25 de outubro de 2016

26. A coroa da Senhora do Pavor

A carranca da Devoradora não conseguiu diminuir sua beleza.
— Talvez a destruição da Floresta Turquesa tenha sido sutil demais. Ah, bom. Aprendi a lição. Da próxima vez serei mais direta.
Meus punhos se fecharam e, antes que pudesse me conter, gritei:
— Seu animal metido a besta e maligno! Você a matou! A floresta era a única coisa boa que restava neste buraco do inferno que você chama de lar.
Parte de mim reconheceu que não era eu quem estava falando, no entanto cada sílaba e cada movimento da língua pareciam naturais. As coisas que eu dizia eram minhas. As passageiras da minha mente eram apenas camadas invisíveis de minha psique. Tinham se integrado ao meu ser a ponto de seus pensamentos serem meus e os meus, delas. Nossa ligação fazia com que eu me sentisse mais bem-acabada. Mais... inteira.
Portanto fui eu, tanto quanto qualquer uma das outras, que levantou a faca-lança ameaçadoramente na direção da Devoradora, furando o ar enquanto minhas palavras continuavam a jorrar.
— Seu bafo cheio de vermes já soprou no nosso cangote por tempo demais. É hora de pagar pelo que fez! Quando a gente acabar com você, os lobos vão despedaçar seu corpo e se refestelar com os ossos até que não sobre nada nem pra maré levar!
Ela franziu os lábios.
— Ora, ora — disse. — Que humor! Seus modos são atrozes. — Um sorriso de fera iluminou seu rosto. — Mas, por falar em lobos... — A Devoradora balançou a mão dramaticamente e uma fumaça jorrou na arena, vinda de todos os lados. Nuvens escuras se partiram em massas pulsantes, com olhos amarelos reluzindo nas profundezas antes que a matilha assumisse forma física.
O líder, rosnando e com a boca espumando, ocupou seu lugar ao lado da Devoradora. Lambendo os beiços com olhar mortal, sua voz encheu minha mente. Deixe-me pegá-la, minha rainha. Anseio por sentir o gosto da morte dela.
— Ora, ora. Paciência, cachorrinho. Essa aí é poderosa e não quero que ela seja drenada. — O chacal ganiu e ela o acalmou coçando suas orelhas. Com o olhar fixo no meu, a Devoradora se abaixou lentamente e sussurrou para ele: — Por enquanto.
Ele soltou um rosnado baixo e ela gargalhou.
Olhei a arena ao redor. O número de criaturas era muito grande. Como é que uma garota – ou melhor, três garotas num corpo – poderia enfrentar tantos, com ou sem o poder da esfinge? Mesmo com Asten e Ahmose ajudando, estávamos em número tremendamente menor. A melhor hipótese seria eu distrair a Devoradora enquanto Asten e Ahmose desciam voando, pegavam Amon e fugiam.
Derrotá-la não era muito provável. Por que foi que não bolamos um plano?, pensei.
— Devo confessar — disse a Devoradora, interrompendo meus pensamentos — que não esperava que você ainda tivesse tanta capacidade de luta. Principalmente depois de uma estadia tão longa no mundo dos mortos. — Ela inclinou a cabeça. — Fico imaginando como durou tanto.
Não deixei de notar a solenidade que dava às palavras, o que fez correr um arrepio de nervosismo pela minha coluna, um arrepio que deixou uma coceira desconfortável na nuca. Até agora Asten e Ahmose tinham permanecido escondidos, o que era bom. Eu não queria que ela soubesse que eles estavam comigo – pelo menos por enquanto. Não seria bom mostrar os trunfos tão cedo. Em um jogo assim, qualquer coisa podia sair do controle.
— Não me entenda mal — continuou ela. — Estou bastante satisfeita com sua... vitalidade. Afinal de contas, quanto mais força você tiver, mais tempo poderá me alimentar. — A Devoradora inspirou profundamente e sorriu. As pupilas dos olhos reptilianos se alongaram, colorindo de preto os globos oculares, como se ela estivesse dominada pela sede de sangue. — Que aroma delicioso! Imagine! Um coração vivo. Faz eras que não como algo tão fresco. Saber que esse banquete está iminente me deixa de excelente humor.
Os chacais latiram, concordando, felizes, como se a dona estivesse se preparando para compartilhar os melhores petiscos de seu prato.
Girei as facas-lanças e ri com desprezo.
— Quer mesmo comer mais? Se quer saber, você está meio gorducha. Talvez seja bom diminuir a ingestão de calorias, se é que me entende.
Seus olhos se estreitaram e plumas minúsculas brotaram em leque em volta deles, logo se transformando em perigosos espetos afiados. O cabelo que descia por suas costas se ergueu em torno do corpo, formando um halo, como serpentes que eu, tolamente, houvesse despertado.
— Posso garantir que seus jogos bobos não vão dar em nada. Você não pode pensar que tem chances de vencer.
Inclinando a cabeça ao avaliar a situação, olhei as mechas de cabelo que se moviam, tomando o cuidado de me manter longe do alcance delas.
— Ninguém lhe disse quanto colesterol existe num coração? Isso não pode fazer bem. — Inclinei-me para a frente com as sobrancelhas levantadas. — Cá entre nós, que somos mulheres, você não está na sua melhor forma. Está inchada feito um colchão largado na chuva.
Franzindo o nariz, acrescentei:
— Além disso, há um certo cheiro em você. Parece um pouco com mofo. Bolor. Seja lá o que for, faz os olhos lacrimejarem. — Estendi minha faca-lança, apontando-a da cabeça aos pés dela, em parte num insulto, em parte como ameaça. — Provavelmente, é o resultado de consumir uma quantidade grande demais de corações podres. Mas imagino que isso faça parte da sua função. Você sabe como dizem: lixo entra, lixo sai. Levando-se tudo em consideração, acho que minhas chances são boas.
A boca vermelha da Devoradora se escancarou e eu sorri feito o gato de Alice – até que ela se virou para Amon e passou a ponta do dedo, agora pintada de verde, por seu peito nu.
— Amon? — chamou docemente.
— Sim, minha rainha? — respondeu ele em voz monocórdia.
— Poderia dar uma lição sobre respeito a essa garota insignificante?
Amon piscou uma vez, duas, depois inspirou fundo e veio na minha direção, os braços levantados, pronto para destruir.
— Amon? — gritei. — Amon, pare! — Ele tentou me agarrar, os braços se agitando, mas girei, saindo facilmente do seu alcance, e me afastei. Ele caiu contra o caldeirão borbulhante, como um brinquedo quebrado, eu ouvi o chiado de carne queimando. Ele não gritou, apesar do ferimento, e quando se virou para mim havia um enorme vergão vermelho na lateral de seu corpo, cheio de bolhas horrendas. — O que você fez com ele? — gritei. Guardei as facas-lanças e levantei as mãos vazias, com medo de machucá-lo mais ainda.
— Na verdade é uma coisa simples — disse ela enquanto assistia, com uma expressão de júbilo, a Amon tentando me acuar. — A mente dele está partida, o que significa que é controlado facilmente. Veja bem, quando eu tomo a energia dele, substituo com a bile dos condenados, um flagelo que envenena o pouco que resta de Amon. Isso faz com que seja mais fácil digeri-lo — acrescentou; depois franziu a testa. — Tem sido terrivelmente difícil sugar o que resta da energia dele. O último recurso é fervê-lo, o que traz o risco de perder o que resta. Ah, tudo bem. Agora que você está aqui, isso já não tem muita importância.
O fato de ela não ter conseguido acabar com ele provavelmente se devia a Amon possuir o Olho de Hórus. Havia muito Amon me contara que o símbolo do Olho era um sinal de proteção. Possuir o objeto de verdade deve tê-lo mantido vivo. Olhei-a com todo o ódio que pude reunir. Isso deveria ter bastado para atear fogo à mulher, mas ela nem estava me olhando. A Devoradora mordia a unha do polegar e estudava Amon enquanto ele saltava de novo na minha direção como um bêbado.
— Talvez eu o mantenha aqui um pouco mais — disse ela. — A presença dele deve motivá-la a cooperar. E Amon está sob o meu comando, afinal de contas, com a mente perdida nas Cavernas dos Mortos, pelo menos até que eu o libere para a segunda morte. O que eu estava prestes a fazer quando você apareceu. Foi sorte sua eu ter decidido esperar. E pensar que você poderia ter chegado tarde demais para salvar seu amado. Agora mesmo posso ouvir seu coração batendo por ele. O som... me diverte. Que emoções profundas! Têm o sabor da sobremesa mais deliciosa.
Amon lançou-se sobre mim e eu saltei de lado, erguendo uma perna para fazê-lo tropeçar. Ele desabou no chão, os membros soltos, esparramado. Senti-me grata por ele não estar no auge de sua força. Caso contrário, seria um oponente temível e eu não teria outra saída senão me defender. Eu já sentia que a Devoradora ia se cansando daquilo. Os chacais estavam por perto, atentos, esticando o pescoço disfarçadamente para morder quando achavam que a Devoradora não estava prestando atenção.
Chutei um deles com força e o chacal trombou com os irmãos, derrubando vários outros. Eles tornaram a se levantar e rosnaram. Aproveitei então a oportunidade para voltar à área mais aberta, no centro. Embora fosse perto demais do caldeirão fervente, achei mais seguro do que ficar no meio da matilha.
Amon invocou suas armas da areia, mas a fraqueza as tornava instáveis. Ele me golpeou com uma espada que num momento reluziu, mas no seguinte, ao me acertar, virou areia. Desviei-me do golpe seguinte e o agarrei por trás, prendendo seus braços.
Parte de mim adorou estar em contato físico com ele de novo, mesmo naquelas circunstâncias horríveis. Seu cabelo roçou no meu rosto e o peso do seu corpo contra o meu me trouxe a sensação de estar em casa. Como eu ansiava ser abraçada por ele! Sentir seus beijos quentes nas pálpebras e no rosto. Ele cheirava a sangue, suor e dor, mas por baixo de tudo eu ainda podia captar um vestígio de seu perfume que me deixava louca – âmbar liquefeito com um toque de caxemira e uma leve sugestão de mirra aquecida ao sol.
A certeza absoluta de que eu estava apaixonada por ele me percorreu e sorri. Nós pertencíamos um ao outro, ainda que o Cosmo parecesse decidido a nos manter separados. Como esfinge, eu podia discernir a verdade das coisas, até sobre mim mesma, e soube, no fundo do coração, que meu amor por Amon era verdadeiro; não importava o que acontecesse, não importava que outros sentimentos eu abrigasse, eu o amava.
Enquanto Amon lutava para se soltar, tentei distrair a Devoradora, esperando que seu controle sobre Amon diminuísse.
— Está obcecada pelo amor? — gritei. — Acho que uma comedora de corações ficaria mesmo. Estou surpresa por você reconhecer isso. Por falar nisso, é um espanto você não ter um namorado, com seus beijos de veneno e coisa e tal. Será que o mundo dos mortos tem um serviço de encontros para pessoas como você? Talvez você devesse montar um site. Poderia chamar de meubafofede.com.
— O Minotauro me olhou com interesse e eu pisquei para ele, jogando uma isca para ver se poderia trazê-lo para o meu lado com o poder do escaravelho do coração.
O tilintar de risos encheu minha mente. Animada, olhei brevemente para o muro, na esperança de vislumbrar Asten ou Ahmose. Não os vi. Rezei para que isso significasse que ninguém mais tinha visto também. O que eles estão esperando?
Amon jogou a cabeça para trás, acertando meu nariz. Estrelas dançaram diante dos meus olhos.
Em seguida, ele agarrou meu braço e me puxou para a frente, jogando-me não contra o bando de chacais, mas contra a multidão de devotos da Devoradora. Garras riscaram minhas costas e meus braços, tentando roubar as armas.
Tive uma leve consciência dos filetes de sangue escorrendo pelo meu braço, pingando do cotovelo, mas meu nariz latejava e eu não conseguia enxergar direito. Um frenesi de guinchos e puxões veio em seguida e Amon se tornou o menor dos meus problemas. Fui apanhada num redemoinho de membros demoníacos. Corpos tombavam em cima de mim como se eu fosse uma bola lançada contra pinos de boliche.
Um rugido soou na arena. Saído de mim. Uma represa havia se rompido dentro do meu corpo, despejando toda a dor, a frustração e a tristeza que haviam se acumulado desde o início da jornada.
Como eu tinha guardado as facas-lanças no esforço de não machucar Amon, ataquei com as garras. Lutei como um animal acuado, golpeando e rasgando. A bile encheu minha boca e eu pisquei, percebendo que tinha mordido alguém, e o gosto desse alguém era horrível.
— Não a destruam! — ouvi a Devoradora gritar. — Tragam-na para mim. Agora!
As criaturas pararam de lutar, embora uma delas tenha me dado um último soco no queixo, os calombos duros nos nós dos dedos arranhando a minha pele. Meus braços foram contidos por nada menos do que seis capangas, que não viram nenhum problema em me chutar nos rins quando tentei me soltar. Eles me arrastaram até a rainha. Parada diante dela, usei a estela para curar os pequenos ferimentos. Amon, que tinha acompanhado os demônios que me seguravam, ficou por perto, os olhos fixos no nada.
— Garota idiota — disse a Devoradora, aproximando-se de mim. — Por mais forte que seja, deve saber que meu poder aqui é irrefutável. — Ela acenou com o braço na direção da multidão. — Olhe à sua volta. Você está sozinha. Uma criança fraca, patética, enfrentando todas as criaturas malignas do mundo dos mortos.
Ela me alcançou e percorreu com a ponta gelada do dedo uma linha da minha têmpora até o queixo. Seu hálito cheirava a morte, podridão e desespero. Ela era a ausência de todas as coisas luminosas, boas e fortes. Eu queria me encolher, mas algo dentro de mim exigiu que me mantivesse firme, sabendo que seria um erro desviar os olhos.
— Veja bem, nós somos as coisas que se movem ocultas na noite — sussurrou a Devoradora. Sua voz era frígida como o abismo mais negro do oceano mais fundo. A pele do meu pescoço se arrepiou. — Somos o formigamento que você sente subindo por sua coluna. Somos os medos secretos do seu coração. Sempre inquietantes, sempre perturbadores e sempre buscando sua morte.
Quando ela desceu o dedo até meu coração, eu o senti se agitar. Ela fez uma pausa, um sorriso de triunfo no rosto.
— Até você pode sentir — declarou. — Seu coração sabe do poder que tenho sobre ele.
O sorriso da Devoradora hesitou.
— Mas espere — disse, franzindo a testa ao refletir. — Quase esqueci. Há mais de um coração aqui, não é?
Congelei, em pânico por ela saber sobre Tia e Ashleigh, mas nesse momento ela mudou a posição do arnês de couro e encontrou o escaravelho do coração.
— Está fraco agora — observou. — Quase o deixei passar.
A Devoradora acariciou a carapaça preciosa do escaravelho. Se meus braços não estivessem presos, eu a teria empurrado para longe. Seu toque parecia uma profanação.
— Talvez esta seja a razão de eu nunca ter conseguido drená-lo completamente. Humm... Eu me pergunto se o encantamento do caldeirão poderia ter funcionado. Que desafio! — disse ela, animada, e então deu tapinhas no meu rosto, com ar de superioridade. — Estou ansiosa para dobrar você, querida.
Ela se virou e começou a sussurrar instruções para seu escravo Minotauro. Enquanto isso, relaxei o suficiente para que uma única lágrima escapasse do meu olho. Então é isso. Alguma coisa deve ter acontecido com Ahmose e Asten. Eu estava sentindo tanta pena de mim mesma que quase deixei de perceber a névoa escura e cintilante que pairava próximo ao grupo de demônios. Meus olhos se grudaram à forma. Ela envolveu completamente um demônio e, quando passou pelo lugar onde a fera havia estado, não existia mais nada. Nem mesmo seus irmãos demônios ali perto notaram que ele tinha sumido.
Por quanto tempo Ahmose e Asten estavam trabalhando em silêncio? Fazendo alguns cálculos rápidos, vi que agora havia um número significativamente menor de demônios. Não demoraria para que a Devoradora percebesse a diferença. Eu precisava ganhar mais tempo para eles. Infelizmente, não tive oportunidade de pensar em nada.
O fedor de deuses menores enche minhas narinas!, gritou o líder dos chacais. Não posso vê-los, mas eles estão aqui.
— O quê? — perguntou a rainha. — Quem está aqui?
Aqueles com quem ela viajou.
Num ataque de fúria, a Devoradora agarrou o focinho do chacal e inalou. Uma luz verde emanou da cara da criatura enquanto fiapos de fumaça cinza saíam de suas narinas. O chacal gemeu de dor, tentando inutilmente se soltar.
Ela respirou fundo, inalando a fumaça, e depois fechou a boca.
— Cachorro estúpido! — esbravejou e o jogou de lado. — Por que não pensou em me dizer isso?
A criatura, derrotada, se encolheu com o rabo entre as pernas e baixou a cabeça até o focinho tocar a terra. Não achamos que eles fossem importantes, disse. A senhora só mandou vigiar a garota.
— Seu vira-lata burro. Será que sou a única com um cérebro no mundo dos mortos? Eles são os Filhos do Egito! — gritou. — Vão! Encontrem-nos! Tragam-nos para mim!
A matilha começou a latir enfurecida e foi na direção do cheiro que assaltava suas narinas. Embora Asten e Ahmose estivessem escondidos na magia de Asten, logo a matilha encontrou a fonte. Os chacais latiam em triunfo, dançando em volta da névoa. Os que entravam eram rapidamente jogados longe, com os corpos machucados.
A fumaça se dissipou e dois deuses dourados emergiram. Asten, equipado com uma armadura de bronze espelhando o tom de seus olhos, que brilhavam no escuro, levantou o arco e começou a disparar as flechas com pontas de diamante contra a matilha, derrubando seis chacais em rápida sucessão.
Ahmose, cuja armadura era pálida como o luar prateado, ergueu o machado e a maça reluzentes e soltou a voz num grito de guerra. Diante dos dois, a matilha não conseguia se aproximar o suficiente para morder. A rainha observava a luta, incrédula com o fato de os dois irmãos conseguirem manter os chacais a distância durante tanto tempo. Então captei seu olhar examinador. Suas narinas se abriram e eu soube que ela estava sentindo o cheiro do coração dos dois. De seus corações muito imortais, muito poderosos.
Um sorriso se abriu em seus lábios vermelhos.
— Arranquem os braços e as pernas dela! — gritou para seus lacaios alto o bastante para fazer com que Asten e Ahmose hesitassem.
Os dois irmãos pararam e, como se fossem um só, alçaram voo. A Devoradora observou o progresso deles com o olhar fixo.
Uma flecha de Asten voou, direcionada à cabeça da rainha, mas ela se manteve firme, calma, plácida e mal percebeu quando seu capataz Minotauro pegou a haste com a mão, quebrando-a ao meio. Enquanto isso, os demônios que me seguravam começaram a puxar.
A força da esfinge foi o único motivo de eu não ter sido despedaçada naquele instante, mas lágrimas afloraram aos meus olhos. Sabia que não conseguiria resistir por muito tempo. Ela iria me partir em duas, depois sugaria a energia do meu coração e o tutano dos meus ossos e – que o céu egípcio me ajudasse – não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer para impedir.
Amon veio cambaleando em minha direção, as mãos outra vez estendidas, como se quisesse participar. Seu olhar não demonstrava nenhuma emoção. Nenhum sinal de perceber o que estava fazendo. Movia-se como um zumbi obcecado por um cérebro suculento. Levando a mão ao meu braço, passou-a por cima das mãos dos demônios que me seguravam.
Eles pararam, confusos.
A Devoradora gargalhou.
— Que adequado você ser feita em pedaços por seu amor! Que emoção terrivelmente deliciosa de engolir! Vou guardar esse petisco apetitoso para o final.
Amon se virou para ela como se pedisse permissão. Os demônios, ofegando pesadamente à minha volta, esperavam para ver o que ela queria.
Ela acenou para Amon, como se encorajasse seu garotinho a ir brincar numa caixa de areia.
— Vá — instigou. — Arranque o braço dela.
Amon me encarou de novo. Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu o olhava, desejando ser capaz de me despedir direito, de ver seu olhar amoroso só mais uma vez.
Alguma coisa mudou.
E meu desejo foi concedido.
Gotas de suor brotaram na testa dele, sinal de um esforço monumental, apesar de ele mal ter se movido nos últimos dez minutos. Ele levantou a cabeça e eu vi não só reconhecimento como também algo mais. Ele passou a língua pelos lábios, a voz fraca falhando enquanto tentava falar. Foi uma única palavra, mas nela encontrei esperança.
— Lily — disse ele.
Seus olhos azuis penetrantes fixaram-se nos meus, a mão deslizando pelo meu braço até o ombro, onde cobriu o escaravelho do coração. Se meus braços não estivessem presos, eu teria segurado seu rosto com as mãos e lhe dado um beijo. O calor ardia onde a palma de sua mão estava e, quando ele recuou, um sorriso cruzou seu rosto antes de ele desmoronar no chão.
— Amon! — gritei, mas imediatamente o calor do meu ombro se espalhou pelo peito e desceu pelo corpo. Sacudi os braços e os demônios que me seguravam voaram para longe, como água sacudida das costas de um tigre. Na minha mão surgiu um escudo verde reluzente e uma armadura envolveu meu corpo, cada segmento se encaixando com um estalo. O escaravelho do coração havia mudado de lugar e agora se encontrava na minha cintura. Um poder renovado percorria meus membros, e eu sabia que vinha de Amon. Ele tinha me dado o pouco que restava de sua energia.
Entrei em pânico, achando que ele estava morto, mas, assim que vi Asten disparando flechas e ouvi a pancada da maça de Ahmose ao atingir um demônio, soube que ele continuava conosco, ainda que por pouco. Nesse momento jurei usar o dom de Amon para salvá-lo. Não queria pensar no que havia lhe custado libertar-se do domínio da Devoradora. A rainha, obscurecida pela nuvem de sua capa viva, gritava para os lacaios nos pegarem.
Quando os demônios retornaram, chutei o caldeirão gigante, derrubando-o e derramando o conteúdo abominável no chão. As criaturas que pisavam na substância viscosa soltavam um grito insano, penetrante, que era interrompido quando o alcatrão preto se fechava sobre seus corpos, derretendo a carne e não deixando nada além de ossos deformados.
Invoquei o vento. Ele passou por cima da parede de ferro e criou um vendaval de tamanha ferocidade em torno dos demônios que eles cambalearam para trás, protegendo os olhos da terra e da poeira. Os poucos que conseguiam atravessar para me enfrentar eram estrangulados. Meu poder era tanto que eu conseguia incapacitar três de cada vez, mas matá-los desse modo ainda demorava demais. Enquanto minha atenção estava fixa em três, um chacal atacou. Esmaguei seu crânio com as mãos enluvadas como se sua cabeça fosse um melão. O vento mantinha todos os atacantes longe de onde eu estava. Somente a rainha, seus guarda-costas e Amon se encontravam dentro do círculo de calmaria.
Tudo o mais ao redor era caos.
Com a poça de piche mortal às costas e Asten e Ahmose voando em segurança acima do turbilhão e atacando outros demônios que lutavam, senti confiança para voltar toda a atenção para a rainha.
Amon estava caído aos meus pés, inconsciente mas respirando. Espiei a Devoradora com os olhos estreitados, vendo-a com clareza apesar das criaturas que a protegiam, e peguei as lanças, que, por meio da magia, tinham ficado presas ao arnês de couro. Parti para cima dela e ataquei, mirando seu pescoço, mas ela girou, desviando-se no último instante, quase tropeçando no vestido prateado.
Sua coroa reluzente caiu e rolou na minha direção. Estendendo o pé, pisei em sua borda, parando-a no meio do giro. Uma sede de sangue, um desejo de que sua cabeça fosse o objeto sob meu pé atravessou minha mente.
— Acho que agora isto me pertence — gabei-me, espetando a coroa com a faca antes de atirá-la de lado. Alonguei uma das facas-lanças, recuei o braço e mirei seu coração. — Chega do seu reinado. Faça uma boa viagem para onde quer que as rainhas más como você vão.

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