Ramsés III como Osíris.
— O que quer dizer com “como Osíris”?
— Os faraós costumavam ser representados como deuses, numa tentativa de obter o favor do deus ou aumentar a probabilidade da própria imortalidade.
— Mas nenhum deles era imortal de verdade, não é?
— Não que eu saiba. Se bem que, criando estátuas tão grandes, esses reis e faraós antigos são lembrados muito tempo depois de sua morte. Acho que isso é uma espécie de imortalidade.
Deixando para trás as estátuas, passamos pela abertura do segundo portal, que levava a um corredor. Enquanto eu examinava os relevos que contavam a história da invasão dos Povos do Mar, o Dr. Hassan buscava no portal um símbolo que representasse uma esfinge. Ele me disse o que procurar, mas depois de uns dez minutos todas as imagens começaram a parecer borradas aos meus olhos e a se fundir num quebra-cabeça gigante e incompreensível.
Eu estava pronta para desistir quando o Dr. Hassan gritou:
— Lily! Creio que encontrei o que estamos procurando.
Meus passos ecoaram no corredor havia muito abandonado enquanto eu caminhava até ele. Tremi e olhei à minha volta, mas só vi sombras escuras e as partículas da poeira agitada no facho da minha lanterna.
O Dr. Hassan e seu feixe de luz apontavam para uma imagem gravada na parede, uma imagem que não se parecia em nada com a que ele havia descrito. Quando observei isso, ele balançou a cabeça.
— Entendo sua confusão. O símbolo que descrevi para você, o que se parece com um leão reclinado, era a versão egípcia da esfinge. Este é diferente. Na verdade, está mais perto do conceito de esfinge dos gregos.
— Não entendo. Qual é a diferença?
— A variação mais notável seriam as asas vistas aqui. Ainda que haja semelhanças entre as duas versões, como o sexo, a força superior, a função de guardiã de locais sagrados, de ter corpo de leão e cabeça humana, elas também mantêm algumas qualidades que as tornam únicas.
— Então uma esfinge é...
— Do sexo feminino. Você pode se lembrar de que mulheres poderosas como Hatshepsut costumavam ser representadas usando uma barba falsa. Isso não se destinava a disfarçar ou enganar, era um sinal de poder. Na lenda elas sempre são femininas na origem, pelo menos é o que sei. Hatshepsut e a rainha Hetepherés II foram representadas como esfinges.
— Então esta versão grega tem asas.
— Asas de águia. A outra diferença importante entre a versão egípcia e esta é que a variedade grega é muito mais traiçoeira.
— Como assim?
— Você conhece o conceito do enigma da esfinge?
— Não era algo do tipo: se a pessoa não resolvesse o enigma não poderia passar pela esfinge? É o que o senhor quer dizer?
— É. Mas, nesse caso, fracassar seria a morte. Ela devorava quem não decifrasse o enigma. Como Anúbis chamou esse lugar que estamos procurando de Sala dos Enigmas, presumo que a versão grega que encontrei aqui é a que estamos procurando.
— Não faz mal tentar, acho — falei enquanto ele me olhava em dúvida.
— Esperemos que sua suposição esteja certa.
Peguei sua lanterna e apontei para o hieróglifo enquanto ele apoiava a palma da mão na parte de cima da imagem, empurrando e torcendo ao mesmo tempo. O som inconfundível de pedra raspando em pedra revelou que tínhamos mesmo encontrado o que procurávamos. Ouviu-se um clique e depois um estalo. O Dr. Hassan deu um passo para trás e uma seção circular de pedra com o símbolo da esfinge gravado bem no meio se destacou da parede.
— Humm. O que fazemos agora? — perguntou o egiptólogo.
Por um momento ficamos ali parados, com as lanternas apontadas, mas nada aconteceu.
— E se empurrarmos de volta? — sugeri.
Ele enxugou a testa, ajeitou o chapéu e assentiu. Dei um passo à frente, pousei a mão na pedra e apertei. A princípio ela travou, mas depois se mexeu, e eu senti a vibração de alguma coisa pesada atrás da parede. Um sibilo seguido por um rangido quase doloroso revelou uma passagem e uma pesada porta de pedra, que era praticamente impossível de ser percebida no portal antes de se abrir.
Quando todo o movimento parou e o silêncio desceu de novo sobre o templo, os sons nervosos de nossa respiração pareceram soar mais alto do que o gemido de mil fantasmas saindo do túmulo.
Juntos fomos até a abertura e apontamos as luzes para dentro. Estava escuro, o ar mais negro do que o de uma tumba, e por um momento me perguntei se aquilo não seria mesmo uma tumba e se não se destinava a nós. O Dr. Hassan deve ter sentido o mesmo, já que até ele parecia tenso.
A única coisa visível era uma série de degraus que desciam, e quando pus o pé no primeiro, um ato que me fez parecer muito mais corajosa do que era de verdade, o Dr. Hassan estendeu a mão para me impedir.
— Por favor, deixe que eu vá na frente, Lily.
Concordei, agradecida, e dei um passo para o lado para que ele passasse por mim. Achei que seria muito mais fácil andar atrás dele do que na frente, mas ser a última também não era nada divertido. Pequenos arrepios de ansiedade percorriam minhas costas como besouros em fuga e eu ficava me virando para garantir que ninguém iria nos atacar por trás ou nos trancar naquele poço de escuridão assustadora.
Descemos até que o ar rançoso ficou frio, e percebi que devíamos estar a grande profundidade no subsolo. Mantive a mão no ombro do Dr. Hassan até mesmo quando ele chegou ao fundo e entrou num corredor mais largo do que a escada, mas a lanterna só revelava paredes de terra.
Eu não entendia como o Dr. Hassan podia ganhar a vida assim. Estava apavorada de verdade. Minha imaginação criou uma esfinge enorme dormindo na caverna, que iria despertar, nos despedaçar com as garras e nos devorar antes mesmo de descobrirmos o que tínhamos de fazer. A ideia de me transformar numa criatura assim me encheu de um pavor que eu nem conseguia descrever.
— Uma coisa de cada vez — murmurei baixinho para fortalecer minha coragem.
Avançamos devagar, minhas sandálias afundando na areia macia. Quando o Dr. Hassan encontrou uma tocha antiga junto à entrada de uma sala e a acendeu, meu medo se dissipou e foi substituído por um sentimento de assombro.
— Minha nossa! — sussurrou o Dr. Hassan enquanto adentrávamos aquele espaço.
Dessa vez eu sabia que ele estava empolgado. Estávamos numa sala dourada cheia de tesouros. A riqueza que aparecia até mesmo na pequena área iluminada pela tocha era impressionante. O mais incrível era que a sala estava em condições impecáveis. Os colares de rubi, as espadas reluzentes e as grandes estátuas de ouro brilhavam como se tivessem acabado de ser polidas e estivessem expostas num museu. O que era uma impossibilidade, considerando-se a quantidade de areia no chão.
— Anúbis deve ter tirado a poeira antes de nossa chegada — observei.
— Esta é a descoberta mais excepcional desde que Howard Carter e George Herbert encontraram o túmulo de Tutancâmon em 1922!
— Certo. Só que, tecnicamente, nós não descobrimos. Fomos mandados para cá.
— Ah, mas, Lily... Se eu pudesse explorar esta sala com meus colegas! Compartilhá-la com o mundo. O que esses tesouros maravilhosos poderiam representar para o Egito! Que tragédia este lugar ter de continuar em segredo. Essas coisas não se destinam a ser levadas à luz do dia.
— Talvez Anúbis não se incomode se o senhor pegar só uma ou duas.
Estendi um dedo para tocar uma estátua de gato com olhos de esmeralda, porém o Dr. Hassan segurou meu pulso para me impedir.
— Não toque em nada, Lily, pelo menos por enquanto. Minha política é ler primeiro e só mexer num objeto depois de catalogar e documentar com fotos.
Assenti e o Dr. Hassan avançou alguns passos arrastando os pés, levantando a tocha para ler os relevos nas paredes.
— Ah, aqui está o que procuramos.
— O que é?
— Uma mensagem de Anúbis.
— O que ela diz?
— Essencialmente, que só deveremos pegar os itens que formos instruídos a pegar, depois copiar o encantamento para realizar o Rito de Wasret. O resto da sala deve permanecer intocado e, quando sairmos, devemos lacrá-la do mesmo modo como encontramos.
— Certo. Um encantamento. Não parece tão difícil.
O Dr. Hassan hesitou.
— Puxa. Vou demorar um pouco para traduzir isso.
Dei um sorriso meio nervoso.
— Achei que o senhor era especialista nisso — provoquei.
— Ah, eu sou. Não é que eu não saiba ler o que está escrito; é que preciso decifrar a mensagem por trás da mensagem.
— A mensagem por trás da... Como assim?
— Como grão-vizir, aprendi um código secreto que vem sendo passado de geração a geração. Ainda que outro egiptólogo pudesse ler esta passagem simplesmente como “O tesouro daquela que é poderosa”, vejo que há certas expressões ou palavras enfatizadas. O hieróglifo que simboliza o conceito de tesouro, aqui — ele apontou para um relevo —, também tem o sinal dos Filhos do Egito por cima. Portanto esta palavra específica é de grande importância.
Ouvi então o que ele murmurava enquanto passava o dedo pela parede. Nada que ele dizia me dava alguma tranquilidade e, em vez disso, minha imaginação conjurava todo tipo de horrores.
Ouvi O cetro daquela diante de quem o mal treme; as joias daquela que derrotou a esfinge; a primeira esposa de Amun; a coroa da Senhora do Pavor; a lança da Dama da Carnificina; e as garras daquela que mutila. Nenhum desses termos parecia particularmente bom. Uma coisa era certa: eu definitivamente não queria cruzar o caminho da mulher que estava descrita ali. Então percebi uma coisa.
— Parece uma lista de inventário — falei, interrompendo suas ruminações.
— É. Parece mesmo haver alguma referência ao tesouro daqui.
— Para que todos esses nomes, afinal? Por que uma pessoa não pode simplesmente ser chamada pelo nome, em vez de um título longo e descritivo?
O Dr. Hassan começou a explicar:
— Dois motivos. Primeiro, um título com uma descrição tão vívida tem mais probabilidade de induzir as massas a demonstrar respeito e a cultuar. Mas o segundo motivo é mais importante. No nome há poder de fato. Conhecer o verdadeiro nome da pessoa é controlá-la. Esse é o principal motivo para os nomes verdadeiros serem ocultos.
— Então o senhor sabe de quem estão falando?
— A princípio eu presumiria que fosse Sekhmet, já que muitos desses nomes são usados para descrever essa deusa, mas, se eu escolhesse apenas os termos que têm o símbolo de Amon, teríamos tesouro, esfinge, Amon e dama. Se eu agrupar apenas esses e reordená-los, a mensagem diz: “O tesouro de Amun é sua dama esfinge”.
— Interessante. E depois?
— Você pode anotar?
— Sem dúvida.
O Dr. Hassan me entregou um caderninho cheio de suas observações arqueológicas. Pelo menos um de nós está preparado. Virei cuidadosamente as páginas até encontrar uma vazia e anotei as frases enquanto ele ia lendo. Demoramos uma hora para terminar a primeira parede, apesar de ele trabalhar muito depressa. Quando chegamos ao fim eu havia rabiscado frases em dezenas de páginas. Estava cansada e já ia perguntar ao Dr. Hassan se poderíamos voltar no dia seguinte quando ele exclamou:
— Está aqui! Encontrei a chave para o ritual.
Eu o observei com atenção enquanto ele murmurava incoerentemente, tanto que, mesmo ele tentando esconder, pude vislumbrar um pavor frio atravessando seu rosto.
— O que foi? — perguntei. — Diga.
O Dr. Hassan esfregou os olhos cansados e soltou o ar com força.
— É uma charada, e precisaremos resolver várias antes de obtermos acesso ao encantamento.
— Uma charada? Como sabe? — Folheei as páginas, tentando juntar as palavras marcadas com círculos. Para mim era tudo grego... isto é, egípcio. Se havia uma pergunta secreta escondida ali, eu não consegui ver.
Ele explicou, paciente:
— É a charada mais comum da esfinge. Talvez você já tenha ouvido: “O que anda com quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três ao cair da tarde?”
— Ah, eu sei. Li sobre isso na escola.
— Sim. Bom, a resposta típica é o homem, ou o ser humano. Um bebê engatinha no início da vida, anda de pé entre o início e o fim da vida e usa uma bengala no fim. Mas, neste caso, não é a resposta certa.
— Então qual é?
— Neste caso a resposta é Amon.
— Amon? Como?
— Em sua primeira morte ele caiu de quatro; então Anúbis o ergueu para a próxima vida, onde ele andou com os dois pés. Agora ele está no final e manca no mundo dos mortos, apoiado na espada.
— Mas como o senhor sabia a resposta?
— Ela está de trás para a frente. Anúbis nos deu as respostas primeiro. Lembra-se de que Amon estava no primeiro grupo de palavras? — Confirmei com a cabeça. — Amon é uma encarnação de Amun. Essa é a resposta para a primeira charada.
— A primeira charada?
— Sim. Haverá mais três. E as respostas serão tesouro, esfinge e dama. Este é o símbolo de Amun, o deus-sol. Se eu estiver correto, ele vai nos levar à pergunta seguinte. — Usando dois dedos, ele apertou o hieróglifo e pedaços da pedra começaram a se mexer como uma gigantesca caixa-segredo. Quando tudo se acomodou, algumas pedras tinham virado de cabeça para baixo, outras descido e algumas desaparecido completamente.
— Ah, uau!
— Vamos começar, está bem?
Dessa vez ele só demorou dez minutos para decifrar a charada.
— Esta eu também conheço. A chave é reinterpretá-la de um modo diferente.
— Qual é a charada?
— Quem são as três irmãs que dão à luz uma à outra? Na pergunta original são duas irmãs, e a resposta é Noite e Dia. Não vejo como a resposta possa ser tesouro. Talvez seja dama. Mas o número três não é uma coisa que eu tenha encontrado antes. Não sei como ele se aplica.
— Acho que a resposta é esfinge.
— Por quê?
— É o que eu devo me tornar, certo? Eu preciso passar por esse ritual, ou sei lá o quê, e vou mudar minha mortalidade. Vou renascer... de certa forma. É a única resposta que faz sentido.
O Dr. Hassan me olhou pensativo por um momento.
— Acredito que você esteja certa. Vamos tentar.
Ele encontrou não um, mas dois símbolos da esfinge: um era a versão egípcia e outro, a grega. Hesitando apenas brevemente, escolheu a versão alada. Aparentemente era a escolha certa. De novo a parede gemeu e mudou, e agora podíamos vislumbrar uma sala atrás da barreira de pedras.
— Estamos na metade do caminho — informei. — Temos cinquenta por cento de chance de acertar o resto.
Vinte minutos depois ele havia traduzido a charada seguinte.
— Esta eu nunca ouvi.
— O que ela diz?
— É considerada pelo homem a coisa mais valiosa. Brilha à luz do sol. Fornece tudo que ele precisa. A vida dele é desperdiçada buscando-a e, no entanto, se ele a segurar com sinceridade, ela jamais irá deixá-lo. — Ele parou por um momento. — Pode ser tesouro.
— Também pode ser dama.
— Está certa. — O Dr. Hassan coçou o queixo e me olhou. — Posso propor uma teoria?
— Claro.
— As duas primeiras charadas foram referências específicas a você e Amon.
— É. É verdade.
— Isso quer dizer que esta provavelmente é aplicável a vocês também. Se for o caso, acredito que a resposta seja dama.
— Verdade? Por quê?
— Presumindo que Amon seja o homem em questão, é você o que ele busca. E não um tesouro. E, quando vocês estão juntos, eu vejo a luz no rosto dele. Ela se reflete em você.
— Ah. É. Acho que sim.
Confiante em sua teoria, o Dr. Hassan escolheu o símbolo da dama. Nada aconteceu imediatamente, e eu prendi o fôlego durante alguns segundos. Então os estalos e o zumbido começaram e partes da parede se deslocaram, criando aberturas de tamanho suficiente para enfiarmos as mãos por elas, mas ainda insuficientes para atravessarmos.
— O senhor estava certo — murmurei.
— Sim.
Enquanto ele trabalhava interpretando o último grupo de entalhes, pensei nas palavras da charada anterior. Será que Amon estava desperdiçando a vida em sua busca por mim? De que modo eu, uma garota mortal, poderia proporcionar tudo que ele precisava? Mesmo que eu encontrasse Amon e o salvasse, Anúbis jamais deixaria que ficássemos juntos. Ele tinha sido bastante claro ao explicar que Amon precisava fazer o trabalho para o qual tinha sido convocado. Mas essa última parte me deu um pouco de esperança. Talvez, se sustentássemos um ao outro, houvesse algum modo de nossos caminhos se reencontrarem.
O Dr. Hassan interrompeu meus pensamentos:
— Temos um problema.
— O que é?
— Desta vez a charada é bastante simples. Pede para declarar nosso objetivo e encontrar a coisa que procuramos.
— Certo, mas já sabemos que a resposta é tesouro.
— Será? Pode ser um truque. Se nossa resposta for tesouro, é muito provável que nossa entrada seja impedida. A última coisa que os deuses aceitam é o roubo de suas relíquias preciosas, e recebemos um alerta explícito para não levar nada, a não ser os itens que fomos instruídos a pegar.
O dedo do Dr. Hassan pairou sobre o símbolo do tesouro, mas ele hesitou. Eu não sabia o que fazer.
— Acho que não temos outra opção — disse ele, pronto para empurrar o símbolo.
Nesse momento, porém, notei uma coisa.
— Pare! — gritei.
— O que foi, Lily? — perguntou ele, baixando a mão.
— Eu reconheço isto. É o sinal de Amon, não é?
— É. Mas Amon não era uma das quatro opções.
— Mas ele era, lembra? Amun estava lá.
— Sim, mas nós já usamos esse nome.
— Mas então não vê? Foi o senhor quem disse que isso tinha a ver comigo e com Amon. Não é um tesouro que estou procurando, e sim Amon. Ele é o meu objetivo.
O Dr. Hassan pareceu dividido.
— Tem certeza, Lily?
Eu tinha? Quando falei, estava dando voz a uma reação instintiva. Mas agora, pensando bem, não tinha tanta certeza. O que encontraríamos do outro lado da parede? O tesouro da esfinge ou um caminho para Amon? Deixando de lado as dúvidas, avancei um passo e apertei o símbolo de Amon.
Um instante depois toda a parede começou a tremer. Pedras caíram à nossa volta e temi ter cometido um erro terrível. Receando ser esmagada, me afastei com um salto e fui amparada pelo Dr. Hassan, que mal conseguia se manter de pé. Com um derradeiro e terrível ruído áspero, as últimas pedras saíram do caminho.
Ficamos ali parados, agarrados um ao outro e respirando com intensidade enquanto a poeira se assentava, e, quando isso aconteceu, ficamos ambos boquiabertos com a visão à nossa frente. O tesouro da primeira sala não era nada comparado ao que estivera escondido atrás da parede. Uma opulência reluzente, incrustada de joias, cobria cada superfície. Estátuas em tamanho real de uma deusa-gata se postavam como fileiras de sentinelas, vigiando eternamente o gigantesco tesouro da sala. Meus olhos pousavam em tudo e em nada, incapazes de focalizar qualquer objeto ao se verem cercados por tanto esplendor.
Então algo se mexeu.
Diante de nós, sentada num trono dourado com raios de sol revestidos por fileiras de diamantes cintilantes, estava a mulher mais linda que eu já tinha visto. A princípio achei que era um truque dos meus olhos. Ela parecia imobilizada, uma ofuscante peça central num espaço indescritivelmente magnífico, e me perguntei se era uma imagem pintada ou uma estátua em tamanho natural. Então ouvi uma gargalhada e a mulher ergueu a mão e fez sinal para que nos aproximássemos.
Seu cabelo sedoso e escuro descia reto feito uma flecha até a base das costas. Ela usava um vestido branco diáfano que franzia na cintura e depois caía ao longo do corpo no estilo de uma deusa egípcia. Argolas douradas envolviam seus braços e pulsos, e sandálias douradas muito parecidas com as minhas adornavam-lhe os pés. Ela sorriu para mim e fiquei hipnotizada por seus lábios de rubi e os olhos com cílios espessos, que pareciam acesos com as cores de uma nebulosa turbulenta.
Não pude falar nem andar quando ela novamente pediu que nos aproximássemos. O Dr. Hassan parecia sofrer da mesma aflição. Era como se ambos estivéssemos enraizados. Absolutamente paralisados.
Como não nos movêssemos do lugar, ela decidiu vir até nós, porque então se levantou e percebi que os raios dourados do sol se irradiando do trono não eram isso. Eles se moveram junto com ela, elevando-se e estendendo-se para abarcar todo o corpo da mulher.
— Ísis — ofegou o Dr. Hassan num sussurro de reverência, e eu sabia que ele estava certo.
Era a própria deusa. A que havia inspirado o encantamento de Amon que conectava nossos corações.
E ela possuía... asas.

Um comentário:

  1. SABIA!Só mesmo um deus para achar que um vestido lindo em uma garota linda como a lilian"deve servir",deve servir a minha @#$%! ps.karina meu amor desculpa mas,eu preciso extravasar'
    ass:atrevido :)

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