25 de outubro de 2016

24. Onde há fumaça

O sonho chegou suave e lentamente, como camadas de crepúsculo que se aprofundassem e escurecessem, como se sedosos lençóis de luz fossem retirados com uma carícia e um sussurro. Eu estava deitada de costas, as mãos na nuca. Uma brisa agitava as folhas de uma árvore próxima, mas a copa não bloqueava a visão do céu noturno.
Estrelas opalescentes reluziam acima de mim, tão perto que pareciam ansiar pelo meu toque. O capim amassado sob meu corpo tinha um cheiro doce e eu me remexi ligeiramente na reentrância que tinha feito, sentindo-me livre e animada. Fechei os olhos, desfrutando do ambiente e da paz que envolvia.
— Oi, leoazinha — disse uma voz atrás de mim.
Virei-me de bruços, me retorcendo para ver quem falava. Asten encontrava-se com as costas apoiadas no tronco de uma árvore antiga. Sua figura era longilínea e esguia e, estranhamente, ele parecia tão à vontade nessa paisagem quanto no mundo desperto.
Parecia não haver nele nenhum traço da febre ou do ferimento na coxa. Uma das pernas estava cruzada sobre a outra numa postura casual. Seus olhos castanhos brilhavam nas sombras da árvore enquanto ele me observava, sua atitude me lembrando um gato preguiçoso que tivesse acabado de fazer uma refeição satisfatória e procurasse alguma coisa com que brincar.
— Então é com este lugar que você sonha — disse ele. Seu olhar percorreu a paisagem, o céu estrelado e em seguida pousou de novo em mim. — Gosto da vista — murmurou baixinho, seus olhos percorrendo meu corpo, acendendo pequenas fogueiras onde quer que tocassem.
Uma tempestade cresceu dentro de mim, embora eu não entendesse completamente por quê. Passei a língua pelos lábios, imaginando seu toque, e a sensação tempestuosa revestiu a ponta da minha língua. Gostei do onírico sabor de mel.
— Por que você está aí tão longe? — perguntei. — A vista daqui é melhor.
Asten riu baixinho e o som daquele riso foi uma coisa elétrica que deixou meus membros trêmulos.
— É mesmo.
Ele se aproximou e eu me deitei de costas outra vez, espreguiçando-me com prazer, de um modo propositadamente lento, membro por membro. Quando tornei a me acomodar, mantive as mãos ao lado do corpo. Colocá-las debaixo da cabeça outra vez faria com que me sentisse vulnerável. A sombra de Asten caiu sobre mim e olhei seu rosto, agora com um halo de estrelas. Respirei fundo.
— Você é lindo — afirmei.
Asten se imobilizou por um momento e uma expressão de culpa passou rapidamente por seu rosto.
— Não diga isso, Lily. Você não está falando sério.
Franzi a testa por mais de um motivo.
— Mas estou. Nunca vi uma figura tão agradável aos olhos quanto a sua.
Ele me lançou um olhar curioso.
— Você deveria ter cuidado com o que diz numa paisagem de sonho.
— Por quê?
Sua boca curvou-se de satisfação.
— Às vezes eu esqueço de como você é jovem. — Quando estreitei os olhos, ele esclareceu: — O que quero dizer é que sua inocência é encantadora. Às vezes isso faz com que eu esqueça quem sou. Nem sempre isso é ruim, veja bem. Na verdade, gosto especialmente de seu jeito direto. Mas nesse caso ele pode causar... problemas.
Refleti sobre seus comentários e perguntei:
— Você não fala o que pensa, como eu?
— Não com tanta frequência quanto gostaria. Ouvir você... bom, faz com que eu me sinta... livre. — Ele disse a última parte com um olhar embaraçado.
— Você se sente numa armadilha, então? É o seu passado que o assombra?
Asten inclinou a cabeça e se ajoelhou ao meu lado. Segurei sua mão e o puxei para baixo. Quase com relutância ele se deitou perto de mim, a cabeça apoiada numa das mãos, para poder me olhar.
— Há um grande número de coisas que me assombram, pequena.
— É por isso que você não queria compartilhar meus sonhos? Ahmose disse que você tem medo de que eu saiba demais.
— Ahmose não deixa de ter razão, mas você já sabe a maior parte dos meus segredos, pois testemunhou meu julgamento.
— Você não merecia o banimento. Até Ahmose concorda comigo.
Asten suspirou, recostando-se no chão e pondo as mãos na nuca, como eu tinha feito antes.
— Ahmose tem o coração terno e perdoa depressa.
— Você não acha que é digno de perdão?
— Talvez, por algumas coisas.
Uma criatura noturna alada piou ao levantar voo e nós acompanhamos sua trajetória com os olhos até ela desaparecer.
— Quais dos seus atos antigos continuam incomodando você? — perguntei bruscamente.
Ele me lançou um olhar cauteloso.
— Não é o meu passado que me incomoda. Eu já me entendi com meus demônios. É o futuro.
— O futuro? Você sabe o que vai acontecer?
— Ser o Guardião dos Sonhos é uma responsabilidade muito grande, especialmente quando os sonhos têm a ver comigo.
— Você disse que tinha sonhado comigo. Me conte o que aconteceu no sonho.
— Eu... — começou ele, mas mudou de posição, desconfortável. — É melhor eu guardar essas coisas para mim.
— Acha que vou julgá-lo?
— Não. Acho que você pode me encorajar, e me encorajar é a última coisa de que preciso. Mal consigo me controlar do jeito que a coisa está.
Ficamos quietos por vários instantes, então me apoiei no cotovelo e disse:
— Você não precisa fazer o papel de príncipe, de semideus ou mesmo de irmão enquanto está comigo, se não quiser. Quando olho para você, só vejo um homem, um homem que me agrada na aparência e no temperamento. Um homem que admiro e ao lado de quem tenho orgulho de lutar. Não há segredo que você possa contar que altere minha percepção ou o que sinto por você.
Asten me olhou com uma expressão cheia de algo esperançoso e eufórico. Gentilmente estendeu a mão e prendeu uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, e ao fazê-lo a ponta dos seus dedos reluziu. Aquela parte do meu cabelo agora reluzia, os fios tornando-se brancos como as estrelas. Inclinei a cabeça de modo que sua mão acariciasse meu rosto.
— Posso sentir você aqui, sabia? — disse ele. — Quero dizer, sem que você use seu poder. No mundo dos sonhos, o toque acontece num plano diferente. Não importa que você esteja viva e eu não.
Fechei os olhos e disse:
— Quando você me toca, meu coração dispara mais rápido do que jamais experimentei. É como se eu estivesse correndo e ao mesmo tempo absolutamente imóvel. Fazer qualquer movimento agora seria uma tortura.
As pontas dos seus dedos percorreram meus lábios de um modo deliciosamente lento. A sensação era gloriosa, hipnótica, inebriante. Abri os olhos e me lembrei de como era sentir o calor do sol da tarde na pele. Asten era uma estrela ardente e o calor com que me olhava esquentou meu sangue a um ponto que eu queria me entregar àquilo, a ele, para sempre.
Mover os lábios contra sua mão era algo intoxicante, excitante, e logo ficou evidente que a paixão que me inflamava ecoava em Asten. Deixei escapar um som breve e involuntário e então ele recolheu a mão.
A ternura que eu tinha visto em seu rosto desapareceu, substituída por uma expressão de dúvida e preocupação.
Ele se sentou e abraçou os joelhos, aparentemente desejando esquecer a experiência passional que tínhamos acabado de compartilhar.
— Você viu Amon?
— Amon? — ecoei, a confusão tomando conta de mim. Sentei-me ao seu lado. — Não. Deveria ter visto?
— Não. Pelo menos não esta noite. Isso é bom. Significa que estou com você desde que seu sonho começou. — Um rubor subiu pelo seu pescoço.
— Você está com vergonha.
— Não. Não é isso.
Ele se levantou e se afastou alguns passos, olhando o céu noturno.
Eu o observei, sentindo redemoinhos de incerteza corroendo a experiência agradável que acabara de ter. Era óbvio que ele havia se arrependido de me tocar.
Eu ansiava por ficar perto dele, mas não suportava a ideia de que ele não me queria. Que não ansiava minha proximidade tanto quanto eu ansiava a dele.
— Sinto falta delas — disse Asten, interrompendo meus pensamentos.
— De quem?
— Das estrelas. Parece errado olhar para cima e não vê-las. Elas são o que mais me faz falta nas minhas longas temporadas.
— São? — perguntei, finalmente reunindo coragem para me aproximar.
Ele me lançou um olhar rápido.
— Sim. Se bem que agora terei outra coisa da qual sentir falta.
Apontei para o céu e disse:
— Ah, Asten. Olhe!
Uma estrela cadente riscou o céu. Fiquei encantada por vê-la e tive um pouco de inveja da velocidade e da liberdade que lhe permitia correr pela vastidão do espaço.
Depois que ela passou, virei-me e o encontrei me olhando com uma expressão de tristeza e desejo.
— Estou surpreso — disse Asten.
— Com o quê?
— Vendo que é com isso que você sonha. — Ele estendeu as mãos, girando o corpo. — É... é tão tranquilo — disse, virando-se de volta para mim.
— A maioria dos sonhos não é?
— Não.
— Com que a maioria das pessoas sonha, então?
— Nos sonhos as pessoas processam as coisas do cotidiano. As preocupações são analisadas e elas encontram soluções. Algumas sonham com coisas terríveis das quais não ousam falar e que não ousam fazer no mundo real. Mas, num sonho conectado como este, posso ver o que a pessoa mais deseja no mundo.
— E o que é que eu desejo? — perguntei, aproximando-me mais um pouco.
Asten me olhou com uma mistura de fascínio e medo. Sua reação fez com que eu me sentisse poderosa. Levantei-me e passei por ele no intuito de correr a mão pelo galho grosso de uma árvore ali perto. Arqueando as costas, espreguicei-me como um gato e depois me virei para ele, um braço ainda pousado no galho. Ele engoliu em seco. Então, com os olhos brilhando, percorreu a distância entre nós.
— Você quer desfrutar da luz das estrelas numa noite ainda suficientemente quente para aquecer sua pele — disse ele.
Em seguida, ergueu a mão, riscando um caminho entre meu cotovelo e o pulso. O toque furtivo era irresistível e eu estava desesperada para que continuasse.
— O que mais? — pressionei, com um sorriso misterioso.
Ele se apoiou no galho e olhou para o céu.
— Você observa as estrelas como se elas tivessem segredos para os quais você procura respostas. Por que elas a intrigam tanto?
— As estrelas estão... além.
— Como assim?
— Elas me chamam. Quando me uni a Tia e virei esfinge, uma parte de mim passou a pertencer à Terra, ao meu lar anterior, mas outra parte passou a pertencer também a outro lugar. Quero correr entre as estrelas e descobrir todos os mundos e todos os seres que existem lá. A ideia de me perder e deixar a vida antiga para trás me atrai.
— Sem dúvida há alguma coisa da sua vida antiga que você gostaria de manter — murmurou ele.
Meus olhos ficaram cheios de lágrimas.
— Não. — Balancei a cabeça com tristeza. — Não tem nada lá para mim.
— Nada? — perguntou ele, pondo a mão no meu rosto e enxugando as lágrimas com o polegar.
Pisquei e sua mão deslizou até o canto da minha boca. O toque agitou meu desespero, levando as emoções que eram chamas sonolentas a se transformarem em um fogo tão poderoso que me dominou. Seu olhar, antes cheio de simpatia, agora era alimentado por algo mais, algo que ardia.
— Há outra coisa que eu quero — declarei. — Sabe o que é?
— Sei — respondeu, o olhar percorrendo meu rosto e se fixando na minha boca.
Um som sutil escapou dos meus lábios – parte respiração, parte gemido. Antes, isso tinha feito com que ele recuasse um passo, mas dessa vez Asten chegou mais perto, tão perto que nossos corpos se tocaram. Eu havia pensado antes que ele era frio, mas essa não devia ser sua predisposição normal, porque agora ele estava quente. Ficar perto dele era como me aquecer sob a luz de mil, milhares de sóis.
A expectativa de alguma coisa que eu não conseguia descrever queimava, inflamando cada centímetro da minha pele. Eu tremia, ansiosa, sem saber como fazer com que a pulsação forte em minhas veias se estabilizasse. Devagar, quase hesitante, ele baixou a cabeça até que seus lábios fizeram contato com a pele delicada, onde minha pulsação estava disparada.
Eu me encolhi por um momento, mas ele não mordeu. Sua carícia foi gentil, suave, como o mais leve dos toques. Ele deliberadamente traçou uma linha de beijos suaves pelo meu maxilar até o canto da boca.
Eu me perdi naquela sensação, saboreando cada contato de seus lábios em minha pele, rendendo-me ao seu abraço.
Quando sua boca roçou minha orelha, ele parou e deslizou a mão até meus ombros. Entrei em pânico, achando que ele pararia de me tocar daquela maneira delicada e deliciosa.
— Asten? Não pare — implorei.
Ele afastou a cabeça, respirando fundo. Como se fosse incapaz de manter as mãos longe da minha pele, envolveu com elas meu pescoço e levantou os olhos para me encarar, a expressão assombrada.
— Me desculpe — disse.
— Por quê?
— Porque não consigo controlar meu desejo por você no mundo dos sonhos.
— Era disso que você estava com medo?
Ele assentiu, relutante.
— E você nos viu juntos assim no futuro?
Ele fez uma pausa, como se decidisse o que poderia me contar, mas então suspirou e disse baixinho:
— Vi.
— Então não entendo sua hesitação.
— Minha... — ele engoliu em seco e mordeu o lábio inferior, um gesto que achei magnético — ... minha hesitação vem de saber o que você sente por Amon.
— Amon? — pisquei, e uma irritação fria surgiu, acomodando-se no meu estômago e ameaçando esmagar o ardor crescente que eu sentia. O ressentimento levou embora cada uma das sensações felizes de instantes atrás.
— Eu não tenho direito à liberdade de amar quem eu quero? De explorar meus sentimentos? De seguir os desejos do meu coração? Da minha alma?
— Claro que você tem direito a essas coisas.
— Então você precisa entender que há um fervor correndo pelo meu corpo, um fervor que clama por você. Vou fazer tudo para salvar Amon. Vou lutar contra a Devoradora. Posso até morrer. Mas, antes de fazer todas essas coisas, quero entender esses sentimentos. Descobrir os pequenos prazeres que só comecei a aprender. — Acariciei seu rosto e achei a aspereza da barba crescendo uma distração reconfortante.
Ele deteve minha mão, cobrindo-a com a dele.
— Tem certeza de que quer mesmo isso, leoazinha?
Sorri.
— Isso é algo que quero muito, Tene. — Amor. A palavra parecia certa. Ele parecia certo. E, no entanto, um pensamento incômodo me atormentava. — Mas...
— Mas? — Asten franziu a testa.
— Há uma coisa que eu preciso saber. — Ele assentiu, me encorajando a falar, e apertou minha mão. Hesitante, perguntei: — O desejo que você diz sentir por mim é por causa do poder de atração do escaravelho?
— Você está perguntando se eu posso amá-la por você mesma?
Confirmei com a cabeça, o alívio e a gratidão tomando conta de mim. Ele me compreendia de uma maneira que ninguém mais compreendia. Ele conseguia ver dentro do meu coração.
Asten me examinou por um momento e então, lenta e intencionalmente, os olhos jamais se afastando dos meus, levou a palma da minha mão aos lábios. Seu beijo foi tão doce que todo o meu corpo zumbiu.
Então, abraçando minha cintura, me puxou para ele.
— O escaravelho não tem poder no mundo dos sonhos — murmurou, roçando o nariz na minha orelha. — O que sinto por você aqui é genuíno e vem do meu coração. Esta resposta satisfaz?
Assenti.
Ele beijou minha testa e continuou:
— Eu fui um homem que usurpou o lugar de outro. Que escondeu quem era e o que desejava. Se tudo que eu conseguir for amar você nos sonhos, vou aceitar e agradecer a sorte.
Eu já ia protestar, mas ele levantou a cabeça e encostou um dedo nos meus lábios.
— E se, quando você acordar, decidir que as coisas que dissemos e fizemos foram um erro, vou entender. Há muito tempo fiz a promessa de nunca mais tirar o que pertence a outro homem, especialmente meu irmão. Mas, no que diz respeito a você... — fez uma pausa, passando a ponta dos dedos pelo meu rosto, descendo pelo queixo e deixando um leve formigamento em seu rastro — ... acho que violar um juramento é uma perspectiva muito agradável.
Encostei-me nele, um gemido minúsculo escapando dos meus lábios, mas ele segurou meus ombros. Apertando-os de leve e deixando que o vento frio e insensível corresse entre nós, esperou que meus olhos se abrissem e fitassem os seus.
— Quero que você entenda — disse ele. — Se, depois que tudo isso terminar, você decidir que quer continuar com esse... esse sentimento entre nós, eu vou mover as estrelas nos céus para encontrar um modo de ficar com você. Isso eu prometo.
Sorri, provocando-o ligeiramente.
— Está pedindo para confiar em você, então? Alguém que confessou que viola juramentos?
Seu olhar me atravessou.
— Eu violaria cada juramento que já fiz ou irei fazer só pela chance de capturar ao menos um instante do que vi nos meus sonhos. Mas a hora ainda não chegou, pequena.
Asten fez uma pausa, observando minha expressão como se quisesse se certificar de que eu entendia o que ele estava dizendo. Infelizmente, entendi bem demais. Ele estava dizendo que deveríamos esperar. Deixar de lado os sentimentos ardorosos e fingir que éramos apenas cúmplices até derrotarmos a Devoradora. Eu não sabia se seria capaz.
Inclinei a cabeça de modo malicioso, o que não era nem um pouco do meu feitio.
— Se eu concordar, você me concederia um presentinho?
— O que você quer? — perguntou ele, inseguro.
— Quero experimentar um pequeno prazer, mesmo que só aconteça neste mundo dos sonhos.
— E o que é?
— A sensação das suas mãos no meu cabelo e seus lábios no canto da minha boca outra vez. Bem aqui. — Apontei o ponto que ele havia beijado com tanta ternura.
— Ah. — Ele sorriu e eu soube que tinha vencido.
— Você se importa de repetir? Só mais uma vez? — Se ele rejeitasse a sugestão, eu não sabia o que faria.
Sentia que todo o meu ser estava concentrado em obter esse toque especial, ser abraçada por esse homem.
Nesse momento nada no mundo era mais importante para mim.
— Humm. — Ele deve ter percebido meu desespero, porque, depois de guerrear brevemente consigo mesmo, cedeu e disse: — Talvez eu possa fazer algo melhor.
Uma expectativa ofegante me dominou quando seus lábios se aproximaram. Ele sorriu e parou, provocando-me com a distância, mas depois, justo quando eu estava pronta para gritar de frustração, segurou meu pescoço, passando o polegar lenta e carinhosamente por meu queixo antes de enfiar as mãos no meu cabelo.
Por que um dia pensei que os cabelos não tinham um propósito? Obviamente o propósito de ter os cabelos compridos e soltos era este: um homem correr as mãos entre eles e segurar nossa cabeça durante um beijo. Asten fez exatamente isso. Inclinou minha cabeça e por fim... por fim colou os lábios nos meus, de maneira lenta, deliberada, perfeita.
Suas mãos estavam no meu cabelo e depois segurando meu rosto, acariciando-me o pescoço enquanto os lábios se moviam sobre os meus, fazendo com que eu me derretesse num poço quente de sensações. O beijo foi inebriante, empolgante, e muito, muito melhor do que qualquer coisa que eu houvesse esperado.



Despertei aos poucos e verifiquei como Asten estava. Ele dormia em paz, com um meio sorriso no rosto. Eu já não me sentia mais inquieta. Havia alguma coisa tranquilizadora em estar perto dele, nossos membros entrelaçados. Minhas pálpebras baixaram, sonolentas, mas permaneci semiadormecida, semidesperta, motivo pelo qual pude reagir com tanta rapidez quando as primeiras plumas de fumaça escuras se ergueram no oeste.
Rapidamente me soltei de Asten e o sacudi. Ele gemeu, estendendo a mão e tentando me puxar de volta.
— Não! — sibilei, tateando no chão à procura do meu arnês de couro. — Acorde, Asten! Ahmose? — chamei.
— O que foi? — Ahmose pôs-se ao meu lado quase instantaneamente.
— Fumaça — respondi.
Ele tentou enxergar no crepúsculo sombrio.
— Será que é outra fogueira de acampamento? — perguntou.
Sacudi a cabeça.
— Grande demais. Quer ficar com Asten ou vir comigo olhar?
Ao ouvir seu nome, Asten enfim despertou o suficiente para abrir os olhos.
— O que está acontecendo? — perguntou.
— Fumaça no horizonte — respondi em tom casual. — Estamos decidindo quem vai ficar tomando conta de você.
Asten me lançou um olhar demorado que não consegui decifrar.
— Estou me sentindo bem. Acho que posso ir com vocês — disse finalmente.
— Tem certeza? — perguntei. — Você dormiu feito um morto.
De novo Asten fez uma pausa, a testa ligeiramente franzida. Ele tinha um ar de expectativa, como se estivesse esperando que eu dissesse outra coisa, mas então começou a desenrolar suas ataduras. A coxa estava curada.
— Você consegue ficar de pé? — perguntou Ahmose.
Com a ajuda do irmão, Asten deu alguns passos cautelosos e em seguida se curvou para se alongar, testando os músculos.
— Não entendo como isso aconteceu — disse, referindo-se à força que havia retornado.
— Não há tempo. Vamos explicar no caminho. Depressa! — acrescentei quando senti que eles estavam demorando muito. — A fumaça vem da área onde encontrei a árvore-mãe, e eu jurei protegê-la.
Asten me ajudou a colocar o arnês de couro, os dedos roçando a borda da minha blusa junto à nuca. Levei um susto e olhei-o perplexa enquanto ele murmurava:
— Não queremos que você viole um juramento, não é, leoazinha?
— Hã, não — respondi, sem expressão, achando que tinha ouvido mal ou deixado passar alguma coisa. — Vamos logo!
Eles vieram atrás, confiando que eu encontraria o caminho certo, o que pude fazer com facilidade. Mesmo com o cheiro da fumaça enchendo minhas narinas, eu sabia qual o caminho por onde tinha andado e reconhecia as árvores. A fumaça no alto se adensava, ficando mais negra a cada passo.
Quanto mais perto chegávamos da árvore-mãe, mais certeza eu tinha de que o fogo ia alcançá-la logo, se é que já não tinha alcançado. A tensão borbulhava dentro de mim, enchendo meu corpo, e pressionei mais os dois homens, correndo pelo mato baixo mais rápido do que eles podiam, mesmo como guardiões imortais do além. Acionei minhas garras e rasguei as trepadeiras e os galhos que surgiam no caminho.
Chegamos rapidamente à área do incêndio. Ahmose avançou e usou seu poder para encontrar o caminho mais seguro. Apesar de sua habilidade, de vez em quando as chamas nos alcançavam e nosso progresso se tornou mais lento, mas conseguimos avançar apesar do calor e da fumaça preta.
Quando ficou muito difícil enxergar, descobri que Ahmose possuía outro dom.
Segurando meu braço, ele me fez parar.
— Fique imóvel por um instante.
Levantando as mãos bem alto, ele entoou um encantamento e um vento suave levantou meu cabelo e a bainha da minha blusa. Logo um vento forte soprava à nossa volta e precisei proteger os olhos e me firmar contra uma árvore no meio daquele redemoinho. Em poucos instantes a fumaça se dissipou o suficiente para continuarmos, mas o vento que ele havia criado atiçou o fogo mais ainda.
A árvore-mãe ficava logo adiante. As árvores ao redor estavam enegrecidas como esqueletos calcinados estendendo os braços para o céu, pedindo ajuda divina. Em torno da árvore-mãe, uma fumaça branca e reluzente subia e, embora suas folhas se sacudissem e os galhos tremessem, ela ainda estava viva. A esperança floresceu.
— Depressa! — gritei. — Ela ainda está aí! — Cobrimos a distância e corremos até a árvore, pisoteando as chamas no capim junto às raízes. Virei-me para Asten. — Precisamos apagar o fogo! Você pode fazer cobertores para abafarmos as chamas?
Asten sacudiu a cabeça.
— Alguns cobertores não vão bastar. O fogo se espalhou demais.
— Preciso fazer alguma coisa! Eu prometi a ela! — O rugido do fogo suplantava minha voz, mas gritei o mais alto que pude: — Fada! Fada, você está aí?
Não houve resposta. Corri até Asten, agarrando sua camisa e sacudindo-o ligeiramente.
— Asten, precisamos fazer alguma coisa! Por favor!
Gentilmente ele pôs as mãos nos meus ombros.
— Ahmose? — disse Asten. — Se eu lhe emprestar minha força você acha que consegue?
— Posso tentar.
Asten explicou rapidamente:
— Ahmose é o Portador de Tempestades. Foi como ele pôde afastar a fumaça há pouco, mas invocar a chuva no mundo dos mortos é muito complicado. Não há muita água aqui. A tentativa vai nos deixar muito fracos.
Asten segurou a mão do irmão enquanto os braços dos dois subiam bem alto. Eles entoaram um encantamento e o vento se expandiu, chicoteando as chamas à nossa volta e levando-as a uma altura cada vez maior. Nuvens se formaram no alto, acumulando-se, até que o céu ficou cinza e mais escuro ainda do que o normal.
Gotas gordas caíram, a princípio uma de cada vez, depois mais e mais rápido até que uma torrente nos encharcou. Durou pouco tempo e não foi suficiente para apagar todas as chamas, mas pelo menos as fez diminuir. Quando a última gota caiu, os dois irmãos desabaram no chão, absolutamente exauridos e ofegantes.
— É só... — Asten engoliu em seco e respirou com dificuldade. — É só isso que conseguimos.
Assenti e retomei a busca. Tinha acabado de dar a volta na árvore quando senti alguma coisa.
Rapidamente saltei para o lado e uma arma pontuda bateu no tronco a centímetros de onde minha cabeça havia estado. Ofeguei ao ver a arma preta ser retirada violentamente do tronco, arrancando lascas de madeira. Virei-me para encarar o inimigo, saquei as facas-lanças e me vi cara a cara com um escorpião gigante.
Suas garras afiadas como navalhas fecharam-se rapidamente com um estalo, ameaçando me decapitar, enquanto a cauda enorme assomava no alto, preparando-se para dar o golpe. Quando as acertei com minha faca-lança, fagulhas voaram, mas não cheguei nem a amassar a carapaça, que parecia uma armadura. Dei a volta na árvore, com o escorpião me seguindo, acompanhando cada movimento meu.
A cauda atacou de novo e, antes que ela pudesse se recolher, aproveitei a oportunidade. Saltei no ar, aterrissando em suas costas, e mergulhei a faca-lança entre as placas em seu pescoço, apertando o botão no cabo da arma. Quando a faca se alongou virando uma lança, o escorpião demônio tremeu, soltando um guincho terrível antes de desabar no chão, morto.
Ouvi um grito. Asten apontou para cima. Mais dois escorpiões que tinham se camuflado nas enormes árvores enegrecidas que cercavam a árvore-mãe desceram, as pinças cortando o ar com sons afiados de tesoura.
Enquanto eu enfrentava um, o outro deu a volta e, por trás, atacou os dois irmãos. Asten conseguiu cortar uma das patas do monstro e Ahmose usou o machado para decepar o ferrão.
Então o exoesqueleto negro se iluminou por dentro, tornando a criatura vermelha como uma lagosta cozida. Ondas de calor emanaram do monstro e então a cor vermelha foi se aprofundando através dos segmentos da cauda danificada.
Quando chegou ao auge, o fogo disparou daquele apêndice. Como lava líquida, um gel viscoso e vermelho cobriu o local onde Asten tinha estado um segundo antes. O chão fumegou e a fumaça subiu, e qualquer coisa viva na área pegou fogo.
Parte do líquido acertou a árvore-mãe, já enfraquecida. Ela lutou corajosamente contra o ataque, até conseguindo absorver parte do líquido feroz, mas agora chamas lambiam a casca do tronco.
Quando matei o segundo escorpião e ajudei Ahmose e Asten a acabar com o terceiro, vi que era tarde demais. Chamas tragavam a maior parte da copa, as cinzas das folhas queimadas chovendo na minha cabeça. Lágrimas de exaustão e tristeza escorriam pelo meu rosto e, apesar do fogo no alto, envolvi o tronco com os braços e chorei.
— Sinto muito. Eu não estava aqui para proteger você. Sei que prometi.
Um galho minúsculo e meio chamuscado estendeu-se em minha direção e puxou minha blusa.
Enxuguei os olhos, manchas pretas de fuligem colorindo meus dedos.
— O que foi? — perguntei à árvore. — Há alguma coisa que eu possa fazer?
O tronco se abriu e o galho fino desapareceu lá dentro, saindo em seguida com a forma ferida da minúscula fada. Metade do corpinho estava queimada. O que restava de seu glorioso cabelo ruivo pendia em tufos em torno do rosto, e ela chiava, como se mal conseguisse respirar.
Peguei a fada, aninhando-a nas mãos, enquanto o galho se desenrolava da cintura dela.
— O que eu posso fazer? — supliquei à árvore. — Como posso salvá-la?
A árvore estremeceu e um grande galho no alto se partiu, soltando-se do tronco. Senti que não demoraria muito até que ela também morresse. Com folhas tremendo no galho que mal se mexia, a árvore o estendeu para mim e tocou minha testa com sua ponta.
Cuide dela — disse uma voz matronal. — Por favor, proteja minha preciosa Ashleigh.
— Vou proteger — prometi.
Independentemente de quanto a fadinha vivesse, eu tentaria lhe dar o máximo de conforto possível.
Nisso, a árvore-mãe estremeceu e, com um estalo portentoso, o tronco se partiu em dois, uma fumaça branca e reluzente se espalhando no ar antes de desaparecer. A árvore, que já fora mágica, a grande árvore-mãe e guardiã da Floresta Turquesa no mundo dos mortos, teve uma segunda e definitiva morte.
Meus ombros tremiam enquanto eu chorava. Asten passou o braço por eles, tentando oferecer apoio, mas eu estava inconsolável. Segurando com cuidado a fada gravemente ferida, consegui esfregar o rosto no ombro, enxugando as lágrimas que borravam minha visão.
Então olhei para minhas mãos e ofeguei, alarmada.
A fadinha havia sumido.

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