25 de outubro de 2016

3. O escaravelho do coração

Acordei bruscamente, o escaravelho ainda apertado entre os dedos. Recuei de encontro à cabeceira da cama e examinei o quarto. Com as cortinas de blecaute fechadas, o lugar estava mais escuro do que um sarcófago. Não dava para ver o intruso, mas senti sua presença com tanta certeza quanto sentia o coração martelando contra as costelas.
— Quem está aí? — sussurrei, alarmada, derrubando da mesinha de cabeceira o livro que estivera lendo antes de dormir.
— Já esqueceu de mim? — O homem riu baixinho.
Enquanto tateava à procura do interruptor da luz, ouvi um cão gemer e me imobilizei. Se eu já não houvesse adivinhado quem estava no quarto, o animal teria revelado a identidade do dono.
Winston não emitia o mesmo som que esse cão. Na verdade, eu só havia encontrado um outro que possuía certo poder de reverberação por trás do latido.
Finalmente meus dedos trêmulos conseguiram acender a luz, e ali, parado diante de mim em toda a sua glória divina, e ainda assim totalmente ajustado em uma fazenda do Iowa, estava o deus egípcio da mumificação, Anúbis. No museu, ele havia usado um terno atual. Dessa vez vestia calça jeans justa, camisa social branca de corte perfeito nos ombros largos, botas de caubói escuras e jaqueta também de jeans.
Parecia um modelo da GQ edição country. Tinha até a sombra muito atraente de uma barba crescendo. Anúbis parecia um homem capaz de lançar longe um fardo de feno, montar um cavalo chucro, fazer um churrasco na companhia dos rapazes e ainda arrebatar qualquer garota de fazenda, dos 18 aos 80 anos, sem nem mesmo suar.
Imaginei se essa era uma qualidade exclusiva de Anúbis ou se fundir-se ao ambiente e ao mesmo tempo atrair a atenção era uma espécie de poder divino.
Embora estivesse inegavelmente bonito, como da última vez que eu o vira, havia algo em seus olhos, uma seriedade, que contradizia a expressão casual e despreocupada. Qualquer que fosse seu motivo para me procurar, eu tinha certeza de que aquela não era uma visita social.
Puxando as cobertas até o pescoço e deslizando o escaravelho de Amon para baixo do travesseiro do modo mais disfarçado possível, tentei parecer mais digna e no controle do que uma garota mortal poderia estar, enrolada na colcha de retalhos da avó, com meias grossas e descombinadas escapando por baixo das cobertas e um macacão empoeirado pendurado num gancho perto da porta.
— Anúbis, por que está aqui? — perguntei, desconfiada mas ao mesmo tempo esperançosa. — Aconteceu alguma coisa errada na cerimônia? Você decidiu apagar minha memória, no fim das contas? Veio me mumificar também?
Os lugares que minha mente visitava naquele momento eram meio amedrontadores, mas, ao mesmo tempo, o conhecimento de que aquele homem tinha o poder de permitir que eu visse Amon de novo suplantava qualquer opção apavorante. Não ousei verbalizar a pergunta que queria fazer de verdade. A indagação que queimava a ponta da minha língua tinha a ver com a segurança de Amon, e eu sentia medo de que, ao perguntar, acabasse revelando informações demais.
Anúbis me lançou um olhar divertido que diminuiu a solenidade em seus olhos enquanto cruzava os braços diante do peito largo.
— Só em ocasiões muito raras e especiais sou chamado para fazer uma mumificação, Lilliana Young. E, como você não está morta, sua suposição parece pouco razoável. A cerimônia correu bem. Seth está seguramente contido pelo futuro próximo. E a última coisa que desejo é tirar sua memória. Se essa fosse a minha intenção, você não estaria me vendo agora.
— Certo. Então o que está fazendo no meu quarto no meio da noite? — O cachorro preto tocou minha mão com o focinho e acariciei sua cabeça. Quando pulou ao meu lado e enfiou a cabeça embaixo do meu braço para que eu coçasse suas costas, Anúbis aproximou-se e se sentou ao pé da cama. Olhou para mim com uma mistura de curiosidade e assombro.
— Eu... nós... precisamos da sua ajuda — disse por fim.
— V... vocês — gaguejei —, assim... os deuses egípcios, precisam de mim, de uma garota humana sem poderes?
Anúbis olhou para seu cachorro quando ele o acertou com o rabo, lambendo meu braço.
— Em geral ele não aprecia ficar perto de mortais.
— Parece que ele gosta de mim.
— É. Gosta.
— Qual é o nome dele?
— Abutiu.
— Humm. Nome interessante para um cachorro.
— Abutiu não é um cachorro. É o cachorro.
— Assim como Nebu, o garanhão dourado encontrado por Hórus, é o cavalo?
— Os dois são semelhantes no sentido de que ambos têm poderes que vão muito além dos de qualquer animal. Abutiu, no entanto, foi o primeiro de sua espécie, ao passo que cavalo é um conceito simples demais para ser aplicado a Nebu.
— Então Abutiu é o cachorro original?
— Algo assim.
Anúbis se afastou de mim na cama e continuou:
— Precisamos que você encontre Amon.
— Encontrá-lo? Como assim, encontrá-lo? Você o perdeu? — Cruzei os braços. — Isso tem alguma coisa a ver com Amon se demitir da função de múmia?
Os olhos escuros do deus da mumificação me perfuraram, enraizando-me no lugar. Engoli em seco, subitamente inquieta, e me censurei por ter mostrado minhas cartas. Que beleza, Lily.
— Muito bem. Você sabe — disse ele. — Devo admitir que não estou surpreso. Com que frequência você o vê?
Nesse ponto eu não soube se deveria dizer mais alguma coisa. Dei de ombros, sem me comprometer, e fechei a boca.
— Não importa se você vai me contar ou não. Sei que a conexão entre vocês ainda é viável. Na verdade, estou contando com isso.
— Que diferença faz? Ele não vai voltar.
Anúbis segurou meu pulso e apertou-o de leve.
— Ele precisa voltar, Lilliana Young. — Espantada, puxei o braço delicadamente, me soltando. O deus olhou para a própria mão como se estivesse surpreso por me tocar, depois se levantou e andou pelo quarto, abrindo as cortinas para olhar a noite enluarada pela janela.
— Por que você precisa tanto dele? — perguntei. — Não há outro que possa atrair para servir o Egito durante algumas eras?
Ainda olhando pela janela, ele balançou a cabeça.
— Os três Filhos do Egito estão ligados entre si. Romper esse laço é deixar os três sem poderes. Sem eles, o Cosmo fica vulnerável.
— Então está dizendo que Seth poderia encontrar uma forma de voltar.
— Sim.
— Bom, por que não deu essa informação a Amon antes? Ele acha que você pode arranjar outro para substituí-lo.
Anúbis se virou e um olhar mal-humorado atravessou seu rosto bonito.
— Ele nunca teve problemas com esse trabalho, nunca hesitou antes. Nós só contamos aos Filhos do Egito o suficiente para que cumpram com seu dever. Francamente, eu achava que, se algum deles viesse a abrir mão da imortalidade por causa de uma mulher, seria Asten.
— Não. Asten jamais abandonaria os irmãos. Nem por causa de uma mulher.
Franzindo a testa e passando a mão pelos cabelos, Anúbis disse:
— É pior do que eu temia. Você está ligada aos três.
— O... o quê? — perguntei, incrédula. — Quero deixar claro que não sou desse tipo de garota.
Ele agitou a mão no ar, mostrando sua irritação.
— Não estou falando do aspecto físico, ainda que haja manifestações do elo no plano físico. — Ele me espiou na penumbra do quarto. — Ísis estava certa. Você é especial, Lilliana Young. Isso é bom para você. Me dá esperança de que você possa sobreviver à jornada.
— Jornada? Do que você está falando?
— A jornada que você precisa fazer ao mundo dos mortos para resgatar Amon e levá-lo de volta ao além.
— O mundo dos mortos e o além não são a mesma coisa?
— Infelizmente não tenho tempo para explicar.
— Acho melhor você arranjar tempo, se espera minha ajuda.
Ele me observou com os olhos estreitados por um momento antes de ceder:
— Muito bem, mas vou dar a versão resumida.
— Ótimo.
— Eu governo o além. É uma espécie de área intermediária onde o coração dos mortos é julgado.
— Certo.
— Parte dele é um paraíso, onde os que têm bom coração vivem a eternidade num estado de bem-aventurança e felicidade.
— Sei. Então é o céu.
— É. Mais ou menos.
— Então o mundo dos mortos seria...
— A coisa mais próxima a que você poderia compará-lo é o inferno ou o purgatório.
— Entendo. E é lá que Amon está preso?
— Sim.
— Bom, então por que ele não foi para o além? Você não achou que o coração dele era digno?
Anúbis se virou de costas e manuseou um chapéu de palha pendurado num gancho.
— Os Filhos do Egito não deveriam ser julgados. Pelo menos até que suas tarefas estejam terminadas.
— Então imagino que algo aconteceu.
— A deusa Maat decidiu que a ligação dele com uma humana merecia uma... — ele pareceu procurar a palavra certa — ... uma verificação.
— Ela quis pesar o coração dele.
— Correto. Pediram a Amon que colocasse o coração na Balança da Verdade e da Justiça. Ele então saltou para outro plano. Como você sabe, ele está de posse do Olho de Hórus, e usou o poder deste para entrar no mundo dos mortos.
— Existia algum perigo de o coração dele ser considerado... hã... mau?
— Há certa medida de sombras em todo coração humano. O que é pesado na balança é o equilíbrio da vida da pessoa. Se ela aprendeu com os erros e seguiu com mais frequência o que está certo, é considerada digna.
— Então isso não deveria ser problema para Amon.
Inclinando a cabeça, Anúbis me examinou.
— Sua suposição não é incorreta.
— Então por que ele fugiu?
— Suspeito que tenha fugido porque não estava mais de posse do próprio coração.
Um arrepio tomou conta do meu corpo e, mesmo tentando fazer cara de inocente, tive certeza de que Anúbis podia ver através de mim. Engolindo em seco, nervosa, eu disse:
— Não entendo. Quero dizer, como ele poderia viver?
— Não pode. Não como você está pensando. Ele não precisa de um coração físico. Você pode acreditar que o coração é meramente um órgão, usado para fazer o sangue circular e bater rapidamente quando alguém se apaixona, mas na verdade o coração é muito mais do que isso. É o lugar onde a memória e a inteligência ficam armazenadas. Guarda o que é mais sagrado: o verdadeiro nome de seu dono.
— Humm, tenho quase certeza de que você está falando do cérebro, não do coração.
— Não. Estou falando da essência da pessoa, do que torna um indivíduo único. Você pode chamar de alma, coração, cérebro ou de qualquer coisa. No Egito chamamos uma alma totalmente unida, carregando seu nome verdadeiro, de Akh. Sem o coração, Amon não pode fundir os diferentes aspectos de si mesmo. Cada parte que o define se afasta, à deriva, como um barco quebrado no mar. Isso o torna... vulnerável. No além, uma coisa assim poderia ter passado despercebida se não tivessem lhe pedido que mostrasse o coração, mas no mundo dos mortos...
— Isso o coloca em perigo.
— Sim. A ponto de ele poder ter uma segunda morte, dessa vez definitiva. E não podemos permitir que isso aconteça.
— Uma segunda morte?
— Amon morreu pela primeira vez há muitos séculos. Ele ganhou uma espécie de imortalidade porque estava disposto a servir aos deuses, mas ir para o mundo dos mortos sem o coração é a coisa mais perigosa que ele poderia fazer. Parece que ele deseja um fim para sua existência. Se morrer pela segunda vez, estará perdido para nós, para sempre.
Lembrei-me então de como Amon parecia exausto em nosso sonho. Talvez Anúbis estivesse certo e Amon não quisesse mais viver. Eu tinha certeza de que ele não desejava servir aos deuses, mas abrir mão da própria vida? O pior era que parte de mim sabia que sua insatisfação com o status quo era minha culpa. Atarantada, perguntei:
— Então agora Amon é... exatamente o quê?
— Uma sombra que vaga. Uma faceta de seu eu anterior. E, sem unir a sombra ao seu nome verdadeiro, tenho medo de que ele esteja perdido.
— Achei que você disse que não tinha muita importância se estivesse faltando o escaravelho do coração quando o mumificou.
— Não tem. O amuleto apenas guia seu Akh de volta ao corpo, do qual ele não vai precisar pelos próximos mil anos. De posse do Olho de Hórus, ele poderá encontrá-lo sozinho, mas uma sombra não pode voltar ao reino dos mortais. — Anúbis fez uma pausa, depois esfregou os dedos, olhando para eles, e não para mim. — Quer saber qual é a minha teoria?
Engoli em seco e disse debilmente:
— Claro.
— Acredito... que Amon deixou com você o coração que contém o nome verdadeiro dele. Uma coisa assim só aconteceu antes uma vez, e Amon deve saber muito bem que é terminantemente proibido usar esse tipo de magia. Na verdade, o conhecimento desse fato foi escondido de todos, menos dos deuses. Claro, no caso de Amon, tendo acesso ao Olho de Hórus ele conheceria esse tipo de encantamento.
— Um en-encantamento? — gaguejei, um suor frio se espalhando por minha pele.
— Ele foi usado antes por Ísis e Osíris. Ísis fez um feitiço para que ela e o marido jamais se separassem totalmente. Nem a morte poderia mantê-los distantes.
— Mas Seth matou Osíris.
— Matou. Como a morte é natural e Ísis usou meios que não eram naturais para fazer o encantamento, houve... digamos... complicações. Um preço terrível foi pago, e o equilíbrio do Cosmo precisou ser ajustado. Desde então, essa coisa foi proibida.
— Mas funcionou, não foi? Quero dizer, os dois ainda estão juntos. Amon me contou como ela enganou Amon-Rá para que pudesse visitar o marido.
— É. Funcionou — admitiu ele.
— Mas não entendo o que isso tem a ver comigo e com Amon. Nós rompemos a ligação, lembra? Eu tive de matá-lo.
— Sim. Mas, se um encantamento assim ligou vocês antes da morte de Amon, ele ainda teria efeito após a sua separação.
— Bom, que eu me lembre, Amon não fez nenhum encantamento.
— Não estou aqui para julgar nenhum de vocês. O que aconteceu, aconteceu. Meu propósito é consertar a importante questão que tenho em mãos.
— Encontrar Amon — murmurei, pensativa. Ele curvou a cabeça, confirmando, e eu disse: — Eu entendo. De verdade. Mas receio que você não entenda. Amon não quer voltar para o ponto em que estava. Ele quer largar o trabalho.
— Não, Lilliana. Você é que não entende. Amon precisa ser resgatado. Se você não quer fazer isso para salvar o Cosmo do pior tipo de escuridão e malignidade que pode imaginar, e se não quer fazer isso para salvar a vida de Asten e Ahmose, que sofrerão uma morte permanente no mesmo instante em que Amon morrer, talvez faça isso para salvar Amon da tortura e da dor intermináveis, pois é isso que ele está sofrendo agora.
Ele me fitou e continuou:
— O que mais me dá medo não é a morte dele ou saber que ele sofre. É que ele seja encontrado pela Devoradora de Almas, que reside no mundo dos mortos. Ela procura as almas perdidas que andam pelos Caminhos da Desolação e sacia seu apetite interminável consumindo-as. Se ela puser as mãos nele, o sofrimento de Amon será eterno, porque ela poderá se alimentar dele para sempre. A ligação de Amon com você irá torná-lo especialmente desejável para ela. Não é comum ela ter a oportunidade de se refestelar com um coração como o de Amon, um coração cheio de amor. As almas enegrecidas que mandamos para ela nunca são suficientemente satisfatórias, e qualquer energia que ainda mantenham é consumida muito depressa. O poder dela é contido simplesmente porque a fazemos passar fome. Um coração suculento como o de Amon, alimentado pela ligação entre vocês, iria lhe dar energia suficiente para escapar dos confins do mundo dos mortos.
— Achei que você tivesse dito que o coração dele estava desaparecido.
— Essa é a minha... teoria.
— Então como ela pode comê-lo?
Anúbis suspirou.
— O elo entre Amon e os irmãos, e entre vocês dois, torna os quatro suscetíveis, pois ela pode encontrá-los através de Amon. Qualquer pedaço do coração de Amon que reste, seja sua memória ou sua alma, será tão atraente para ela quanto o sangue fresco é para um tubarão.
Santo céu egípcio! Minhas mãos tremiam. Eu não sabia se entendia tudo que Anúbis estava explicando, mas não podia negar a seriedade da situação.
— Supondo que tudo isso seja verdade, e que eu acredite e queira fazer alguma coisa a respeito, por que eu não poderia simplesmente usar nossa conexão e dizer a ele para sair de lá?
— Porque, mesmo que você pudesse dizer, o mundo dos mortos é projetado para prender a pessoa assim que ela entra.
— Então o que vai evitar que eu fique presa lá junto com ele?
— Vamos amarrar você ao além. E a “corda” só funciona com alguém vivo. Assim que você localizar Amon, a corda ficará ativa e você irá segui-la até um ponto de saída, onde iremos esperar para tirar os dois.
— “Iremos”?
— Sim, nós cinco: Ísis, Osíris, eu, Néftis e Maat.
— E Asten e Ahmose?
— Estão ocupados cumprindo suas tarefas.
— Certo, e Amon-Rá ou Hórus? Eles não se importam com o que está acontecendo?
— Como Amon está imbuído do poder de Hórus e Amon-Rá, eles não podem intervir diretamente. Usar seu poder para trazer Amon de volta alertaria a Devoradora de sua presença. Além disso, Amon-Rá não ficou totalmente convencido de que os Filhos do Egito eram necessários, para começo de conversa. Foi só com grande relutância que ele concordou em compartilhar seu poder. Imagino que ele considere a traição de Amon aos presentes que eles deram como uma confirmação de que estava correto em sua posição original, e provavelmente me culpa por escolher um vaso defeituoso.
— Bom para você. Bem, pelo menos os deuses não vão jogar espinhos no meu caminho, certo? — Anúbis pareceu subitamente desconfortável. — Eles não fariam isso, certo? — insisti.
— Só posso dizer que, para entrar no além, que é necessariamente o seu ponto de partida, você terá de convencer Amon-Rá a lhe permitir viajar em sua barca celestial.
— Você está falando da mesma barca em que Ísis viajou quando o enganou?
— É. E ele provavelmente não vai cair no mesmo truque de novo.
— E não vai simplesmente me dar permissão...
— Não. Como eu disse, ele não vê a coisa do mesmo modo que nós.
— Que generosidade! Bom, resumindo: eu preciso enganar o deus mais poderoso do Egito ou convencê-lo a me dar um lugar em sua barca, entrar no mundo dos mortos com uma corda enrolada na cintura e lutar contra vários monstros e demônios, inclusive um que deseja comer meu coração, tudo isso na esperança de ser capaz de me orientar num mundo cheio de armadilhas, localizar Amon e convencê-lo a voltar e retomar o trabalho que ele odeia, sem que nenhum de nós dois tenha uma morte permanente. É isso?
— A corda é figurativa.
Cruzei os braços. Ele fez uma careta.
— É um resumo grosseiro, mas não é inexato.
— E por que, exatamente, você mesmo não faz isso tudo?
— O coração dele só fala com você, Lilliana Young. Se eu entrasse no mundo dos mortos, poderia passar uma eternidade procurando por ele. E quem cumpriria com minhas tarefas nos séculos que eu passaria tentando encontrá-lo? Eu teria de lançar luz em cada fenda sem fundo, em cada buraco úmido e em cada pântano infestado de monstros daquele lugar. O mundo dos mortos é tão vasto, tão... perturbador... que a probabilidade de eu encontrá-lo antes da Devoradora é pequena. Você, minha cara, com uma linha direta com o coração de Amon, vai nos poupar tempo. Você é nossa melhor chance.
Suspirei, esfregando as têmporas.
— E se... — fiz uma pausa. — E se eu encontrá-lo e ele não quiser voltar?
Anúbis deu a volta na cama e pôs as mãos nos meus ombros.
— Você vai explicar tudo a ele.
— Mas...
— Lilliana, Amon deixou o além por sua causa. E, por você, ele irá retornar.
Será? Como eu poderia fazer isso? Eu não era nenhuma heroína egípcia. Mal conseguia usar uma faca para cortar uma maçã, quanto mais uma espada contra um monstro, presumindo que eu ao menos recebesse uma espada. Considerando a abordagem tipo “cruzar os braços e esperar para ver” que Hórus e Amon-Rá estavam adotando, eu não tinha garantia nem de chegar ao além, quanto mais ao mundo dos mortos. E, mesmo se conseguisse, como descobriria onde Amon estava escondido?
— Como vou encontrá-lo?
— Seu coração vai levá-la até ele — respondeu Anúbis, baixinho.
Havia tantas perguntas. Perguntas demais. Mesmo que eu soubesse onde ficava o mundo dos mortos, não precisaria morrer para chegar lá? Acho que minha decisão dependia do meu nível de confiança em Anúbis. Eu acreditava no que ele estava me dizendo?
Minha intuição dizia que sim. Tentei raciocinar com lógica, mas, nessa situação, a lógica me escapava. Quando a gente lida com um mundo de deuses e deusas, corações figurativos e feitiços, poderes sobrenaturais e criaturas monstruosas, não se pauta pelo cérebro, mas pelo coração. E o meu coração dizia que Amon precisava de mim. Se eu fosse honesta comigo mesma, admitiria que sabia disso havia um bom tempo.
Se tudo o que Anúbis dizia era verdade, as consequências de meu fracasso seriam maiores do que eu podia compreender. Eu perderia tudo e o Caos destruiria o mundo. De jeito nenhum eu poderia ficar parada e deixar que essa tragédia acontecesse. Se, por algum motivo, Anúbis estivesse me enganando e me usando apenas para manter Amon na linha, eu cuidaria disso mais tarde.
O luar se infiltrava pela janela e batia no rosto do deus do além. A noite estava silenciosa. Eu não ouvia os grilos cricrilando lá fora nem os roncos de vovó, e imaginei brevemente se Anúbis nos teria envolvido numa de suas bolhas de tempo, em que o mundo exterior deixava de existir.
Energia e ansiedade pulsavam pelas minhas veias e logo minha mente só conseguiu se concentrar em uma coisa. Eu não estava pensando no perigo, na incerteza, no milhão de perguntas que tinha, em Seth, nos deuses ou mesmo na Devoradora. A única coisa em que conseguia pensar era a possibilidade de rever Amon. Fui tomada por uma determinação de aço.
Anúbis pareceu sentir isso e examinou meu rosto, esperançoso.
— Você vai, Lilliana?
Hesitando apenas por um instante, respondi baixinho:
— Vou.
Anúbis me presenteou com um sorriso raro e sincero.
— Você é mesmo uma garota corajosa. Posso entender o afeto que Amon sente por você. Mas, Lilliana, há uma coisa que você precisa fazer primeiro. Se não puder realizar essa tarefa, não terá permissão de entrar no reino de Amon-Rá, quanto mais de viajar em sua barca celestial ou entrar no além.
Franzi a testa, dominada pela incerteza.
— O que é?
— Você precisa se transformar.
Engolindo o medo, perguntei:
— Quer dizer que primeiro preciso morrer?
Anúbis sacudiu a cabeça.
— Morrer, não. Para que a corda funcione, você precisa estar viva. Mas sua mortalidade será alterada. É uma coisa inevitável nesse tipo de transformação. E você deve entender que, assim que isso for feito, você nunca mais será apenas Lilliana Young. Será algo totalmente diferente.
— O que eu preciso fazer? — perguntei, aterrorizada com a resposta.
— Você terá de se tornar... uma esfinge.

3 comentários:

  1. tenho a sensação de que não será muito difícil.

    ResponderExcluir
  2. sa pohha ta ficando boa , hora do figth

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!