25 de outubro de 2016

27. Nomes secretos

O corpo da Devoradora desapareceu numa explosão de criaturas aladas logo antes que minha lança a atravessasse. Os morcegos foram substituídos por dezenas de demônios que brotaram de rachaduras no chão. Eles avançaram em minha direção. Justamente quando erguia a faca que restava para me defender, dois corpos desceram do céu e enfrentaram o grupo com um retinir de armas.
Asten havia guardado o arco e agora lutava com as cimitarras de ouro do irmão caído. Nós nos posicionamos de modo que Amon estivesse protegido no centro do triângulo que formávamos. Voltados para fora, cuidávamos também das costas uns dos outros enquanto lutávamos.
— Peguem Amon e vão embora! — gritei enquanto cravava a lança na garganta de um oponente. — Eu os detenho!
— Não podemos fazer isso, leoazinha — disse Asten por cima do ombro no momento em que girava as duas cimitarras em direções opostas, decapitando um demônio que desapareceu numa nuvem de poeira. — Precisamos matá-la. Se fizermos isso, Amon vai ter o poder de volta. Se não, talvez nunca se recupere.
— Ótimo.
Os demônios e os chacais que restavam e que a rainha conseguira canalizar para nosso círculo no centro da tempestade ainda eram muitos e continuavam a nos atacar num fluxo interminável. A rainha não estava mais à vista.
Ergui instintivamente o escudo e, quando o fiz, o escaravelho do coração esquentou na minha cintura. Um poderoso jorro de luz verde disparou e derrubou uma dúzia de criaturas, cujos berros de agonia ecoaram nos muros de ferro antes que elas se transformassem em nuvens de pó.
— Que prático! — falei, e tentei usar o poder de novo quando a próxima horda de criaturas se reuniu cautelosa ao nosso redor.
Infelizmente, não consegui descobrir como repetir o processo. Frustrada, cravei o escudo esmeralda na areia e joguei o elmo de lado. Asten conseguira recuperar minha lança perdida quando um demônio decidiu usá-la contra ele. Atirou-a para mim e imediatamente me senti melhor tendo as duas facas-lanças.
Sem dúvida existia um lado meu que ansiava por me testar na batalha. Queria ver o medo no rosto dos oponentes enquanto os estripava. Era muito mais satisfatório de perto do que à distância do comprimento de uma lança, em especial ao matar os chacais.
— Eu gostava mais de você com o arco — disse Asten, olhando para trás enquanto esperávamos o próximo ataque dos demônios.
Os três ofegávamos. Mesmo com a força da esfinge, eu estava me cansando. O vento amainou e os demônios que tinham se comprimido contra o muro começaram a vir em nossa direção. Meu peito rugia de expectativa.
— Prefiro as garras, se tiver opção. — Era Tia, que viera à superfície para falar. Nós três vínhamos agindo harmoniosamente na maior parte do tempo, mas o fato de estar com as costas quase encostadas em Asten a havia trazido à tona.
— Aposto que sim — disse Asten com um sorriso de triunfo totalmente deslocado, mas que de algum modo me fez sorrir. — Vamos deixar as coisas um pouquinho mais a nosso favor, está bem? — Ele começou a murmurar um encantamento e achei que o resultado seria sua familiar nuvem de obscuridade. Em vez disso, toda a arena foi banhada pela luz de estrelas.
Estendendo as mãos, Ahmose juntou seu poder ao encantamento e a luz se multiplicou por dez.
— Vejamos se os que conspiram no escuro correm feito baratas à luz do dia — gritou.
Seus instintos estavam certíssimos. Os demônios piscaram e começaram a tatear às cegas, trombando uns nos outros enquanto nos procuravam, o que os deixava muito mais vulneráveis ao nosso ataque. Isso igualou um pouco as chances. Mas os chacais ainda chegavam facilmente até nós, tentando morder nossos tornozelos e nos separar.
Conseguimos resistir – isto é, até que a rainha, que não tinha o mesmo problema com a luz, lançou alguma magia. Eu a vi parada atrás de seu escravo Minotauro, que tinha os braços cruzados e exibia uma expressão presunçosa, como se estivesse gostando do espetáculo diante dele.
Com o canto do olho, vi os braços da rainha erguidos. Tive um mau pressentimento e recuei alguns passos.
— Ela está aprontando alguma! Cuidado! — alertei.
Os demônios que tínhamos matado haviam desaparecido numa nuvem de poeira, mas os chacais, sendo criaturas naturais do mundo dos mortos, estavam tendo sua primeira morte e continuavam empilhados no chão ao redor dos nossos pés. O feitiço dela os estava trazendo de volta à vida.
Como cães zumbis, os membros dos chacais tremeram e eles se levantaram devagar. Logo estávamos cercados, lutando contra legiões de chacais mortos-vivos, e foi somente alguns momentos de agonia mais tarde que nos lembramos de que o único modo de lhes dar uma segunda morte era apunhalá-los no coração.
Infelizmente, o coração deles não ficava no lugar esperado. Com um golpe de sorte de Ahmose, logo descobrimos que o coração de um cão do inferno ficava logo abaixo do pelo grosso de seu pescoço, tendo uma placa de osso como única proteção. Ele gritou rapidamente o que deveríamos fazer depois que seu chacal morto-vivo desapareceu numa nuvem de poeira. A arma precisava ser cravada no lugar certo.
Ahmose foi mordido violentamente em seu braço dominante, o que inutilizou o membro. Eu perdi uma das facas-lanças no corpo de um chacal que teve a primeira morte muito longe do meu alcance. Então, quando achávamos que as coisas não poderiam piorar, meu poder de manter o vento falhou completamente, e fantasmas recém-chegados começaram a nos atacar também.
Vinham correndo para nós numa fúria enlouquecida. Evidentemente nossa resistência na batalha dera tempo para que os inimigos da segunda linha chegassem. Eles não eram tão fortes como os companheiros, mas ainda conseguiam puxar meu cabelo, arranhar meus tornozelos e morder minhas orelhas. Desesperados por viver, faziam todo o possível para nos distrair. Minha determinação estava falhando. Não havia como vencê-los.
Então um zumbido glorioso, ameaçador, encheu o ar.
Os ceifadores haviam chegado.
Ainda tínhamos chance.
Enquanto desciam às dúzias, com as mandíbulas estalando, as foices curtas reluziam cortando fantasmas e chacais ao meio. No entanto, os chacais eram mais rápidos. Saltavam no ar, derrubando os ceifadores antes que eles pudessem usar as foices.
Quando os ceifadores tinham sua primeira morte, desapareciam numa explosão de luz. Eu esperava que isso significasse que eram levados de volta a Ísis, a deusa a quem ainda serviam. Eles mereciam paz depois de todo o sofrimento que haviam passado no mundo dos mortos. Quando a rainha viu que estávamos num impasse, mudou de tática e ordenou que todos que permaneciam em seu exército visassem Amon. Apesar de termos tentado mantê-lo no centro, no decorrer da batalha tínhamos nos afastado dele. Gritei e voltei numa tentativa desesperada de salvar sua vida. Um demônio com o rosto cheio de piercings ergueu um cutelo de aparência maligna tentando decapitar Amon.
Eu sabia que não tinha como chegar até Amon a tempo. Asten lutava contra três chacais ao mesmo tempo e Ahmose estava num combate corpo a corpo com um demônio três vezes maior que ele e de punhos imensos.
Corri, saltando por cima dos chacais e passando por baixo de armas que golpeavam no ar. Um fogo ardia dentro de mim. E então o tempo desacelerou. O cutelo continuava em seu arco descendente, mas se movia em câmera lenta.
Num momento eu estava correndo, no outro havia parado por completo.
Uma cacofonia de vozes encheu minha mente. Gritavam. Rugiam. Imploravam. Então, como engrenagens se encaixando, senti um estalo.
Um... dois... três.
Meu corpo subiu no ar como se eu pesasse menos do que uma nuvem. Luzes atravessaram minha visão e lá no alto vi três estrelas cadentes convergindo para um mesmo ponto, as caudas descrevendo um arco no céu, num símbolo que eu tinha visto antes – o Triângulo Impossível.
Quando as estrelas alcançaram seu destino, a luz explodiu numa chuva, caindo sobre todo o teatro. Ninguém embaixo parecia notar o fenômeno, e enquanto eu os observava, todos pareciam minúsculos e impotentes. Os fragmentos brilhantes tocaram minha pele e eu os absorvi. Fechei os olhos, respirando fundo e permitindo que o peso de minha forma corpórea me levasse de volta ao chão.
Meus pés tocaram de leve o campo de batalha e me movi entre os demônios e guerreiros como um fantasma, invisível e intocável. Quando eu soltava o ar, a cena ao redor se desenrolava espasmódica, desajeitada, como se os jogadores no campo fossem marionetes que eu poderia manipular se ao menos encontrasse os fios.
As estrelas tinham me dado um presente.
Eu sabia o que fazer.
Sabia como controlá-los.
Sorrindo, inclinei a cabeça enquanto avaliava o demônio pronto para atacar Amon. Um nome veio à tona em minha mente, enchendo-me de um sentimento de poder. Calma, com fluidez, gritei, e o som ressoou como um canhão num campo de batalha:
— Aquele Que Brande a Faca Afiada.
O demônio se imobilizou, o cutelo suspenso enquanto ele se virava para mim.
— Baixe a arma — falei gentilmente. Ele obedeceu no mesmo instante. — Sente-se e não se mexa.
Para minha surpresa, foi o que ele fez. Virei-me e olhei o monstro que lutava contra Ahmose.
Outro nome surgiu flutuando na minha consciência.
— Hipopótamo Furioso — falei com calma —, pare. Você não lutará mais. — Um a um repeti o processo, gritando nome após nome. — Serpente da Lama — gritei. — Aquele Que Dança No Sangue, Dentes do Crocodilo de Cera, Aquele Que Arde Em Fogo, Vermes O Devorem, Rebelde Inerte, Aquele Que Come Serpentes, vocês pararão de lutar imediatamente.
Assim que terminei de dizer o nome de todos os demônios, virei-me para os chacais.
— Comedor de Carniça, Pata Esmagada, Cauda Cotó, Olho Que Nada Vê, Pulga Que Pica, Comedor de Tripa, Orelha Peluda... — prossegui, dando o nome de cada criatura que lutava contra nós. Quando cheguei ao líder dos chacais, fechei os olhos e depois os abri com um sorriso. — Aquele Que Esvazia a Bexiga ao Vento. — O chacal líder ganiu, baixando a cabeça. A matilha rosnava para ele baixinho. — Sentados! — ordenei em tom autoritário.
Todos obedeceram.
A rainha gritou em fúria, o rosto bonito azedando enquanto partia para mim. Ahmose e Asten me flanqueavam com as armas em riste. Acima de nós o restante dos ceifadores pairava, as capas pretas ondulando ao vento quente.
O cheiro de morte tomou conta de mim enquanto eu olhava a Devoradora se aproximar. Não sentia medo. Nenhuma emoção além de curiosidade. Alguma outra força controlava os fios dela.
Inclinando a cabeça, nomes me vieram à mente.
Apontei para ela e disse:
— A Comedora de Corações. A Rainha da Glutonaria.
Ela cambaleou, mas se recuperou depressa. Esses nomes lhe pertenciam. Eu sabia. No entanto faltava um elemento. Alguma parte dela que eu tinha deixado de notar.
— Como é que você, uma simples garota humana, conhece os nomes que estão no Livro de Amduat? — cuspiu a Devoradora, furiosa. — Nenhum mortal jamais teve acesso a ele. Só meu senhor e eu conhecemos os nomes secretos dos que estão registrados lá.
A rainha do mundo dos mortos aproximou-se mais um passo e eu passei a língua pelos lábios, tentando forçá-la como havia feito com os outros.
— Pare! — ordenei.
Seus olhos se arregalaram e ela então sorriu, percebendo que ainda podia se mexer.
— Pensou que iria me dominar em meu próprio reino? — Ela gargalhou, a confiança crescendo a cada passo. — Você pode ter controle sobre esses lacaios estúpidos, mas não sobre mim nem sobre aquele a quem eu sirvo.
— Seth — murmurei.
— É. A barreira agora está fraca. Ele já quase consegue rompê-la, e não há nada que você e seus patéticos Filhos do Egito possam fazer para impedir. — Ela observou o cenário à sua volta e estalou a língua. — Olhe só o que você fez com meu lar imaculado.
— Você destruiu o meu — sibilei, pensando em Amon e na Floresta Turquesa ao mesmo tempo. — Nós destruímos o seu. — Gesticulei com o braço, indicando a morte que nos cercava. — Eu diria que estamos quites. Ou estaremos, assim que acabarmos com você.
A Devoradora gargalhou.
— Você não pode fazer isso. Sou a Rainha dos Corações, lembra? — Ela deu um passo adiante. — E na última vez em que verifiquei — ela mostrou os dentes, com um brilho feroz nos olhos — todos vocês tinham um.
Ela estalou os dedos e o Minotauro branco, o único servidor leal que lhe restava, adiantou-se.
— Sim, minha rainha? — disse ele.
— Traga-me o coração dela.
Uma maligna expressão de prazer iluminou os contornos apavorantes do rosto dele. Asten e Ahmose levantaram as armas e atacaram, mas ele os jogou de lado como se fossem moscas. Eles estavam para além de exaustos. Quando os ceifadores tentaram intervir, o Minotauro desenrolou o qilinbian e estalou o chicote.
Uma descarga elétrica disparou pelo ar e um a um os ceifadores caíram no chão, inconscientes.
As armas de Ahmose e Asten pareciam ter ficado pesadas em seus braços enquanto eles lutavam contra o demônio renovado e muito poderoso. Fechei os olhos e me concentrei, tentando invocar seu nome. Pedaços e partes das coisas das quais ele era feito se encaixaram, mas nenhum nome em que eu conseguia pensar era exato.
Era como se ela o tivesse criado como Frankenstein, costurando várias partes de outros demônios até moldar o serviçal perfeito. Cada parte retinha um pouco do que ele havia sido, mas nenhuma abarcava o que ele era agora. Então saquei as facas-lanças, desistindo de dizer seu nome como havia feito com os outros.
Eu havia recuado minha lança, pronta para atirá-la, quando vi Asten e Ahmose baixarem as armas e andarem em transe até a Devoradora.
— Pronto — disse ela ao serviçal. — Agora pegue-a.
O Minotauro se aproximou, mas eu o ignorei e chamei os dois. Eles não reagiram. A criatura pálida preencheu meu campo de visão no exato momento em que ouvi a rainha maligna dizer:
— Olá, bonitão. Que tal um beijo?
Abaixei-me e o chicote estalou acima de mim. Captei um vislumbre de Asten baixando a cabeça e uma parte de mim se agitou bruscamente enquanto eu lutava para manter a serenidade que antes havia sido tão fácil. Desesperada, agarrei-me ao poder recém-encontrado, mas nesse momento os lábios dele tocaram os da rainha e um rosnado me escapou.
— Asten! — gritei.
Girando, entrei em modo reflexo e chutei o joelho do meu oponente. Isso nem o fez cambalear. No segundo seguinte, ele arrancou as facas das minhas mãos. O chicote estalou de novo e fez contato. Apesar de bater nas costas protegidas com a armadura verde, a dor foi diferente de tudo que eu já havia sentido. Foi crua e áspera, e o ar saiu do meu corpo. Eu não sabia como o pobre Amon conseguira suportar aquilo. Minhas garras emergiram e cravei-as fundo em seu peito, mas isso não o deteve. Ele já deve ter tido uma primeira morte, pensei. Preciso encontrar seu coração.
Cravei as garras nele repetidamente, mas era o mesmo que enfiar alfinetes numa almofada, a julgar pela atenção que ele dava aos ferimentos que eu lhe infligia.
Depressa!, gritou uma voz na minha mente.
— Não estou encontrando! — gritei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Onde fica o coração dele?
Ouvi o corpo de Asten cair e outro pedaço do meu coração se partiu.
— Esplêndido — disse ela. — Esse era um tanto apimentado. — A mulher maligna curvou o dedo, chamando Ahmose, que seguiu na direção dela como um robô. — Deixei espaço para a sobremesa — declarou com voz gutural. — Aposto que você é doce. Vamos provar.
— Acho bom você deixar em paz esse rapazola bonitão! — gritei.
O outro elo na minha mente saiu da harmonia perfeita. Abaixei-me enquanto um braço grosso girava, errando por pouco minha têmpora. Andem, garotas! Pensem! Nós podemos conseguir!
Minha mente girava com as possibilidades do nome do meu oponente enquanto tentava usar o poder que ia se esvaindo. O tempo estava acabando. Tínhamos perdido Asten e Amon e iríamos perder Ahmose também. Era inútil. Então, de repente, consegui.
— Bate-Testa — sussurrei. — O nome dele é Bate-Testa. Onde fica o seu coração, Bate-Testa? — perguntei. Ele apontou para a própria testa, o último lugar onde eu imaginaria que o coração estivesse. Mirando a testa grossa da criatura, eu já ia cravar as garras nela quando a Devoradora percebeu que seu lacaio estava em risco.
— Pare! — gritou ela, e eu me imobilizei com as garras a centímetros da testa dele. Parecia que uma mão gelada havia segurado meu coração.
A Devoradora levantou a cabeça, fiapos de fumaça reluzente indo dos seus lábios até Ahmose e se dissipando enquanto ela se aproximava de mim.
— Como soube o nome dele? — perguntou, os olhos estreitados me encarando. — Eu nunca o registrei. — Como não respondi, ela franziu a testa. — Já estou farta de você. Agora tenho energia suficiente para libertar meu senhor, mas, antes disso, terei a satisfação de matá-la.
A Devoradora abriu a boca e chegou mais perto. Sua luz verde banhou meu rosto numa névoa gelada, mas, quando tocou minha pele, houve uma explosão. A conexão da rainha se rompeu, seu corpo foi lançado para longe de mim. Pude sentir o controle que ela possuía sobre meus membros se esvaindo enquanto ela caía, embolada, aos pés do seu Minotauro.
— O que isso significa? — perguntou, levantando-se furiosa.
Não respondi, e dessa vez, quando ela se aproximou, foi com hesitação. Apertou as pontas dos dedos gelados contra minha garganta e as deslizou para baixo até pousar sobre meu coração. A surpresa se registrou em seu rosto e então sua expressão se transformou rapidamente em horror.
— Três? — sussurrou. — Três corações? Como é possível? Não senti isso antes no sonho.
Afastou-se de mim e tropeçou, esparramando-se no chão, o corpo tremendo.
— O Triângulo Impossível — gritou. — A profecia é verdadeira. Você veio me matar.
— Ah, dããã — repliquei. — Venho dizendo isso o tempo todo.
— Não! Não! Não! — A rainha se levantou. Torcendo as mãos, ela andava de um lado para outro. — O que vou fazer?
Seu cabelo flutuava, os fios se levantando em defesa, enquanto algumas mechas parecidas com serpentes se enrolavam em seus ombros como se quisessem oferecer conforto.
— Mestre! — gritou ela, olhando para o céu. — Mestre, o que eu faço?
Não ouvi resposta e me perguntei se finalmente ela havia enlouquecido. Tentei um novo nome.
— Demônio da Punição — falei, saboreando-o, mas sabendo que ainda não era totalmente correto. Por que minha nova habilidade me escapava justo quando era mais necessária? — Abra mão de seu poder.
Ela gritou e gadanhou os cabelos, deslocando as pequenas criaturas que se agarravam nele.
Concentrando-me, tentei de novo, a mente girando enquanto me esforçava:
— Morte Grande e Definitiva, entregue-me sua vida. — Ainda não era isso. Ainda assim, o efeito que os nomes provocavam nela era tremendo. Eu estava chegando perto. Seu cabelo caía em tufos, fios grossos se retorcendo como se cada um estivesse sofrendo uma pequena morte. Seu nome verdadeiro estava na ponta da minha língua. Eu podia sentir seu gosto. Se me esforçasse um pouquinho mais... — Fel de Áspide! — gritei. Ainda não era o nome verdadeiro, mas eu estava perto. Muito perto.
— Bate-Testa! — gritou ela. — Preciso de você!
Arrancado de sua imobilidade, ele se ajoelhou aos pés da rainha. A Devoradora estendeu uma das mãos, trêmulas, e acariciou o braço musculoso.
— Meu primeiro e melhor escravo. Você faria qualquer coisa por mim, não faria? — perguntou.
— Sim, minha linda e amada Devoradora.
— Muito bem. — Ela sorriu. — Eu preciso do seu coração.
— Claro.
— Não, Bate-Testa, pare! — gritei, mas minhas palavras não surtiram efeito.
Ela o havia criado, portanto tinha controle definitivo sobre ele. De repente percebi que ela não queria simplesmente outro coração. Ao desfazer uma de suas criações, ela obteria um poder imenso.
Era isso que Seth havia tentado fazer com Asten, Ahmose e Amon. Tentei deter Bate-Testa de novo, mas ele só tinha ouvidos para sua senhora.
Numa espécie de câmera lenta horripilante, vi quando ele comprimiu os dedos grossos contra a própria testa, arrancando a pele e desferindo um golpe de chicote no crânio. O osso se quebrou facilmente e, antes que eu pudesse piscar, o coração branco e reluzente estava ali, na palma de sua mão. Ele o estendeu para ela como um presente inestimável e com um triunfante ar de júbilo no que restava de seu rosto.
— Obrigada, meu precioso — disse ela, envolvendo o órgão brilhante com as mãos. — Com o sopro das minhas narinas ele é consumido. — Avancei atabalhoadamente, numa tentativa desesperada de impedi-la, mas ela esmagou rapidamente o coração nas mãos. O órgão virou fumaça, que espiralou ao redor dela enquanto o Minotauro desaparecia numa nuvem de poeira.
O chão sob nossos pés começou a tremer. Caí ao lado dela, sentindo que tinha vencido a batalha mas perdido a guerra.
Tudo que eu amava tinha sido destruído. Asten e Amon estavam no chão e Ahmose encontrava-se imobilizado. A Devoradora virou a cabeça e sorriu.
— Até nos encontrarmos de novo, Wasret.
O mundo dos mortos estremeceu, os muros da arena desabando, e a mulher que havia tirado tudo de mim desapareceu.

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