25 de outubro de 2016

25. A sombra de um homem

O sumiço da fada logo seria a menor das minhas preocupações. Minha visão estava girando, o som de ondas enchendo minha mente. O peso da nossa situação estava finalmente se assentando, e tudo que eu pude fazer foi soltar um grito capaz de coagular o sangue.
Braços me seguraram e ouvi uma voz que parecia um vento forte chamando meu nome.
— Lily? Lily! — gritava ela, mas eu não tinha como responder.
Minha mente se desconectou do corpo e senti que estava caindo, caindo, caindo. E depois veio o nada.



Fui vagamente tomando consciência das vozes. Uma fogueira crepitava ali perto envolta em sombras. Num jorro, o pânico me dominou. Tentei me afastar rapidamente das chamas, só parando quando bati em alguma coisa... ou melhor, em alguém, e esse alguém me abraçou e me amparou.
— Calma, leoazinha — disse o homem que me segurava.
— Onde estamos? O que aconteceu? — perguntei.
— Você desmaiou embaixo da árvore. Não sabemos por quê.
Ahmose se ajoelhou à minha frente. Desajeitada, sentei-me e abracei os joelhos. Estremeci, apesar do calor da fogueira, e fiquei me balançando para a frente e para trás, lágrimas enchendo os olhos. Um gemido baixo, quase indecifrável, zumbia no fundo da minha garganta.
— Lamento que tenhamos perdido a árvore-mãe — disse Ahmose baixinho. — Não pudemos fazer nada. Chegamos tarde demais. A Floresta Turquesa se foi.
O gemido tornou-se mais alto.
— E a... a fada? — perguntei. Tinha a sensação de que estava vertendo lágrimas por todas as partes  possíveis do rosto.
Balançando a cabeça com tristeza, Ahmose disse:
— Não conseguimos encontrar o corpo. Trouxemos você para cá e, vendo que era um lugar seguro, achamos que precisava de descanso.
— Quanto tempo? — perguntei entorpecida.
Ahmose franziu a testa.
— Quanto tempo o quê?
— Quanto tempo fiquei inconsciente?
— Quase doze horas — respondeu Asten, sério. — Você não sonhou — acrescentou rapidamente. — Eu estava... monitorando, mas você não apareceu na paisagem do sonho. Isso significa que ficou totalmente apagada.
Pisquei e inclinei a cabeça num gesto interrogativo.
— Mas vocês não estavam fracos demais para me carregar?
— Nós levitamos e nos revezamos — explicou. Asten estendeu a mão como se quisesse tocar meu ombro, mas se deteve antes do contato.
Virando-me, demasiadamente absorta em meu próprio desespero, examinei o ambiente. A paisagem parecia montanhosa e rochosa outra vez, como o Deserto Pintado, no Arizona. As únicas árvores visíveis eram atarracadas e cheias de olhos que piscavam, observando cada movimento nosso.
— Estamos no território da Devoradora — afirmei.
— É mesmo? — perguntou Ahmose, olhando ao redor. — Tivemos sorte, então. Sem você sentindo o coração de Amon, não havia como saber se estávamos na direção certa. Eu só procurei o caminho mais fácil para longe do fogo.
Levantei os olhos para aquela versão cinzenta e opaca do céu e desejei que houvesse estrelas. Parecia errado elas não estarem ali, mas rapidamente afastei a ideia. Não veríamos as estrelas de novo até salvarmos Amon. Mudei de posição, desconfortável na areia, e Ahmose me estendeu um espeto com carne assada. Enquanto mordiscava, comentei:
— Fico surpresa por você ter encontrado alguma coisa comestível aqui.
— Teria sido melhor caçar na floresta — disse Ahmose. — Só resta um pouquinho dos suprimentos que a árvore deu, e comemos a carne antes que estragasse. Guardamos o que pudemos para você, mas precisávamos da energia para carregá-la. Desculpe não haver mais.
Assenti e de repente um pesar avassalador tomou conta de mim outra vez. Lágrimas errantes escorreram novamente pelo meu rosto.
— No mundo dos mortos as árvores são tão raras quanto dentes de galinha — comentei, fungando. — O calor aqui é forte o suficiente para cozinhar uma ovelha pastando. Ela protegia a floresta da maior parte do calor. É culpa de vocês ela estar fraca demais para se defender — acusei. — Deveriam tê-lo deixado morrer — terminei, apontando o polegar para Asten.
Ahmose estreitou os olhos, mas Asten arquejou, chocado. Lancei um olhar furioso para ele, meu corpo se sacudindo, desafiador, enquanto eu esperava que ele me dissesse que estava errada, para que eu pudesse atacá-lo.
— Ela era mais importante do que qualquer coisa — falei rispidamente.
Asten me encarou, um vácuo frio preenchendo o espaço entre nós. Parte de mim sabia que eu tinha dito algo extremamente ofensivo, que o havia machucado mais do que ele merecia, mas minha boca parecia desconectada do cérebro e meu coração se partiu por causa disso. Eu teria esperado que Asten tentasse eliminar a distância entre nós e me oferecesse consolo, mas foi Ahmose quem estendeu a mão.
Colocando-a no meu ombro, ele disse:
— Ora, vamos, você não quer dizer isso. Não está no seu juízo perfeito. Sofreu uma perda enorme e nós não ajudamos muito. Lamento pela sua... sua amiga. Ela era nobre e digna, e não merecia uma morte tão infame. O sacrifício dela deve ser honrado.
Fungando, assenti. Ahmose criou um pedaço de pano para eu assoar o nariz. Minha cabeça estava pesada e o coração, dilacerado.
— Não importa que o dia seja longo, a noite sempre chega — murmurei.
— O que isso quer dizer? — perguntou Ahmose.
— Minha mãe costumava dizer isso quando coisas ruins aconteciam. Quer dizer que o sofrimento vai terminar. Podemos não saber quando, mas um novo dia vai acabar chegando.
Ele sorriu.
— Gosto disso.
— A árvore mágica morreu bem. Acho que eu não poderia esperar algo diferente da parte dela. Ela fez isso antes, de modo que eu não deveria ter ficado surpresa por ela fazer de novo.
— A fada contou isso a você? — perguntou Ahmose.
Balancei a cabeça ligeiramente como se quisesse clarear a névoa.
— A fada? Ah. Sim. O nome dela era Ashleigh — acrescentei, melancólica.
— Ashleigh. É um nome bonito — disse ele.
— Era. — Assenti. — Agora não sei direito como me chamar.
— Como se chamar? Como assim? — perguntou Ahmose.
— O quê? — Pisquei, confusa, e uma névoa pareceu se dissipar dentro de mim.
— Você disse que não sabia como se chamar.
— Eu disse? Que estranho. — Joguei o espeto no fogo e apertei a cabeça com a palma das mãos, tentando aliviar a dor que sentia chegar. Ahmose me ofereceu um gole do odre que estava carregando. — Obrigada — falei depois de quase esvaziar o odre. Então fiquei imóvel. — Diga que tem mais.
— Só temos o que Ahmose pôde pegar antes do incêndio. Dois odres estouraram em meio às chamas — respondeu Asten. E apontou para o chão, indicando que restavam três. — Ahmose pode invocar mais um pouco, mas não vai durar muito.
— Então não temos muito tempo. A floresta e os poços são as únicas fontes de água potável no mundo dos mortos — falei.
— Como sabe disso? — perguntou Asten.
— Não tenho certeza. Simplesmente sei. Vocês dois dormiram?
— Não precisamos dormir muito — respondeu Ahmose. — Se você estiver pronta, podemos ir em frente.
— Ótimo — assenti, levantando-me com as pernas trêmulas, a determinação empurrando o sofrimento para o fundo da mente. — É hora de encontrar Amon.



Tínhamos caminhado somente por algumas horas quando descobrimos que estávamos sendo seguidos. Ao chegar ao cume de uma montanha serrilhada, paramos para olhar o amplo vale abaixo e vi um bando escuro de alguma coisa no horizonte.
— O que é aquilo? — perguntei. — Algum tipo de búfalo do mundo dos mortos?
Embora eu tenha feito a pergunta, parte de mim suspeitava – não, sabia – que era apenas uma ilusão minha. Ainda assim, esperava estar errada.
— Não, não são búfalos — disse Asten, finalmente quebrando o silêncio pétreo que havia mantido desde que deixáramos o acampamento. Olhou ao longe, observando por um tempo os animais que se aproximavam. — É o que estou pensando? — perguntou ao irmão.
— Temo que sim — respondeu Ahmose.
— O que vocês acham que é, então? — perguntei, não querendo de fato que eles confirmassem o que minha mente gritava ser verdade.
— É a matilha.
Não! Não podemos deixar que eles nos alcancem! Senti o pânico de Tia e tentei acalmá-la, mas ela não quis ouvir.
— Tem certeza? — perguntei baixinho.
Ahmose confirmou com a cabeça.
— Eles devem ter se libertado de algum modo.
— E agora estão vindo atrás de nós.
Nós três ficamos olhando a matilha de chacais diabólicos que, pelo que avaliei, devia estar a alguns quilômetros de distância, mas se aproximava rapidamente. Se estivéssemos a favor do vento, eu já teria sentido o cheiro.
— A montanha vai fazer com que andem mais devagar — disse Asten.
Ahmose esfregou o queixo.
— É. Mas vão acabar nos alcançando.
— Podemos lutar contra eles? — perguntei.
Asten sacudiu a cabeça.
— Não. São muitos. Poderíamos lutar contra uma matilha com metade do tamanho dessa, mas contra todos os cães infernais do mundo dos mortos? Não é possível. — Olhou para o irmão. — Acho que devemos correr. Na pior das hipóteses, podemos voar.
Ahmose considerou a sugestão e assentiu.
— Concordo. É hora de ir, Lily. Vamos testar sua velocidade. Veja se pode ser mais rápida do que nós.
Eu estava ansiosa, apavorada e hesitante, tudo ao mesmo tempo, mas pensar em Amon me fez avançar. Perceber que ele e seu sofrimento nem sempre estiveram em primeiro plano na minha mente me atormentava com culpa. Quando a descida da montanha se tornou traiçoeira, Asten me pegou no colo e nós três descemos flutuando. Abracei seu pescoço com força.
Voar agora parecia mais natural do que nas outras ocasiões. Era quase... instintivo. Eu não era afetada pela tontura ou a vertigem. Só quando pousamos percebi que estivera brincando distraída com o cabelo de Asten. Todas as minhas preocupações haviam diminuído significativamente só por estar perto dele. Ele não tinha dito nada sobre minha mudança de humor e eu fiquei vermelha, envergonhada com as minhas atitudes. O que estava acontecendo comigo?
Eu diria que está agindo como uma garota inconsequente, sussurrou uma voz na minha mente.
Acho que é isso mesmo, pensei. Mas, para ser justa, eu não estava agindo assim de propósito.
Parte de você estava, argumentou a voz. Parte de você queria.
Tia?, perguntei.
O quê?, ouvi sua voz carrancuda, monótona, responder.
Tia, você sabe como eu me sinto.
É a mesma coisa de antes, disse ela finalmente, depois de um silêncio tenso. Se você não estivesse aberta à ideia, esses sentimentos não estariam aí.
Suspirei. Como eu ia consertar essa confusão? De qualquer forma, racionalizei enquanto corria, a coisa mais importante não é minha vida amorosa; é salvar Amon. Tudo o mais eu poderia resolver mais tarde.
Tem certeza de que quer lutar?, contrapôs minha voz interna. Uma boa fuga é melhor do que um mau combate, você sabe.
O que eu estava dizendo?
Será que parte de mim temia enfrentar a Devoradora? Nós poderíamos vencer. Eu acreditava nisso. Os deuses também deviam acreditar, caso contrário, por que teriam nos mandado para cá?
Quando comecei a correr, cambaleei. Minha pele ardia e o suor escorria pelo rosto. Alguma coisa estava errada. Eu me sentia como se estivesse correndo com as pernas amarradas, o passo preso e descoordenado. O poder e a graça da esfinge me escapavam. Dobrando-me, ofeguei e implorei a ajuda de Tia. Precisamos regular nossa temperatura ou vamos nos esgotar antes de chegar, falei.
Tentei de novo e, depois de alguns minutos, algo se encaixou, estalando uma, duas vezes, e encontrei o ritmo. Meu corpo esfriou e corri mais rápido que nunca. Minha velocidade espantou os dois irmãos, e eu poderia tê-los deixado para trás facilmente se não fosse necessário nos mantermos no caminho escolhido por Ahmose.
Corremos por umas duas horas até que Ahmose pediu para parar. Eles estavam exaustos e eu soube que era porque sentiam outra vez os efeitos da tortura de Amon. Nós três descansamos enquanto sentíamos a energia se esvair. Quando recobramos os sentidos, eu estava faminta e rapidamente devorei o pouco que restava da comida que a árvore tinha nos dado, depois de os irmãos insistirem que meu corpo vivo precisava mais do combustível. Ver Asten e Ahmose apenas bebendo água não me pareceu certo.
Ofereci-me para caçar para eles, mas os dois concluíram que a caçada tomaria tempo demais; eu sabia que tinham razão. Quando ergui o nariz para farejar o ar, o vento trouxe o fedor dos chacais.
Estremeci e a parte de mim que queria matar absolutamente todos eles e estraçalhá-los com as garras veio à superfície. Dei um riso de zombaria.
— Bichos sarnentos — sibilei. — Não merecem uma segunda morte calma e simples. Deveriam ser mortos repetidamente até que não restasse nada além de uma mancha no chão onde morreram. — Fazendo uma pausa, inclinei a cabeça à esquerda e murmurei: — O peixe morre pela boca.
— O quê? — perguntou Ahmose.
— Ah, nada — respondi. — Acabei. Vamos indo.



Corremos sem parar até eu ter certeza de que nem mesmo o poder da esfinge poderia me levar um passo além.
— Precisamos descansar — gritei. — Estou em frangalhos.
— Em frangalhos, é? — Ahmose deu uma risadinha, depois se dobrou com as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego. — Nunca ouvi alguém dizer isso antes — acrescentou.
Sorri.
— Você tem uma risada gostosa. Minha mãe sempre diz: “Uma boa risada e um bom sono são as duas melhores curas.”
— E o que eles curam? — perguntou ele.
— Ah, tudo. Todas as dores do mundo desaparecem se você puder encontrar um motivo para rir e, se não puder, as coisas costumam parecer diferentes pela manhã.
Ahmose já ia dizer alguma coisa quando uma mão segurou meu braço.
— O que você está dizendo, Lily? — perguntou Asten.
— O quê? — respondi irritada por ele me segurar daquele jeito. — Vou agradecer se você me soltar agora mesmo.
Ele respirou fundo e olhou rapidamente para Ahmose.
— Acho que precisamos conversar. A sós — acrescentou com ênfase.
Agora eu estava muito irritada.
— Não. Qualquer coisa que você tenha a dizer, pode falar na frente dele. Não tenho nada a esconder.
— Não tem nada a esconder? — reagiu Asten, passando a mão pelo cabelo. A covinha no seu queixo se aprofundou e os olhos cintilaram perigosamente. — Você está... — Ele trincou os dentes. — Você não é você mesma, Lily.
— Quer me difamar, é? E ainda por cima bem na frente desse belo cavalheiro? — indaguei, apontando por cima do ombro com o polegar na direção de Ahmose. — Lily — falei com desprezo, zombando do uso do nome. — Quem é você para julgar o que eu sou? — perguntei, enfiando o dedo no peito de Asten. — Lily é um fragmento do que somos. Eu sou muito mais do que Lily. Quando você me chama assim, diminui minhas outras partes. Não acho isso bom. Talvez, meu amigo... — balancei os dedos, correndo-os por seu peito, pela covinha do queixo e indo dar um tapinha no seu nariz — ... você deva considerar que muitas vezes é melhor ter boas maneiras do que boa aparência.
Asten levantou meu pulso como se eu fosse um peixe que ele estivesse mostrando na feira e olhou para Ahmose.
— Está vendo? — perguntou enquanto eu lutava para me soltar. — Ela está diferente. Mais ainda do que quando apareceu como esfinge.
— Me solte! — insisti, e Asten finalmente me soltou.
Esfreguei o pulso e olhei irritada para ele, enquanto o tempo todo uma parte de mim ansiava por sentir seus braços à minha volta.
Ahmose aproximou-se cautelosamente de mim, exalando ternura e compaixão pelos olhos cinza e reluzentes.
Funguei e esfreguei a palma das mãos nos olhos. Eles coçavam. Meu cérebro também. Apertei a estela, mas não senti nenhum jorro de energia.
Delicadamente Ahmose segurou meus ombros.
— Você não quer mais ser chamada de Lily? — perguntou.
Sacudi a cabeça negativamente, mas fiquei confusa com a razão de ter respondido assim.
— Então de que deveríamos chamar você? Esfinge?
— Sim. Quero dizer, não. — Suspirei e apertei as têmporas para que a dor parasse. — Acho que por enquanto é o melhor a fazer.
Eu podia sentir o olhar de Ahmose em mim.
— Sua cabeça dói?
Encolhendo-me, assenti.
— A estela vai curar você?
— Nós tentamos — respondi. — Parece que não funciona.
— Podemos tentar ajudar, se você deixar. Eu faço curas, lembra?
— Sim — murmurei baixinho. — Lembro.
— Então feche os olhos e tente relaxar. Respire fundo.
Obediente, fiz o que ele pediu e respirei bem fundo. Ahmose tirou gentilmente minhas mãos da cabeça e começou a massagear minhas têmporas.
— Ah, isso é maravilhoso — declarei, sentindo a tensão do corpo se aliviar pela primeira vez no que parecia uma eternidade.
Um zumbido melodioso entrelaçado com um ronronar encheu minha mente.
Asten se aproximou e falou baixinho no meu ouvido:
— Você me reconhece?
— Reconheço — respondi, com a sensação de que outra pessoa estava se comunicando por mim. — Você é Asten. — Minhas bochechas se retesaram brevemente enquanto eu me sentia sorrir. — Um guerreiro bonito e corajoso. Que leva meu coração às estrelas.
Fez-se uma pausa.
— Ah, sim. Quando eu falar, você vai me responder com sinceridade. Não fazer isso lhe traria grande tristeza. Entende?
— Tem certeza de que isso é necessário? — ouvi Ahmose dizer.
Sua voz parecia distorcida, como se eu estivesse ouvindo embaixo d’água.
Não escutei a resposta de Asten.
— Diga — pediu Asten. — Quem é você?
Mexi o maxilar para a frente e para trás, a boca formando palavras que pareciam tiradas direto da minha mente. Numa voz de transe, quase irreconhecível para mim, respondi:
— Sou Lily. — Um trovão ecoou no fundo do meu peito e virei a cabeça para a direita, com os olhos ainda fechados, e escutei uma voz sedosa, mas poderosa, anunciar: — Sou Tia. — Senti Asten se preparando para fazer outra pergunta, mas eu ainda não tinha terminado. Inclinei a cabeça para a esquerda e uma terceira voz, com um hesitante sotaque irlandês, disse: — E sou... Ashleigh.
Assim que a terceira voz falou, algo se rompeu dentro do meu cérebro e, se Asten não houvesse me segurado, eu teria desabado com força no chão.



Quando acordei, deparei com Asten e Ahmose me olhando com preocupação, mas também havia algo mais nos olhos deles. Algo que achei que nunca tinha visto antes, nem mesmo quando os dois enfrentaram um gigantesco exército de zumbis. Era o medo puro.
— O que foi? — arquejei. — Os chacais nos encontraram?
— Não. Estamos em segurança por ora — respondeu Ahmose baixinho.
Olhei em volta e vi que estávamos no alto de um monte íngreme e estreito. A área onde nos sentávamos era plana e só tinha tamanho suficiente para nós três, desde que apenas um dormisse de cada vez. Logo atrás de mim o penhasco vertical despencava em linha reta até o chão, e parecia que o mesmo acontecia em torno de toda a formação rochosa. Na verdade, o único modo possível de termos chegado ao topo era voando. Formas escuras lá embaixo cercavam nosso minúsculo poleiro.
— Eles nos alcançaram — afirmei.
— É — respondeu Asten. — Mas no momento essa é a menor de nossas preocupações.
— A menor de suas preocupações? Eu diria que é uma preocupação bastante grande, especialmente porque é provável que a Devoradora saiba onde estamos. O que mais poderia estar preocupando vocês?
Asten abriu a boca, mas pareceu hesitante em falar. Então olhou para Ahmose, que franziu a testa antes de finalmente dar voz ao que tinha na mente.
— Como você está se sentindo, Lily? — perguntou, atento.
Cruzei os braços.
— Bem. Considerando tudo. Por quê?
— Onde você nasceu?
— Nova York.
— Qual é o primeiro nome do Dr. Hassan?
— Oscar.
— Por que estamos aqui?
— Para salvar Amon. — Levantei os braços. — Por que tantas perguntas?
— Só queríamos ter certeza de que você é você — disse Asten.
— Quem mais eu seria? — perguntei, irritada.
Ahmose suspirou.
— Fizemos um encantamento em você e... — ele pareceu desconfortável — ... descobrimos que você não está sozinha em sua mente.
— O que vocês estão falando? Vocês sabem que tenho a Tia também. Ainda que ela esteja extremamente quieta nos últimos tempos. Fazer com que ela fale está muito difícil.
— É exatamente isso, Lily. Ela tem estado quieta, mas agora há outra voz assumindo o controle.
— Outra?
Ahmose assentiu.
— Você ainda está aí, o que é um alívio, mas existem Tia e agora... Ashleigh.
— Espere aí. Você está dizendo que a fada também está na minha mente?
— O encantamento confirmou — respondeu Asten. — Não sabemos direito como isso aconteceu. Talvez tenha tido alguma coisa a ver com a árvore.
— Ou magia de fada — sugeriu Ahmose.
Um zumbido começou a preencher meu cérebro de novo.
— Não. Não. Não é possível. Como poderia ser? — Comecei a me balançar para a frente e para trás, os braços apertando os joelhos. — Estou ficando maluca, não é? Aconteceu com a outra esfinge. Ela enlouqueceu. Pediu para ser morta. O que vou fazer? — Estendi uma das mãos, agarrei o braço de Asten e segurei a mão de Ahmose com a outra, sacudindo ambos. — Vocês precisam me ajudar. Existe alguma coisa que possam fazer?
Ahmose balançou a cabeça com tristeza.
— Nunca vimos uma coisa assim. O que é... perturbador é que há ocasiões em que você não parece perceber que não está no controle.
— O quê? — ofeguei. — Tem certeza?
— Só há um modo de descobrir — disse Asten. — Você se lembra de ter... sonhado comigo?
— Sonhado? Do que você está falando especificamente?
— Havia uma estrela cadente, uma colina coberta de grama.
— Não. — Sacudi a cabeça. — O último sonho de que me lembro foi quando vi Amon sendo torturado.
Asten assentiu rapidamente.
— Então isso é a prova. Não era você.
— Não era eu? Você me viu mas não era eu?
— Era você no corpo, mas não na mente. O Dr. Hassan disse alguma coisa sobre a fusão das consciências ou sobre o desaparecimento de uma de vocês?
Pensei por um momento.
— Ele disse que, como eu não matei Tia, nossas mentes lutariam pelo controle do meu corpo. E Hórus mencionou alguma coisa sobre o poder da esfinge funcionar quando nós duas estivéssemos de acordo sobre o que fazer e que a única ocasião em que poderíamos ser totalmente nós mesmas seria quando a outra, ou acho que outras, agora, concordassem ou dormissem.
— Então foi Tia que sonhou comigo — disse Asten, pensativo.
Apertei o rosto com as mãos.
— Isso é muito confuso. — Respirando fundo, olhei o céu do mundo dos mortos e me perguntei o que seria de mim. Então percebi que isso não importava. O que importava era terminar o que tinha vindo fazer. Louca ou não, possuída ou não por uma leoa e uma fada, eu ia salvar Amon.
Levantei-me, limpei as mãos na legging e assumi o controle, silenciando todas as outras vozes na mente.
— Vamos colocar de molho esse meu negócio de personalidades múltiplas e decidir em outra hora o que fazer a respeito. Por enquanto temos coisa mais importante a fazer. Vamos torcer para que encontremos uma solução mais adiante. Se alguma das outras garotas sair para brincar, confio que vocês dois irão mantê-la apontando na direção certa.
Asten e Ahmose se entreolharam e assentiram.
— Ótimo. Vamos, então?
Asten me entregou minhas armas e notei que seus dedos se demoraram na minha mão por um momento a mais do que o necessário, mas ignorei o gesto. Quando ele se ofereceu para me carregar, fui propositalmente até Ahmose, tentando não prestar atenção no maxilar trincado de Asten e em como isso fazia a covinha em seu queixo se aprofundar. Estava louca para perguntar a Tia o que ela estivera fazendo enquanto controlava meu corpo, mas abafei esses pensamentos que cheiravam a traição. A verdade era que eu precisava dela e sabia disso.
Ahmose parecia disposto e feliz em ajudar, e aparentemente não notou como o irmão estava quieto. Pressionando o escaravelho do coração de Amon com a mão, senti as batidas contra a palma e girei-o lentamente até saber a direção que deveríamos tomar. Senti-lo me estabilizou.
— Para lá. — Apontei e, quando decolamos, ouvi os uivos dos chacais lá embaixo. Embora eu soubesse que eles nos seguiam, logo nos distanciamos da matilha.



Algumas horas depois avistei uma coisa que parecia muito familiar. Era a muralha de ferro que meu eu do sonho escalou quando vi pela primeira vez a Devoradora. Não tinha certeza se ela estava lá, mas sabia que Amon estava. Seu coração me chamava. Batia muito mais fraco do que antes, mas pelo menos eu sabia que ele estava vivo.
Pousamos numa laje onde podíamos nos agachar e olhar o teatro de pedra abaixo. Não havia sinal da mulher que eu tinha visto, mas eu sabia que isso não significava muita coisa. Examinei a área. Ainda que o poste onde Amon estivera acorrentado continuasse ali, ele não estava. As correntes de ferro que o haviam prendido pendiam frouxas, tilintando baixinho ao baterem umas nas outras agitadas pelo vento.
— Onde ele está? — sussurrei.
— Seu coração diz que ele está aqui? — perguntou Asten.
— Diz.
— Talvez seja um truque — sugeriu Ahmose.
— Acho que é possível — concordei. — Vamos tentar descer.
Já ia pegar as armas quando me detive.
— Ela vai sugar a gente direitinho, com tanta certeza quanto estou falando com vocês agorinha mesmo. Lutar contra tantos é que nem tentar esvaziar um lago com um dedal. Acho melhor a gente pôr sebo nas canelas. Se sairmos bem quietinhos, pode ser que ela nem note.
— O que você disse? — perguntou Asten, uma expressão de surpresa cruzando seu rosto.
Olhei para ele irritada, não gostando nem um pouco de seu ar desconfiado.
— Ashleigh? — Ahmose se virou para mim com paciência.
— O quê? — Sorri, gostando daqueles olhos cinza brilhando na minha direção. — Nós precisamos muito de Lily aqui agora.
Meu sorriso desapareceu.
— Eu não tenho direito de ir aonde quero?
— Tem. — Ele segurou minhas mãos com as suas, quentes, e algo em mim tremeu. — Mas neste momento precisamos travar uma batalha. Talvez você fique mais segura mantendo-se o mais escondida que puder. Mas empreste sua força a ela, se possível.
Examinei-o, procurando alguma falsidade, mas não encontrei.
— Certo, então. Vou me esconder. Mantenha a gente viva. Está entendendo?
— Estou. Vou fazer isso.
— Vou cobrar, hein?
Piscando, descobri que estava olhando muito profundamente nos olhos de Ahmose. Suas sobrancelhas estavam levantadas. Assenti rapidamente, com as bochechas ardendo por causa das coisas que estivera pensando – que ela estivera pensando, corrigi – e suspirei. Isso era confuso demais. Parte de mim sabia que os pensamentos não eram meus, no entanto eles pareciam tão reais quanto o toque da mão dele. Endireitando os ombros, fiz sinal para os irmãos.
Tínhamos acabado de nos levantar quando percebemos movimento lá embaixo. Rapidamente nos agachamos quando o som de pedras raspando ecoou nos nossos ouvidos. A areia se moveu no piso da arena e desapareceu por uma fenda que foi se alargando. De baixo da superfície de arenito subiu um tablado em cima do qual havia um grande caldeirão preto. Uma porta se abriu no recinto e criaturas de todo tipo entraram, enchendo o espaço em volta do caldeirão gigante.
Quando todos tomaram seus lugares, um tambor soou e, como se fossem uma só, as criaturas olharam para o céu. Milhares de seres alados preencheram o ar, guinchando ao serem convocados.
Encolhi-me sabendo que eram lacaios da Devoradora e esperando em vão que não nos notassem.
Enquanto eles voavam, o capataz Minotauro entrou.
— Ah! Olhem só para ele! — observei alto demais. — Vocês não vão querer montar naquilo numa batalha, vão? Puxa, ele tem uma cara que parece um buldogue mastigando um marimbondo!
Ahmose me deu uma cotovelada.
— Ashleigh, você precisa tentar falar baixo.
— Tudo bem — eu disse, balançando a cabeça. — Ainda estou aqui. Ela tem pensamentos muito altos, só isso. É difícil bloquear.
O Minotauro foi seguido por uma figura encapuzada em forma de homem. Senti o coração saltar pensando que poderia ser Amon, mas então vi que a pessoa não estava acorrentada. Andava por vontade própria. O homem que eu conhecia lutaria até o último suspiro. Não. Amon estava ali, em algum lugar, mas não era o homem de capuz.
As criaturas aladas parecidas com morcegos se agitavam loucamente, mergulhando cada vez mais até que uma forma se materializou no meio delas. As asas coriáceas se acalmaram de imediato, transformando-se em uma capa. O Minotauro sorriu – uma visão arrepiante, ligeiramente repulsiva.
— Salve a Devoradora! — gritou.
A saudação foi ecoada pela multidão de monstros arruaceiros de modo tão aterrorizante que eu soube que teria pesadelos com eles durante uns dez anos; presumindo, claro, que sobrevivesse para sonhar de novo.
A personificação de tudo que eu odiava deu um passo à frente. Levantou os braços para a multidão, de costas para nós, e gargalhou.
— Obrigada a todos por comparecerem a esta ocasião muito auspiciosa! — disse a Devoradora em sua voz linda e abominável. Em seguida girou, oscilando os quadris curvilíneos, e vi que dessa vez ela usava um vestido de prata reluzente, muito grudado no corpo. A capa viva que se arrastava atrás era eriçada com os chifres dos lacaios alados que se grudavam uns nos outros e os crânios de alguns animais pequenos adornavam cada ombro.
O cabelo comprido e escuro descia pelas costas em ondas lustrosas e até mesmo a distância notei que as pequenas contas prateadas que adornavam as mechas também eram vivas, apertando algumas partes com as garras e fixando uma coroa reluzente, cheia de joias, sobre sua cabeça. As pedras preciosas eram vermelhas como sangue. Que adequado!, pensei.
Estava mais linda do que na última vez em que eu a vira. As veias cinza-esverdeadas que afloraram no nosso último encontro tinham desaparecido. Agora ela era toda em tons de creme e rosa, a não ser pelos mesmos lábios vermelho-sangue. Era como se a Devoradora tivesse florescido enquanto se banqueteava com o poder de Amon. Tecnicamente, ela estivera sugando as energias de todos nós. A ideia de que a cor em suas faces tivesse vindo de mim me deixou nauseada. Estremeci, sabendo que era bem provável que isso tivesse acontecido. Ela prosperava compartilhando nosso poder.
— Ela não é nem um pouco como eu esperava — sussurrou Ahmose.
— Em todas as histórias que ouvi, ela era sempre citada como o mais feio dos imortais — acrescentou Asten.
— Vocês podem achar que ela é bonita agora — afirmei. — Mas esperem até que ela abra a boca como se estivesse para enfiar um peru de Natal inteiro goela abaixo. Isso revira o estômago da gente. — Ahmose e Asten olharam para a mulher como se estivessem apaixonados ou, no mínimo, fascinados. Dei-lhes uma cotovelada. — Preciso deixar vocês dois aqui? Vão ser capazes de lutar contra uma mulher bonita?
Ahmose teve a decência de parecer constrangido.
— Desculpe, Lily. Vamos lutar quando chegar a hora.
— Espero que sim. Já vai ser bem difícil derrotá-la mesmo com vocês dois me apoiando. Se ficar difícil demais, concentrem-se no Minotauro e no resto dos demônios que eu cuido dela. Entenderam?
— Sim, leoazinha — disse Asten com seu sorriso petulante.
Lancei-lhe um olhar desconfiado.
— Certo, então.
A Devoradora sinalizou para seu serviçal e o Minotauro subiu no tablado, seguido pelo homem de capuz. Com um movimento das mãos, a capa que ela usava se levantou, desnudando os ombros, e os seres alados desapareceram, guinchando numa nuvem de fumaça. A névoa preta criada por seus corpos desceu rapidamente, entrando no caldeirão e enchendo-o com um líquido escuro que borbulhava e estourava. Um fedor doce e doentio encheu o ar.
— Pronto — disse a Devoradora. — Agora é hora de colocar o ingrediente final. — Ela curvou o dedo e o homem de capuz se adiantou.
Com um estalo, o capuz caiu para trás e ali, no tablado, estava Amon.
Soltei um arquejo agudo.
Amon tinha o peito nu e manteve uma expressão passiva enquanto a Devoradora passava as mãos por seus ombros. Mais perturbador do que a falta de emoção era a condição de seu corpo. Ele estava pálido. Tão pálido que jurei que quase podia enxergar através dele. Estava bem parecido com os fantasmas presos no Pântano do Desespero, e senti o coração se partindo, achando que talvez fosse tarde demais para o salvarmos.
— Amon! — sussurrei em desespero, e senti o braço de Asten envolver minhas costas. Seu toque me acalmou e me estabilizou.
A voz da Devoradora se espalhou pela arena. Apesar de falar baixinho, cada palavra me rasgava como se ela estivesse gritando:
— Antes de assarmos seus ossos para que eu possa sugar até a última gota da energia que lhe resta — ela fez uma pausa e inclinou a cabeça, fazendo beicinho —, que tal um último beijo?
Amon não respondeu. Nem piscou. Simplesmente obedeceu. Aproximou-se dela e a Devoradora o abraçou, comprimindo sua forma curvilínea contra o corpo dele, antes musculoso mas agora emaciado. Ela puxou a cabeça dele para baixo, capturando seus lábios, e eu gritei, a energia sendo sugada diretamente de mim.
Quando ela terminou o beijo, fiapos de névoa branca e reluzente emoldurados por uma luz verde ligavam a boca de Amon à dela. Delicadamente, ela limpou os lábios com os dedos, capturando aquela coisa densa e engolindo a energia vital de Amon como se estivesse comendo uma tigela de macarrão com manteiga. Ela estremeceu.
— Absolutamente delicioso. Vou sentir muito sua falta.
Ela meneou a cabeça e o Minotauro ordenou que Amon entrasse no caldeirão fervente.
Ele só dera um passo quando me levantei. Asten e Ahmose não estavam se recuperando tão depressa, então sussurrei um rápido agradecimento às outras duas ocupantes da minha mente. Provavelmente era a presença delas que me ajudava na recuperação. Num instante uni a mente à delas. Todas concordamos que era hora de aumentar nosso potencial.
Algo primitivo e firme me deixou mais centrada. A confusão, a indecisão e a hesitação não existiam mais na minha mente. Eu era esfinge: decisiva, mortal e determinada. Peguei o arco e disparei uma flecha de Ísis para o céu. Restam dez. Quando Amon deu mais um passo, saltei em cima do muro de ferro correndo para ele e pulei. Dando uma cambalhota no ar, saquei as facas-lanças do arnês de ombro e aterrissei suavemente, como se estivesse desafiando a gravidade, entre Amon e o caldeirão borbulhante.
Pressionando o ombro contra Amon, eu o impedi de continuar.
— Não faça isso — implorei. — Por favor, pare. — Mas ele continuava me empurrando, tentando chegar ao caldeirão.
A Devoradora gargalhou, deliciada.
— Amon, querido. Volte aqui para perto de mim. Temos uma visita.
Imediatamente Amon se virou e se posicionou ao lado da Devoradora.
— Torcemos tanto para que você aparecesse — disse a Devoradora, como se ela e Amon fossem os anfitriões de uma reunião social.
— É mesmo? — respondi com azedume. — Acho que seu convite se perdeu no correio do mundo dos mortos. Desculpe invadir sua festa.

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