21 de outubro de 2016

4. Os laços que prendem

Quando o motorista dobrou a esquina e o Central Park tornou a surgir, pedi-lhe que me deixasse no Hotel Helios, onde eu morava. Quando eu era pequena, morávamos no subúrbio e meus pais pegavam o trem diariamente até Manhattan. No entanto, quando minha mãe ganhou sua grande promoção e meu pai, muito dinheiro com uma transação, eles trocaram nossa casa chique no subúrbio, com mais quartos do que conseguíamos usar, por uma cobertura ainda mais elegante e esnobe que custava pelo menos dez vezes mais e tinha ainda mais cômodos que nunca usávamos.
Com certeza viver em Manhattan tinha lá suas vantagens, e morar em um hotel mais ainda: arrumadeira, serviço de quarto a qualquer hora, porteiros, camareiros, acesso a piscina, sauna e academia. Mas, apesar de tudo isso, eu achava difícil pensar naquele lugar como meu lar.
As ruas de Nova York eram constantemente barulhentas. Uma cacofonia de furadeiras, britadeiras, buzinas, apitos dos guardas de trânsito, ruídos de ônibus e chiados de canos de descarga que nunca diminuía. Além disso, havia também o fato de que os “lares” de Nova York tinham números de apartamento e dividiam paredes com vários estabelecimentos de comida ou, no meu caso, tinham vários andares e serviço de quarto. Acrescente-se ainda o fato de meus pais preferirem manter nossa casa com um visual impecável, de revista, como se ninguém morasse ali. Eu não cobiçava um lugar onde a grama fosse mais verde... poxa, só um pedacinho de grama já estaria bom. Não era de espantar que vivesse meio desencantada com tudo.
Para mim, um lar era um lugar tranquilo com quintal, cerca e cachorro. E não um daqueles cachorros ridículos que as pessoas carregam na bolsa. Uma casa de verdade precisava de um cachorro de verdade, tipo pastor-alemão ou dobermann, um cão grande, capaz de babar o dono todo, cavoucar o quintal e esperar pacientemente junto à janela o dono voltar do trabalho.
A fazenda onde minha avó morava era, aí sim, o lugar perfeito para um cachorro. Eu tinha boas lembranças de perseguir seus diversos bichos de estimação por campos de mato alto, de seus focinhos frios fuçando minhas mãos, do cheiro de sol, vento, madeira e pelo de bicho quando os beijava no alto da cabeça e brincava com suas orelhas. Minha avó tinha tido muitos cachorros ao longo dos anos, mas o último, Bilbo, morrera de velhice recentemente, e ela ainda não tivera coragem de arrumar outro.
Assim que o taxista encostou, Herb, o porteiro do hotel, aproximou-se para abrir a porta para mim.
— Teve um bom dia, senhorita Young? — perguntou, educado.
Aceitei sua ajuda para saltar.
— Herb, hoje foi um dos piores dias de toda a minha existência. Se eu contasse, você nem acreditaria — falei, apertando sua mão.
Com uma risadinha, Herb me acompanhou até as portas douradas do hotel.
— Eu acreditaria em qualquer coisa que a senhorita me contasse. Sei que não é dessas moças que vivem fazendo drama para chamar atenção.
Eu ri.
— Bom, Herb, o drama às vezes pega a gente desprevenida. Hoje recebi mais atenção do que jamais poderia querer. O resultado é uma enxaqueca de matar e uma vontade louca de comer chocolate. Boa noite para você.
— Igualmente, senhorita Young. Desejo melhoras.
Ele me olhou com um ar intrigado antes de abrir a porta.
— Obrigada — retruquei sobre o ombro ao entrar no hotel.
Quando foi que as luzes ficaram assim tão fortes? Semicerrei os olhos para tentar minimizar a dor lancinante atrás dos globos oculares enquanto atravessava o lobby em direção aos elevadores privativos, onde Stan estava a postos e me permitiu subir até o 52º andar.
O lugar em que eu morava não tinha nada de modesto. Meus pais eram donos do andar inteiro e não haviam poupado esforços ao decorá-lo com peças que seguiam as últimas tendências: tapetes selecionados por decoradores famosos, obras de arte escolhidas a dedo não só para complementar os ambientes mas também para mostrar a potenciais clientes, com muito bom gosto, quanto dinheiro nós tínhamos, e uma geladeira – grande o suficiente para a pessoa se perder lá dentro – disfarçada de armário caro; eram todos objetos tão frios e impessoais quanto os cômodos em si. Meu quarto era a única exceção, o único lugar em que eu me sentia suficientemente à vontade para tirar os sapatos e largar as chaves em cima da mesa.
Uma das únicas aquisições de meus pais de que eu realmente gostava era um lustre de Chihuly que ficava na sala de jantar. A peça me parecia ter um certo ar caótico, sensação muito diferente da minha vida tão engessada em todos os outros quesitos. As bolas douradas que irradiavam uma luz suave, as fitas em forma de arabescos e as conchas retorcidas possuíam uma beleza selvagem que me convidava a ultrapassar minhas próprias fronteiras, a usar o calor da experiência para moldar os grãos de areia do deserto emocional que era minha vida na forma de algo tão rico e precioso quanto o vidro artesanal daquele artista.
Ao entrar na cozinha, chamei:
— Marcella? Você está aí?
O único som que ouvi em resposta foi o eco da minha voz se perdendo naquela casa que parecia uma tumba vazia. Peguei na geladeira um refrigerante diet gelado na medida certa e fui para o quarto, meu santuário no que eu gostava de chamar de “palácio de gelo”. Ao entrar, larguei a bolsa pesadamente no chão e me abaixei para soltar as fivelas das sandálias.
Eu adorava meu quarto. Tinha decorado o ambiente em tons de creme, marfim e rosa bem clarinho. A cama e a mesa de cabeceira eram de um dourado vistoso, esculpidas em um estilo que lembrava o da Inglaterra vitoriana. As colunas nos quatro cantos da cama se curvavam para formar lindos arcos, e cortinas diáfanas pendiam delas em dobras suaves.
Um dos lados do quarto tinha janelas que iam do chão até o teto e davam para minha varanda particular, com uma vista esplêndida para o Central Park. A parede oposta era repleta de formas geométricas: quadrados de vidro fosco e retângulos de vários tamanhos, todos iluminados por trás por discretas luzes rosadas.
Ao ver de relance meu reflexo no imenso espelho dourado, me convenci de que um banho era uma necessidade absoluta antes de ir para a cama. Atravessei o quarto descalça, sentindo os pés afundarem no tapete felpudo. Cambaleei na direção do banheiro enquanto massageava a nuca.
Sentia os ombros rígidos e doloridos, sobretudo o esquerdo. O latejar na cabeça estava piorando e, para completar, minha pele parecia levemente inchada e irritada. Passei a língua pelos lábios e senti um sabor metálico, como se estivesse sangrando. Talvez eu seja alérgica a alguma coisa, pensei. Deve ser a toda aquela poeira antiga lá no museu.
Engoli comprimidos de analgésico e então estudei meu reflexo, constatando de perto, sob todos os ângulos, quanto estava abatida.
— As Irmãs Tortas tinham razão. Pareço ter saído da boca do gato.
Rezando para o remédio operar depressa sua magia, afundei na luxuosa banheira e comecei a me esfregar. A água quente e borbulhante me fez perceber como estava cansada. Com a cabeça apoiada em uma grossa toalha, peguei no sono.
Não parecia ter dormido muito tempo quando meus olhos se abriram de repente.
Por questões de privacidade, as janelas eram de vidro fosco, para deixar passar a luz, impedir a entrada do calor, mas não permitir que ninguém visse o interior. O chuveiro em estilo spa, localizado dentro de um boxe de vidro jateado, funcionava da mesma forma: deixava passar a luz, mas só permitia que se tivesse uma visão opaca da pessoa que estava tomando banho.
Eu não tinha me dado ao trabalho de acender a luz, pois queria aproveitar o calor do sol poente, privilégio raro em uma cidade repleta de arranha-céus. Essa era uma das maiores vantagens de se morar em um prédio alto perto do Central Park.
Só que a luz que caía devia estar pregando peças nos meus olhos, porque por alguns instantes me pareceu que havia alguém ali movendo-se nas sombras.
Depois de passar um minuto inteiro olhando fixamente para o mesmo ponto, decidi que o que estava causando o movimento nas sombras deviam ser as nuvens; ou isso ou as sombras compridas dos prédios do outro lado do parque.
Tornei a recostar a cabeça na toalha.
— E a paranoia, vai bem? — balbuciei.
Tentei relaxar e aproveitar, mas a água, apesar de morna, me deixou gelada. A escuridão pareceu absorver toda a luz do banheiro e, em vez de me sentir reclinada em uma espaçosa banheira, de repente tive a sensação de estar presa dentro de um grande sarcófago. Um forte cheiro de incenso se misturou ao gosto acre e metálico de sangue. Ouvi um barulho fraco de alguém soluçando, então um grito. Com um arquejo, sentei-me, fazendo a água se agitar em violentas ondas que se derramaram pela borda sobre a plataforma de mármore.
Com um surto de energia, saí da banheira atabalhoadamente e fiquei olhando para ela, horrorizada. Trêmula, com a água empoçando aos meus pés, afastei dos olhos os cabelos que pingavam e tentei acalmar a respiração e diminuir o ritmo cardíaco. Qual é o problema comigo? Eu nunca tinha ouvido falar que enxaqueca causasse alucinações, mas imaginei que fosse possível. E uma explicação mais lógica ainda seria que eu tinha pegado no sono e tido um pesadelo.
Vai ver estou com hipoglicemia. Eu só tinha tomado um chá antes de sair para o museu. Deve ser isso. Baixo nível de açúcar no sangue, racionalizei, atribuindo a experiência a alucinações provocadas pela fome, mas, mesmo depois de afastar do pensamento as coisas malucas que tinham me acontecido naquele dia, não pude negar que algo muito estranho estava ocorrendo.
Destampei o ralo e, deixando o trabalho de dar um jeito no banheiro para Marcella, nossa empregada – atitude muito anormal para mim, e para a qual eu sabia que ela iria inventar uma punição secreta mais tarde – enrolei os cabelos em uma toalha grossa, vesti o roupão atoalhado, fui para o quarto e me sentei em frente à escrivaninha.
A primeira coisa que fiz foi pegar os diversos papéis que tinha enfiado na bolsa ao sair às pressas do museu. Depois de separá-los, arrumá-los em pequenas pilhas e colocá-los no canto da escrivaninha para consulta fácil, eu me senti bem melhor. Algo naquelas pilhas, somado às listas cheias de símbolos em negrito e calendários com dias inteiros riscados, me proporcionou uma sensação de controle e, mais ainda, de realização.
Talvez eu fosse mais filha dos meus pais do que quisesse reconhecer. Meu lado organizado e meticuloso de soldadinha obediente se encaixava com perfeição no estilo de vida deles, e eu parecia encontrar certo conforto nessa rotina. Embora no fundo ansiasse por um pouco de caos e aventura, a verdade era que eu em grande parte dependia da ordem para funcionar direito.
Abri meu caderno e achei a página em que havia iniciado o esboço de Amon. Tentei começar a desenhar seu rosto, mas apaguei várias vezes os traços, frustrada por não conseguir acertar.
Não sabia por que estava sendo tão exigente em relação a Amon. Depois de algum tempo, desisti e desenhei apenas o contorno de sua cabeça.
Ouvi o sinal do elevador, seguido pelos estalos secos de saltos altos que indicavam a chegada de minha mãe. Havia passado bem mais tempo do que imaginava concentrada no desenho de Amon. Minha mãe enfiou a cabeça pelo vão da porta do quarto e seu perfume floral fez cócegas no meu nariz.
— Mãe — falei, sem erguer os olhos do desenho.
Ela entrou no quarto e pousou uma das mãos no meu ombro coberto pelo roupão.
— Como foi seu dia? Herb comentou que foi difícil.
Em resposta, dei de ombros e tentei lembrar que Herb estava só pensando no meu bem-estar enquanto minha mãe pegava um dos folhetos das universidades, escolhendo justamente a que considerava menos desejável. Quase pude ouvir o efeito do cenho franzido nas suas palavras enquanto ela passava os olhos pelo documento.
— Estou vendo que você andou avaliando alternativas.
— É. Mas ainda não decidi nada.
Antes de falar, ela apertou meu ombro de um jeito que considerei mais controlador do que reconfortante.
— Tenho certeza de que vai escolher a melhor. — Ela abriu o fecho do colar e começou a tirar as pulseiras enquanto continuava a conversa: — Como foi a reunião do seu projeto final do colégio?
— Acabou de forma abrupta.
— Fiquei sabendo.
Virei-me na cadeira para encará-la e perguntei:
— Quem ligou para você?
— A mãe da Cassie. Cassie ficou preocupada. Disse que você abandonou o almoço para ajudar um rapaz na rua. É verdade?
Para quem visse de fora, minha mãe pareceria genuinamente preocupada, mas pude sentir a alfinetada amarga de sua reprovação, e na mesma hora tentei aplacá-la:
— Não foi tão dramático quanto ela deu a entender.
— É? — foi a resposta de minha mãe.
Uma única sílaba incluída na conversa que transmitia por si só uma infinidade de significados. Aquilo era um velho truque de produtores de TV para deixar os entrevistados pouco à vontade e levá-los a preencher o silêncio, e potencialmente se enforcarem ao fazer isso. Apesar de conhecer a tática de entrevista da minha mãe, mordi a isca:
— Ela disse a verdade, tinha mesmo um rapaz na rua, mas o que ela não disse foi que ele sofreu um acidente. Ficou muito ferido.
— E você foi tentar ajudar — completou minha mãe com as sobrancelhas arqueadas.
Era mais uma acusação do que uma pergunta.
— Não senti que tivesse escolha — observei; uma resposta direta, embora não totalmente sincera.
— Não tinha nenhum policial por perto? Ninguém chamou uma ambulância?
— Não sei. Ele sumiu antes de a polícia chegar.
— Pensei que estivesse muito ferido.
— E estava. Mas... ele foi embora cambaleando.
Minha voz se perdeu, nada convincente.
Os olhos atentos de minha mãe encontraram meu caderno; ela o puxou mais para perto e correu o dedo pela página.
— É este o seu rapaz misterioso?
Assenti enquanto punha o braço em cima das anotações que fizera sobre ele no pé da página, torcendo para meu gesto ser interpretado como casual, e não dissimulador.
— Hum. Quem sabe eu devesse dar uns telefonemas e tentar localizar esse rapaz para ele poder receber cuidados médicos.
Ela estava caminhando para levar Amon a virar um assunto seu, e eu não podia permitir que isso acontecesse. Não que minha mãe fosse fazer alguma coisa para prejudicá-lo, mas ela nutria sentimentos muito fortes por pessoas que precisavam ser colocadas no que ela julgava ser o seu devido lugar.
Sob os seus cuidados, Amon provavelmente iria parar em um hospício. Eu mesma não tinha certeza de que não fosse esse o seu lugar, mas pensar nele internado me parecia muito errado. Como precisava concordar para despistar minha mãe, engoli em seco e falei, com voz aguda:
— Tenho certeza de que ele está precisando muito.
Tive um instante de pânico ao vê-la hesitar com os olhos pregados no meu caderno. Se decidisse confiscá-lo, eu não sabia o que faria. Mas não: ela o fechou e empurrou até o canto da escrivaninha.
— Você sabe como eu sou tolerante em relação aos seus pequenos hobbies — começou ela. — Só espero que não tenha se atirado em uma situação perigosa só para documentar uma pessoa... nova?
A frase foi em parte uma ordem, em parte um alerta, em parte um pedido. Sorri de volta e balancei a cabeça como se aquilo não fizesse o menor sentido.
Após alguns dolorosos instantes sob o escrutínio de minha mãe, durante os quais tive certeza de que ela de algum jeito estava conseguindo ler minha mente e descobrir cada pensamentozinho secreto, ela mudou de assunto e me exibiu seu sorriso de mídia social. Uma pequena parte de mim entrou em pânico, apavorada que ela fosse pesquisar imagens do incidente com Amon.
Contanto que me movesse com cuidado, eu conseguia cruzar com segurança a fronteira entre o mundo no qual meus pais viviam e o mundo que eu havia criado para mim. O incidente com Amon era a coisa mais perigosa, e sem dúvida a mais empolgante, que já havia me acontecido, e por mais que eu quisesse que ele encontrasse a sua casa, algo que ele sem dúvida conseguiria fazer com a ajuda dos meus pais, também queria guardar os acontecimentos daquele dia só para mim.
— Bom, então nós temos uma pequena agente humanitária na família, não é?
Transformei rapidamente minha careta em um leve sorriso e torci para minha mãe não reparar na diferença.
— Só não se esqueça de remarcar o almoço — continuou ela. — Você sabe como é importante para o seu pai.
— Claro. Sei, sim. Vou dar uma ligada hoje à noite para as Irmãs Esqui... para as meninas.
Ela estreitou os olhos, astuta. Apesar de ter pescado meu ato falho sarcástico, foi magnânima e decidiu ignorá-lo.
— É assim que eu gosto.
Sorriu e me deu uns tapinhas na bochecha como se eu fosse um pônei premiado, antes de virar as costas e sumir pelo resto da noite.
Com um profundo suspiro de alívio pelo fato de o interrogatório ter acabado, levantei-me e grunhi, levando a mão à base das costas para uma massagem. Sentia-me uma senhora de idade. Pior, uma senhora de idade atropelada por um carro.
Leves pontadas de dor brotavam nas minhas costas e faziam arrepios doloridos subirem e descerem pelo meu corpo, dando-me a sensação de que era um porco-espinho jogado de um lado para outro por um tigre – eriçado, tonto e levemente mordiscado.
Decidi pular o jantar e me deitar cedo para impedir a ação do vírus que provavelmente tinha contaminado meu organismo. Subi na cama de dossel e me deitei, torcendo por um sono longo e rejuvenescedor. Em vez disso, tive sonhos estranhos. Grandes besouros coloridos subiam pelos meus braços e, por mais que os espantasse, não paravam de aparecer. Afundei em um rio lamacento cheio de crocodilos que tentavam me morder. Então, quando pensei que não conseguiria mais suportar os pesadelos, fui arrastada para um lugar escuro onde um mal invisível tentava levar embora algo precioso e perfeito.



Acordei abruptamente quando o ar se moveu acima da cama e senti um movimento junto às janelas. As cortinas diáfanas esvoaçavam na brisa, e escutei os barulhos reconfortantes das buzinas dos caminhões vários andares abaixo. Devo ter aberto a porta da varanda ontem à noite, pensei.
Esfregando os braços, calcei um par de chinelos macios e fui até a porta. Os móveis de ferro forjado da varanda estavam cobertos de orvalho. Saí e senti o cheiro das flores plantadas nas jardineiras suspensas, inspirando com força enquanto olhava para o parque.
Alisei a cabeça do grande falcão de pedra que o hotel tinha posto ali muito antes de nos mudarmos. Embora jamais fosse admitir isso, achava que esse gesto me dava sorte. Um pássaro montava guarda em cada um dos lados do hotel: norte, sul, leste e oeste. Aquele meu falcão parecia vigiar o Central Park, protegendo-o feito uma gárgula, e às vezes eu gostava de pensar que estava me protegendo também.
Raios rosados de sol tocaram minha pele e, embora meu corpo ainda doesse e minha cabeça latejasse torturantemente, eu podia jurar que o simples fato de ficar em pé ali ao sol estava levando embora parte da dor. Ouvi um farfalhar de asas atrás de mim, e teria enxotado os pombos na mesma hora se a sensação daquele banho de sol não fosse tão perfeita.
Segurei a balaustrada, fechei os olhos e me entreguei àquela sensação, esquecendo por um instante o ambiente à minha volta até escutar uma voz bem conhecida:
— O sol nos deixa fortes, jovem Lily. Assim como eu estou ligado a ele, você está ligada a mim.

4 comentários:

  1. parece interessante, mas achei muito dramático

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  2. OMG! Estou me apaixonando por outro cara literario!
    Ass:Bina.

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  3. Eu estou gostando do trama

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