25 de outubro de 2016

28. As Águas de Ísis

A poeira assentou e eu me ajoelhei, como se estivesse congelada. Minutos se passaram, ou talvez fossem apenas segundos. De qualquer modo, não tive consciência de nada até que senti uma mão tocar meu ombro.
— Lily?
Não reagi. Ahmose parou à minha frente e agachou-se. Eu o vi estalando os dedos, mas nem senti quando deu um tapa no meu rosto.
Ele tentou outra abordagem.
— Tia?
Eu queria responder, mas não conseguia. Estava presa na minha pele.
— Ashleigh? — chamou ele.
— Sim? Estou aqui — respondi, a voz parecendo vir de uma grande distância. Era minha, mas ao mesmo tempo não era.
— Você vai ter de me ajudar — disse ele. — Há alguma coisa errada com Lily.
Minha cabeça confirmou.
— Com Tia também — respondeu Ashleigh. — Elas foram para um lugar muito escuro. Será que vão voltar?
— Espero que sim. Precisamos sair daqui. Asten e Amon ainda estão vivos. Por muito pouco. Aparentemente nossas energias estão sustentando os dois. Espero que os deuses possam ajudá-los a se recuperar.
— O que devo fazer? — perguntou Ashleigh.
— Você pode curá-los usando a estela? A Devoradora me exauriu. Estou fraco demais para consertar o que ela fez com eles.
— Desculpe, querido — disse minha voz, num lamento. — Não posso fazer a cura sem Lily.
Ahmose girou, examinando a arena.
— Certo. Então você terá de invocar o poder da corda para nos levar de volta. — Ahmose pegou Amon e o colocou ao lado de Asten, depois se ajoelhou e estendeu a mão, indicando que Ashleigh deveria se posicionar entre eles. Quando se ajoelhou diante de Ahmose, ela encostou a palma da mão em seu rosto. Os olhos cinzentos dele se ergueram e neles pude ver a dor, a solidão e o medo avassalador de perder aqueles a quem amava.
— Não se preocupe tanto com eles — disse Ashleigh. — Seus irmãos vão viver.
— Como você sabe?
— As fadas têm o dom de saber das coisas. Além disso, você tem bons braços — disse ela, dando um tapinha no ombro forte de Ahmose.
Ele deixou escapar uma risada triste, sentida.
— O que isso tem a ver?
— A árvore das fadas sempre disse: “Quanto mais alto e forte você alcançar, mais pessoas poderá abrigar embaixo de seus galhos.” Tenho a sensação de que você tem força suficiente para levar a carga inteira.
— Espero que esteja certa, Ashleigh.
— Em geral as fadas estão, mas nem sempre contam o que sabem. Bom, o que você acha de a gente dar o fora deste buraco fedorento e maligno?
Ahmose soltou o ar e assentiu.
Ashleigh pôs uma das mãos no braço de Asten e a outra no de Amon.
— E agora? — perguntou ela.
— Feche os olhos e agarre a corda.
Ashleigh obedeceu e senti meu corpo estremecer ligeiramente quando as mãos de Ahmose seguraram nossos ombros. Sentimos um ligeiro puxão, mas nem de longe forte o suficiente.
— Não consigo — arquejou ela. — Não sem Lily e Tia.
A culpa me assaltou. Eu sabia que deveria ter mais controle. O fato de não sentir mais minha conexão com Amon fez com que me encolhesse no fundo da mente. Forçar Ashleigh a assumir a liderança era errado, mas eu simplesmente não conseguia ser uma participante ativa no que acontecia. A Devoradora tinha escapado. Era minha culpa. Amon me dera a energia que lhe restava e eu a desperdiçara. Não matara a Devoradora. Ela fugira, e agora o mundo corria risco. Se ao menos eu pudesse ter descoberto seu nome verdadeiro!
— Tia! Lily! — gritou Ahmose. — Precisamos de vocês! Ajudem!
Tia acordou e tentou me cutucar, me fazer avançar, mas afastei minha consciência dela. Sem Amon, minha mente era um buraco negro tão absoluto que eu tinha a sensação de que ela poderia me engolir.
— Hassan — sussurrou Tia. — Pense em Hassan.
Tia uniu sua mente à de Ashleigh e forneceu à fada imagens de seu breve contato com o egiptólogo. O vento soprou à nossa volta, levantando poeira. Ganhou intensidade até virar um ciclone, envolvendo nossos corpos, e uma fina coluna de luz caiu sobre nós.
— Estou vendo a corda! — gritou Ashleigh. — Mas ainda não é suficiente!
— Desculpe, Lily — sussurrou Tia em minha mente, e então minha consciência se deslocou.
A percepção me empalou, cravando-se em mim como agulhas.
— Não! — gritei. — Não posso! Não sem Amon!
Tia e Ashleigh se enterraram em meus pensamentos, escavando meu cérebro com garras afiadas e procurando os pedaços de que precisavam. Uma imagem do Dr. Hassan foi arrastada até a superfície. Depois outra e outra. Escutei a voz dele, vi seus olhos, senti o cheiro de poeira que vinha de seu colete quando o abracei. A luz se intensificou, cercando-nos completamente, e fomos atraídos para dentro dela.
Então tudo ficou escuro.



Luzes minúsculas perfuravam as sombras ao nosso redor. Escutei vozes.
— Eles estão passando pelas Águas de Osíris, a caminho do Rio Cósmico.
— Agora as três são uma só — murmurou outra voz indistinta. — São mais importantes do que você pode imaginar.
— Não são totalmente uma. Ainda não.
Estrelas surgiram no meu campo de visão. Agitavam-se embaixo de mim, movendo-se sem padrão, mas pude reconhecer uma constelação fixa. Ela formava uma espécie de símbolo. Um símbolo que eu conhecia.
Era o sol nascente. O símbolo que o Dr. Hassan tinha me ensinado. O sol poente havia me guiado para o além, para a morte, e, se esse era de fato o sol nascente, isso significava que essa era a saída.
E traria a vida.
A vertigem me tomou e fechei os olhos, respirando pelas narinas na tentativa de aplacar a náusea.
— Ela não terá utilidade se essa melancolia continuar — disse Maat.
Uma voz que parecia a da deusa Néftis sugeriu:
— Talvez se ela dissesse adeus...
— Ela não é a única que sofre — lembrou-lhes Anúbis.
— Então devemos lhes dar o que elas necessitam. Utilize o Sonhador — instruiu Osíris.
Um zumbido encheu minha mente e fui levada a um sonho.
Asten estava de pé na borda de um penhasco olhando as estrelas. Pus a mão em seu ombro. O brilho da vida em seu corpo era tão fraco que eu mal podia sentir.
— As estrelas chamam — disse ele baixinho. — É como imaginamos no nosso sonho.
Virando-se para mim, ele sorriu e encostou a testa na minha.
— Meu desejo mais fervoroso é ver você outra vez. É com isso que vou sonhar agora. — Dando um suspiro fundo, acrescentou: — Por mais que eu desejasse que você estivesse aqui somente por mim, sei que há outro que você busca.
Antes que ele pudesse se virar, encostei a ponta do dedo na covinha de seu queixo e depois encostei os lábios nos dele. Agora seu gosto e seu cheiro me eram familiares. Asten era passado, presente e futuro, e nele encontrei algo que pensei ter perdido para sempre sem ao menos saber que sentia falta.
Com um pequeno gemido soltei-o, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Ele enxugou as lágrimas com o polegar e fechou os olhos, e seu corpo tremeluziu antes de desaparecer. Em vez da mão de Asten, agarrei a de outra pessoa.
— Amon? — perguntei, incrédula.
— Estou aqui, jovem Lily.
— Está mesmo? — perguntei, encostando a mão em seu rosto.
— Sempre estive. Nunca deixei você e nunca vou deixar — declarou, me abraçando. — Você acredita?
Respirei fundo e assenti ligeiramente, mas perguntei:
— Por que precisamos ficar separados?
Amon segurou minha mão.
— Nossos corações estão costurados juntos, Lily. Não se esqueça disso. Palma com palma... — Ele entrelaçou nossos dedos, apertando minha mão e pressionando-a de encontro ao seu coração. — Nós nos arriscamos juntos, vivemos juntos ou morremos juntos.
— Não vou esquecer — eu disse, envolvendo seu pescoço com os braços.
— Ótimo — sussurrou ele, os lábios colados aos meus. — Lily?
Meu corpo tremeu.
— O quê?
— Prometa que virá ao meu encontro em seus sonhos.
Com um suspiro fundo e trêmulo, respondi:
— Sempre. Eu prometo.
Então ele me beijou. A ferroada de uma brisa forte dançou nos riscos das lágrimas no meu rosto, mas eu a ignorei, deixando jorrar toda a emoção, todo o desejo e todo o amor naquele abraço.
Os lábios de Amon se moveram apaixonadamente sobre os meus. Seus braços me apertaram com tanta força que eu não conseguia respirar, não conseguia me mexer, mas eu não queria mesmo. Desfrutei de seu calor, do toque da luz do sol. O esplendor de seu amor assentou-se tão profundamente no meu coração que pareceu enraizado ali desde sempre.
Rodopiamos em círculos estonteantes, ligados num abraço tão poderoso que nem o vendaval que surgiu à nossa volta conseguiu nos separar.
Então, de repente, Amon foi arrancado dos meus braços.
Eu estava sozinha.
Mergulhei, gritando por ele. As constelações se revolviam ao meu redor, o horror inundando meu corpo quando vi mais à frente uma nebulosa turbulenta. Ela me esperava com uma bocarra gigantesca, pronta para me engolir inteira.
O Cosmo girou, estrelas reluzindo enquanto observavam minha descida com olhares gélidos, distantes. Eu girava cada vez mais depressa; as luzes se turvaram, transformando-se em linhas compridas até eu não conseguir mais distinguir o que era em cima e o que era embaixo.
O tempo desacelerou. Imobilizou-se, como as estrelas que piscavam.
Então, suavemente, como uma pluma caindo, meu corpo foi embalado e dormi como se estivesse morta.

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