21 de outubro de 2016

3. Coração de esfinge

Avancei desesperada, empurrando as pessoas, e cheguei a derrubar uma criança para alcançá-lo. O que está acontecendo comigo? Era como se alguém houvesse tomado conta do meu corpo e eu estivesse só acompanhando.
Quando finalmente consegui chegar ao lado do sujeito, o que vi me fez esquecer tudo em relação ao nosso primeiro encontro. O impacto do táxi o fizera rolar para o meio do trânsito e ele fora atingido pelo menos mais duas vezes. O sangue escorria de sua boca e de um talho grande na cabeça. A lateral do corpo havia se ralado no asfalto, e os pés estavam cobertos de cortes.
Uma das mãos estava esmagada, o abdome perfeito já exibia sinais de hematomas e o ombro direito estava dilacerado.
As pessoas que passavam pareciam não saber o que fazer exceto tirar fotos com o celular.
— Para trás! — gritei para a multidão, o que não era do meu feitio.
Comecei a me afastar um pouco quando alguns deles viraram as câmeras na minha direção. Para ser justa, eles provavelmente não sabiam como proceder em relação àquele rapaz. Ora, eu mesma não sabia. O fato de ele estar consciente me espantou, considerando seu estado físico.
Desde o instante em que ele me viu, seus olhos, agora mais cor de âmbar do que verdes, não desgrudaram do meu rosto. Ele estava assustado, confuso e com dor. Pude sentir as emoções emanarem dele em ondas, e a empatia que isso me despertou foi tangível e fez correr pela minha pele um calor de pânico. Foi como se o meu próprio corpo tivesse acabado de passar pela mesma dolorosa experiência. Eu precisava ajudá-lo.
Embora muito ferido, ele tentou se sentar quando me aproximei.
— Achei você, jovem Lily — disse ele, e as palavras pareceram conter mais peso, mais significado do que apenas o óbvio.
Ele parecia um guerreiro antigo agonizando em um campo de batalha de concreto.
Ajoelhando-me ao seu lado, toquei de leve a pele lisa do seu braço e, apesar da hesitação, eu disse delicadamente:
— Achou mesmo. E olhe só o que você arranjou.
O fato de ele estar ferido, talvez até à beira da morte, aliado à minha estranha e recente compreensão dos seus sentimentos, dissipou todos os pensamentos amedrontados que eu ainda tinha em relação a ele, como pequenas bolhas que estouram e evaporam sob a luz forte do sol.
Ele continuava doido, quanto a isso não havia dúvida, mas eu agora acreditava que fosse mais um doido digno de pena do que do tipo que se deve temer. A ameaça sombria e as qualidades sinistras exageradas que eu havia associado a ele mais cedo agora me pareciam uma bobagem. Caído ali na rua, ele tinha uma aparência totalmente inofensiva.
Com um gemido, ele mudou de posição, então soltou um grito de dor. Imaginei que sua perna ou mesmo a bacia talvez estivesse fraturada. Peguei meu celular e já tinha começado a digitar o número da emergência quando ele ergueu a mão que não estava esmagada.
— Me ajude — implorou.
Apontei para o telefone.
— É o que estou fazendo.
— Não.
Ele balançou a cabeça, fechando os olhos ao cerrar os dentes. Depois de arquejar por alguns segundos, tornou a cravá-los em mim. Encarei aqueles olhos e senti um fascínio inexplicável. O barulho de Nova York desapareceu. O mundo além de nós dois deixou de existir. Por um instante, imaginei-me afundando nos lagos profundos dos seus olhos e me perdendo para sempre. Ai, caramba, onde é que eu fui me meter?
— Me ajude — repetiu ele.
Suas palavras me tiraram daquele transe estranho, que parecia um sonho, e os ruídos da cidade tornaram a assaltar meus ouvidos. Automaticamente, deixei o celular cair na calçada, mal percebendo quando a capa saiu, e estendi a mão para a dele. Um choque queimou meus dedos e penetrou minhas veias, e a dor fez lágrimas brotarem nos meus olhos; perguntei-me se aquela seria a sensação de ser eletrocutado. Gritei entre os dentes que batiam enquanto um cheiro estranho invadia minhas narinas; parecia perfume queimado ou incenso. Com a mesma rapidez com que havia surgido, a dor começou a diminuir até se transformar em uma sensação de calor e formigamento que fez meus cabelos se erguerem na raiz e os fios fininhos flutuarem com uma descarga de energia estática. Parecia haver uma barreira invisível entre nós e a multidão.
Embora as pessoas continuassem a tirar fotos, ninguém se aproximou.
Meus músculos tremiam com os efeitos do choque. Senti-me exaurida, como se tivesse sido jogada dentro de uma secadora e centrifugada como uma pilha de roupas quente e amarrotada. Alguém apertou minha mão.
Abri os olhos de supetão e, lembrando-me de repente de onde estava, soltei minha mão da dele.
— O que foi isso? — perguntei. A euforia de fazer uma boa ação havia se evaporado de forma abrupta, substituída pelo choque diante do que acabara de acontecer entre nós. — O que você fez? — indaguei, num misto de pergunta e acusação.
Tinha a sensação de haver sido atacada, mas eu na verdade não conseguia entender por quê, e a incerteza trouxe novas lágrimas aos meus olhos.
O rapaz me estudou por alguns instantes e tive a nítida impressão de que estava arrependido do que tinha feito. Sem se dignar a me responder, ele deu um suspiro, limpou o sangue da boca e, com todo o cuidado, se levantou, testando cada perna como se não tivesse certeza de que fosse sustentá-lo. As pessoas à nossa volta arquejavam, assombradas, e tiraram mais dezenas de fotos daquele homem milagroso.
O fato de ter se recuperado o suficiente para andar não foi nem de longe tão surpreendente quanto a maneira como ele lidou com a multidão. O rapaz tinha estatura de modelo, e como eu ainda estava ajoelhada, tive que levantar a cabeça para vê-lo. O sol estava bem acima da sua cabeça, e da minha perspectiva isso criava o efeito de um halo tão brilhante que eu mal conseguia olhar para ele.
Parecendo gostar da atenção que havia atraído, ele cumprimentou as pessoas com a cabeça e sorriu enquanto girava lentamente em um círculo para olhar todas elas.
Quando ficou satisfeito, estendeu a mão de modo imperioso.
— Venha, jovem Lily — chamou, com voz grave. — Há muito a fazer.
Eu estava a ponto de lhe dizer onde ele podia enfiar aquela atitude arrogante e seu sotaque sexy quando ele me lançou outra vez o mesmo olhar penetrante. Minha visão se embaçou e tudo à nossa volta adquiriu um aspecto onírico; a ânsia de brigar me abandonou com a mesma rapidez com que surgira. Sentindo-me muito diferente do que eu na verdade era, peguei o celular como se não tivesse a menor preocupação neste mundo, enfiei-o na bolsa e deixei que ele me ajudasse a ficar em pé.
Levantar de modo tão súbito me deixou tonta, e ele pôs a mão nas minhas costas para me amparar. Sua presteza me deixou pouco à vontade, e tentei me afastar dele e abrir meu próprio caminho pela multidão, mas ele não deixou.
— Você vai ficar do meu lado, jovem Lily.
Ele pegou minha mão, pousou-a em seu braço como se estivesse me acompanhando a um baile e então começou a andar. As pessoas abriam caminho feito o mar Vermelho, e ele seguia por entre elas com a mesma segurança e o mesmo ar régio de um profeta. Sua saia plissada agora imunda e rasgada condizia com o papel.
Enquanto caminhávamos, tentei me concentrar. Sabia que havia algo muito estranho acontecendo e que o meu comportamento não estava normal, mas por algum motivo não conseguia me afastar dele nem da névoa que me rodeava.
Mesmo assim, prometi a mim mesma que, independentemente da sua recuperação milagrosa, se aquele rapaz imaginava que eu iria me transformar em uma fiel seguidora estava muito enganado, apesar de os meus atos demonstrarem o contrário.
Quando chegamos à calçada, passamos pelo meu trio de colegas boquiabertas e com o nariz colado à vidraça do restaurante.
— Desculpe meter você nisto, jovem Lily, mas é necessário — disse ele quando já estávamos a alguns quarteirões do local do acidente.
— Me meter em quê, exatamente? — sibilei, ainda pouco à vontade na sua companhia e ansiosa para fugir, embora ao mesmo tempo compelida a ficar ao seu lado.
Ele cobriu minha mão com a sua agora curada e deu um suspiro.
— Há coisas de mais para explicar, e aqui não é o lugar certo.
— Então que lugar você acharia bom para me dar uma explicação?
Ele franziu os lábios e olhou em volta, encarando os arranha-céus com expressão de assombro.
— Não sei — falou, balançando a cabeça.
— Que espécie de resposta é essa? E como você se curou? O que fez lá atrás?
Com um grunhido frustrado, ele me puxou para a sombra de um prédio com violência suficiente para me fazer dar um encontrão nele. Meu coração começou a bater de um jeito intrigante: a meio caminho entre o medo e a empolgação, muito diferente do meu normal. Minha mão livre estava espalmada em seu peito e minha pele latejava nos pontos em que tocava a dele. Meu corpo parecia sugar o calor do seu. Ele estava pegando fogo. Literalmente. Talvez estivesse com febre.
O fato de eu agora também estar me sentindo febril me deixou irritada. Eu não gostava de caras perigosos, principalmente de sujeitos carecas de saia que eu não conseguia entender. Aquele homem era diferente de qualquer outro que eu já tivesse conhecido.
Enquanto me segurava pelos ombros para me ajudar a recuperar o equilíbrio, ele murmurou:
— Você faz perguntas de mais, Lily. Seu pensamento é excessivamente agitado. Isso é uma distração a mais para mim em um mundo já repleto de caos. — Ele deu alguns tapinhas delicados no meu ombro. — Tente acalmar sua mente. Não quero fazer mal a você.
— Isso deve ser o que todos os sequestradores alienígenas dizem — resmunguei, perguntando-me por que os pensamentos sarcásticos que eu sempre controlava estavam de repente escapulindo de minha boca.
— Preciso descansar alguns instantes — explicou ele com naturalidade, e então me soltou quando me contorci para me desvencilhar.
Afastou-se alguns centímetros, até seu corpo ficar totalmente banhado pelo sol quente, então se recostou e fechou os olhos, confiando que eu não iria embora. Sorri, segurei a bolsa com mais força e me preparei para sair correndo, mas constatei que não conseguia erguer os pés. O que está acontecendo?, pensei. Eu precisava me acalmar. Quando enfim parei de pensar em ir embora, consegui dar um passo.
Passei vários minutos testando minha capacidade de me locomover. Eu conseguia andar em círculos, sentar em um banco ali perto, ir até uma lixeira, mas, quando me afastava demais dele, meu corpo empacava. Era como se uma corrente invisível me prendesse a ele. Alguma coisa está muito errada comigo!
Tentei abordar alguém para explicar que era uma espécie de prisioneira, mas as palavras saíam sempre erradas. Em vez de implorar por ajuda, eu pedia uma caneta emprestada. Quando tentei denunciar o rapaz a um policial que passava, falei:
— Que dia bonito, não é, seu guarda?
Eu precisava me afastar dele. Não. Isso está errado. Por que iria querer me afastar dele? Minha mente parecia estar me pregando peças. Depois de algum tempo, aceitei o fato de que, por enquanto, precisava ficar com ele. Quando isso aconteceu, tive a sensação de conseguir respirar com mais facilidade e meus pensamentos ficaram mais focados. Sentando-me no banco de madeira, comecei a examiná-lo enquanto aguardava, tentando entender que tipo de domínio ele tinha sobre mim.
Se eu fosse como as outras meninas do meu colégio, estaria em prantos, mas, em vez disso, minha mente se encheu de perguntas. Era assim que eu lidava com situações estressantes. Analisava tudo com calma até encontrar uma solução. Como um cara que acaba de sofrer um acidente sério se cura tão depressa dos ferimentos? Quem é ele? Que poder estranho é esse que usa para me manipular? O que ele quer de mim? Esfreguei o ombro. Precisava de um analgésico. Uma dor de cabeça daquelas estava a caminho; já podia senti-la subir pela nuca. E por que estou com a sensação de ter sido atropelada por um caminhão? Eu não sei nem o nome desse sujeito.
Depois de vários minutos observando-o reclinado contra a parede, fui ficando inquieta. Peguei o caderno e a caneta na bolsa, abri uma página em branco e então parei, sem saber por onde começar. Ou ele não se importava ou então não reparou que eu o estava estudando, então me demorei examinando seu rosto.
Ele era bonito, mas sua beleza parecia... de outro mundo. Mesmo quando uma nuvem que passava lançou uma sombra sobre ele, seu corpo parecia brilhar. Não como um letreiro de neon, nada disso; era imperceptível, a menos que se estivesse prestando realmente atenção, mas ele irradiava um leve brilho, como se estivesse o tempo todo debaixo de um refletor.
Levantei a cabeça para começar a fazer seu retrato, mas deparei com ele me observando com seus olhos verdes tranquilos.
— Hora de ir, Lily — anunciou ele.
— Ir para onde? — perguntei.
Ele endireitou os ombros largos, empertigou-se até estar completamente ereto e olhou para os prédios em volta. Estudou os dois lados da rua como se estivesse avaliando nossas alternativas.
— Não sei. É a primeira vez que vejo monumentos desse tamanho. — Inclinando a cabeça, ele perguntou: — Qual é a distância daqui até Tebas?
— Tebas? — Dei uma risadinha. — Hã, bom, digamos que é um pouco mais longe do que eu andaria com estas sandálias.
Tapei a boca com as duas mãos, chocadíssima por ter dito exatamente o que estava pensando. Comentários sarcásticos e ácidos com certeza não tinham a aprovação da minha mãe, e eu havia me esforçado muito ao longo dos anos para desenvolver o hábito de aguardar alguns instantes antes de responder.
Havia tempos eu aprendera que minha reação natural à maioria das situações era o humor, sob uma forma ou outra, e nos círculos que meus pais frequentavam não havia lugar para uma filha espirituosa.
Alheio a meus pensamentos, ele baixou os olhos para minhas sandálias e franziu o cenho.
— Muito bem. Vamos arrumar outro meio de transporte.
Ele se afastou da parede e se aproximou de mim com uma graça felina e a mão estendida. Virei a cara com um movimento brusco, o que pareceu magoá-lo.
— Fique parada — disse ele suavemente, acariciando meu rosto de leve.
As pontas de seus dedos pareciam cobertas de sol liquefeito, e, ao seu toque, o calor pareceu se infiltrar em minhas faces. Tive a nítida impressão de que ele estava avaliando meu corpo, e não como um cara que confere as curvas de uma garota.
— Você está enfraquecida — disse ele por fim. — O acidente diminuiu nossa força. Nós dois precisamos de substância.
— De novo essa palavra.
Inclinando a cabeça, ele perguntou:
— Você prefere outra?
— Não, tudo bem, contanto que eu não seja um item do seu cardápio — brinquei, pouco à vontade.
— Eu não consumo carne humana. Essa prática é comum na sua cidade?
— Hã, não.
Ele pareceu aliviado.
— Que bom. Eu preferiria passar fome durante minha estadia aqui.
— Bom, pelo menos eu posso riscar “canibal” da lista. Estava com medo de que você fosse me picar em pedacinhos e então sacar uma frigideira.
Suas sobrancelhas se abaixaram enquanto ele se concentrava, depois se ergueram quando sua boca se curvou para cima em um sorriso genuíno. Foi uma expressão tão solar, tão cheia de contentamento, que me peguei querendo me banhar naquele sorriso. Era como se o sol tivesse estado coberto por nuvens de tempestade mas naquele breve instantehouvesse aparecido, aquecendo-me de um jeito que me fez querer vê-lo sorrir outra vez.
Minha primeira avaliação a seu respeito estava muito equivocada. Aquele rapaz não era um modelo de capa de revista, um doido, um assassino psicopata, nem qualquer uma das outras etiquetas que eu tentara colar nele. O poder que pairava sobre seus ombros não provinha de riqueza ou de beleza, embora fosse evidente que ele tinha pelo menos uma dessas qualidades. Não, a confiança daquele rapaz não tinha por base um complexo de superioridade. Não era uma coisa superficial.
— Quem sabe mais tarde — disse ele, com um sorriso torto. — Me diga uma coisa, que colheitas se faz nesta cidade de ferro? Não estou vendo nenhuma plantação, mas sinto cheiro de comida por toda parte.
Colheitas?
Ele me segurou pela mão, me puxou do banco e perguntou:
— Você me ajuda a encontrar comida, Lily?
Tive a sensação de que ele estava pedindo muito mais do que indicações sobre como chegar à lanchonete mais próxima, e de repente tive certeza de algumas coisas. Primeiro, ele estava fora do seu ambiente, era literalmente um estranho em uma terra estrangeira. Segundo, embora sem dúvida se sentisse à vontade no próprio corpo, estava tendo momentos de confusão e dúvida, o que o deixava inseguro e hesitante, sentimentos que o incomodavam. Em terceiro lugar, parecia mesmo precisar de mim. Isso, mais do que tudo, estava claríssimo.
Talvez a solução não fosse difícil. Quem sabe se eu simplesmente lhe comprasse um hambúrguer e indicasse a direção que ele devia seguir, aquela história de pseudo-hipnose acabasse, nós nos despedíssemos amigavelmente e eu pudesse ir para casa tentar entender tudo aquilo. Cogitei a hipótese de alguma força desconhecida ter nos unido, e de que o meu papel como seu anjo da guarda logo chegaria ao fim. Se não fosse isso, eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
Muitas vezes eu descobria que a solução mais óbvia era a certa. Ele queria comer, então eu iria lhe dar comida e depois veria o que fazer.
— Bom... — Olhei em volta à procura de um lugar para comer ali por perto. — ... em Nova York existe um pouco de tudo.
— Esta cidade se chama Nova York?
— Sim — falei devagar, observando sua expressão.
Se ele fingia não saber onde estava, era um ator exemplar.
— Excelente — disse ele. — Então me leve para comer um pouco de tudo.
Olhei para sua saia.
— Hum, acho que o único lugar para o qual você está vestido adequadamente é uma barraquinha de cachorro-quente.
Ele franziu o nariz e exclamou:
— Vocês comem... cachorro? É quase tão ruim quanto comer gente!
— Não! — Eu ri. — Cara, você é mesmo de outro mundo. Cachorro-quente é feito de carne de porco ou de boi.
— Ah, entendi. Então vou querer um cachorro... quente.
— Agora mesmo, Ali Babá.
— Por que está me chamando assim?
— Preciso chamá-lo de alguma coisa. Você ainda não me disse o seu nome.
Vi uma barraca de comida do outro lado da rua e fiz um gesto para ele me seguir até a faixa de pedestres. Ele obedeceu calmamente e, enquanto esperávamos para atravessar, falou:
— Amon. Meu nome é Amon.
— Certo. Amon. — Ele não pronunciava o nome do jeito mais simples, Amon. Sua versão, Ah-mun, era bem mais propensa a fazer as moças desmaiarem, contanto, é claro, que as moças em questão estivessem dispostas a desmaiar por um cara que obviamente tinha uns parafusos a menos. — Bom, muito prazer, Amon de Tebas.
— Eu não sou de Tebas.
— Ah, não?
— Nasci em Itjtawy, na época do reinado do Obscuro.
— Certo. E Itjtawy fica em que país, exatamente?
— Você provavelmente conhece a minha terra como Egito.
Sério, por que os caras bonitos e interessantes sempre precisam ter um parafuso a menos?
— Então eu devo te chamar de faraó Amon ou de rei Amon? — provoquei, entrando na brincadeira.
— Era para eu ter sido rei, mas a época dos faraós veio depois da minha.
— Arrã. — Aquilo estava ficando mais fácil. Finalmente tive a sensação de estar retomando o controle da situação. — Bom, tudo bem. Não precisa ficar mal por causa disso. Um título não é tudo na vida, certo?
Amon cruzou os braços em frente ao peito e me encarou.
— Você está rindo de mim.
— Nunca. Eu jamais zombaria de um quase-rei/não-faraó.
Ele exibiu uma expressão duvidosa e um pouco astuta demais para o meu gosto, mas deixou passar e voltou a atenção para o que estava acontecendo na rua. Parecia fascinado pelo tráfego, pelos sons: buzinas, barulhos, acenos, pneus cantando. Era quase como se nunca tivesse visto um carro na vida. O que era impossível. Só devia existir uma meia dúzia de pessoas no mundo inteiro, se tanto, que não sabiam o que era um carro.
Quando o sinal abriu, Amon esperou o tráfego parar. Só se mexeu quando segurei sua mão.
— Vamos! — chamei. — O sinal vai fechar logo, e os motoristas nem ligam se você ainda estiver atravessando.
Ao me ouvir mencionar a possibilidade de outro acidente, ele avançou depressa, apertando a minha mão e me puxando enquanto serpenteava apressado entre os outros pedestres até chegar ao outro lado com segurança.
— Não confio nessas carruagens douradas — declarou, olhando com desagrado para os táxis.
— É, bom, viajar de carruagem dourada é essencial aqui em Manhattan.
— Pensei que você tivesse dito que a gente estava em Nova York — disse ele enquanto eu o guiava até a barraquinha de cachorro-quente.
— E está mesmo. Manhattan é o nome da ilha.
— Ilha? — balbuciou ele. — Aqui é mesmo longe de Tebas.
— É, sim — falei com um tom exagerado, como se estivesse me dirigindo a uma criança. Delicadamente, dei alguns tapinhas em seu braço como se ele fosse um inválido. — Então vamos comprar um cachorro-quente para você, consertar meu celular e ligar para o serviço social para eles virem buscá-lo.
Até então eu não havia decidido o que fazer, mas aquela decisão me pareceu ser a certa. Eu me sentia exausta. Aquele cara precisava de mais ajuda do que eu podia dar, e eu queria remediar a situação quanto antes.
— Por que existe um serviço para buscar as pessoas? Eu consigo andar. Ah... uma liteira, você quer dizer? Sim, seria adequado.
— Seria, mesmo.
Sorri para ele, totalmente confusa com aquela conversa.
— O que vai ser? — perguntou bruscamente o vendedor de cachorro-quente depois de olhar Amon de cima a baixo.
— Dois completos e um refrigerante — respondi.
Amon, se é que era mesmo esse o seu nome, ficou parado bem atrás de mim, como se estivesse me protegendo das pessoas que passavam. Curioso, observou o vendedor preparar meu pedido. Quando os sanduíches ficaram prontos, entreguei-os junto com a bebida a Amon antes de tirar da carteira uma nota de dez dólares. Depois de enfiar o troco na caixinha do vendedor, conduzi-o até o banco vazio e pus minha bolsa entre nós dois enquanto ele começava a tentar tirar o papel que envolvia o cachorro-quente.
Amon deu uma mordida e pareceu gostar do sabor, mas quando abri a tampa da garrafa de refrigerante foi que as coisas ficaram realmente interessantes. Ele tomou um gole da bebida e, um segundo depois, se engasgou com o gás: o refrigerante saía por toda parte enquanto seus olhos lacrimejavam.
Peguei uns guardanapos na barraquinha e comecei a limpar o refrigerante do peito e dos braços dele.
Ele me olhava com uma expressão entre frustrada e divertida.
— Posso cuidar disso, jovem Lily.
Ele segurou minha mão e tirou o bolo de guardanapos dos meus dedos enquanto eu enrubescia intensamente e me desculpava.
— Sinto muito, foi sem querer.
Ele não se abalou nem com o refrigerante pegajoso nem com as minhas palavras atrapalhadas. Mesmo assim, forcei-me a olhar para outro lado enquanto ele terminava de se limpar, porque estava gostando um pouco demais da cena. Sentir-me atraída fisicamente pelo Sr. Quase-Rei/Não-Faraó simplesmente não era aceitável, e eu me recusava a deixar uma só semente de interesse criar raízes.
Quando terminou de limpar o peito, Amon empurrou a garrafa de refrigerante para as minhas mãos.
— Essa bebida é horrível. Não tem suco de uva ou água?
— Espere aí. — Saí e voltei instantes depois com uma garrafa d’água. — Tome. Agora, por que não me conta como veio parar em Nova York sem nunca ter ouvido falar desta cidade?
Em vez de me responder, ele tomou a água toda. Ergueu a garrafa vazia e exclamou:
— Esta água é mais deliciosa do que os beijos suaves de uma dúzia de donzelas núbeis.
De repente, não consegui mais me lembrar do que havia acabado de lhe perguntar. Ao ver que minha única reação era encará-lo como se houvesse desaprendido a pensar, o que no caso não estava muito longe da verdade, ele acenou com uma das mãos para chamar minha atenção.
— Posso beber mais um pouco de água, Lily? Estou com a garganta seca feito uma tempestade no deserto.
Que coincidência. A minha garganta também tinha secado.
— Ah... claro.
Deixei a bolsa no banco ao lado dele, peguei um pouco de dinheiro e fui novamente até a barraquinha. Quando me virei, com as mãos cheias de garrafas, vi um sujeito de capuz agarrar minha bolsa e começar a correr. Sério mesmo? É este o dia que estou tendo? Só pode ser brincadeira!
— Ei! — gritei, e na mesma hora deixei cair as garrafas; duas se quebraram e derramaram o conteúdo nos meus pés. Sem hesitar, saí correndo atrás do ladrão. — Pega ladrão! — gritei, e fiquei grata ao ver vários pedestres tentarem interromper sua fuga.
Antes de eu chegar até ele, porém, o homem estacou de forma abrupta, como se não tivesse mais controle sobre o próprio corpo. Virou-se de frente para mim, enquanto uma voz às minhas costas dizia:
— Você vai devolver os pertences dela.
Dei um grunhido.
— Agora não, Amon. Deixe que eu resolvo isso. — Dirigi-me ao ladrão: — Se você devolver, eu não chamo a polícia.
O sujeito aquiesceu, com os olhos vidrados, e me entregou a bolsa. Em seguida estremeceu como quem desperta de um sono e mergulhou na multidão, desesperado para dar o fora dali. Lancei um breve olhar para Amon, balancei a cabeça com incredulidade e abri o zíper da bolsa para conferir o conteúdo.
Mais uma vez havia se juntado gente à nossa volta, e Amon começou a interagir com as pessoas. Algumas chegaram a aplaudir e ele ergueu as mãos, parecendo satisfeito com os elogios.
Depois de constatar que nada havia sumido, fechei o zíper, zangada, e pus a bolsa no ombro.
— Inacreditável — murmurei para mim mesma. — Não, falando sério. Caramba, não dá para acreditar! É o dia mais louco da minha vida!
Com forte necessidade de me afastar de todos, girei nos calcanhares. Amon logo me alcançou.
— Para onde estamos indo, jovem Lily?
— Não sei para onde você está indo, mas eu vou para casa.
— Para a sua casa?
— É.
Ele não teve dificuldade para acompanhar meu ritmo, embora àquela altura eu já estivesse quase correndo. Na esquina, levantei a mão para chamar um táxi e na mesma hora um encostou.
Quando puxei a porta, Amon disse, cauteloso:
— Não confio nas carruagens douradas.
Dei um suspiro e tornei a me virar.
— Olhe, o melhor que você tem a fazer é voltar para o museu. É só descer direto uns seis quarteirões. Peça para falar com o Tony. Ele é meu amigo. Diga que está tentando voltar para Tebas e eles vão ajudar você. Ele pode te comprar outro cachorro-quente e pôr na minha conta.
— Não estou entendendo, jovem Lily. Você quer que eu a deixe sozinha?
— Quero. Preciso ir para casa, tomar um banho e dormir bastante.
— Então eu vou junto.
— Não, você...
— Ei, vocês vão entrar ou não? — perguntou o taxista, impaciente.
— Espere um pouco! — gritei de volta, acrescentando ao meu novo repertório o ato de gritar com taxistas.
O motorista calou a boca e depois disso se contentou em me lançar olhares de irritação.
Diante da expressão de expectativa de Amon, não consegui me segurar. Já estava suficientemente sob pressão sem contar com ele. Chegara a hora de saltar do trem dos malucos. Última parada. Desembarque obrigatório.
Esfregando as têmporas, expliquei:
— Eu sinto muito, mesmo, mas não posso fazer isso, seja lá o que isso for. Minha cabeça está doendo. Quase fui assaltada. Eu tinha que almoçar com as Três Irmãs Esquisitas. Canalizei tanta eletricidade estática que minha boca está com gosto de marshmallow queimado. Para completar, estou acompanhando o Capitão da Doidolândia por Nova York. Dá para entender por que preciso ir para casa?
Amon acariciou minha bochecha com a ponta de um dedo, como tinha feito mais cedo, e assentiu com a cabeça de forma muito dócil.
— Sim. Entendo. Esta noite você precisa descansar.
— Você vai ficar bem?
— Nada de ruim vai acontecer comigo, Lily.
— Ótimo. — O peso da responsabilidade que eu sentia em relação a ele foi como um grosso cobertor que de repente escorregasse dos meus ombros. Apesar disso, mordi o lábio e, quando ele deu as costas, chamei-o de volta: — Espere!
Buscando na carteira, peguei várias notas de vinte e as pus na sua mão.
— Se ficar com fome ou com sede, entregue uma dessas notas ao homem do cachorro-quente.
— Hakenew — disse ele, cerrando o punho e amassando as notas todas no meio dele. Ao ver minha cara de incompreensão, esclareceu: — Agradecido.
— Ah. Bom, então tchau. E boa sorte.
— Que a sorte acompanhe você também — respondeu ele.
Entrei no táxi, fechei a porta e pedi ao motorista que seguisse para o Central Park. Enquanto ele esperava que o tráfego lhe permitisse sair, Amon segurou a porta, cuja janela estava aberta, e se aproximou para falar comigo.
— Jovem Lily? — perguntou.
— Sim?
Ele me dirigiu um daqueles seus sorrisos luminosos especiais.
— Você tem o coração de uma esfinge.
Eu estava a ponto de lhe perguntar o que isso queria dizer quando o taxista saiu com o carro. Amon ficou me encarando enquanto a distância entre nós aumentava e, apesar da certeza da minha decisão de largá-lo ali, permaneci desconfortavelmente virada no banco, olhando para ele até vê-lo ser tragado pelo turbilhão de pessoas que se moviam feito formigas pela selva escura de Manhattan.

10 comentários:

  1. Ele me lembra o Ren!
    Ass: Bina.

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    1. Isso! ❤😻

      ~ Thata

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    2. Awiin livro lindo igual A maldição do tigre ❤❤😍

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    3. Vdd, lembra msm o Ren😘


      Célia

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  2. Exatamente. Ele tem um pouco do jeito do Ren, principalmente no primeiro livro.

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  3. Tbm tive a mesma impressão ...I LOVE REN ❤❤

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  4. Quem é Ren? me indiquem o livro *-* Estou amando este!

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    1. oi ellen o Ren e do livro a maldiçao do tigre ... recomendo que vc leia bjs

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    2. Tb recomendo muito, amei o da maldição do tigre e ja to amando essa!

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